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Submisso a Trump, Javier Milei anuncia treinamento policial certificado pelo ICE

O governo de Javier Milei anunciou na última segunda-feira (19) um programa de treinamento de agentes infiltrados das forças federais argentinas avaliado e certificado por uma divisão do ICE, a polícia migratória dos Estados Unidos. 

A iniciativa amplia o alinhamento da extrema direita argentina a Washington e aproxima as forças de segurança do país de um órgão responsável pela execução da política racista de detenções e deportações de Donald Trump.

O anúncio foi feito pelo porta-voz da Casa Rosada, Adrián Ravier. Na mesma coletiva, ele atribuiu à “imigração descontrolada” parte dos problemas europeus e defendeu o endurecimento das fronteiras argentinas.

“Este programa de capacitação foi avaliado e certificado pela Homeland Security Investigations, a principal divisão de investigação criminal do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos, mais conhecido pela sigla ICE”, afirmou.

A formação envolve a Unidade Especial de Agentes Infiltrados do ministério da Segurança. Ao apresentar a iniciativa, Ravier citou as quatro forças federais: Polícia Federal Argentina, Gendarmaria Nacional, Prefeitura Naval e Polícia de Segurança Aeroportuária.

Segundo o porta-voz, o programa consiste em um “ciclo intensivo de formação e treinamento”, com simulações de situações de alta complexidade. 

Para conceder a certificação, a divisão do ICE avalia o desempenho dos agentes em “negociação tática, tiro defensivo, sobrevivência, explosivos, identificação de armamentos e materiais de organizações terroristas e medidas de contrainteligência, entre outras”.

A apresentação formal ocorreu na sexta-feira (16), quando equipes de operações especiais realizaram exercícios de interceptação de veículos com apoio aéreo da Polícia Federal argentina, entrada tática em imóvel e evacuação simulada. A unidade também elaborou um protocolo para retirar agentes infiltrados de situações de perigo.

Discurso contra imigrantes

O vínculo com o ICE foi anunciado em uma coletiva na qual o governo argentino também reproduziu o discurso da extrema direita internacional contra a imigração e o Islã.

Um jornalista questionou Ravier sobre publicações do assessor presidencial Santiago Caputo, reproduzidas por Milei, segundo as quais o Reino Unido estaria sendo “colonizado pelo Islã”. Na resposta, o porta-voz recorreu à afirmação do presidente de que o “Ocidente está em perigo”.

“Isso tem duas causas: uma é a imigração descontrolada, que tem suas consequências; e a outra, a perda de valores”, declarou. Ravier também atribuiu os problemas europeus ao crescimento do Estado e ao afastamento das chamadas “ideias da liberdade”.

O discurso busca transformar imigrantes e muçulmanos em culpados por problemas sociais e apresenta a presença deles como um risco à identidade dos países que os recebem. 

É uma das principais armas políticas da extrema direita na Europa e nos Estados Unidos para alimentar o racismo e justificar a retirada de direitos e a repressão. Ao reproduzi-lo, o governo Milei procura trazer essa agenda para a América Latina.

Na coletiva, Ravier defendeu uma política de segurança nacional que faça as fronteiras deixarem de ser uma “peneira”. A associação entre imigração, perda de valores ocidentais e insegurança é o sinal mais claro da aproximação cultural com Washington e sinaliza a disposição de Milei de incorporar a agenda de Trump.

Questionado novamente sobre o caráter racista da generalização contra o Islã, Ravier afirmou que sua preocupação seriam os “excessos” cometidos em nome da religião e voltou a mencionar supostas ações violentas em capitais europeias.

Uma polícia marcada por mortes e racismo

A instituição escolhida como referência pelo governo argentino acumula denúncias de violência, discriminação racial e assassinatos durante operações migratórias.

Em 12 de setembro de 2025, um agente do ICE matou o cozinheiro mexicano Silverio Villegas González, de 38 anos, em Franklin Park, na região de Chicago. Ele seguia para o trabalho depois de deixar os dois filhos na escola e na creche. 

O caso foi documentado pela Comissão de Responsabilização de Illinois, que reuniu imagens de câmeras de segurança, vídeos de testemunhas e registros policiais.

Em 7 de janeiro deste ano, Renée Good, de 37 anos, foi morta a tiros por um agente do ICE em Minneapolis. Ela acompanhava a atuação das forças migratórias em sua comunidade. A Anistia Internacional incluiu o caso em uma denúncia sobre operações militarizadas, detenções em massa e execuções extrajudiciais nos Estados Unidos.

Na mesma cidade, em 24 de janeiro, agentes da Patrulha de Fronteira, outro órgão do aparato migratório norte-americano, mataram o enfermeiro Alex Pretti. Os dois assassinatos provocaram protestos. 

Vídeos e outras evidências contrariaram as versões iniciais do governo Trump, que tentou apresentar as vítimas como agressoras.

Em relatório publicado em setembro, a Anistia Internacional descreveu o sistema de detenções e deportações de Trump como racista, alimentado por narrativas xenófobas e teorias de supremacia branca. 

A organização concluiu que a política viola a proibição internacional de discriminação racial e utiliza deliberadamente a crueldade para espalhar medo entre imigrantes, solicitantes de asilo e refugiados.

A cooperação policial integra mais um passo da aproximação do governo Milei com os Estados Unidos. Na abertura da mesma coletiva, Ravier anunciou a assinatura de um protocolo adicional ao acordo de comércio e investimentos entre os dois países, firmado em fevereiro.

O argentino é o principal líder da extrema direita latina que integra o Escudo das Américas, grupo de governos da região subserviente aos interesses imperialistas em todo o continente.

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