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Subversão eleitoral nos EUA e a audiência de Maduro e Cilia Flores

As eleições de 3 de novembro de 2026 nos Estados Unidos (EUA), estão seriamente ameaçadas pelo presidente Trump, que age de maneira sistemática, desde a sua primeira disputa à Presidência, em 8 de novembro de 2016 (quando perdeu no voto popular – 2,9 milhões de diferença –, e ganhou no Colégio Eleitoral, por 304 a 227 votos), tentando minar a credibilidade do processo eleitoral no país com acusações sem provas, e estimulando ataques durante a contagem dos votos.

Agiu assim na sua primeira disputa, durante o mandato, e novamente nas eleições de 2020, quando não aceitou a derrota a ponto de instigar seus apoiadores a invadir o Capitólio, dia 6 de janeiro de 2021, para tentar impedir a formalização da vitória de Joe Biden, seu adversário. Não satisfeito em desmoralizar o processo eleitoral do qual já se beneficiou duas vezes, Trump desmoralizou também a Justiça quando assumiu a presidência, ao perdoar mais de mil condenados pela invasão do Capitólio, ato que resultou em nove mortes e em mais de 100 feridos. E ele próprio segue impune.

Olhando de longe, realmente o processo eleitoral dos EUA é muito confuso, primitivo (ainda utiliza votos em cédulas), e profundamente antidemocrático – não é “uma pessoa, um voto”. Existem “super eleitores” e “Colégio Eleitoral”. Ainda que seja inacreditável, é verdade: o sistema eleitoral dos EUA utiliza cédulas de papel, ao invés de utilizar urnas eletrônicas como faz o Brasil há 30 anos.

O fiasco da contagem – e recontagem – dos votos em cédulas nos EUA é exposto no filme “Recount” (Recontagem), com Kevin Spacey e Laura Dern, que trata justamente desse aspecto na disputa presidencial em 2000, entre George W. Bush e Al Gore.

O site da Casa Branca (https://www.whitehouse.gov/election-integrity/), visitado em 21/07/2026, apresenta graves acusações a respeito do processo eleitoral no país, inclusive novidade fantástica, divulgada no “pronunciamento à Nação” de Trump, dia 16 de julho, de que a China teria interferido nas eleições dos Estados Unidos em 2020 – ele afirmou que o governo chinês roubou 220 milhões de registros de eleitores, “o maior vazamento de dados eleitorais da história”.

Impressionam em Trump a facilidade com que lança acusações, tão bombásticas quanto falsas, sobre assuntos sérios. No caso das eleições, por exemplo, suas alegações são sistematicamente desmentidas pela realidade da falta de provas. As tais “vulnerabilidades chocantes” nos sistemas de votação americanos, e as “centenas de arquivos de inteligência” que sustentavam suas alegações, não existem. Assim como ele não apresentou provas, em seu discurso dia 16, de que a China tenha alterado os sistemas de votação ou de alguma forma influenciado os resultados das eleições. Nessa questão, suas afirmações são opostas às do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA, o qual assegurou, em relatório de 2021, que a China não interferiu nas eleições de 2020.

Graças ao estilo Trump de atuação e falação, a situação eleitoral nos EUA, às vésperas das famosas eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro, é de uma confusão total e absoluta, em todo o país. Com “n” situações diferentes nos estados, que dificultam que o processo ocorra de maneira minimamente democrática, mais o baixo índice de aprovação do presidente – pesquisa Washington Post-Ipsos recém-divulgada revelou que apenas 37% dos eleitores aprovam Trump, e as maiores razões para isso são a guerra contra o Irã e o temor de aumento do custo de vida.

Fator decisivo para aumentar o desânimo da população dos EUA é o elevado endividamento – do governo e da sociedade. No caso dos egressos das universidades, há 43 milhões de endividados, que devem um total superior a US$1,86 trilhão. Mais da metade dos recém-formados estão endividados, começam a vida profissional devendo em média quase US$30 mil.

Justamente por tudo isso, não há nada de “delirante” nesse novo ataque de Trump ao sistema eleitoral e à China. Há método, e a certeza de que funciona, para uma parcela da população, esse tipo de acusação. Dispensa provas e até um mínimo de razoabilidade. Além do que são feitas pela autoridade máxima da nação. O famoso “argumento da autoridade” se sobrepõe fácil à “autoridade do argumento” – de pouco adianta nesses casos as instituições responsáveis pela integridade do sistema eleitoral emitirem notas reafirmando que ele está funcionando bem, porque os ataques são do presidente dos EUA, são frequentes, e as fábulas que conta são cada vez mais impressionantes.

É evidente que Trump só faz o que faz porque continua impune. Estabeleceu um sistema ditatorial de governo impensável para a história e o discurso político dos EUA até o governo Obama, e está abertamente pregando radical alteração do sistema eleitoral vigente, com aprovação do projeto de lei “Save America Act”, de maneira a beneficiá-lo, em primeiro lugar, e a beneficiar também os seus apoiadores no Congresso. Trump subverte tudo o que pode em seu favor, porque a sociedade estadunidense inacreditavelmente não tem – ou não usa – mecanismos eficazes para impedir suas ações ilegais e ilegítimas, inclusive a propagação de notícias falsas.

E Trump continua propagando notícias falsas porque até agora tem dado certo. Funcionou com ele no primeiro mandato presidencial, funcionou no Brasil com Bolsonaro, e agora novamente está funcionando. Talvez funcione para um universo menor, insuficiente para a vitória em novembro, mas ainda grande o bastante para criar a famosa dúvida razoável, que lhe permitiria contestar juridicamente os resultados. Registre-se que a mídia mundial admite que ele mente o tempo todo, que não se pode acreditar em nada do que diz, sempre com idas e vindas, como no caso das tarifas, dos acordos de cessar-fogo na guerra contra o Irã, e do controle do Estreito de Ormuz.

Aliás, a maior mentira que contou e segue em alta é a respeito da situação da Venezuela, cujo presidente, Nicolás Maduro, e sua esposa Cilia Flores, serão levados a uma audiência de revisão do processo hoje, dia 22 de julho, em Nova York, com o juiz Alvin Hellerstein, 92 anos de idade, que poderá seguir a lei e libertar o casal. Isso porque as acusações (narcoterrorismo, importação de cocaína e posse de armas) são tão delirantes quanto os ataques de Trump ao sistema eleitoral.

Milton Pomar é professor, geógrafo, mestre em Políticas Públicas, coordenador de Parcerias Institucionais do Instituto de Estudos da China da Universidade Federal de Santa Catarina (https://ichin.paginas.ufsc.br/estrutura-interna/), integrante do Conselho Científico da Equipe Ásia do Centro de Estudos da Universidade Federal de Pernambuco (https://sites.ufpe.br/cea/equipe-asia/) e especialista da Red China y América Latina – Redcaem (https://chinayamericalatina.com/network/).