SEJA COM A DIREITA ou com a esquerda no poder, uma coisa é certa para Alessandra Korap Munduruku, uma das principais lideranças indígenas do país: haverá embate com o governo.
Foi assim em janeiro, quando ela foi uma das líderes da ocupação de mais de 30 dias no terminal da Cargill, em Santarém, no oeste do Pará, em protesto contra o decreto do governo Lula (PT) que previa a ampliação da dragagem do rio Tapajós para permitir o trânsito de embarcações de grande porte no transporte de soja.
Foi assim também durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), quando “o movimento indígena peitou o governo federal” para denunciar o avanço do garimpo ilegal, das queimadas e da Covid-19 nos territórios tradicionais.
Alessandra descreve aquele período como um momento de “terror”. Além da invasão de garimpeiros e das mortes durante a pandemia, os Munduruku sofreram com ataques e ameaças. Nesse período, ela conta que sua casa foi invadida e a de Maria Leusa Kaba Munduruku, outra liderança no Tapajós, acabou incendiada.
“O governo Bolsonaro foi um genocídio total para a gente”, afirma. “A gente viveu o maior terror.”
Após o resultado do primeiro turno — e a eleição de uma maioria da extrema direita na Câmara e no Senado — Alessandra diz estar preocupada com o futuro dos direitos indígenas.
“Estou me preocupando com a Constituição, porque é ela que nos garante saúde, educação e um território. Se mexerem na Constituição, já era para nós, povos indígenas”, afirma. “Quem deveria nos proteger era a Constituição, o STF [Supremo Tribunal Federal], os ministros do STF. Mas até os ministros, infelizmente, a gente corre o risco de perder. Para onde vamos correr?”
A preocupação ocorre depois de disputar pela primeira vez um cargo público, após mais de dez anos de militância, confrontos com diferentes governos e negativas para entrar na política. Alessandra tentou uma vaga de deputada federal pelo PT e recebeu quase 30 mil votos. Não foi eleita, mas ficou como suplente. Teve a quarta maior votação do partido no Pará, que elegeu dois parlamentares.
Alessandra recebeu votos em 141 dos 144 municípios do estado, embora tenha visitado apenas dez cidades como candidata. “Me surpreendi”, diz.
Durante a campanha, conheceu eleitores que nem sempre entendiam a importância da política, mas sentiu que era hora de quebrar essa barreira. “Eu tinha essa missão de mostrar como é possível mudar a política. E começar a conscientizar as pessoas de que a política decide a nossa vida e os nossos direitos”, afirma.
“Quando a gente sai do território e vai para uma cidade, a população é muito carente na questão da política. Na política, só existe quem tem dinheiro, só existe quem desmata, quem viola os direitos. Eu senti que não era o lugar para mim, mas tinha que entrar para quebrar esse muro.”
“Seja indígena, quilombola, pescador, professor, negro, tem que entrar sem medo na política. As pessoas têm que parar de ter medo da política, porque a política acaba esmagando os nossos direitos. Não adianta eu estar na luta, luta, luta, se não tenho essa consciência de que é importante a gente começar a quebrar esse muro.”
Alessandra Munduruku
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Após embates com governo Lula, liderança escolheu candidatar-se pelo PT
Nas últimas duas décadas, Alessandra ganhou projeção nacional e internacional ao liderar manifestações contra o avanço da soja e de grandes obras no sul da Amazônia. Em sua avaliação, as lavouras vêm expulsando trabalhadores rurais e ameaçando territórios indígenas.
Também mobilizou protestos contra a Ferrogrão, a ferrovia planejada para o transporte de soja do norte do Mato Grosso ao sudoeste do Pará. Apoiada pelos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jair Bolsonaro (PL), Michel Temer (MDB) e Dilma Rousseff (PT), o projeto impulsiona a produção de grãos na Amazônia e alimenta as disputas por terra na região, segundo organizações críticas ao empreendimento.
Apesar dos conflitos com os governos do PT, Alessandra escolheu o partido, explica, para ser ouvida e participar de decisões políticas.
“Não me arrependo nem um pouco de ter entrado no PT, porque eles precisam nos ouvir. Só assim a gente vai quebrar a barreira. Eles têm que entender que o que importa para a gente é o rio, é a floresta, são os nossos direitos. Mas o outro lado nunca vai entender, porque o outro lado, a direita, quer pisar em cima da gente, acabar com nossos direitos, acabar com tudo.”
Agora, Alessandra vê um possível governo de Flávio Bolsonaro como um risco, por causa dos ataques aos povos indígenas e aos territórios durante o governo do pai dele. Naquele período, a taxa de desmatamento na Amazônia subiu mais de 50% após vários anos em queda.
“Me preocupa o cenário daqui para frente, porque lembro muito bem de 2019 e 2022, dos ataques que sofremos. Em 2019, entraram na minha casa. Em 2022, queimaram a casa da Maria Leusa. Teve os ataques contra os Yanomami. Então me preocupa o que vem daqui para frente, as pessoas que estão no Congresso, a mentalidade delas, as propostas que querem aprovar”, detalha.
Ela se aflige também com as pressões cada vez mais intensas para liberar atividades de mineração e garimpo dentro de terras indígenas — em sua visão, há risco de isso acontecer na próxima legislatura.
“O garimpo não traz só violência, só o estrago nos igarapés e nos rios, nem só o sofrimento da população com a falta de água e de alimentação. Também traz doenças, por conta do metilmercúrio no nosso corpo”, diz, em referência ao uso ilegal de mercúrio em garimpos de ouro.
Usado na extração do ouro, o mercúrio costuma ser descartado em rios e solos e transforma-se em metilmercúrio. A substância se acumula nos peixes e pode chegar às populações indígenas e ribeirinhas que os consomem. A exposição pode afetar o sistema nervoso, provocar dificuldades motoras e comprometer o desenvolvimento do cérebro especialmente durante a gestação.
Em abril de 2023, uma investigação da Repórter Brasil mostrou que a contaminação provocada pelo garimpo de ouro era a principal suspeita para casos de malformações e atrasos no desenvolvimento cognitivo entre crianças de aldeias Munduruku, na divisa entre Pará e Mato Grosso.
“As crianças nascem sem poder andar, têm que já estar usando uma cadeira de rodas. Isso dentro da Amazônia, onde não era para ter nenhum tipo de doença. A gente sabe que a cidade acaba trazendo muitas doenças. Mas agora, as doenças aqui dentro, por conta dos peixes, dos rios, dos animais, da própria floresta [contaminada], isso faz alertar como a saúde pública está muito fragilizada”, afirma.

Liderança defende construir planos políticos junto com os eleitores
A decisão de entrar na política ganhou força no ano passado, durante a ocupação da Seduc (Secretaria de Estado de Educação do Pará), em protesto contra uma lei que previa a substituição de aulas presenciais em áreas remotas para um modelo de ensino à distância. Após articulações com o governo Helder Barbalho e os deputados estaduais, a lei foi revogada.
A mobilização rendeu apoio dos professores à sua campanha. “A nossa campanha foi muito o trabalho das formiguinhas, principalmente dos professores envolvidos, professores militantes que acreditam nas causas. Acho que eles queriam ver uma política diferente”, afirma.
“Porque nós não tínhamos dinheiro. O partido passou dinheiro para a gente depois de muita briga, muita briga mesmo”, continua Alessandra. A candidatura recebeu R$ 1 milhão da direção nacional do PT, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), e diz que a maior parte foi gasta em comunicação.
“Em Itaituba, que é o município onde sou eleitora, eu ganhei 800 votos, mesmo sem eles falarem de mim. Os blogueiros de Itaituba não falam de Alessandra Munduruku. E olha que eu já tive muita briga lá, por causa de asfaltamento, de ônibus para os alunos”.
Sentiu também que era hora de se envolver na disputa eleitoral e partidária quando entendeu a influência do agronegócio no governo.
“Quando estive com o presidente Lula em julho, para falar da dragagem [do Tapajós], percebi que quem comanda é o agronegócio. Eles é que decidem. São pessoas que não querem que a gente chegue nem perto deles para nos ouvir”, afirma.
“A gente ficava cobrando a Funai e o MPI [Ministério dos Povos Indígenas], que, na realidade, não estão por trás disso. É o Ministério dos Portos e Aeroportos, é o Ministério do Desenvolvimento, são esses ministérios grandes. Quando a gente ocupou a Cargill, a gente mexeu na ferida deles. Quando decidimos que não íamos sair dali, foi aí que a Casa Civil começou a entrar em contato com a gente. Foi aí que a gente percebeu que o presidente não comanda o país sozinho”, continua.

Segundo a liderança, os políticos precisam ouvir mais as demandas de outros grupos e evitar promessas feitas sem conhecimento sobre a realidade local.
“Eu sei das causas indígenas, que precisam de verba para a saúde indígena. Eu sei da questão da Funai, que precisa de recursos para se fortalecer, assim como os órgãos ambientais. Mas, nas cidades, [entre] os quilombolas, os pescadores, o que eles também querem?”, questiona.
Para o segundo turno, sua preocupação é que os parentes tenham condições de se dirigir até os locais de votação. Aldeias mais distantes não devem receber apoio do poder público para grandes deslocamentos, tal como aconteceu no primeiro turno, quando havia mais cargos em disputa.
“Muita gente não foi votar no primeiro turno. E as que foram votar talvez não consigam no segundo turno”, diz. “Às vezes eu fico me perguntando se é falta de recurso. A zona eleitoral pode estar até no meio da floresta, mas as aldeias e comunidades precisam de recursos para chegar até lá. Ninguém vai passar três dias, dez dias andando no mato para votar em um presidente, em qualquer partido ou em qualquer político”, finaliza.
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