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Tempo e memória em Chico Buarque

Foto: João Wainer

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Tempo e memória são temas recorrentes na obra de Chico Buarque. Brincando com as linhas temporais e as reminiscências de seus personagens, Chico faz se confundirem e se entrecruzarem as linhas do tempo em diversas ocasiões de seus livros.

A forma jocosa e erótica de suas narrativas carrega uma distinção estilística de difícil qualificação, o que pode ser visto largamente em textos como Benjamim, Leite derramado e Anos de chumbo e outros contos. As narrativas, por vezes cruas, contudo, não deixam que o texto se torne desinteressante ou apelativo. Chico transmite ao leitor uma sensação de familiaridade, tanto pela cotidianidade que as narrativas transmitem, quanto pela irrupção do passado no presente. O brilhantismo da sua escrita abre passagem para que o passado retorne com a roupagem de novas histórias.

Bambino a Roma, último livro publicado por Chico Buarque há mais de um ano, aporta todas essas qualidades em forma de reminiscências do autor, mas traz um outro sentimento particular, muito presente, por exemplo, em Budapeste. Chico ratifica a sua identidade autoral mesmo sem precisar fazê-lo, porque, de tão sedimentada, permite ao leitor introduzido na sua obra identificar a sua caligrafia mesmo às cegas. Nesse texto mais recente, Chico nos apresenta algo novo sem deixar de perder de vista aquilo que de sua escrita se mantém constante.

Ao pretender revisitar os dois anos em que morou em Roma enquanto criança, o autor faz reaparecer algo que é recorrente em suas narrativas. A maior parte do livro, uma ficção semibiográfica, narra as memórias do pequeno Francisco nas ruas de uma Roma pós-guerra. Francisco se muda para a cidade italiana devido ao novo emprego de seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, que lecionou durante aqueles dois anos na Universidade de Roma, época em que publica o seu Raízes do Brasil em edição italiana.

A narrativa daqueles anos é tecida com tons de saudade de uma infância longínqua, época de brincadeiras na rua e de primeiras paixões não correspondidas. Entretanto, nas últimas vinte páginas de Bambino a Roma, Chico introduz o elemento de uma nostalgia que até então não havia aparecido no livro — apesar de se tratar de uma narrativa das suas memórias de infância. Trata-se de uma espécie de lamento de alguém que testemunha as mudanças irrevogáveis provocadas pelo tempo — sentimento que também nos toma em Budapeste. Todos esses acontecimentos são apresentados ao leitor sob forma de reminiscências do narrador, que em alguns momentos as apresenta imprecisas por saber que o sentido do passado não é dado pelo acontecimento, mas pela forma de rememorá-lo.

A inflexão das últimas páginas faz a saudade do narrador, simpática aos tempos das descobertas, dar lugar à nostalgia de quem procura revisitar algo que não se conservou em memória.

Neste momento, a narrativa se concentra no adulto Francisco, que retorna a Roma para se haver com algo de traumático da sua experiência naquela cidade. Para Chico, tratava-se de um acontecimento inassimilável que o faria descer ao inferno para encontrá-lo se fosse preciso, só para dissipar a névoa que obnubilava as suas memórias.

É esse estorvo — tematizado por Chico no seu livro homônimo — que também se mostra presente em Budapeste como algo estrangeiro, algo de uma vida passada, que permanece presente e insiste em narrá-lo como se fosse uma terceira pessoa de si mesmo.

Se em Budapeste o protagonista José Costa deixa toda a sua vida para trás em busca do recomeço em um país estrangeiro — cuja língua era tão estranha quanto convidativa —, em Bambino a Roma Chico tematiza mais uma vez a narrativa do retorno de um estrangeirismo. Também neste último livro, o narrador da obra retorna à cidade em que houvera morado, deixando esposa e filhos sem aviso, na expectativa de encontrar respostas para algo que esquecera, mas que continuava consigo à contragosto. Em ambas as obras, o personagem briga consigo e com os outros para conseguir tocar naquilo que só existe em reminiscência, para fazê-lo voltar à vida e, assim, poder acertar as contas com ele — o que, em Budapeste, José Costa logra fazer, em alguma medida.

O sentimento expresso pela escrita de Chico como um estorvo reincidente, curiosamente nomeado por ele como um trauma em Bambino a Roma, é mais do que um capricho estilístico do autor. Se lembrarmos de Roland Barthes em sua crítica à noção de autoria, a obra literária apenas pode ganhar seus sentidos múltiplos quando ela se torna impessoal. Isto é, para que o sentido de um livro se efetive, a autoridade do autor precisa dar lugar ao anonimato dos leitores para que o texto encontre sua unidade múltipla. O sentido está no destino da obra e não na sua origem.

A recorrência do tempo e da rememoração no vocabulário de Chico talvez só logre se expressar pelo autor através de uma “pressão à exteriorização”. Como se o que ele comunica fosse quase como um ente autônomo que o pressiona a ser posto para fora de si. Se voltarmos a pensar em Barthes, o autor não é mais do que um envelope para a mensagem que se exprime. Seus gestos autorais não fazem mais do que repetir as camadas da cultura que o precedem para fazer a linguagem falar. Isso confere à escrita, ao mesmo tempo, algo de singular e comum à experiência humana. Ou seja, para o autor em particular, não restam possibilidades infinitas do que se pode escrever — apesar de o momento inicial frente ao papel em branco poder transmitir essa impressão. Ele tem as suas possibilidades de expressão limitadas pelos cruzamentos do seu próprio trajeto memorial, que ganham vida conforme as reminiscências são exploradas e reinterpretadas. Sendo assim, o autor não seria mais do que continente para a mensagem que demanda exteriorização, sendo composto pela linguagem que o enquadra, precede e oferece as condições de expressão.

Ao lermos Chico, nos deparamos com algo de uma experiência tão particular ao autor quanto comum ao público. A nostalgia recorrente aponta inúmeras vezes, sobretudo em Leite Derramado, para o mal-estar que acompanha a experiência do tempo como finitude da memória. Por isso, o sentimento não é simplesmente saudade em Bambino a Roma, retornando como uma angústia intrusiva.

Chico Buarque mostra ao leitor que a memória e o tempo são as condições para a criação da narrativa, via de reconciliação com o traumático do que deles é inassimilável. Só assim a escrita surge como ferramenta de criação de realidades paralelas, seja pelo próprio Chico em seus textos semibiográficos, como o faz também em O irmão alemão, seja por seus personagens, como José Costa em Budapeste. Neste último caso, Chico Buarque mostra com brilhantismo o que tempo e memória fazem quando se materializam numa obra: fazem-na ganhar vida própria e se tornar estranha até para o seu autor. Essa autonomia da escrita somente pode conciliar memória e tempo quando o autor se esvai e o que resta é a sua obra, mesmo que ele não se veja somente refletido nela, mas também desdobrado e superado por ela.

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