Poucos livros foram tão revolucionários quanto a Teoria Geral de Keynes. Ele inventou a macroeconomia, a contabilidade social e redefiniu o papel do Estado na economia. Seu impacto político no século XX foi tamanho, que as ideias de Keynes foram alvo de uma contrarrevolução conservadora. Hoje, ele precisa ser resgatado, revisitado e ressignificado, uma vez que suas ideias são chave para enfrentar os grandes desafios do nosso tempo.
Nas últimas décadas, a crença de que o crescimento, o desenvolvimento e emprego são resultados espontâneos do livre funcionamento das forças de mercado marcou a política econômica e deslegitimou o papel do Estado. A negação das lições de Keynes permitiu desobrigar os Estados nacionais da responsabilidade para com o pleno emprego, assim como seu papel na distribuição da renda e da riqueza. O mundo sem Keynes deu lugar a uma organização social em crise, onde o Estado é deslegitimado sistematicamente e as democracias erodidas pela descrença política e pela desigualdade social, dando espaço para o fascismo. Sem Keynes, a política macroeconômica se resume às metas inflacionárias e à busca incessante por equilíbrio fiscal. Sem Keynes, o desemprego virou um problema do indivíduo ou de imperfeições no mercado de trabalho que podem ser corrigidas com a flexibilização da legislação trabalhista, dentre outras medidas.
O autor mostrou que o desemprego é um problema sistêmico de uma organização econômica inerentemente instável. Para ele, o gasto público tem um papel essencial a exercer, não apenas amenizar ciclos econômicos, mas para gerar mudanças estruturais na organização da economia. Keynes não era um socialista, tampouco advogava por um Estado produtor, mas defendia a “socialização do investimento”, entendida como uma ampla capacidade de controle e indução de investimento pelo Estado para manutenção do pleno emprego, geração de crescimento e bem-estar. Por tudo isso, a Teoria Geral de Keynes é o ponto de partida para resgatar e ressignificar o papel do Estado e do gasto público. O maior economista do século XX continua incontornável no século XXI.
Pedro Rossi – Professor do Instituto de Economia da Unicamp