
As ameaças do governo dos Estados Unidos contra o sistema brasileiro de pagamentos Pix demonstram o medo de Washington em ver um de seus principais métodos de coerção mundial começar a ruir. Desde a década de 40, com o Acordo de Bretton Woods, os EUA arquitetaram seu poder ao se colocarem no centro do sistema monetário e convergirem transações internacionais para empresas do país.
No entanto, esse poder começou a ser ameaçado na última década e tem ganhado mais relevância nos últimos anos com a proliferação de sistemas que escapam do controle norte-americano. Tanto que a revista britânica The Economist publicou um artigo, neste final de semana, tratando dos riscos à supremacia financeira dos EUA.
O Pix, visto como ameaça pelo governo Trump e empresas como Visa e Mastercard, foi utilizado como exemplo dessa fragmentação da infraestrutura global de pagamentos.
O texto assinala que Jamieson Greer, o principal representante comercial dos Estados Unidos, reclamou que o Pix prejudica as duas empresas citadas acima. Também é citado que a Casa Branca pretende impor uma tarifa adicional de 25% contra produtos brasileiros como forma de coerção.
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Nesse caso, é ressaltada uma frase do presidente Lula que demonstra o apoio a alternativas ao controle dos EUA: “O Pix é uma conquista brasileira e não vamos abrir mão dele”, diz Lula.
Conforme o artigo, esse caso revela uma nova realidade geopolítica das finanças globais em que os EUA reconhecem que o acesso global ao dólar e à economia norte-americana não é mais incondicional, como avaliou Scott Bessent, secretário do Tesouro. Isso se reflete em novos sistemas financeiros regionais e nacionais e começa a ameaçar o duopólio de Visa e Mastercard.
Na Europa já são pensadas infraestruturas de pagamentos próprias como forma de reduzir a dependência em relação às empresas dos EUA, proposta defendida por Aurore Lalucq, presidente do comitê de assuntos econômicos do Parlamento Europeu. Na Europa também avançam iniciativas para integrar sistemas de pagamentos rápidos entre os diversos países. Além disso, a Área Única de Pagamentos em Euros (SEPA), que reúne plataformas com pagamento em euro, conta com 41 países membros.
A The Economist lembra que parte dessa fragmentação ocorre justamente pelas ações de Washington no mundo. As sanções que excluíram a Rússia da infraestrutura internacional de pagamentos levaram o país a fomentar o seu próprio sistema de mensagens (SFPS) e rede de cartões (Mir).
Já a China se antecipou e incentivou sistemas próprios, como Alipay e o WeChat Pay, com vistas a não depender dos EUA em um cenário geopolítico em que as duas nações podem ter conflitos em diferentes áreas.
O gigante asiático também avança com o Cips (Cross-Border Interbank Payment System), alternativa à rede interbancária Swift (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunications), sistema internacional de pagamento sediado na Bélgica, mas com influência predominante dos EUA. A plataforma chinesa já movimenta cerca de US$ 134 bilhões (920 bilhões de yuans) em fluxo diário médio.
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O Cips ainda prepara uma plataforma chamada mBridge que permite a realização de pagamentos transfronteiriços diretos usando moedas digitais emitidas por bancos centrais. A iniciativa conta com apoio da Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.
Outro sistema que escapa do controle da arquitetura financeira dos EUA vem da Índia pelo UPI (United Payments Interface), sistema de pagamentos instantâneos baseado em QR Code que já opera em diversos países e segue em expansão. A iniciativa também apoia outras nações na criação de plataformas próprias de pagamento.
Enquanto Visa e Mastercard tentam proteger seus negócios com investimentos, parcerias e a velha fórmula de utilizar o lobby da Casa Branca a seu favor, os novos sistemas de pagamento se proliferam pelo mundo e assinalam a perspectiva de mudança para as próximas décadas, indica a The Economist. Porém, a revista liberal pró-mercado não poderia fechar o texto sem demonstrar preocupação com a orientação do status quo econômico que a publicação acompanha há quase dois séculos.
Assim, o artigo, apesar de explorar a tempestade que se avizinha para a hegemonia dos EUA e do dólar, termina com o velho terror econômico de que o PIB global pode cair com a fragmentação financeira devido à incompatibilidade de vários sistemas regionais — situação improvável com o rápido avanço de tecnologias.
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