Notícias

Tim Curry, o adeus de um transgressor

Imagem: Divulgação/Rocky Horror Picture Show

Boletim Outras Palavras

Receba por email, diariamente, todas as publicações do site



Agradecemos!

Você já está inscrito e começará a receber os boletins em breve. Boa leitura!

O ator inglês Tim Curry morreu essa semana. É inesquecível sua atuação em The Rocky Horror Picture Show, cantando Sweet Transvestite: Frank-N-Furter, cientista andrógino e transgressor, descendo um elevador de carga de capa preta, revelando aos poucos o espartilho e as meias de rede, enquanto Susan Sarandon assiste à cena aos gritos, no papel de uma jovem que bate à porta do castelo dele por acaso.

Curry atuou numa época em que transgressão não era simulacro cínico e isso faz diferença.

Uma das homenagens mais ternas que Curry recebeu no dia de sua morte veio dos Muppets, trupe com a qual dividiu tela interpretando um pirata numa versão musical de “A Ilha do Tesouro”, em 1996. Chamaram-no docemente de Muppet honorário: um homem de carne e osso que soube ser tão leve, estranho e verdadeiro quanto os bonecos que o cercavam.

Fiquei pensando nisso, num carinho tão inesperado quanto sincero, e a lembrança que me veio não foi de nenhum desses papéis famosos, mas de uma faceta menos lembrada dele: a de cantor. Curry cantava desde criança, muito antes de virar ator, e a faixa que me veio à cabeça, “Something Short of Paradise”, do álbum “Fearless”, de 1979, é uma canção singela, sobre os limites da vida, que há anos está nas minhas playlists.

Curry parecia colecionar contrastes: no mesmo corpo cabiam o monstro e o galã, o vilão e o palhaço triste, o rocker que canta baladas tristes. Anos depois de Rocky Horror, ele deu voz e rosto a Pennywise, o palhaço que aterroriza crianças numa cidade pequena, numa adaptação de um romance de Stephen King. Também foi vilão elegante em filmes de fantasia, e bandido cômico em comédias família. Passou a carreira sendo várias coisas ao mesmo tempo, sem nunca escolher uma só.

Havia em Curry algo que nunca se acomodava. Ele conseguia ser grotesco e bonito ao mesmo tempo, assustador e engraçado na mesma cena. A indefinição que sustenta.

Em 2012, ele sofreu um derrame que o deixou sem conseguir andar. Passou os últimos catorze anos da vida numa cadeira de rodas, e mesmo assim não parou de trabalhar: seguiu dublando personagens e, quando podia, atuando, sem deixar de inventar coisas novas. Isso também é ficar um pouco aquém do paraíso: não parar por causa do que falta.

Não sei se ele pensava desse jeito, se realmente chegou perto do paraíso que buscava. Escuto essa canção sempre, e hoje ouço nela algo que ele talvez nunca tenha formulado em palavras, mas viveu inteiro: vale mais a pena errar o alvo do paraíso do que nunca mirar nele.

Tim Curry é daqueles que agradeço muito. Boa viagem, camarada.

Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, seja nosso apoiador e fortaleça o jornalismo crítico: apoia.se/outraspalavras

The post Tim Curry, o adeus de um transgressor appeared first on Outras Palavras.