Quem acompanha os jogos da República Democrática do Congo (RDC) desde a última Copa Africana de Nações provavelmente já viu Michel Kuka Mboladinga. Vestido com as cores nacionais, braço erguido e completamente imóvel durante os 90 minutos da partida, ele se transformou em uma das imagens mais marcantes da torcida congolesa.
O sucesso da homenagem levou a federação congolesa a convidá-lo para integrar a delegação oficial do país na Copa do Mundo de 2026. Restrições de viagem relacionadas ao surto de ebola na RDC, porém, devem impedir sua presença na estreia contra Portugal, nesta quarta-feira (17/06), às 14h, pela primeira rodada do Grupo K.
A performance reproduz a imagem de Patrice Lumumba, primeiro líder do Congo independente e uma das principais lideranças da luta anticolonial africana no século 20.
Este é Michel Kuka Mboladinga, torcedor da República Democrática do Congo, que fica imóvel e com braço erguido durante toda a partida da seleção congolesa para homenagear Patrice Lumumba, líder da independência do país africano.
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— LIBERTA DEPRE (@liberta___depre) June 17, 2026
O líder da independência
Patrice Emery Lumumba nasceu em 1925, no então Congo Belga, território submetido ao domínio colonial da Bélgica. Sindicalista e ativista político, fundou em 1958 o Movimento Nacional Congolês (MNC), organização que defendia a unidade nacional e a independência do país.
Sua ascensão ocorreu em um contexto marcado por décadas de violência colonial da Bélgica. Antes de se tornar colônia belga, o território foi propriedade pessoal do rei Leopoldo II entre 1885 e 1908. O período ficou conhecido pela brutal exploração da população local, submetida a trabalho forçado, torturas e mutilações para garantir a extração de borracha, marfim e minerais.
Estimativas históricas apontam que milhões de congoleses morreram durante esse processo. Lumumba tornou-se uma das principais vozes do movimento de libertação nacional. Defendia a soberania sobre os recursos naturais do país e a unidade dos povos africanos diante da permanência da influência colonial.
Em dezembro de 1958, durante a Conferência dos Povos Africanos, realizada em Gana, ganhou projeção internacional ao defender a integração continental e o fim do domínio estrangeiro sobre a África.
Quando o então Congo Belga conquistou sua independência, em 30 de junho de 1960, Lumumba assumiu o cargo de primeiro-ministro.
Na cerimônia oficial, protagonizou um dos discursos mais lembrados da história política africana. Diante do rei Balduíno da Bélgica, que exaltou a colonização como uma missão civilizatória, o líder congolês denunciou publicamente os abusos cometidos durante décadas de ocupação.
Lumumba afirmou que os congoleses haviam vivido humilhações, discriminação e violência em sua própria terra. A fala rompeu o protocolo da solenidade e transformou o novo primeiro-ministro em uma referência para movimentos anticoloniais em todo o continente.
Em meio às disputas da Guerra Fria, sua defesa da soberania nacional, do controle das riquezas minerais do país e sua postura de não alinhamento passaram a despertar desconfiança entre governos ocidentais.
O país possuía reservas estratégicas de minérios, incluindo o urânio utilizado pelos Estados Unidos na fabricação das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki durante a Segunda Guerra Mundial.
Em setembro de 1960, Lumumba foi deposto por um golpe liderado por Joseph Mobutu, que posteriormente governaria o país como ditador por mais de três décadas.
Preso e transferido para a região separatista de Katanga, foi executado em 17 de janeiro de 1961. Investigações posteriores apontaram o envolvimento de autoridades belgas e da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) na conspiração que resultou em sua morte.
Para impedir que seu túmulo se transformasse em símbolo de resistência, seu corpo foi desenterrado e dissolvido em ácido. Restou apenas um dente de ouro, devolvido pela Bélgica à família de Lumumba em 2022, mais de 60 anos depois.
Sem que ninguém tenha sido responsabilizado judicialmente pelo crime, Lumumba se tornou mártir da independência congolesa e um dos símbolos mais duradouros da luta anticolonial africana.
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