
Em 2026, a política de Torcida Única em São Paulo completa dez anos. Uma década inteira de vigência contínua, tempo mais do que suficiente para balanços sérios, estudos técnicos, avaliações empíricas e correções de rumo.
No entanto, o que se observa é justamente o oposto. Apesar do discurso recorrente de que a medida teria trazido mais segurança ao futebol paulista, não há absolutamente nada a comemorar. A Torcida Única nasceu em 2016 como resposta emergencial a episódios graves de violência, mas, ao longo dos anos, deixou de ser exceção para se tornar regra administrativa permanente, sem lei específica, sem revisão periódica e, sobretudo, sem dados públicos recentes que sustentem sua manutenção.
A promessa inicial era simples. Restringir a presença da torcida visitante reduziria a violência. Dez anos depois, a realidade impõe um constrangimento institucional difícil de contornar. A violência não acabou. Ela apenas mudou de lugar. Ao invés de enfrentar o problema de forma estruturada, o Estado optou por empurrá-lo para fora do estádio. Os conflitos migraram para transportes públicos, rodovias, bairros periféricos e cidades sem estrutura adequada de policiamento.
Nos últimos anos, torcedores morreram fora do Estado de São Paulo em confrontos ocorridos justamente em deslocamentos, emboscadas e encontros marcados longe dos jogos. A Torcida Única não preveniu esses episódios. Ao contrário, contribuiu para retirar o controle estatal do espaço onde ele historicamente consegue atuar com maior eficiência, o estádio.
É no estádio que o Estado sabe quem entra, por onde entra, onde senta, como separar torcidas, como escoltar e como agir preventivamente. Quando se elimina uma das torcidas, elimina se também a possibilidade de controle centralizado. O conflito deixa de ser administrado e passa a ser difuso. O paradoxo é evidente. Sempre que São Paulo recebe grandes eventos de massa, como Carnaval, Réveillon, Fórmula 1 e shows internacionais, o discurso oficial é o da capacidade operacional, do planejamento e da inteligência policial. No futebol, porém, escolheu-se a saída mais simples e menos responsável: excluir.
Essa contradição torna se ainda mais evidente quando se observam experiências recentes fora de São Paulo. Jogos com duas torcidas ocorreram em Minas Gerais e no Distrito Federal com planejamento e sem incidentes relevantes. Mais recentemente, a final da Supercopa entre Corinthians e Flamengo reuniu mais de 70 mil pessoas, com torcedores deslocados de diversos estados do país, torcida dividida, clima de decisão e nenhum incidente. O evento demonstrou, de forma inequívoca, que é possível organizar partidas com duas torcidas quando há planejamento, inteligência e responsabilidade institucional. O problema, portanto, nunca foi a existência de duas torcidas. O problema sempre foi a decisão política de não enfrentar o tema com seriedade em São Paulo.
Talvez o aspecto mais grave dessa política seja institucional. Em dez anos de vigência, onde estão os estudos recentes do Ministério Público que justifiquem a manutenção da Torcida Única? Não há relatórios públicos atualizados, não há análises comparativas antes e depois de sua implementação, não há estudos sobre deslocamento territorial da violência, tampouco avaliações com recorte de gênero. Manter uma política que restringe direitos fundamentais sem base empírica atualizada não é prudência administrativa. É violação constitucional. Segurança pública não autoriza punição coletiva indefinida, nem permite que o Estado substitua sua obrigação de agir pela simples proibição.
Paralelamente a isso, houve um empobrecimento silencioso, porém profundo, da cultura das arquibancadas. O futebol brasileiro sempre foi espetáculo dentro e fora de campo. Papel picado, bandeiras, bandeiras de mastro, rolos de fita, faixas, cantos e coreografias espontâneas sempre fizeram parte da identidade do jogo. Hoje, o que se vê é um espetáculo cada vez mais mecanizado. Os clubes produzem belos mosaicos, tecnicamente impecáveis, mas frios, calculados e coreografados. Falta aquilo que sempre fez da arquibancada um espaço vivo: a participação orgânica do torcedor.
O torcedor deixou de ser protagonista para se tornar figurante de um espetáculo excessivamente controlado. A Torcida Única contribuiu diretamente para esse esvaziamento cultural ao transformar a arquibancada em espaço pasteurizado e vigiado. O torcedor tem o direito de escolher como torcer, como festejar e como se expressar, desde que de forma lícita. Em muitos jogos, a festa das arquibancadas supera o espetáculo do campo. Retirar isso é empobrecer o futebol, amputar sua dimensão cultural e simbólica.
Há ainda um efeito geracional que não pode ser ignorado. Após quase dez anos de Torcida Única, formou se uma geração inteira de torcedores que nunca viveu um clássico com duas torcidas em São Paulo. Para esses jovens, a ausência do outro foi naturalizada. A rivalidade simbólica foi substituída pela lógica do medo. Políticas públicas também educam e essa educou mal. Em vez de ensinar convivência regulada, ensinou segregação como solução.
É diante desse cenário que eu apresento o projeto Pelo Fim da Torcida Única em São Paulo, que idealizei a partir da constatação de que a política atualmente vigente fracassou tanto do ponto de vista da segurança quanto da preservação dos direitos fundamentais e da cultura do futebol.
Não se trata de negar a existência da violência, tampouco de romantizar o esporte, mas de propor a construção de uma política pública séria, baseada em dados empíricos, responsabilização individual, diálogo institucional e corresponsabilização dos atores envolvidos. Defendo a participação ativa das torcidas organizadas como parte da solução, a realização de pesquisas em estádios, a implementação de jogos piloto com duas torcidas, a incorporação da perspectiva de gênero e uma atuação jurídica e legislativa estruturante. Não é um projeto contra a segurança pública. É um projeto contra a mentira confortável de que excluir resolve.
Dez anos depois, as perguntas que se impõem não são complexas, são constrangedoras. A violência acabou? Não. O futebol ficou mais seguro de forma estrutural? Não. Os direitos fundamentais foram preservados? Também não. O que se construiu, ao longo dessa década, foi apenas a ilusão de controle, sustentada pela exclusão de quem sempre esteve no centro do espetáculo.
Se, após dez anos, a política não produziu dados, não reduziu a violência fora dos estádios, empobreceu a cultura das arquibancadas e normalizou a punição coletiva, então o problema jamais foi a torcida. O problema foi, e continua sendo, a incapacidade do Estado de assumir sua responsabilidade constitucional de governar o conflito, preferindo proibir a planejar, excluir a administrar, silenciar em vez de dialogar. Um aniversário como esse não pede comemoração. Pede revisão, coragem institucional e mudança de rumo.
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