
A cada dia, novas denúncias deixam mais patentes a brutalidade e a arbitrariedade com que atua parte da Polícia Militar de São Paulo, sob o auspício — ou, no mínimo, a negligência — do governo bolsonarista de Tarcísio de Freitas. É o que revela a denúncia contra policiais que agrediram e fizeram “roleta-russa” com dois adolescentes da periferia paulistana.
Imagens gravadas por câmeras corporais de policiais e tornadas públicas pelo Fantástico, da TV Globo, neste domingo (19), mostram a violência gratuita imposta pelos agentes às suas vítimas durante uma operação na Favela da Caixa D’Água, em Cidade Tiradentes, na Zona Leste, ocorrida em fevereiro de 2025.
A gravação foi possível porque as câmeras estavam no modo de rotina, que registrava tudo, sem áudio e com baixa resolução, mesmo sem o acionamento por parte do usuário. O sistema, no entanto, foi mudado e os novos modelos só gravam mediante acionamento manual do policial ou remotamente.
No vídeo, é possível ver que o sargento Amauri dos Santos colocou uma única munição numa arma, girou o tambor e encostou-a na cabeça de um adolescente antes de apertar o gatilho — a arma não disparou. Outro policial, o cabo Sandro Nascimento, também coloca uma pistola na cabeça de um dos jovens.
As imagens ainda mostram agressões físicas contra os adolescentes. Ambas as vítimas são menores de idade e, por isso, tiveram os nomes e rostos preservados.
Enquanto as torturas aconteciam, o soldado Eduardo Uchôa Vieira de Oliveira acompanha, sem nada fazer — a não ser dar risada. Nenhum dos jovens esboça reação à abordagem e aos maus tratos. Além disso, os policiais invadem casas da comunidade aleatoriamente sem mandado judicial. Numa delas, o que parecem ser prensados de drogas são levados pelos policiais — o material, no entanto, não foi encontrado.
Ao final, os meninos são entregues às suas mães. Neste momento, o vídeo é acionado pelo cabo Nascimento e entra no modo de gravação de melhor qualidade e com áudio. Por isso, é possível ouvi-lo claramente perguntar para um dos jovens: “Alguém bateu em você? Responde”. E o adolescente diz “não”. Ao levar o outro adolescente, o agente diz à mãe: “Estou entregando seu filho íntegro”. E, com um tom irônico, acrescenta: “Livramento”.
Julgamento e condenação
A denúncia chegou à Corregedoria da PM ainda na época dos fatos. Santos e Nascimento foram presos e, na semana passada, condenados pela Justiça Militar após denúncia do Ministério Público Militar.
Imagens do julgamento exibidas pelo programa mostram que ao ser questionado sobre o fato de ter encostado a arma na cabeça de um dos jovens, Nascimento diz ter feito isso para se apoiar após ter se desequilibrado. Já Amauri argumenta que o revólver usado na roleta-russa teria sido encontrado na favela e seria falso, assim como a munição colocada.
Sobre o material encontrado, o sargento disse que levaram da casa e posteriormente viram que não era droga e descartaram.
O sargento Amauri dos Santos foi condenado por tortura, abuso de autoridade, fraude processual e peculato, com pena de 12 anos e cinco meses de prisão. Já o cabo Sandro Nascimento, foi condenado por tortura e abuso de autoridade, com pena de quatro anos e dez meses no regime semi-aberto. Outros sete policiais, entre eles Uchôa, são réus e devem ser julgados em breve.
Violência sistemática
Os casos, infelizmente, não são isolados — os jovens negros e das periferias, sobretudo, sabem bem disso. Mas, sob o governo Tarcísio, a PM passou a ter maior alívio para agir arbitrariamente, seja por meio da alteração dos sistema das câmeras, seja pela omissão do governo em punir, condenar publicamente os abusos e mudar a formação dos agentes.
Faltam dados organizados, consolidados e públicos sobre casos de agressões perpetrados por policiais, além do fato de certamente haver subnotificações a respeito, devido ao medo que muitas das vítimas podem ter de denunciar.
Mas, para se ter uma ideia, a Ouvidoria da PM-SP registrou alta de 40% das denúncias de agressão nos primeiros 11 meses de 2024, na comparação com o mesmo período de 2023, com um total de 170 queixas.
Outro dado que mostra a dimensão da brutalidade e liberalidade com que age a polícia é o grau de letalidade, ou seja, a quantidade de abordagens que levam à morte das vítimas.
De acordo com a Rede de Observatórios da Segurança, em 2025, o estado de São Paulo teve ao menos 834 mortes decorrentes de intervenção policial, o maior número desde o início da série histórica, em 2019. Em relação a 2024, o aumento foi de 2,7%.
Segundo Anuário 2025 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024, 22% das mortes violentas ocorridas em São Paulo decorreram de ação policial — a média brasileira é de 14%.
O quadro é ainda mais grave quando analisado o quesito “impunidade” por parte do sistema jurídico. Segundo dados do Ministério Público, menos de 2% das ações policiais com morte no estado resultam em denúncia e condenação na Justiça.
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