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Trabalhadores do assentamento Fazenda da Barra sofrem com abandono em Ribeirão Preto

Os trabalhadores do assentamento deram vida pra terra de uma fazendo abandonada pelo poder público, produzem alimentos orgânicos, sem agrotóxicos, que abastecem a população da região. 

O jornal A Verdade foi conversar com os assentados pelo MST, que denunciam  à falta de infraestrutura e à permanente negação de direitos básicos.

Diego Girardi | Ribeirão Preto (SP)


LUTA POPULAR – Fruto da luta organizada do povo sem terra contra os donos da grande propriedade rural, o assentamento da Fazenda da Barra, em Ribeirão Preto (SP), nasceu da mobilização de famílias trabalhadoras da região de Ribeirão Preto, Franca e Araraquara, organizadas pelo MST, com apoio de sindicatos, associações populares, da Igreja Católica e de militantes históricos da resistência popular.

A criação do assentamento é fruto direto da luta de classes pela terra contra a concentração fundiária, exploração do trabalho, a improdutividade e o agronegócio. Em 2000, a Fazenda da Barra foi classificada pelo INCRA como propriedade improdutiva. Em 2004, com a assinatura do decreto de desapropriação, teve início o assentamento.

Imagem da fazenda da Barra, em 2000. Imagem: Ministério Público do Estado de São Paulo

Desde então, as famílias assentadas vêm produzindo alimentos saudáveis para a região, fortalecendo a agricultura familiar e combatendo a degradação ambiental promovida pelos grandes proprietários de terra e o agronegócio.

Ainda assim, seguem submetidos ao abandono do poder público, à falta de infraestrutura e à permanente negação de direitos básicos. A realidade expõe uma contradição central da sociedade capitalista: enquanto o latifúndio, o agronegócio e a especulação seguem protegidos pelo Estado Burguês, aqueles que produzem alimento para o povo sobrevivem sem apoio, sem crédito e sem condições dignas de trabalho e de vida.

Nivalda Alves de Jesus, assentada da reforma agrária há mais de 20 anos, comenta sobre a história de luta: “Esse assentamento aqui não foi presente pra ninguém, não. Foi muita luta! O assentamento na Fazenda da Barra nasceu disso, de povo que tinha muitos sonhos, se juntando, enfrentando tudo.”

Imagem do assentamento Mário Lago, na terra democratizada da antiga fazenda da Barra. Imagem: Google Earth

Terra concentrada, reforma agrária paralisada

A Constituição Federal determina que o imóvel rural que não cumpre sua função social deve ser desapropriado para fins de reforma agrária. Aliás, a função social exige da propriedade rural o aproveitamento racional da terra, a preservação ambiental, o respeito às relações de trabalho e promoção do bem-estar de trabalhadores e proprietários.

Segundo dados do INCRA, em 2024 havia 145.100 famílias esperando por um lote, enquanto as terras improdutivas somavam 228,5 milhões de hectares. Isso significa que há quase 1.574 hectares sem cumprir qualquer função social para cada família sem terra no país.

Nivalda aponta a inação do poder público na questão da reforma agrária: “No nosso país não se faz reforma agrária, falam que falta terra, não falta, não. O que falta é vontade de mexer com quem manda de verdade: o agronegócio. Tem terra parada demais, ou ocupada pela monocultura,  enquanto um monte de família espera. Tem acampamento com mais de quinze anos, mais de quinze anos esperando.”

Enquanto milhões de trabalhadores são empurrados para a miséria, para a informalidade ou para a espera sem fim por um pedaço de chão, os grandes proprietários seguem acumulando terras, devastando o meio ambiente, explorando trabalho em condições degradantes e financiando projetos reacionários.

Conciliação com o agro e abandono dos trabalhadores

O governo Lula, que em outros momentos se apresentou como comprometido com a reforma agrária, hoje, não enfrenta a política do agronegócio, dos grandes proprietários de terra. A promessa de campanha cedeu lugar à política de conciliação, na qual os interesses do grande capital agrário e financeiro continuam ditando as regras.

No Plano Safra 2025/2026, foram destinados R$ 605,2 bilhões. Desse total, apenas R$ 89 bilhões, 14,7%, foram reservados à agricultura familiar, justamente o setor que garante 70% dos alimentos que chegam à mesa da população brasileira. Já o agronegócio ficou com R$ 516,2 bilhões, ou seja, mais uma vez escolheu financiar os grandes exportadores, os bancos e os setores que vivem da superexploração da terra e do trabalho.

Em nome de uma suposta governabilidade, fortalece os mesmos setores historicamente ligados ao golpismo, à violência no campo e ao atraso social. 

Na Fazenda da Barra, a falta de direitos é concreta

Trabalhadores e estudantes precisam caminhar quilômetros por estradas de terra para chegar a pontos de ônibus ou escolas nos bairros mais próximos. Falta transporte público, falta acesso digno aos serviços públicos, falta o mínimo.

A ausência de crédito para os pequenos produtores agrava ainda mais a situação. Sem apoio para produzir e permanecer na terra, muitas famílias precisam buscar complemento de renda no trabalho urbano precário e na informalidade. Enfrentam poeira, lama, distância e cansaço diário para garantir a sobrevivência. 

Outro problema grave é a falta de coleta de lixo e de política adequada para descarte de resíduos e entulho. Muitos moradores não conseguem levar o material até o ecoponto mais próximo, no complexo Ribeirão Verde, a vários quilômetros de distância. Sem alternativa concreta, parte das famílias acaba recorrendo à queima dos resíduos. 

O INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) exige a limpeza dos lotes, porém, o poder público, a prefeitura, não garante coleta nem estrutura de descarte e o IBAMA proíbe a única saída que resta aos assentados. O Estado burguês que cobra, fiscaliza, pune, mas não assegura às condições mínimas para a vida do povo trabalhador.

A luta não termina com a conquista da terra

Mesmo diante do abandono, a luta segue viva. A luta pela reforma agrária não termina quando a terra é conquistada.

Nivalda também relata as dificuldades enfrentadas mesmo depois da conquista do lote: “A gente planta, colhe, tira da terra o alimento que vai pra mesa do povo, mas cadê apoio? Cadê os políticos? E os créditos? Porque, quando sai, a gente já sabe pra onde vai, a burocracia impede a gente de acessar.”

Ivomar Rodrigues de Souza, produtor rural e assentado da Fazenda da Barra, relata as dificuldades de se manter trabalhando na terra: “Eu tiro minha renda assim: vendo nas ruas e nas feiras, vou levando o que dá pra colher. Tenho um carrinho velho que me ajuda a carregar as coisas, a me virar, mas nem todo mundo aqui tem isso, não”. 

E continua: “Mas vou ser sincero, a cada ano que passa vai ficando mais difícil. Hoje muitos agricultores aqui já são mais velhos, já estão cansados, porque vontade de trabalhar a gente tem, terra boa tem também. O que falta é esse apoio pra gente continuar produzindo, conseguir vender melhor e viver com dignidade aqui dentro do assentamento.”

A situação da Fazenda da Barra revela o limite da reforma agrária dentro da ordem capitalista. Enquanto o poder econômico e político seguir nas mãos do latifúndio, do agronegócio e do capital financeiro, toda conquista popular será parcial, instável e permanentemente ameaçada. Por isso, a luta pela terra precisa se ligar à luta mais geral da classe trabalhadora: contra a propriedade privada dos grandes meios de produção e o imperialismo.

Esperançosa, Nivalda conclui: “Mas a gente não desiste, não… não desiste porque aprendeu a lutar.”

Assentamento Mário Lago de formato agroecológico. Foto: Filipe Augusto Peres