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Trabalho: E depois do fim da 6×1?

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Na terça-feira, 6 de outubro, dois dias depois do primeiro turno, o plenário do Senado começou a discutir a proposta de emenda constitucional que reduz a jornada máxima a 40 horas semanais e acaba com a escala de seis dias de trabalho para um de folga. A sessão teve quórum apesar de uma tentativa de obstrução. No mesmo dia, Flávio Bolsonaro disse a jornalistas ter uma proposta “infinitamente melhor”, a “liberdade do trabalhador de escolher sua própria carga horária”, segundo o Congresso em Foco. A eleição de 25 de outubro carrega uma disputa mais antiga sobre o que o emprego deve garantir a quem vive dele. No centro dela está a pergunta sobre quem carrega os riscos da economia.

Esses direitos têm data e têm história de conflito. Em 1932, os decretos 21.186 e 21.364 fixaram oito horas diárias no comércio e na indústria e garantiram um dia de descanso a cada seis de trabalho. A 6×1 nasceu como limite, depois de décadas de greves pela jornada de oito horas. Na Constituinte de 1987-1988, as 40 horas semanais passaram nas primeiras comissões e caíram nas votações seguintes, e o texto final ficou em 44. Nenhum desses limites saiu pronto do mercado ou da cabeça de um governante. Cada um registra o ponto onde um conflito parou.

O segundo turno acontece sobre um terreno já remexido. A reforma trabalhista de 2017 deu ao acordo coletivo prevalência sobre a lei numa lista de temas, liberou o banco de horas por acordo individual, criou o contrato intermitente e tornou facultativa a contribuição sindical. Em 2022, no Tema 1.046, o Supremo validou normas coletivas que reduzem direitos, ressalvado um núcleo indisponível. Uma parte da proteção já passou da lei para a negociação. A eleição vai dizer se esse movimento continua.

O programa de Lula registrado no TSE promete atuar no Senado “para assegurar o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas, sem redução salarial”. Promete também continuar a valorização do salário mínimo, combater a “pejotização espúria”, regular as plataformas com cobertura previdenciária e fortalecer a negociação coletiva. Em abril, o governo mandou ao Congresso, com urgência constitucional, um projeto de lei que reduz a jornada a 40 horas e garante dois dias de descanso. Os limites estão no próprio documento. Ele mantém o arcabouço fiscal, e a Lei 15.077, sancionada por Lula em 2024, limitou o ganho real do mínimo a 2,5% ao ano até 2030. O programa também não propõe revogar a reforma de 2017, apenas mexer em seus “marcos regressivos”.

O programa de Flávio Bolsonaro parte de outro diagnóstico. Diz que um trabalhador formal custa “cerca de duas vezes o salário que ele leva para casa”, sem mostrar a conta, e promete “reduzir gradualmente o custo do trabalho”. Prevê um contrato “com menor custo na folha” para jovens de 18 a 24 anos e outro “mais atrativo” para desempregados com 50 anos ou mais. Defende um negociado sobre o legislado em que “trabalhador e empresa combinem diretamente as condições de trabalho”. Na CLT, o negociado que vale mais que a lei é o acordo coletivo, assinado por sindicato. A escala 6×1 não aparece no documento. Fora dele, Flávio assinou a PEC 12/2026, do senador Rogério Marinho, coordenador de sua campanha, que cria um regime pago por hora, com jornada definida em acordo individual e férias, 13º e FGTS proporcionais às horas trabalhadas.

Tabela 1. O que dizem os programas registrados no TSE

Tema Lula (PT) Flávio Bolsonaro (PL)
Escala 6×1 e jornada Fim da 6×1 e jornada de 40 horas, sem redução salarial, “nos termos aprovados na Câmara” Não menciona a 6×1. Defende “jornada flexível” e acusa o governo de “ignorar a prevalência do negociado sobre o legislado”
Salário mínimo Continuidade da política de valorização, com ganho real limitado a 2,5% ao ano pela Lei 15.077/2024 Não trata do tema
Negociação Fortalecer a negociação coletiva e retomar a assistência sindical nas rescisões Negociado sobre o legislado como acordo direto entre “trabalhador e empresa”
Custo do trabalho e contratos Alterar “marcos regressivos” da reforma de 2017, sem revogá-la “Reduzir gradualmente o custo do trabalho”. Contrato de “menor custo na folha” para 18 a 24 anos e “mais atrativo” para 50 anos ou mais
Pejotização e plataformas Combater a “pejotização espúria”. Regular plataformas com cobertura previdenciária Não menciona a pejotização. Aplicativos com proteção “sem os interesses de dirigentes sindicais”
Sindicatos Atualizar o sistema de representação e regulamentar a negociação coletiva no setor público Posição “contra a República Sindical”. Unicidade “garante monopólios”
Estado e contas públicas Mantém o arcabouço fiscal. Valorização e diálogo com os servidores “TESOURAÇO”, corte de pelo menos 10 ministérios, reforma administrativa e novas regras fiscais
Previdência Ampliar o acesso, com contribuições adaptadas a trajetórias de trabalho descontínuas Pacote antifraude “nos moldes” de 2019. Nada sobre BPC, capitalização ou nova reforma
Fora do programa Projeto de lei enviado com urgência em abril de 2026 (40 horas e dois dias de descanso) Assinou a PEC 12/2026, de Rogério Marinho (pagamento por hora e jornada por acordo individual). A equipe econômica não se compromete com ganho real do mínimo

Fontes: programas de governo registrados no TSE (ago. 2026), Lei 15.077/2024, Dieese (Síntese Especial 24), CNN Brasil, Congresso em Foco, Poder360 e Reuters. Elaboração do autor.

Estimativa do Ministério do Trabalho indica que cerca de 37 milhões de empregados com carteira têm jornada acima de 40 horas e que perto de 15 milhões cumprem a 6×1. Quem trabalha 44 horas ganha, em média, menos da metade de quem trabalha até 40, segundo o Ipea. A jornada mais longa recai sobre os salários mais baixos. Para quem cumpre a escala, o dia de folga precisa absorver o sono atrasado, a faxina, as compras e a consulta médica. Para as mulheres, a conta pesa mais. Em 2022, as ocupadas dedicavam 6,8 horas por semana a mais que os homens ocupados ao trabalho doméstico e ao cuidado. Foi dessa rotina que saiu a reivindicação. Em 2023, o balconista de farmácia Rick Azevedo, com mais de doze anos de 6×1, gravou o vídeo que deu origem ao movimento Vida Além do Trabalho e a uma petição com mais de um milhão de assinaturas.

“Quem quer trabalhar mais, vai trabalhar mais”, disse Flávio na terça. Quem precisa trabalhar mais também vai. A frase supõe partes capazes de dizer não. A lei trata patrão e empregado como iguais, mas a empresa substitui um empregado com mais facilidade do que o empregado substitui o salário do mês. Com a desocupação em 5,3%, a menor para o trimestre desde 2012, muitos negociam hoje em posição melhor. O que se fixa no acerto individual fica exposto à próxima recessão. No pagamento por hora, o tempo parado, que na jornada fixa é risco da empresa, passa a ser risco de quem trabalha. O país conhece o modelo desde 2017, no contrato intermitente, e o governo Jair Bolsonaro tentou baratear contratos de jovens em 2019 com o Contrato Verde e Amarelo, revogado no ano seguinte. O decreto de 1932 já admitia dez horas diárias “se assim acordarem empregadores e empregados”. A fórmula é velha.

O programa de Flávio pede ainda que o país se posicione “contra a República Sindical” e afirma que a unicidade sindical “garante monopólios”. O problema existe. A Constituição manteve um só sindicato por categoria em cada base, herança do modelo tutelado dos anos 1930, e a sindicalização caiu de 16,1% dos ocupados em 2012 para menos de 9% (gráfico 1). Só que o remédio proposto é a negociação de cada empregado com seu patrão. O trabalhador sozinho oferece seu trabalho a quem pode esperar. A categoria reunida pode parar, e é isso que dá peso à mesa. A própria PEC da 6×1 deixa aos acordos coletivos a adaptação das escalas nos setores que não fecham. Sem sindicato, essa conta cai no contrato individual.

Gráfico 1. Taxa de sindicalização dos ocupados no Brasil, 2012-2025 (%)

Fonte: IBGE, PNAD Contínua, Características adicionais do mercado de trabalho (2012-2024, via Poder360 e Agência Brasil). 2025: divulgação de 23/9/2026, conforme TVT News. A pesquisa não foi feita em 2020 e 2021.

A objeção mais forte merece resposta. O pequeno comércio aberto aos domingos sente qualquer mudança de escala, a produtividade cresce pouco, a informalidade atinge 37,5% dos ocupados e a Previdência gastou R$ 1,09 trilhão com benefícios nos doze meses até junho, para R$ 744,8 bilhões de arrecadação líquida. São problemas reais. Mas o emprego com carteira no setor privado bateu recorde em 2026, 39,5 milhões, sem corte de direitos. O Ipea estimou que as 40 horas elevariam em 7,84% o custo médio do trabalho celetista, com impacto direto inferior a 1% do custo operacional da indústria e do comércio, e lembrou que ganhos reais do mínimo de 12% em 2001 e de 7,6% em 2012 não derrubaram o emprego. E a conta do “dobro do salário” só fecha somando 13º, férias, FGTS e descanso remunerado. Quando o corte recai sobre essas parcelas, alcança a remuneração direta ou diferida de quem trabalha.

É na velhice que a diferença entre os projetos pesa mais. Em junho, 65,5% dos benefícios concedidos pelo INSS tinham o valor exato de um salário mínimo (gráfico 2), e o BPC, pago a 6,4 milhões de idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, vale um mínimo por determinação constitucional. Reajustar o mínimo é reajustar a renda de quem já não pode vender a própria força de trabalho. O programa de Lula promete seguir com o ganho real, ainda que dentro do teto de 2,5%. O de Flávio não trata do salário mínimo. Em setembro, sua coordenadora econômica, Daniella Marques, não assumiu compromisso com o aumento real, e Adolfo Sachsida, da mesma campanha, prometeu manter a vinculação dos benefícios ao piso. Vinculação não é ganho real. Um piso corrigido só pela inflação continua vinculado e para de redistribuir renda.

Gráfico 2. Benefícios concedidos pelo INSS em junho de 2026, por faixa de valor (% do total)

Fonte: Ministério da Previdência Social, Boletim Estatístico da Previdência Social, v. 32, n. 6, quadro 6. Total de 792.531 benefícios. SM = salário mínimo (R$ 1.621).

O mesmo programa anuncia, em maiúsculas, “um grande TESOURAÇO: um corte profundo e por todos os lados, que enxuga a máquina”, com pelo menos dez ministérios a menos e novas regras fiscais. Não diz onde o corte cairia nem quanto somaria. Direito no papel depende de gente no balcão. O limite de jornada depende de auditor-fiscal, e a aposentadoria depende de um INSS que, em junho, levava em média 48 dias para conceder um benefício. Num Estado que já atende devagar, um corte “por todos os lados” tende a cair sobre quem trabalha e espera. O programa de Lula, com todos os limites do arcabouço, promete fortalecer a inspeção do trabalho e negociar com os servidores.

O que está em jogo vai além da PEC. Se o Senado aprovar o texto em dois turnos, com 49 votos em cada um, ele será promulgado pelo próprio Congresso, sem sanção presidencial. Mas quem assumir a Presidência em janeiro vai comandar a fiscalização, propor a lei complementar que pode criar medidas de transição para micro e pequenas empresas e negociar com o Congresso que toma posse em fevereiro, onde a PEC 12/2026 continuará à espera. Um governo cujo titular assinou a jornada por hora dificilmente teria o mesmo empenho em fazer valer dois dias de descanso. O governo Lula tem limites que este texto apontou, do teto ao mínimo à reforma de 2017 mantida de pé. Mas a diferença entre os dois projetos é de direção.

Para quem cumpre a 6×1 ou vive de um benefício no valor do piso, a palavra custo tem tradução imediata no calendário e no extrato. Os direitos do trabalho nasceram quando trabalhadores organizados conseguiram pôr dentro da conta os riscos da doença, da velhice, do acidente e do cansaço. Em 25 de outubro, o país vai indicar se esses riscos continuam divididos ou voltam para cada um. Chamar um direito de custo não elimina o custo social que ele cobria. Ajuda apenas a decidir quem passará a suportá-lo.

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