
Os Estados Unidos estão a poucas horas de uma paralisação do governo federal, prevista para a madrugada desta quarta-feira (1º), em meio ao impasse no Congresso e às ameaças do presidente Donald Trump, que sinalizou a possibilidade de demissões em massa de servidores e tem resistido a atender às exigências democratas por mais recursos na saúde.
Se não houver aprovação de recursos adicionais até a meia-noite desta terça-feira (30), serviços públicos serão interrompidos, dados econômicos cruciais deixarão de ser divulgados e milhões de idosos podem perder acesso à telemedicina.
A disputa gira em torno da política de saúde. Os republicanos querem aprovar uma resolução de curto prazo que apenas prorrogue os atuais níveis de gasto até 21 de novembro, sem incluir mudanças adicionais.
Os democratas, por sua vez, afirmam que não aceitarão o texto sem a garantia de que serão mantidos os subsídios criados no governo Biden para reduzir os custos de planos no mercado do Obamacare, que expiram no fim do ano, e sem a reversão de cortes no Medicaid aprovados na lei de impostos e gastos republicana em julho.
O Senado precisa de 60 votos para aprovar a medida, o que exige adesão de sete a oito democratas.
O republicano Rand Paul já antecipou voto contrário, e apenas o democrata John Fetterman declarou apoio. O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, afirmou que “está nas mãos do presidente decidir se evitamos ou não o shutdown. Ele precisa convencer os líderes republicanos”.
O líder republicano John Thune respondeu que “não vamos discutir e negociar enquanto mantêm o governo federal como refém. Liberem o refém, e teremos a conversa”.
Trump intensificou as tensões ao ameaçar demitir servidores em caso de paralisação, culpando os democratas pela crise.
“Podemos fazer muito. E isso é apenas por causa dos democratas”, disse.
Ele também afirmou, falsamente, que os adversários querem conceder benefícios de saúde integrais a imigrantes indocumentados e publicou em sua rede Truth Social um vídeo manipulado de Schumer e Hakeem Jeffries.
“Na próxima vez que tiver algo a dizer sobre mim, não se esconda atrás de um vídeo racista e falso. Quando eu estiver de volta ao Salão Oval, diga isso na minha cara”, reagiu o líder democrata em coletiva.
Uma eventual paralisação terá impacto direto no funcionamento da máquina federal.
Museus, monumentos e parques nacionais serão fechados, e servidores entrarão de licença não remunerada (furlough, em inglês), enquanto militares, agentes federais e controladores de tráfego aéreo permanecerão no trabalho sem pagamento.
O Congresso seguirá aberto, mas com equipe reduzida. Tribunais federais devem operar com reservas até 3 de outubro e, depois disso, restringir atividades apenas a funções constitucionais.
No campo econômico, o Bureau of Labor Statistics suspenderá todas as operações, o que inclui o relatório mensal de empregos previsto para sexta-feira (3). Outros indicadores, como os dados de inflação e PIB, também podem ser afetados.
Embora os relatórios de setembro já tenham sido coletados, uma paralisação prolongada pode comprometer a qualidade das estatísticas.
“Estamos atualmente vendo uma economia que pode ou não estar em um ponto de virada, particularmente para o mercado de trabalho”, disse Martha Gimbel, do Budget Lab em Yale.
As consequências também se estendem ao setor de saúde. Milhões de idosos podem perder acesso a consultas virtuais com médicos e a programas de hospital domiciliar, que precisam de extensão legislativa específica para continuar funcionando.
Em 2024, 6,7 milhões de beneficiários usaram teleconsultas; em 2020, durante a pandemia, o número chegou a 14,8 milhões.
“Perder esses benefícios vai exacerbar todos os tipos de problemas em nosso sistema de saúde. Vai reduzir a capacidade em um momento em que não temos o suficiente”, disse Kyle Zebley, diretor da ATA Action ao Washington Post.
Meaghan Arnold, terapeuta no Texas rural, explicou ao jornal que muitos de seus pacientes com Parkinson, demência ou esclerose múltipla dependem da telemedicina. “
Eles vêm até nós porque não há atendimento perto deles. Se você não precisa entrar no carro, enfrentar trânsito ou seguir um mapa… a telemedicina é uma forma fantástica de eliminar vários estressores em um dia”, relatou Arnold.
Enquanto isso, agências do governo tentam tranquilizar seus funcionários. O Escritório de Orçamento da Casa Branca alertou que demissões poderiam ocorrer, mas departamentos como o de Estado e a FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos) garantiram que não haverá cortes permanentes.
“Consegui garantir uma exceção porque trabalhamos com segurança pública”, disse Marty Makary, comissário da FDA.
No Senado, o democrata Gary Peters manteve o tom de cautela: “Ainda temos tempo. Como você sabe, neste lugar nunca acaba até acabar”.
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