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Trump põe empresário de perfil ideológico no comando para a América Latina

O governo de Donald Trump acaba de trocar uma peça importante de sua política para a América Latina. Juan Pablo Segura, empresário e ex-secretário de Comércio da Virgínia, assumiu em 14 de agosto o cargo de secretário-assistente de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, responsável pelas relações dos Estados Unidos com América Latina, Caribe e Canadá. Ele substitui Michael Kozak, diplomata de carreira que ocupava interinamente a função e acumula mais de cinco décadas de serviço público.

A mudança não é apenas administrativa. Segura chega ao posto sem uma longa trajetória diplomática, mas com um perfil político e empresarial bastante compatível com a concepção de política externa de Trump e do secretário de Estado, Marco Rubio.

Sua experiência anterior combina empreendedorismo, comércio internacional e governo. Formado em contabilidade e estudos asiáticos pela Universidade de Notre Dame, Segura fundou em 2014 a empresa Babyscripts, de tecnologia aplicada ao acompanhamento pré e pós-natal. Mais tarde, foi secretário de Comércio e Negócios da Virgínia no governo do republicano Glenn Youngkin.

É esse currículo, mais do que uma experiência diplomática tradicional, que Washington agora coloca à frente da política para seus vizinhos.

“Reafirmar a Doutrina Monroe”

Na audiência de confirmação no Senado, em junho, Segura deixou explícita a matriz estratégica que pretende seguir. Em seu depoimento, afirmou que a estratégia nacional de Trump prevê “reafirmar a Doutrina Monroe” para restaurar a preeminência dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e conter a influência de potências consideradas adversárias.

A declaração é especialmente significativa. A Doutrina Monroe, formulada no século XIX, historicamente serviu como fundamento para a reivindicação de uma esfera privilegiada de influência dos Estados Unidos sobre as Américas.

Na versão trumpista, essa lógica ganha novos componentes: controle das fronteiras, combate ao narcotráfico, pressão sobre governos considerados adversários e disputa econômica com a China.

Segura declarou ainda que pretende utilizar a diplomacia comercial para ampliar a presença das empresas norte-americanas na região. Segundo ele, o fortalecimento dos vínculos comerciais com os países latino-americanos ajudaria simultaneamente as economias locais e reduziria o espaço para a atuação de atores “não hemisféricos”, numa referência evidente à China.

Um homem de confiança de Rubio

O novo secretário-assistente chega, portanto, como parte de uma engrenagem maior comandada por Marco Rubio. O secretário de Estado transformou a América Latina em uma das prioridades da política externa de Trump, sob o argumento de que Washington teria negligenciado seu próprio hemisfério durante décadas.

Já no início do governo, Rubio afirmou que a política externa de Trump deveria voltar a concentrar atenção na região e associou a segurança hemisférica ao controle das fronteiras norte-americanas.

Segura não apenas compartilha essa visão como declarou, em sua sabatina, que recebeu a confiança de Trump e Rubio justamente para atuar em um momento que classificou como decisivo para o hemisfério.

Sua mensagem inaugural reforçou o enquadramento: combater cartéis e “narcoterroristas”, gerar prosperidade para americanos e parceiros e garantir a segurança das fronteiras.

América Latina entre pressão e disputa de poder

O problema é que a agenda chega à região em um momento no qual diversos países latino-americanos procuram ampliar sua autonomia diplomática e econômica, aprofundando relações com China, Rússia e outras potências.

Para Washington, essa diversificação é vista menos como expressão de soberania dos países latino-americanos e mais como perda de espaço estratégico dos Estados Unidos.

A China aparece, nesse sentido, no centro da preocupação de Segura. Na sabatina, ele defendeu uma política comercial capaz de ampliar a integração econômica regional com os Estados Unidos e, simultaneamente, diminuir o espaço ocupado por atores externos.

É uma disputa que vai muito além da diplomacia. Envolve infraestrutura, minerais críticos, energia, tecnologia, portos, comércio e financiamento — setores nos quais empresas e instituições chinesas ampliaram presença na América Latina.

Brasil no centro da tensão

A mudança ocorre justamente quando as relações entre Washington e Brasília atravessam uma fase particularmente delicada. A administração Trump já adotou medidas de pressão contra autoridades brasileiras e mantém divergências em torno de temas políticos, comerciais e institucionais.

Segura, antes mesmo de assumir, já havia se manifestado sobre questões relacionadas ao Brasil. Em 2025, criticou decisões do ministro Alexandre de Moraes envolvendo a plataforma X e afirmou que o respeito à soberania deveria ser uma via de mão dupla. Em abril deste ano, também comentou uma ação dos Estados Unidos contra um funcionário brasileiro relacionado a questões migratórias.

O Brasil, portanto, encontrará à frente da política hemisférica americana alguém que combina visão empresarial, alinhamento republicano e adesão explícita à estratégia de Rubio.

Um cerco que se amplia

A nomeação de Segura pode ser lida como mais uma peça de uma política americana que procura cercar politicamente a América Latina, em vez de simplesmente ampliar relações diplomáticas com seus governos.

A linguagem é a da segurança, da prosperidade e da parceria. Mas por baixo dela existe uma disputa clássica de poder: quem define as regras econômicas, quem controla cadeias estratégicas e quem exerce influência sobre o futuro político do continente.

A aposta de Trump é recuperar uma primazia que Washington considera natural no hemisfério. Para os países latino-americanos, o desafio será preservar margem de manobra diante de uma potência que combina pressão econômica, sanções, política migratória, diplomacia comercial e poder militar.

Juan Pablo Segura chega, assim, não como o diplomata que procura administrar diferenças entre vizinhos, mas como um operador político e econômico de uma estratégia mais assertiva: recolocar a América Latina no centro da disputa pelo poder dos Estados Unidos no mundo.

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