
Nos Estados Unidos, o calendário foi reescrito. O 6 de Janeiro deixou de ser o dia em que uma multidão, estimulada por um presidente derrotado, invadiu o coração do poder legislativo. Agora é o ‘Dia da Manifestação Pacífica’ que, curiosamente, precisou de gás lacrimogêneo, balas de borracha, mortos, feridos e mais de uma centena de policiais hospitalizados para provar sua natureza pacífica. A lógica é simples, quase didática: se foi patriótico, não pode ter sido violento; se foi violento, certamente não foi patriótico — logo, não foi violento.
Cinco anos após a invasão ao Capitólio dos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021, o governo de Donald Trump promove uma reinterpretação oficial dos fatos. Um novo site da Casa Branca apresenta a versão do presidente sobre o episódio, nega o caráter insurrecional da ação e justifica o perdão presidencial concedido aos envolvidos após seu retorno ao poder, em 2025.
É o duplipensar de Orwell em estado puro. A Casa Branca explica que os “insurrecionistas” nunca existiram, apenas patriotas incompreendidos. A eleição de 2020 foi fraudada porque não foi ganha por quem deveria ganhar. E o Congresso não foi atacado; foi visitado, ainda que as portas tenham sido arrombadas com a delicadeza própria dos turistas mais exaltados. Cinco mortos são um detalhe estatístico, e a democracia, essa senhora exigente, deve aprender a ser mais flexível com quem tenta derrubá-la em seu nome.
A página classifica os participantes como “manifestantes patrióticos” e atribui aos democratas — em especial à ex-presidente da Câmara Nancy Pelosi — a responsabilidade pelo caos e pelas consequências judiciais do episódio. O texto também reafirma, sem provas, a alegação de fraude na eleição de 2020, vencida por Joe Biden.
Ataque real, violência e mortos
A narrativa oficial contrasta com os fatos amplamente documentados. Em 6 de janeiro de 2021, apoiadores de Trump invadiram o Congresso para impedir a certificação do resultado eleitoral. O ataque resultou em confrontos com a polícia, deixou mais de 140 agentes feridos e causou cinco mortes, incluindo a de um policial, um quadro de letalidade ainda mais grave que aquele ocorrido no Brasil.
Centenas de participantes foram presos, julgados e condenados por crimes que vão de invasão e obstrução de processo oficial a agressões contra agentes do Estado. Ainda assim, Trump concedeu indulto a cerca de 1.500 envolvidos, tratando as condenações como perseguição política.
Brasil faz caminho oposto após o 8 de Janeiro
No Brasil, a resposta institucional aos ataques de 8 de janeiro de 2023 seguiu direção oposta. Após a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília, o país reafirmou o compromisso com a responsabilização penal e política dos envolvidos, incluindo financiadores, executores e articuladores.
As investigações conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal e pela Polícia Federal resultaram em prisões, condenações e acordos de responsabilização, consolidando o entendimento de que atentados contra a ordem democrática não são passíveis de anistia política ou relativização histórica.
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O que o Brasil fez, no universo do duplipensar, soa quase subversivo. Aqui, o 8 de Janeiro não virou feriado cívico da “invasão ordeira”. Não se criou um portal oficial para explicar que a destruição foi, na verdade, uma performance artística, e que os ataques às instituições eram apenas abraços mal interpretados. Optou-se por uma atitude antiquada: chamar golpe de golpe, crime de crime, e golpista de réu.
Memória, justiça e democracia
Enquanto o governo Trump busca reescrever o 6 de Janeiro como um protesto legítimo e minimiza a violência, o Brasil transformou o 8 de Janeiro em símbolo de defesa da democracia e da supremacia da Constituição. A punição aos responsáveis passou a ser tratada como condição necessária para evitar a repetição de ataques às instituições.
Especialistas e autoridades brasileiras têm destacado que preservar a memória dos fatos e garantir justiça são pilares para a estabilidade democrática, sobretudo em contextos de polarização política e disseminação de desinformação.
Enquanto Trump absolve para acusar a lei de injusta, o Brasil puniu para afirmar que a lei existe. Nos EUA, perdoar virou um ato de coragem política; no Brasil, condenar virou um compromisso democrático. Lá, reescrever a história serve para limpar o passado; aqui, preservar a memória serve para proteger o futuro. Em Washington, a verdade é aquilo que convém ao poder. Em Brasília, ao menos por ora, o poder ainda insiste em respeitar a verdade.
Dois modelos em disputa
A comparação entre os dois países evidencia caminhos divergentes. Nos Estados Unidos, a narrativa oficial do trumpismo aposta na inversão de papéis, na deslegitimação do sistema eleitoral e no enfraquecimento das instituições de controle. No Brasil, o pós-8 de Janeiro tem sido marcado pela reafirmação do Estado Democrático de Direito e pelo entendimento de que a democracia não se defende com esquecimento, mas com verdade e responsabilização.
Assim, enquanto Washington revive o passado para absolver seus algozes, Brasília projeta o futuro a partir da punição exemplar e da celebração da democracia como valor inegociável.
O duplipensar norte-americano ensina que a democracia pode ser defendida destruindo-a, desde que o discurso seja suficientemente eloquente. Já o Brasil insiste numa tese quase ingênua: a de que instituições atacadas precisam ser defendidas, não rebatizadas. Talvez sejamos atrasados. Afinal, é muito mais moderno dizer que a invasão nunca aconteceu do que explicar por que ela não pode se repetir.
No fim, ficam duas datas e duas pedagogias. O 6 de Janeiro norte-americano, onde a mentira é promovida a política de Estado e o passado é remodelado para caber na narrativa do vencedor que perdeu. E o 8 de Janeiro brasileiro, onde a democracia, imperfeita e barulhenta, decidiu que lembrar dói menos do que esquecer — e que punir ainda é a forma mais honesta de dizer que a realidade existe.
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