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Trump sonha com “G.I. Joe” cheios de testosterona

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, assinou na última semana uma determinação bastante sintomática desses tempos, com retrogosto de projeto nazista: todos os militares na ativa e na reserva, com 30 anos ou mais, deverão passar por exames anuais de rastreio de déficit de testosterona. Se a taxa estiver baixa, poderão iniciar um protocolo de incremento do hormônio. Usando o slogan “High-T Department of War” ou Departamento de Alta Testosterona, Hegseth afirmou que o novo exame vai garantir que os “guerreiros” – não soldados, não militares; guerreiros – “tenham os níveis corretos de testosterona para operar no seu melhor nível possível”.

Antes disso, Trump já havia ordenado o desligamento e a proibição da entrada de pessoas trans nas forças armadas, sob o argumento de que a medida garantiria a “força de combate mais letal do mundo”, buscando eliminar o que chamou de “ideologia transgênero”, no meio de uma série de decretos que retiram direitos de pessoas trans, inclusive à hormonização em casos em que o protocolo é recomendado e acompanhado por médicos.

A testosteronização não parou por aí. Entre 2025 e 2026, a Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) também revisou os rótulos dos medicamentos à base de testosterona para remover um aviso sobre o aumento dos riscos de ataque cardíaco ou derrame, e tomou uma série de medidas para remover restrições e facilitar o acesso ao protocolo.

Bem, em primeiro lugar, é preciso dizer que, após a declaração do secretário de Defesa, muitos profissionais da área médica se pronunciaram publicamente, dizendo que não há base científica para essa medida e que ela pode não apenas não surtir efeito nenhum, como o uso indiscriminado e desnecessário do hormônio pode aumentar o risco de infertilidade, fraturas ósseas e problemas no coração. Outros riscos incluem espessamento ⁠do sangue, problemas na próstata, acne, queda de cabelo, crescimento do tecido mamário, instabilidade de humor, com mais agressividade e libido.

As implicações psicológicas disso então são imensuráveis, sobretudo para soldados em situação de pressão, estresse e sob essa prerrogativa de que precisam performar cada vez mais essa masculinidade extrema.

Mas essa fixação com a maximização da performance do corpo masculino leva a um buraco muito mais fundo.

Os Estados Unidos já dominam o uso de testosterona, em um mercado global que passou de 18 milhões de dólares anuais no final da década de 1980 para quase 2 bilhões de dólares em 2025. Em muitos casos, dizem as pesquisas, esse crescimento foi impulsionado pelo marketing direto ao consumidor, sistemas de prescrição online, comunidades de bem-estar e influenciadores digitais.

No Vale do Silício, isso tem levado a um boom de “T Parties”, festas promovidas por startups, em que homens cis se reúnem para medir seus níveis de testosterona, falar sobre contagem de esperma, começar protocolos de hormonização e de “longevidade extrema”. Chama-se isso de biohacking: uma prática de otimizar o corpo e a mente através de mudanças no estilo de vida, tecnologia e biologia, tratando o organismo como um sistema a ser melhorado.

Um destes entusiastas é o empresário americano Bryan Johnson, de 48 anos, que gasta milhões de dólares anuais no projeto “Blueprint”, consumindo mais de 100 pílulas diárias e passando por terapias de luz LED na pele para reverter a idade biológica.

Obviamente, essa obsessão cada vez maior com a macheza se encontra com o ódio às mulheres e à comunidade LBTQIA+, cada vez mais desavergonhado, violento e propagado por pessoas como Mark Zuckerberg, que, em entrevista a um podcast em 2025, lamentou o surgimento de empresas “culturalmente neutras” que se distanciaram da “energia masculina” e afirmou que é bom quando uma cultura “celebra um pouco mais a agressividade”.

Nessa linha, também entra a tendência dos “healthmaxxers” e dos “looksmaxxers”, homens que buscam a “maximização da aparência” e que promovem o que dizem ser formas de se tornar mais masculino, mais bonito, mais saudável e “ascender”, um termo usado nos fóruns incel quando um indivíduo consegue ter sucesso afetivo e sexual, ou perde a virgindade com uma mulher.

Além do uso indiscriminado do hormônio, esses influenciadores propõem coisas como bater nos ossos do próprio rosto e criar microfraturas para esculpir o maxilar, o uso de anfetaminas para emagrecer, dão dicas do que comer, como treinar pesado (sem qualquer embasamento profissional) e afirmam que “o único objetivo de verdade é ficar mais bonito – não importa o que seja necessário.” (lembra que eu falei de retrogosto nazista lá no começo?).

De acordo com uma pesquisa realizada pela Movember, uma entidade voltada para a saúde mental masculina, quase dois terços dos rapazes e homens entre 16 e 25 anos no Reino Unido, EUA e Austrália assistem e leem regularmente conteúdos de influenciadores de masculinidade.

Um dos influenciadores redpill mais famosos é Andrew Tate, que foi preso junto ao irmão mais novo, Tristan, no sábado, 18 de julho, em Miami, a pedido do Reino Unido, para responder a acusações de estupro, tráfico de pessoas para exploração sexual e agressão.

No Brasil, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) disse em 2024 que o Brasil precisa de homens “com testosterona”, citando o ex-presidente Jair Bolsonaro e o pastor Silas Malafaia como exemplos a serem seguidos. “Este país não precisa de mais projetos de lei. Este país não precisa mais de emenda. Este país precisa de homens com testosterona. É isso que esse país precisa. E eu tenho certeza que é o que esses 2 homens representam”, disse.

A questão é que a administração Trump sabe muito bem o que está fazendo. Entende a linguagem da machosfera e seu apelo. Numa mensagem publicada recentemente pelo departamento de defesa norte-americano sobre as capacidades do Exército, estas foram as palavras escolhidas para acompanhar uma fotografia de um militar: “Low cortisol. Locked in. Lethalitymaxxing.” Algo como “baixo cortisol. Totalmente focado. Letalidade máxima”.

Essa não é uma escolha aleatória de palavras, não é uma coincidência.

Mas as ações do departamento de defesa pouco têm a ver com estratégia ou defesa. Sobretudo porque hoje as guerras não são mais combatidas na espada, os “guerreiros” não matam olhando no olho dos oponentes. Eles apertam botões, programam inteligências artificiais para escolher alvos e matam a uma distância cada vez maior.

A mensagem fala de um corpo, de uma imagem, de uma performance. É um projeto estético.

Walter Benjamin diagnosticou no fascismo dos anos 1930 a estetização da política. Em seu ensaio A Obra de Arte na Época de Sua Reprodutibilidade Técnica, de 1936, ele escreveu que a resposta do fascismo à entrada das massas na política foi a organização de um espetáculo.

Para o nazismo, por exemplo, o “belo” – que aliás é um termo cada vez mais usado pela nova extrema direita – era ferramenta eugênica; o corpo ariano musculoso e a maternidade sadia funcionavam como o espelho da “pureza racial” e como justificativa estética para eliminar o “degenerado” e o “impuro”.

O que observamos hoje, do “High-T Department of War” às “T Parties” do Vale do Silício, é a reedição dessa filosofia, agora acelerada por algoritmos que monetizam a insegurança masculina.

Se produz um ideal de beleza, de corpo, de performance, que é ao mesmo tempo um critério de exclusão. Enquanto celebram o “guerreiro saudável, viril, com altos níveis de testosterona”, expulsam os corpos que não se encaixam, como os de pessoas trans que foram banidas das Forças Armadas, e rejeitam a ideia de um homem que não seja esse de masculinidade maximizada e agressiva.

Enquanto o Reich tinha as estátuas de corpos masculinos musculosos esculpidos por Arno Breker, nós teremos os corpos esculpidos a socos pelos influencers redpill e a fantasia de G.I. Joes, ou Comandos em Ação, aqueles bonequinhos de soldados estadunidenses musculosos criados na década de 60 – cheios de testosterona de Trump.