
As reflexões que dão origem a este texto foram construídas a partir do estudo e da leitura do editorial “Ataque dos porta-vozes do capitalismo mostra prestígio do socialismo”, publicado no portal Vermelho. O texto chama atenção para um fenômeno cada vez mais evidente: o crescimento do interesse pelas ideias socialistas entre amplos setores da juventude, ao mesmo tempo em que setores conservadores intensificam seus ataques a essas concepções.
O termo “uma nova safra de socialistas”, frequentemente utilizado de forma pejorativa por defensores da ordem capitalista, acaba revelando uma realidade que já não pode ser ignorada: cresce entre a juventude uma percepção crítica sobre os rumos do mundo e a necessidade de construir alternativas ao modelo vigente. Trata-se de uma geração que não apenas opina sobre os problemas do presente, mas busca compreender suas causas e apontar novos caminhos para a economia, a política e a organização da sociedade.
Enquanto a polarização promovida pelos setores dominantes tenta reforçar valores como a competição desenfreada, o individualismo e uma visão distorcida da meritocracia, grande parte da juventude se mostra cada vez mais atenta às guerras, às investidas imperialistas e às consequências sociais de um sistema econômico que concentra riqueza e amplia desigualdades. Essa mudança de perspectiva abre espaço para o fortalecimento das organizações juvenis comprometidas com a transformação social, mas também evidencia a importância da disputa de ideias em novos territórios.
Há anos essa disputa acontece nas redes sociais e plataformas digitais como TikTok, Twitch, Reddit e Discord. Embora a esquerda tenha perdido espaço em determinados momentos para discursos excessivamente personalistas, experiências coletivas desenvolvidas por organizações juvenis e movimentos sociais demonstram que é possível construir influência política a partir da organização, da formação e da comunicação popular.
Nesse contexto, o lema do nosso congresso “O futuro é agora: por um Brasil de esperança e socialista” nos convoca a assumir uma responsabilidade histórica. Ele coloca a juventude no centro da narrativa e reafirma que somos protagonistas das transformações necessárias para o país. Somos nós que abandonamos os estudos para trabalhar, que enfrentamos a precarização do trabalho e os subempregos, que convivemos diariamente com a insegurança econômica e que, muitas vezes, somos levados pelas falsas promessas do empreendedorismo individual como solução para problemas coletivos.
A crise estrutural do capitalismo torna essa realidade cada vez mais evidente. O aumento da desigualdade social, a precarização das relações de trabalho, as guerras, a crise ambiental, a inflação, o alto custo da moradia e a insegurança diante das transformações tecnológicas são expressões de um sistema que demonstra limites profundos para responder às necessidades da maioria da população. Assim como o capitalismo surgiu das contradições do feudalismo, ele também produz as condições para sua própria superação. As dificuldades concretas enfrentadas pela juventude alimentam a busca por alternativas e impulsionam o crescimento do interesse pelo socialismo.
O debate apresentado a partir do editorial da revista The Economist sobre o chamado “socialismo da Geração Z” ilustra bem esse fenômeno. Mesmo defendendo o combate às ideias socialistas, o próprio editorial reconhece que os jovens enfrentam problemas reais relacionados ao custo de vida, à moradia e à insegurança quanto ao futuro do trabalho. A preocupação desses setores não decorre apenas da existência de jovens insatisfeitos, mas do fato de que muitos deles começam a identificar no socialismo uma alternativa para enfrentar os desafios contemporâneos.
Essa constatação revela uma mudança importante no cenário político e ideológico. Durante décadas, difundiu-se a ideia de que o socialismo havia sido definitivamente derrotado e que o capitalismo representava o único caminho possível para a humanidade. No entanto, a experiência concreta das novas gerações vem colocando essa narrativa em xeque. Nossa geração cresceu assistindo a sucessivas crises econômicas, ao aumento da desigualdade, à dificuldade de inserção no mercado de trabalho e ao enfraquecimento das perspectivas de ascensão social. Ao mesmo tempo, testemunhamos um avanço tecnológico sem precedentes, capaz de produzir riqueza em escala gigantesca, mas que continua concentrada nas mãos de poucos.
Além disso, torna-se cada vez mais urgente discutir o papel da tecnologia na construção do futuro. Uma das maiores preocupações da juventude atualmente está relacionada aos impactos das novas tecnologias sobre o mundo do trabalho. A automação, a inteligência artificial e os avanços digitais são frequentemente apresentados como ameaças aos empregos e à estabilidade econômica das novas gerações. Essa preocupação é legítima, mas revela um problema mais profundo: a tecnologia, hoje, está majoritariamente concentrada nas mãos de grandes corporações globais que orientam sua produção e utilização segundo a lógica do lucro, e não das necessidades humanas.
O problema não está na tecnologia em si, mas em quem a controla e para quais objetivos ela é desenvolvida. Em vez de servir à redução das desigualdades, à ampliação do acesso ao conhecimento e à melhoria das condições de vida da população, grande parte das inovações tecnológicas acaba sendo utilizada para ampliar a concentração de riqueza, precarizar relações de trabalho, intensificar mecanismos de vigilância e aprofundar a dependência dos países periféricos em relação aos grandes centros do capitalismo mundial.
Por isso, defender um projeto nacional de desenvolvimento também significa defender uma tecnologia para todos. Uma tecnologia socialmente orientada, comprometida com a soberania nacional, com a democratização do conhecimento e com a melhoria da vida do povo brasileiro. O Brasil não pode se limitar a consumir tecnologias produzidas por outros países; precisa formar cientistas, pesquisadores, programadores, engenheiros e trabalhadores capazes de desenvolver soluções voltadas para os desafios nacionais.
Nesse sentido, é fundamental que a educação tecnológica esteja presente nas salas de aula de todo o país. Não apenas como formação técnica para o mercado de trabalho, mas como instrumento de emancipação, criatividade e desenvolvimento nacional. Precisamos garantir que as escolas brasileiras preparem uma geração capaz de compreender, produzir e disputar os rumos da revolução tecnológica em curso. Investir em ciência, tecnologia e inovação desde a educação básica é construir soberania, fortalecer a indústria nacional e preparar os jovens para serem protagonistas do futuro, e não apenas consumidores passivos de tecnologias produzidas por interesses privados.
A luta por um Brasil soberano e socialista passa também pela democratização da tecnologia e do conhecimento. Afinal, uma sociedade que pretende superar as desigualdades não pode permitir que os instrumentos mais avançados de produção e desenvolvimento humano permaneçam concentrados nas mãos de poucos. A tecnologia deve servir ao povo, ao desenvolvimento nacional e à construção de uma nova geração preparada para transformar a realidade brasileira.
Por isso, o crescimento do interesse pelo socialismo não pode ser compreendido como uma moda passageira. Trata-se da expressão política de uma juventude que busca respostas para problemas que o capitalismo não consegue solucionar. Quando milhões de jovens encontram dificuldades para estudar, trabalhar, conquistar independência financeira e construir um projeto de vida digno, torna-se inevitável questionar as estruturas existentes e buscar novos horizontes.
Nesse cenário, o ataque constante ao socialismo revela, paradoxalmente, sua força política. Quando a burguesia, os grandes meios de comunicação e os mecanismos de reprodução ideológica do capitalismo dedicam esforços para combater as ideias socialistas, demonstram que essas ideias voltaram a ocupar espaço relevante na disputa de consciência da sociedade. O problema para esses setores não é apenas o descontentamento social, mas a possibilidade de que esse descontentamento se organize politicamente em torno de um projeto transformador.
Isso reforça um desafio estratégico para as organizações revolucionárias: intensificar a disputa de ideias. A luta política não acontece apenas nas ruas, nas escolas ou nas instituições. Ela ocorre também no terreno da cultura, da comunicação e da formação política. É necessário combater o anticomunismo, desmistificar preconceitos construídos ao longo de décadas e apresentar de forma clara o que entendemos por socialismo, conectando esse projeto às necessidades concretas da juventude.
Ao mesmo tempo, o debate sobre o socialismo no século XXI não pode permanecer preso exclusivamente às disputas do passado. A juventude quer discutir emprego, educação, ciência, tecnologia, sustentabilidade, democracia e qualidade de vida. O desafio das forças progressistas é demonstrar como um projeto de desenvolvimento nacional, soberano e socialista pode responder concretamente a essas demandas e oferecer um horizonte de esperança para as novas gerações.
Nesse sentido, experiências contemporâneas de desenvolvimento, como a experiência chinesa, aparecem frequentemente no debate como referências para refletir sobre a capacidade de combinar planejamento estatal, avanço tecnológico, crescimento econômico e melhoria das condições de vida da população. Independentemente das particularidades de cada processo histórico, essas experiências contribuem para demonstrar que existem alternativas aos modelos neoliberais dominantes.
Há ainda uma disputa fundamental que atravessa a luta política da nossa geração: a disputa pelo significado do patriotismo brasileiro. Durante anos, setores da extrema-direita tentaram se apropriar dos símbolos nacionais, sequestrando as cores verde e amarela, a bandeira e o sentimento de pertencimento ao Brasil para associá-los a um projeto autoritário, antipopular e subordinado aos interesses estrangeiros. Essa tentativa não pode prevalecer.
A juventude brasileira tem a responsabilidade de recuperar o verdadeiro sentido do patriotismo. Amar o Brasil não significa defender privilégios ou reproduzir discursos de ódio. Amar o Brasil significa defender seu povo, sua soberania, sua cultura, suas riquezas naturais, sua democracia e seu direito de construir um caminho próprio de desenvolvimento. O patriotismo não pertence ao fascismo, não pertence à extrema-direita e não pertence às elites econômicas. O patriotismo pertence ao povo brasileiro.
Por isso, precisamos reafirmar que o Brasil é dos brasileiros e que nossas cores também são. Vestir verde e amarelo não pode ser sinônimo de intolerância, autoritarismo ou exclusão. Deve ser a expressão do orgulho de um país diverso, trabalhador, criativo e comprometido com a justiça social. Resgatar os símbolos nacionais para o campo popular é também disputar consciências, fortalecer a identidade nacional e construir um projeto coletivo capaz de unir a juventude em torno da defesa da soberania e do desenvolvimento do Brasil.
O socialismo que defendemos não se opõe ao sentimento nacional; pelo contrário, nasce do compromisso profundo com o povo brasileiro e com a construção de uma nação livre de qualquer forma de dependência econômica, política ou cultural. Defender um Brasil soberano e socialista é também defender a bandeira nacional como símbolo das lutas populares, da democracia e da esperança de um futuro melhor para todos os brasileiros.
Por fim, permanece central o papel da juventude nas transformações sociais. A história demonstra que os jovens estiveram presentes em momentos decisivos da luta política brasileira, desde as mobilizações estudantis até campanhas democráticas e populares que marcaram diferentes gerações. Também hoje cabe à juventude não apenas reivindicar melhorias imediatas, mas participar ativamente da construção de um projeto nacional baseado na soberania, na democracia, nos direitos sociais e na perspectiva de superação das desigualdades.
Nós, que construímos entidades estudantis e fortalecemos a organização da juventude em todo o Brasil, assumimos a responsabilidade de travar essa batalha política e ideológica. Precisamos encontrar, filiar, formar e mobilizar os jovens que já demonstram disposição para conhecer e construir um novo projeto de sociedade. Fortalecer nossas trincheiras significa fortalecer a esperança de um Brasil soberano, democrático e socialmente justo.
O crescimento das ideias socialistas está diretamente ligado ao protagonismo da juventude e à sua recusa em aceitar a desigualdade, a precarização e a falta de perspectivas como algo natural. É por isso que o lema do nosso congresso adquire um significado ainda mais profundo: o futuro não é uma promessa distante. O futuro é agora. E ele será construído pela juventude na luta por um Brasil de esperança, soberano e socialista.
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Texto escrito com a colaboração de:
Mariana Chagas – Tesoureira
Kleyton Pimentel – Coordenador de Coletivo e Diretor de Grêmios
Paulo Viana- Relações Institucionais
Arthur Melo- Comunicação
Elias Simões – Relações Internacionais
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