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Um grupo de professores e professoras lançou um manifesto intitulado “Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica”. O texto abaixo é uma amplificação, uma posição e uma contraposição a este manifesto. Não se trata de discutir a centralidade e a importância do pluralismo acadêmico em nossas instituições universitárias. Isso é ponto nodal da atividade acadêmico-científica. Aqui, a questão é totalmente outra: qual pluralismo queremos defender.
Este texto se contrapõe ao manifesto de colegas que se reuniram no Centro MariAntônia, na Universidade de São Paulo, em abril de 2026, para um seminário intitulado “Pluralismo e liberdade acadêmica nas universidades”. Ao fazê-lo, buscamos amplificar o debate e escutar, na vida universitária, uma multiplicidade de vozes democráticas, assumindo uma posição declaradamente favorável à igualdade democrática. Por mais irônicos que sejam os tempos atuais, ainda é preciso falar de igualdade democrática nas universidades.
A questão que orienta este texto é a contra-argumentação a uma dinâmica sociopolítica crucial: a diferença entre um pluralismo democrático e igualitário e uma mera coleção de opiniões isoladas que, descontextualizadas de sua história e de seu tecido social, geram hostilidade e ressentimento na defesa de um pluralismo assentado na racionalidade neoliberal.

A questão nodal aqui não é apenas diagnosticar o que denominamos “pluralismo desencarnado”: um pluralismo que, ao se desvincular da história e da sociedade, não pluraliza o poder, mas multiplica o ressentimento. Mas também argumentar acerca da liberdade acadêmica: não da liberdade abstrata, e sim da liberdade endossada pelo princípio da igualdade democrática; da liberdade que considera a história como movimento de lutas e disputas, uma aprendizagem social de longo prazo; e da ética como um conjunto de premissas que a interrogam acerca de sua busca pela igualdade de direitos.
A racionalidade neoliberal, intrincada em nossas relações, exige um esforço adicional para que sua crítica se torne mais aguda. Um de seus mecanismos mais centrais é a desconsideração histórica, ou seja, a ausência de contexto histórico em relação a uma ideia. Desencarnar as ideias da história das sociedades resulta na perda de profundidade e de responsabilidade. Sem uma perspectiva histórica, todas as ideias parecem ter o mesmo peso e a mesma validade; por isso, parecem plurais quando, no entanto, são ideias particulares de uma comunidade bastante específica: a comunidade do ressentimento.
É nesse sentido que Wendy Brown e Melinda Cooper chamaram a atenção para uma compreensão do neoliberalismo não apenas como um conjunto de políticas econômicas, mas também como uma racionalidade governamental que incide sobre subjetividades, instituições e, sobretudo, a própria noção de petição política (BROWN, 2015; COOPER, 2017). Ao converter cidadãos em agentes de mercado e transformar questões coletivas em preferências individuais e opiniões, o neoliberalismo produz exatamente o a-historicismo que aqui criticamos: um presente eternamente novo, descolado de qualquer movimento histórico e, portanto, incapaz de aprender e reconhecer os elementos relacionais do passado ou as conquistas arduamente construídas.
Essa desencarnação do tempo histórico tem uma consequência direta na noção de pluralismo: sem memória coletiva das lutas e dos embates políticos, o debate de ideias perde sua dimensão de responsabilidade ética e política. A sociedade existente, resultado de longos processos históricos de luta, negociação e conquista, aparece ao olhar desencarnado e ressentido como um obstáculo irracional à “nova” ideia de um pluralismo sem igualdade democrática; e não como a sedimentação complexa do esforço humano coletivo para constituir-se como sujeito político. O truque afetivo aqui acionado é que a desencarnação das petições e das ideias acaba por fomentar afetos políticos como o ressentimento: ao ignorar a história e suas complexidades, a comunidade de ressentidos lê a resistência das instituições e dos grupos sociais como má-fé, o embate político como aniquilação e a liberdade como mera opinião, em vez de encarar a história como o peso legítimo de uma herança compartilhada.
Em States of Injury, Brown (1995) mostra que o ressentimento pode se tornar não apenas um subproduto do pluralismo desencarnado, mas também sua própria lógica constitutiva. Relendo Nietzsche (2009), a autora desenvolve o conceito de “identidades feridas” (wounded identities): identidades políticas que se constituem em torno da dor, da vitimização e do dano sofrido.
O problema aqui não está em reconhecer o dano; ele existe, e reconhecê-lo é necessário e justo. O problema está em não compreender como a identidade passa a depender, estruturalmente, do obstáculo que a constitui como um momento intrínseco a ela, como seu próprio conteúdo. Nesse ponto, o ressentimento deixa de ser uma reação para se tornar uma posição melancólica que instala a petição marcada pelo objeto obstaculizador: uma identidade residual da própria dor.
O sujeito do ressentimento nietzschiano formula o ‘eu’ como vítima e o ‘outro’ como culpado e, nessa operação, reproduz exatamente a lógica de poder que afirma combater. (BROWN, 1995, p. 68-69, tradução nossa)
Compreendido esse elemento constitutivo do pluralismo desencarnado, percebe-se que um debate de ideias não ancorado na responsabilidade histórica e social desliza facilmente para uma dinâmica em que grupos e comunidades não debatem mais propostas, mas agem como identidades feridas, depurando termos à luz de seus próprios interesses e se apresentando como vítimas de ataques, pois se entendem como “iluminados da liberdade acadêmica”.

É nesse contexto que a ideia de liberdade se apresenta completamente desvinculada de qualquer articulação com a igualdade, a não ser em relação de oposição. Dar sua opinião parece ser sinônimo de liberdade de expressão; porém, como essa opinião está constituída e movida pela melancolia da ferida e pelo ressentimento, ela encarna sempre a ideia de que os direitos do outro obstaculizam os próprios direitos. Ernesto Laclau (2005) já demonstrou que petições podem ser oriundas de posicionalidades distintas, mas, para que inaugurem um campo político e um limite às lógicas hegemônicas, elas precisam criar uma cadeia de equivalências; do contrário, como elementos soltos e livres, alimentam e solidificam cada vez mais as hegemonias hierárquicas dos direitos como se fossem privilégios.
Pode-se apreender, portanto, a dimensão propriamente política como parte de nossa contraposição: o ressentimento é, antes de tudo, uma renúncia à ação. A comunidade do ressentimento não age: ela reage, imputa e acusa. É por esse caminho que um pluralismo robusto e democrático deverá se contrapor, assumindo a posição de que, sustentado pela história, pelo compromisso entre os e as participantes e pela ética da liberdade democrática, transforma a disposição para o conflito em deliberação, a dor do dano em demanda por equivalência e o afeto arruinador em projeto coletivo.
A ausência desse pluralismo da igualdade democrática, de um ‘nós’ histórico e social, produz a sensação de que a crítica ou o fracasso de uma ideia seja percebido como afronta pessoal, cancelamento virtual, interrupção forçada ou agressão, e não como parte de um processo complexo de embates e disputas no campo político. Sem a mediação do coletivo e da história, o dissenso vira ofensa e a política, julgamento moral. O que se vê de fato é que muitos e muitas colegas que advogam pelo pluralismo desencarnado, o manifesto assinado que tomamos aqui como ponto crítico é um bom exemplo, em verdade são confrontados pelo debate público, este sim plural, recheado por vozes nunca escutadas anteriormente, tidas como incapazes, ruídos inescrutáveis, corpos não reconhecidos, experiências descartadas, quando não patologizadas e criminalizadas, e que agora são legítimas de reconhecimento, participação e consideração nas inúmeras arenas de embate.
Não por outros motivos, a comunidade ressentida passa a reivindicar ordenamentos e arbitragens normativas já em disputa, exigindo condenações e exclusões como se fossem opiniões livres e legítimas. Argumenta por crimes e exclusivismos exatamente porque, desencarnada da história e ressentida pela dor da melancolia, apresenta-se como defensora de uma suposta neutralidade do método e da ciência em pleno século XXI. Advogar pela neutralidade institucional é o mesmo que negar a própria história: quando as instituições universitárias foram neutras? Enquanto dominadas por um certo grau de elitismo e por um sentido iluminista, as chamadas posições vanguardistas não tinham uma posição política definida?
Um debate socialmente engajado exige compromisso ético, empatia pela diferença e a busca pelo alargamento democrático da igualdade: o bem comum não é mais definido por uma elite que se julga iluminada e intelectual, mas pela cidadania. O pluralismo desencarnado, ao contrário, promove a “opinião” como direito absoluto e irredutível, sem o dever correspondente de engajamento prático e de consideração pelas consequências coletivas. Mais do que isso, o pluralismo desencarnado entende a petição da diferença como ameaça à própria identidade, percebe a luta do outro como luta contra si e instala, portanto, uma nova forma de disputar: simular o embate em defesa do plural contra o pluralismo para preservar a permanência da hierarquia social.
É aqui, contudo, que esse liberalismo esvaziado tenta instalar uma comunidade de bem comum aparentemente neutra — como defende o manifesto dos e das colegas reunidos no Centro MariAntônia. Esse tipo de apelo ao “bem comum” ou à “comunidade neutra” normalmente envolve exclusões, diversas homogeneizações e novas formas de opressão, especialmente quando o bem comum é definido a partir de uma identidade dominante que se apresenta como universal, legítima e representativa (BROWN, 2019). É preciso cuidado com esse tipo de liberalismo. Pode ser, ele sim, bastante autoritário, porque insensível às desigualdades. Essa tensão nos obriga a precisar: qual pluralismo encarnado estamos propondo? Um pluralismo que sustente a igualdade democrática e, ao defender o bem comum e a liberdade, o faça a partir da história de seu tempo, encarnada na igualdade e na democracia constitucional das lutas sociais.
Posição: Por um Pluralismo Encarnado
A síntese entre o diagnóstico do pluralismo desencarnado como produtor de ressentimento e a crítica à petição neoliberal permite formular uma proposição mais robusta: o pluralismo de ideias só é construtivo quando encarnado em três dimensões simultaneamente (BROWN, 2015): a história, a sociedade e a ética.
Primeiro, encarnado na história: as ideias precisam ser avaliadas à luz de sua trajetória, de seus antecedentes e de suas consequências no tempo. Sem memória e aprendizagem históricas, o debate se torna um eterno presente de opiniões pseudo-equivalentes, incapaz de distinguir o que foi tentado, o que falhou e o que ainda não foi realizado.
Segundo, encarnado na sociedade: as ideias precisam ser testadas pelo crivo da realidade coletiva, mediadas por instituições constitucionais e democráticas que transformem o conflito em deliberação e a diferença em proposta. O demos não é dado — ele é construído laboriosamente por meio de práticas políticas que reconhecem tanto a igualdade quanto a diferença como momentos decisivos dos parâmetros do pluralismo democrático e da liberdade de cátedra.
Terceiro, encarnado na ética responsável: a liberdade de opinião, para não se tornar monólogo ressentido, exige o dever correspondente de engajamento, de se deixar transformar pelo argumento, de reconhecer o outro como interlocutor legítimo, de aceitar que a rejeição de uma ideia não é uma afronta pessoal, mas parte da vida democrática, e de compreender que as desigualdades não podem ser a garantia da validade de uma suposta opinião livre. A história, a sociedade e a ética responsável devem ser nossos árbitros para uma universidade livre, plural e de direitos equivalentes. Admitir que as universidades são hoje as pontes necessárias entre distintos e legítimos centros e contextos de pensamento e saberes nos parece fundamental para alargar os sentidos do reconhecimento da diferença e a radicalidade dos sentidos da igualdade.
Esse tripé da encarnação, histórica, social e ética é o que distingue o pluralismo democrático do mercado de ressentimentos em que a política contemporânea frequentemente tem sido convertida e depurada. Sem demos, sem história, sem responsabilidade ética, o pluralismo reivindicado pelo manifesto dos e das colegas reunidas no Centro MariAntônia não liberta: apenas multiplica as feridas e legitima ainda mais as hierarquias sociais da desigualdade entre nós.
Somos, portanto, aqui, pelo pluralismo radicalmente baseado na igualdade democrática, aquele que reconhece que a história, a sociedade e a ética responsável alteram as condições discursivas institucionais, e que estas alterações exigem cuidado democrático e elegância crítica para que a liberdade possa ser radicalizada nos parâmetros da igualdade democrática. Se a liberdade de expressão já não é o direito de dizer qualquer coisa sobre qualquer coisa, inclusive de insultar ou agredir verbalmente, a liberdade acadêmica exige um ônus argumentativo muito maior.
Reconhecer que novas vozes no mundo acadêmico e outras formas de produção de conhecimento e saberes são legítimas implicará, sem dúvida, rever qualquer ideia abstrata, supostamente neutra e cinicamente iluminada de liberdade.
Referências
BROWN, Wendy. States of Injury: Power and Freedom in Late Modernity. Princeton: Princeton University Press, 1995.
BROWN, Wendy. Undoing the Demos: Neoliberalism’s Stealth Revolution. New York: Zone Books, 2015.
BROWN, Wendy. In the Ruins of Neoliberalism: The Rise of Antidemocratic Politics in the West. New York: Columbia University Press, 2019.
COOPER, Melinda. Family Values: Between Neoliberalism and the New Social Conservatism. New York: Zone Books, 2017.
LACLAU, Ernesto. On Populist Reason. London: Verso, 2005.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral: uma polêmica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. [1887]
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