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Vaterland: Entre a barbárie e a cultura sacrificada

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Pouco após receber a notícia do suicídio de seu filho, um homem idoso e um tanto patético lê, diante de sua primogênita – e, portanto, irmã do rapaz que tirou a própria vida –, um discurso sobre a Alemanha, a cultura e a civilização. Esse homem é Thomas Mann [interpretado no filme por Hanns Zischler]. Trata-se de uma história de retorno. Mann volta à Alemanha após seu longo exílio nos Estados Unidos para receber dois prêmios literários: o Prêmio Goethe, um na Alemanha Ocidental e outro na Alemanha Oriental. Mas a terra pátria é árida, em muitos sentidos. Erika Mann [Sandra Hüller], que acompanha e assiste ao pai durante a viagem, tem a função – de uma perspectiva, à primeira vista, feminista – de fazer valer a máxima de que ninguém é herói diante do próprio camareiro. Mann é retratado como um homem egoísta, vaidoso, frio e descompassado em relação ao próprio tempo. Sua mala, diz a filha, tem mais trajes do que a de Marlene Dietrich.

O filme que rendeu o prêmio de melhor diretor em Cannes (2026) a Pawlikowski (e cujo roteiro foi escrito com Hendrik Handloegten, diretor da excelente série Babylon Berlin) começa com uma conversa telefônica entre Erika e Klaus Mann [August Diehl], o filho desejado sexualmente pelo pai e, ao mesmo tempo, por ele detestado, o escritor frustrado, o homossexual reprimido. Erika implora por sua presença na viagem, mas ele jura que nunca retornará à Alemanha. Enquanto o pai faz seu tour pela terra natal, de Frankfurt a Weimar, Klaus se suicida em Cannes, a mesma cidade que, décadas depois, premiaria o filme sobre essa mesma viagem.

Em ambos os lados da Alemanha dividida, os discursos de Mann soam alienígenas. Nas plateias e soirées do lado ocidental: nazistas (ou ex-nazistas, para aqueles que acreditam nessa possibilidade). A certa altura, Erika se pergunta: onde estavam há cinco anos essas pessoas que hoje elogiam a obra de Mann? O tapa na cara que ela dá em Gustaf Gründgens [Joachim Meyerhoff], seu ex-marido, um dos atores e diretores mais famosos da Alemanha, é um dos pontos altos do filme. Objeto do romance de Klaus Mann, Mephisto, Gründgens tenta justificar sua ligação com o nazismo como um ato de “interpretação”, ossos do ofício de ator. A terra dos teutos, aparentemente, foi um país de grandes atores. Na mesma festa, os descendentes de Wagner, Wieland Wagner [Enno Trebs] e Wolfgang Wagner [Theo Trebs] interpelam Mann para que se pronuncie a favor da reabertura do Festival de Ópera de Bayreuth. O teatro de Wagner, dizem, está ocupado por refugiados. Para convencer o escritor, dizem que ele era o maior admirador da música do compositor em toda a Alemanha. O maior, diz Mann, depois de Adolf Hitler. O teatro deve ser fechado, emenda ele, e sua mãe levada a julgamento por seu apoio ao nazismo.

A fotografia em preto e branco confere um toque vintage ao filme e reforça a impressão de que Thomas Mann é um homem do passado. Ainda assim, o lado oriental é mais cinza do que o ocidental. O escritor está ali para ser recrutado como peça de propaganda. Pai e filha são recebidos com hospitalidade autoritária. Generais querendo discutir “diamat”, denúncias de prisões e torturas de opositores, somados a banquetes oficiais acompanhados de coros de jovens, dão a impressão de que a Alemanha socialista era mais fascista do que a própria Alemanha nazista – o primeiro e mais evidente traço conservador do filme. Num momento em que a Alternativa para a Alemanha (AfD) é o partido neofascista mais influente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e a Alemanha está na soleira dos mesmos tempos sombrios, o filme insiste numa equiparação entre os “extremos”. Sua política é a mesma da chamada opinião pública alemã contemporânea, que circula na mídia conservadora e vê como perigo equivalente à ascensão da AfD o aumento (menos significativo, em termos de governo) do partido Die Linke.

Como em todos os filmes pretensamente políticos atualmente, o enredo se reduz a um drama familiar. Erika repreende o pai por sua frieza e insiste que a viagem é um erro, um ato de vaidade decorrente da velhice. Mais do que isso. A viagem seria um sintoma da megalomania de Mann, que não compreende que, de fato, ninguém lhe dá ouvidos. A montagem do filme nos incita a simpatizar com a sua perspectiva e o papel de Erika é brutalmente enriquecido pela atuação de Sandra Hüller. Numa das primeiras noites na Alemanha, ao escutar um bando de bêbados, embaixo da janela do quarto de hotel, cantando a canção “In einem Polenstädtchen”, ela grita: “Calem a boca, seus fascistas imundos! Assassinos!”. O ímpeto e a revolta de seu grito são o que falta hoje à política alemã. Aqui a Muttersprache se vinga da Vaterland – e não é à toa que o protesto vem de uma mulher.

Mas a pretensa abordagem feminista torna opaca outra mensagem subjacente. O filme tem o mérito de mostrar como a Alemanha procurou, ao longo de sua história, apropriar-se de seus maiores pensadores, convertendo-os em emblemas de uma tradição nacional, com a notável exceção de Karl Marx, expatriado de seu próprio país e, em certo sentido, ainda hoje persona non grata. Como observou Theodor W. Adorno em “Sobre a pergunta: o que é ser alemão?”, o selo “made in Germany”, aplicado a figuras que vão de Immanuel Kant a Beethoven e Goethe, contradiz justamente o conteúdo de suas obras que, mirando a universalidade, são irredutíveis a qualquer apropriação nacionalista. O mesmo poderia ser dito de Thomas Mann; ao contrário de Marx, ao menos na superfície, uma persona troppo grata. Porém, de todas as ambiguidades contidas na vida e obra de Thomas Mann, como o apoio à Primeira Guerra Mundial, e os dois livros associados a ela – Reflexões de um homem apolítico (1918) e, posteriormente, o livro de revisão dessa posição, a obra-prima A Montanha Mágica (1924), Pawlikowski opta por retratar o escritor como um homem envelhecido e um escritor vaidoso, pai ausente e implacável, inconsciente da impotência da cultura diante da barbárie. Muito mais interessante seria mostrar como as posições de Mann antes da Primeira Guerra (que se veem por todos os lados hoje), seu desprezo pela democracia e sua defesa do povo [Volk] alemão foram um equívoco, reconhecido pelo próprio autor, e que, com a ascensão de Hitler, se tornou uma das vozes antifascistas mais importantes do mundo. Mas Pawlikowski opta por utilizar a perspectiva feminista sobre o autor (que não deixa de ser interessante) para sacrificar a cultura. O movimento é perverso: a verdade aqui, supondo que tudo o que se retratou sobre Mann seja verdadeiro, funciona como ideologia. Num momento como o que vivemos hoje, um filme sobre Thomas Mann não pode deixar de ser também um filme sobre o destino da Europa e do resto do globo. Na Alemanha atual, mesmo as pessoas mais progressistas associam indiscriminadamente a cultura erudita alemã ao conservadorismo, pois deixaram de questionar o rótulo nacional atribuído a essas obras. Para ser progressista é preciso ser anti-alemão e, para ser anti-alemão, é preciso renegar aquilo que se transformou em seu “patrimônio cultural”.  A esquerda deixou esse legado aos herdeiros de Hitler, ainda que as obras dos autores supramencionados estejam a serviço de outra causa.

Numa cena em que Thomas Mann concede uma entrevista assim que chega à Alemanha, um jornalista pergunta onde é o seu lar; Mann é condenado por ter abandonado o seu país durante o nazismo. O homem que um dia disse “Onde eu estou, está a Alemanha” responde que mora nos Estados Unidos, mas que a questão a respeito de seu lar [Heimat] é mais complicada. Esse talvez seja o único momento em que o filme é fiel ao legado de Mann. Susan Sontag, sua admiradora ferrenha, escreveu certa vez que ser um cidadão da literatura é possuir uma cidadania internacional (e, mais do que isso, internacionalista). Esta foi negada a Mann pelo filme de Pawlikowski, que o reduziu a peça de museu da chamada cultura clássica e do patriarcado. Mas se a cultura não protege contra a barbárie, tampouco seu sacrifício serve a uma política de esquerda. Se a Europa permanece, como escreveu Aimé Césaire, indefensável, é também entre seus dissidentes que devemos buscar nossos aliados.

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