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Venezuela se arma para resistir a ofensiva dos EUA após décadas de cerco

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor um “bloqueio total” a petroleiros ligados à Venezuela marcou uma nova escalada na relação entre os dois países. Caracas denunciou a medida como ato belicista e parte de uma estratégia de intimidação que inclui operações militares no Caribe, responsáveis por ao menos 95 mortes desde setembro, segundo dados citados por parlamentares norte-americanos. Para o governo venezuelano, trata-se de pirataria internacional e de uma tentativa explícita de controlar seus recursos naturais.

Duas entrevistas recentes em podcasts analisaram o clima na Venezuela em meio à ofensiva norte-americana. Tanto o pesquisador Pablo Uchoa, entrevistado pelo The Conversation Weekly, quanto o jornalista Rolando Segura, da Telesur, descreve em entrevista a Eleonora Lucena (Tutaméia), os riscos para o governo Trump são enormes diante de uma pressão prolongada que não logrou nenhuma fissura no governo Maduro. Em vez disso, coesionou 90% dos venezuelanos contra a ameaça de invasão, além de unir os governos vizinhos que se sentem ameaçados pelo neocolonialismo dos EUA.

“Apenas o setor mais extremista da oposição venezuelana, acompanha e se pronuncia a favor de uma agressão contra a Venezuela. Em geral, pessoas que não estão no país, entre eles a opositora que foi até Oslo resgatar esse milhão de dólares que lhe deram por um suposto prêmio de paz e, em suas primeiras declarações, aplaudiu essa agressão contra seu próprio país”, diz Segura. Hoje, a oposição de Corina Machado está desgastada até mesmo entre as classes médias do país, especialmente enquanto a economia teve um forte impulso nos últimos anos.

Raízes da doutrina de defesa: do golpe de 2002 à guerra assimétrica
O planejamento defensivo venezuelano remonta à tentativa de golpe contra Hugo Chávez, em 2002. Segundo Uchoa, o episódio foi decisivo para que o então presidente passasse a enxergar a segurança como algo que vai além do campo militar. Inspirado nas experiências do Vietnã e do Iraque, Chávez consolidou a ideia de que uma eventual guerra não seria “exército contra exército”, mas “povo contra um exército”, apostando na resistência prolongada e no desgaste do invasor.

Criada em 2008, a Milícia Bolivariana tornou-se o eixo dessa estratégia. Com milhões de integrantes, segundo dados oficiais, ela integra civis ao sistema de defesa territorial, atuando tanto na vigilância comunitária quanto na preparação para uma eventual ocupação estrangeira. Para analistas, trata-se da chamada “segunda fase da guerra”: após bloqueios e ataques pontuais, viria a resistência popular disseminada, capaz de tornar qualquer invasão extremamente custosa.

Após a morte de Chávez, Nicolás Maduro assumiu em um contexto mais adverso. Sanções econômicas severas, hiperinflação e ofensivas diplomáticas dos EUA aprofundaram a dependência do governo em relação às Forças Armadas, que, atualmente, mantém a vigorosa parceria civil-militar com o governo. Ainda assim, Maduro venceu eleições contestadas pela oposição, mas reconhecidas por observadores internacionais, e reforçou o discurso de defesa da soberania diante do que classifica como tentativa de mudança de regime patrocinada por Washington.

Um dos efeitos centrais de um conflito seria o aprofundamento da militarização da vida política venezuelana. Pablo Uchoa observa que, após a morte de Hugo Chávez, Nicolás Maduro passou a operar em um terreno de ataques a sua legitimidade eleitoral, o que o levou a apoiar-se cada vez mais nas Forças Armadas e no apoio popular. Segundo ele, é nesse contexto que surge a noção de “direção político-militar da revolução”, algo que não era central no período anterior.

Um conflito externo tende a reforçar esse movimento, pois crises bélicas funcionam como mecanismos clássicos de coesão forçada do poder. Como o próprio pesquisador sintetiza, ao analisar lideranças sob pressão: “Um autocrata ama uma crise. A crise é a forma como se mobiliza a base”, diz ele, referindo-se tanto em governos centralizadores como o de Maduro, quanto a Trump, com a diferença entre a eventual desmobilização das bases sociais norte-americanas. O eleitor de Trump se sente traído por suas promessas descumpriras de não envolver os EUA em novos conflitos internacionais.

Ante os primeiros anúncios desta pretensão de invadir o país, de maneira massiva, os venezuelanos e as venezuelanas, se alistaram nas milícias para defender seu país. Segundo Segura, hoje, as Forças Bolivarianas, comandadas pelo grande polo patriótico — que não é só o Partido Socialista Unido da Venezuela, a organização política que lidera o país —, há outra grande confluência de organizações de jovens, de organizações de mulheres, de camponeses, de trabalhadores, que acompanham todo esse processo, que apoiam o ordem constitucional na Venezuela, e estão muito organizados para enfrentar não só essa intenção de agressão contra o país, mas para enfrentar os desafios que está enfrentando a Venezuela durante o último período.

Na prática, na opinião de Uchoa, isso também pode significar maior controle social, repressão a opositores internos e redução do espaço para mediações políticas, sob o argumento da defesa nacional.

Do ponto de vista social, as entrevistas mostram que a preparação para a guerra já impacta o cotidiano das comunidades. A estratégia de defesa territorial descrita por Uchoa envolve a divisão de bairros em áreas monitoradas por grupos comunitários, formando uma malha densa de vigilância.

Ele explica: “Você teria um tecido social em que seria muito difícil penetrar, porque qualquer pessoa vista como hostil poderia ser atacada.”

Esse modelo, pensado como resistência a uma invasão estrangeira, tem efeitos ambíguos. De um lado, fortalece a ideia de soberania popular e participação direta na defesa do país. De outro, pode estimular desconfiança permanente, denúncias entre vizinhos e um clima de medo, reforçado por ferramentas como aplicativos de vigilância e operações de segurança que, segundo o próprio entrevistado, ficaram conhecidas como “toque na porta no meio da noite”.

Cotidiano, apoio popular e rejeição à guerra
Apesar das ameaças, Caracas mantém um clima de relativa normalidade. O jornalista Rolando Segura, da Telesur, descreve em entrevista a Eleonora Lucena (Tutaméia) uma capital em rotina cotidiana, ainda que atenta à pressão externa. Pesquisas recentes indicam que mais de 90% da população venezuelana rejeita uma invasão estrangeira, posição compartilhada inclusive por setores da oposição. Nos próprios EUA, levantamentos apontam maioria contrária a uma guerra contra a Venezuela.

Para analistas e autoridades venezuelanas, a ofensiva dos EUA reflete a tentativa de reafirmar hegemonia sobre uma região rica em petróleo, minerais e água, em um momento de avanço das relações da América Latina com China, Rússia e Irã. Uma intervenção militar, alertam, poderia desestabilizar todo o continente, ampliando fluxos migratórios e conflitos. Nesse cenário, Caracas aposta que a preparação de duas décadas funcione como dissuasão e transforme qualquer agressão em um “novo Vietnã” para Washington.

As entrevistas também deixam claro que um conflito não seria apenas militar, mas profundamente econômico e social. Rolando Segura destaca que, apesar da aparente normalidade nas ruas, a pressão externa já começa a ser sentida: “A vida continua em sua cotidianidade, mas começa a se sentir a tensão, sobretudo do ponto de vista econômico, na compra de presentes de Natal.”

Sanções, bloqueios navais e instabilidade afetam inflação, abastecimento e renda, penalizando diretamente a população civil. Um conflito armado ampliaria esses efeitos, agravando desigualdades e precarizando ainda mais as condições de vida, sobretudo nos setores populares.

Migração em massa e desestabilização regional

Uma das consequências mais graves apontadas nas entrevistas é o impacto migratório. Segura alerta que uma invasão poderia provocar um deslocamento populacional de grandes proporções:

“Os analistas coincidem que isso se converteria em uma desestabilização de toda a região.”

A migração venezuelana já exerce pressão política em países vizinhos e, segundo Uchoa, é instrumentalizada por forças conservadoras na América Latina:

“Os venezuelanos na região empurram o debate político para a direita, e isso dificulta uma posição comum contra uma invasão.”

Um conflito armado, portanto, não apenas ampliaria fluxos migratórios, como reorganizaria o tabuleiro político regional, fortalecendo discursos securitários, xenófobos e autoritários.

Politicamente, as entrevistas sugerem que uma guerra contra a Venezuela aprofundaria a polarização ideológica na América Latina. O país já funciona como símbolo usado tanto pela direita quanto pela esquerda, o que dificulta respostas diplomáticas unificadas. Além disso, Segura aponta o descrédito dos organismos internacionais diante da escalada militar: “Os organismos internacionais não foram capazes de deter nem o genocídio na Palestina. Pouco se pode esperar deles em situações como esta.”

Esse vazio institucional reforça a percepção de que conflitos passam a ser resolvidos pela força, não pelo direito internacional, o que fragiliza ainda mais a ordem multilateral.

Soberania como linha vermelha
Entre discursos inflamados, preparação militar e mobilização popular, a Venezuela reafirma que sua defesa não depende de potências aliadas, mas da própria população. Para o governo e seus apoiadores, o conflito em curso não é apenas nacional, mas um embate simbólico contra o retorno explícito de pretensões coloniais na América Latina. Segura demonstra que é difícil para os vizinhos entenderem o orgulho histórico dos venezuelanos sobre sua soberania. Este povo, de acordo com ele, não pretende contar com ajuda militar russa ou chinesa para se defender. “A Venezuela é defendida pelos venezuelanos e as venezuelana.”

Por fim, as entrevistas indicam que um conflito armado tenderia a radicalizar identidades políticas internas. Segura destaca que, mesmo entre opositores ao governo, há ampla rejeição a uma agressão estrangeira: “Mais de 90% da população rejeita as intenções de invadir o país.”

Isso sugere que uma invasão poderia fortalecer sentimentos nacionalistas e de resistência, mas também fundir crítica ao governo com traição à pátria, reduzindo o pluralismo político. A defesa da soberania passa a ser o eixo central da vida social, com custos elevados para a diversidade democrática.

Como resume Uchoa, a mudança de regime pode até parecer simples “no papel”, mas a sustentação de um país sob ocupação ou guerra prolongada seria o verdadeiro desafio — com custos humanos e políticos que recaem, sobretudo, sobre a população civil.

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