Em um cenário internacional marcado por conflitos, instabilidade política e disputa por influência econômica, o governo brasileiro levou à Europa uma agenda que combinou posicionamento político e articulação econômica. Em Barcelona, ao participar de encontros com lideranças internacionais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender mudanças no sistema multilateral. “A ONU não pode ficar silenciosa”, afirmou. Em seguida, sintetizou o eixo central da viagem: “A governança global precisa mudar”.
A declaração, feita durante agenda no dia 17 de abril, se insere em um momento de questionamento sobre a capacidade de resposta das instituições globais. Ao longo dos compromissos, Lula reiterou a crítica ao modelo atual. “Não é possível manter instituições que não representam o mundo de hoje”, disse, ao defender maior participação de países emergentes nos processos decisórios.
No mesmo dia, durante mobilização internacional de lideranças progressistas também realizada em Barcelona, o presidente associou a crise institucional ao ambiente político global. “Temos que substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança”, afirmou, ao defender uma atuação internacional baseada em cooperação e diálogo.
A participação brasileira ocorreu em um encontro que reuniu chefes de Estado e representantes de governos europeus e latino-americanos, entre eles o presidente do governo da Espanha, Pedro Sánchez. Na declaração conjunta da I Cúpula Espanha-Brasil, os dois países reafirmaram o compromisso com o multilateralismo, a cooperação econômica e o fortalecimento das relações entre América Latina e União Europeia. O documento registra a defesa de uma agenda “compartilhada e inclusiva”, com foco em desenvolvimento sustentável, inovação e integração produtiva.
A defesa do multilateralismo foi reiterada em diferentes momentos da agenda. “O mundo precisa voltar a dialogar”, afirmou o presidente, ao comentar o papel das instituições internacionais diante da escalada de tensões globais. Em outra frente, reforçou a necessidade de maior protagonismo brasileiro. “O Brasil cansou de ser tratado como invisível”, declarou durante agenda empresarial.
Pressão por mudanças globais
As falas do presidente ao longo da viagem delineiam uma estratégia de reposicionamento do Brasil no cenário internacional. Ao defender mudanças na governança global, o governo federal busca ampliar sua presença em fóruns multilaterais e fortalecer sua capacidade de negociação em temas como clima, comércio e desenvolvimento industrial.
Essa atuação se articula com a intensificação de acordos bilaterais e parcerias. Em Barcelona, foram assinados 15 atos bilaterais entre Brasil e Espanha, envolvendo áreas como comércio, inovação, serviços, ciência e tecnologia e cooperação produtiva.
Entre os principais pontos está o memorando de entendimento sobre minerais críticos, considerados estratégicos para a transição energética e para cadeias industriais de maior valor agregado. O acordo prevê cooperação ao longo de toda a cadeia produtiva, da pesquisa à inovação, e destaca a soberania sobre os recursos naturais.
Retornos financeiros e ampliação de investimentos
A agenda econômica foi acompanhada por articulação direta com o setor produtivo. A ApexBrasil organizou uma cúpula empresarial com a participação de representantes do governo federal e de grandes grupos espanhóis, em áreas como energia, telecomunicações e indústria farmacêutica.
Segundo o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, o ambiente atual favorece a ampliação das relações econômicas. “Brasil e Espanha vivem, talvez, um dos seus melhores momentos para o ambiente de negócio”, afirmou. Ele destacou a importância da estabilidade e da previsibilidade para a atração de investimentos.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, também apontou o peso da relação bilateral. De acordo com ele, a corrente de comércio entre os dois países alcançou US$ 13,9 bilhões nos últimos 12 meses, com superávit brasileiro superior a US$ 4,3 bilhões.
A avaliação do governo federal e das instituições envolvidas é de que a agenda internacional tem contribuído para ampliar o fluxo de comércio e atrair novos investimentos, especialmente em setores estratégicos.
Clima e estratégia
Em outra frente, o governo brasileiro avançou na cooperação ambiental. Em acordo firmado com a Alemanha, foi anunciada a possibilidade de aporte de até 500 milhões de euros ao Fundo Clima, voltado ao financiamento de projetos de transição energética e desenvolvimento sustentável.
A iniciativa reforça o eixo ambiental da política externa brasileira, que busca ampliar o acesso a recursos internacionais e consolidar parcerias para financiamento de políticas públicas.
Em Portugal, Lula destacou o papel do país na estratégia de inserção econômica brasileira na Europa. “Portugal pode ser a grande porta de entrada dos interesses empresariais brasileiros na Europa”, afirmou.
A agenda do governo federal na Europa foi estruturada em dois eixos complementares. De um lado, a defesa de mudanças na governança global e a crítica à atuação das instituições multilaterais. De outro, a consolidação de acordos e parcerias voltadas à ampliação de investimentos e ao fortalecimento da presença brasileira no exterior.
As declarações do presidente mantiveram essa dupla orientação. “O silêncio diante dos conflitos compromete a própria credibilidade internacional”, afirmou, ao comentar o papel da ONU. Em paralelo, reforçou a necessidade de maior participação brasileira. “O Brasil quer ser ouvido”, disse.