
O 1º de Maio é a data mais universalmente celebrada no mundo. Diferente de outras comemorações de caráter religioso ou cultural, o Dia Internacional dos Trabalhadores atravessa fronteiras políticas, religiosas e geográficas e é marcado em países de todos os continentes como expressão da luta histórica da classe trabalhadora.
A passeata do 1º de Maio em Vigo reuniu quase 20 mil trabalhadores e trabalhadoras, destacando-se como a maior mobilização da data em toda a Espanha. À frente do cortejo, uma grande bandeira da Galícia abria caminho pelas ruas da cidade, conduzida por manifestantes e expressando visualmente a identidade do ato. O trajeto partiu do Cruce da Dobrada e avançou pelo centro de Vigo, incorporando populares ao longo do percurso.
Logo após a faixa inicial, o movimento era conduzido pelo som estridente das gaitas de fole, pelas batidas secas dos tambores e pela melodia das flautas transversais, que funcionavam como verdadeira trilha sonora da manifestação. O ritmo não apenas acompanhava, mas organizava o deslocamento coletivo, marcando o passo dos manifestantes e criando uma atmosfera em que cultura e política se entrelaçavam de forma orgânica. Ao longo do percurso, balões nas cores azul e vermelho, com a inscrição “CIG”, sobressaíam na multidão, compondo o cenário visual do ato e enfatizando sua identidade.
No contexto contemporâneo, essa tradição se expressa nas mobilizações do 1º de Maio. Na Galícia, o chamado bloco galego reúne sindicatos, organizações políticas e movimentos sociais que articulam a luta trabalhista com a defesa da identidade e da soberania. A Confederación Intersindical Galega (CIG) desempenha papel central nesse processo, organizando manifestações em diversas cidades e impulsionando um sindicalismo que combina reivindicações econômicas com uma leitura política mais ampla, como a defesa da paz.
A Galícia também apresenta uma particularidade no campo político. A defesa da soberania regional está historicamente vinculada a setores populares e de esquerda, com forte presença no movimento sindical. Diferente de outras regiões do Estado espanhol, como a Catalunha e o País Basco, nos quais o independentismo reúne correntes diversas, incluindo setores conservadores, na Galícia essa pauta se desenvolveu sobretudo ligada à luta social e à defesa dos direitos da classe trabalhadora.
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A presença de bandeiras galegas ao longo da mobilização não significou fechamento político. Ao contrário, o ato evidenciou uma forte dimensão internacionalista. Durante todo o trajeto, eram visíveis diversas bandeiras da Palestina, carregadas por manifestantes em solidariedade ao povo palestino. Chamou atenção a presença de um bloco específico de apoio a Cuba, que organizava a venda de bandeiras como forma de arrecadar recursos para a ilha. Esses elementos demonstram que a afirmação da identidade galega convive com uma leitura global das lutas, conectando o contexto local a causas internacionais.
O ato também contou com a presença de Javier Alfaya, galego de nascimento, baiano por escolha e membro do Comitê Central do PCdoB, que destacou o significado pessoal e político do ato. “Retornar à Galícia e participar deste momento, com trabalhadores nas ruas em uma demonstração de força e alegria, é especialmente importante para mim. A Galícia e sua cultura são parte da minha formação. Estar aqui e trazer o abraço dos comunistas do Brasil reforça nossos laços de solidariedade”, declarou.
Durante a manifestação, a consigna “Contra o imperialismo, paz e soberania. Na Galiza, trabalho digno e direitos” sintetizou essa articulação entre o local e o global, combinando reivindicações sociais com uma crítica ao cenário internacional marcado por conflitos e pelo aumento dos gastos militares.
Ao final do ato, o secretário-geral da central sindical, Paulo Carril, aprofundou essa leitura em sua intervenção, observando “a determinação para seguir avançando para uma sociedade sem exploração”. Em sua fala, avaliou que o momento histórico é marcado por uma escalada militar que beneficia o grande capital, enquanto amplia a precarização social. “Não em nosso nome”, disse, ao rejeitar o uso de recursos públicos para financiar guerras, acrescentando que “não vamos consentir que os recursos da classe trabalhadora galega sejam utilizados para sustentar conflitos imperialistas”.







O dirigente ainda destacou a realidade local, afirmando que “Vigo não quer tanques nas suas ruas, quer carga de trabalho nos estaleiros, quer indústria e emprego digno”. Ao sintetizar a situação da classe trabalhadora, ressaltou que “trabalha-se mais, cobra-se menos e vive-se pior”, intensificando a crítica ao modelo econômico vigente. Ao defender a organização coletiva, frisou que “nada do que temos foi dado”, sustentando que os direitos são fruto da luta.
A mobilização também apontou para a continuidade das lutas, com a convocação de uma nova manifestação prevista para o final do mês, voltada à defesa da paz e à crítica ao militarismo, em resposta ao aumento dos gastos militares e à realização de eventos de exibição das Forças Armadas.
No encerramento da atividade, a dimensão histórica e simbólica se fez presente com a entoação de “A Internacional”, em versão galega, seguida pelo hino Galego, ratificando a identidade cultural e política da região. O momento sintetizou o caráter do ato, no qual internacionalismo e afirmação nacional se entrelaçaram, conectando a luta local a uma trajetória mais ampla da classe trabalhadora. Essa tradição de resistência se expressa em símbolos que atravessam a história galega. A consigna “Antes morto que escravo”, presente na memória de luta do povo galego, sintetiza a ideia de dignidade e recusa à submissão que marcou a presença das trabalhadoras e trabalhadores nas ruas.
A força das mobilizações em Vigo não pode ser compreendida apenas como um fenômeno pontual. Ela é resultado de uma trajetória histórica que articula território, trabalho e identidade. Em um contexto marcado por desigualdades, transformações econômicas e tensões internacionais, o 1º de Maio reitera sua atualidade como momento de organização, resistência e projeção de futuro. Na Galícia, essa perspectiva ganha forma concreta nas ruas, onde o mar, os estaleiros, a cultura e a luta convergem na construção de uma identidade coletiva que se mantém viva.
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