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Violência política de gênero ameaça candidatas e o poder do voto

A violência política de gênero ameaça candidaturas, dificulta o exercício de mandatos e restringe as escolhas do eleitor. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral divulgados pelo Ministério Público Federal, os processos relacionados ao tema passaram de 15, em 2022, para 177 em 2026, no balanço apresentado em setembro. O total equivale a 11,8 vezes o registrado quatro anos antes. MPF.

O avanço dos registros judiciais revela a dimensão do problema que chega às instituições, mas não permite concluir que toda a violência política cresceu na mesma proporção. Processos, denúncias e episódios de agressão são medidas diferentes e não devem ser somados como se representassem uma única estatística.

Por trás dos números estão mulheres que precisam dividir o tempo da campanha com medidas de proteção, denúncias e cuidados com familiares ameaçados. Quando a intimidação dificulta uma candidatura, o prejuízo também alcança quem deseja votar nela.

Mulheres negras são maioria em estudo sobre ataques digitais

A dimensão racial aparece na pesquisa Regime de Ameaça: Violência Política de Gênero e Raça no Âmbito Digital, do Instituto Marielle Franco. O levantamento reuniu 77 casos registrados entre junho de 2021 e julho de 2025, a partir de atendimentos realizados pelo instituto, pela Justiça Global e pela Terra de Direitos. Instituto Marielle Franco.

Nesse conjunto, 87% das vítimas eram mulheres negras, segundo os resultados divulgados pela Agência Brasil. O percentual descreve os casos estudados, sem representar uma estimativa de todas as vítimas no país. Agência Brasil.

O estudo examina como ameaças, exposição de dados, desinformação e ataques à reputação podem ser usados para interromper trajetórias políticas. O ambiente digital amplia o alcance das agressões e permite que a intimidação chegue às equipes e às famílias. Pesquisa do Instituto Marielle Franco.

Candidatas denunciam ameaças em Minas Gerais

Em Minas Gerais, Bella Gonçalves, Ana Elisa Silva e Andréia de Jesus, do PT, registraram denúncias de ameaças de morte e violência sexual entre 5 e 11 de setembro. Segundo reportagem de Luiza Muzzi, publicada pelo UOL, as mensagens expunham informações pessoais das candidatas e de familiares.

As vítimas suspeitam de articulação entre os ataques. Essa hipótese, porém, não equivale à confirmação de autoria ou de uma operação coordenada.

Ao UOL, Bella resumiu uma das consequências: “São ataques que tiram nosso foco da campanha para gastarmos tempo e dinheiro com proteção e segurança”. UOL.

Em outro episódio, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão, em setembro, contra um suspeito de ameaçar uma parlamentar mineira. Segundo a corporação, a investigação começou após o envio, em julho, de mensagens com ameaças à integridade física e dados pessoais da vítima. A PF não divulgou o nome da parlamentar no comunicado. Polícia Federal.

Proteção e respostas institucionais

Minas Gerais aprovou, em 2023, a Lei nº 24.466, voltada ao enfrentamento da violência política contra mulheres. Segundo o UOL, em reportagem de 18 de setembro, a regulamentação ainda estava pendente. Consultado pelo veículo, o governo estadual informou que a elaboração técnica havia terminado e que o texto passava por análise jurídica.

Na mesma reportagem, a cientista política Marlise Matos, da UFMG, avaliou que as ameaças consomem tempo de campanha, provocam desgaste emocional e dificultam a permanência das mulheres na política. UOL.

No plano federal, a Lei nº 14.192, de 2021, incluiu no Código Eleitoral o crime de violência política contra a mulher. A norma alcança condutas como assédio, constrangimento, humilhação, perseguição ou ameaça contra candidatas e detentoras de mandato, quando envolvem discriminação à condição de mulher, cor, raça ou etnia e têm a finalidade de impedir ou dificultar a campanha ou o mandato. Lei nº 14.192/2021.

A violência também atinge comitês e equipes

A intimidação política pode ultrapassar as telas e atingir espaços de campanha. Na Paraíba, um homem foi preso após tentar entrar no comitê de Ricardo Coutinho, candidato a deputado federal pelo PT, em João Pessoa, em 21 de agosto.

Segundo a CBN Paraíba, ele portava uma faca e um simulacro de arma de fogo e foi contido no local. A reportagem informou que as circunstâncias seriam investigadas pela Polícia Civil. O episódio não deve ser automaticamente classificado como violência de gênero nem atribuído a uma organização sem conclusão da investigação. CBN Paraíba.

Por que combater a violência política protege o voto

A violência contra candidatas não atinge apenas sua segurança individual. Pode restringir agendas, afastar apoiadores e tornar mais difícil a participação de mulheres nos espaços de decisão.

Nas eleições, a disputa precisa ser resolvida por propostas, debate público e voto. Quando ameaças determinam quem consegue fazer campanha ou permanecer na política, a liberdade de escolha da população também fica comprometida.