A negociação de R$ 134 milhões com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, as suspeitas de desvio de salários de assessores e as relações com personagens ligados às milícias integram o histórico de denúncias e investigações que acompanha o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa pela Presidência da República.
A poucos dias do segundo turno, esse conjunto de episódios foi reunido pelo site Bolsomaster, em um levantamento com 106 registros e 107 fontes, entre reportagens e documentos. Segundo a contabilidade apresentada pela plataforma, os valores mencionados nos diferentes casos ultrapassam R$ 660 milhões.
Entre os episódios mais recentes está a investigação da Polícia Federal (PF), aberta em julho de 2026, sobre suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas ao financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
Documentos e mensagens revelados pelo Intercept Brasil apontam que Flávio negociou com Vorcaro, dono do Banco Master, um financiamento de US$ 24 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 134 milhões à época. Pelo menos R$ 61 milhões foram repassados para a produção. O escândalo do banco envolve um impacto estimado em R$ 47 bilhões para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Dados extraídos pela PF do celular do banqueiro e examinados pela revista piauí revelaram 110 registros de contato entre os dois ao longo de 11 meses: 96 mensagens e 14 ligações, das quais oito foram atendidas. Entre os conteúdos enviados pelo senador estavam fotos e vídeos de visualização única, encaminhados na semana anterior à prisão de Vorcaro.
Em uma mensagem enviada em 16 de novembro de 2025, véspera da primeira prisão do banqueiro, Flávio o chamou de “irmão”. Apesar da proximidade documentada, o senador apresentou sucessivas negativas sobre a relação. Um levantamento da agência de checagem Aos Fatos identificou ao menos 43 declarações falsas de Flávio sobre seus vínculos com Vorcaro.
A rede de contatos do banqueiro também foi analisada pela piauí em parceria com a organização de segurança digital InterSecLab. Entre as interações identificadas com políticos e autoridades no aparelho examinado, 90% eram com figuras classificadas como de direita. Sete ex-integrantes do governo Bolsonaro concentravam mais de 70% desses contatos.
Viagens, imóveis e proximidade com o banqueiro
O levantamento reúne ainda reportagens sobre viagens de Flávio em aeronaves ligadas a Vorcaro e deslocamentos internacionais com o advogado Willer Tomaz, investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas às fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Também aparecem o uso de um apartamento em São Paulo ligado ao cunhado do banqueiro e a comemoração do aniversário de uma das filhas do senador em uma mansão em Angra dos Reis, administrada por uma empresa que teve Vorcaro como sócio. Willer Tomaz, cotista do imóvel, confirmou tê-lo emprestado a Flávio.
Registros do Portal da Transparência do Senado mostram ainda o ressarcimento de passagens utilizadas pelo parlamentar para ir a São Paulo em 29 de novembro de 2025, um dia após a soltura de Vorcaro. Reportagens relacionaram o deslocamento a uma visita ao banqueiro, que cumpria prisão domiciliar.
Escritório de advocacia e conexões com investigados no INSS
As conexões financeiras e empresariais com personagens investigados nas fraudes do INSS também integram o dossiê. A Bravo Grafeno, empresa que tem Flávio entre os sócios, foi registrada no mesmo endereço de pelo menos 16 firmas ligadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
Segundo levantamento do ICL Notícias, os vínculos incluem serviços de contabilidade e a estrutura utilizada pelas empresas. A irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis, responsável por serviços prestados aos negócios, atua na administração do escritório de advocacia do senador. A defesa atribui a coincidência de endereços ao funcionamento de um espaço de coworking.
E-mails obtidos pela PF indicam ainda que uma conta empresarial ligada a Willer Tomaz tinha um usuário identificado como Flávio Bolsonaro. Os dois negam o compartilhamento da conta e a existência de relações financeiras entre eles.
Em relação ao faturamento advocatício, o escritório do senador emitiu pelo menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, segundo levantamento do UOL. Parte dos documentos foi emitida para outros escritórios de advocacia. O dossiê também reúne registros de notas destinadas a consultorias ligadas ao Banco Master, algumas posteriormente canceladas.
Entre os pagamentos estão R$ 4 milhões provenientes do Nilo & Almeida Advogados Associados, que tem como sócio Edvaldo Nilo de Almeida. Os repasses ocorreram antes de o Senado aprovar a recondução do advogado ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), com voto favorável de Flávio. A última parcela, de R$ 2 milhões, foi transferida 22 dias antes da votação.
Mansões e transações imobiliárias
A proximidade com Willer Tomaz aparece também em uma disputa imobiliária em Angra dos Reis. O jogador Richarlison afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões, em 2020, na aquisição de direitos sobre uma mansão que posteriormente passou a ser reivindicada por uma empresa do advogado.
Flávio visitou a propriedade e, segundo o jogador, apresentou uma proposta de compra que foi recusada. A disputa envolveu procedimentos judiciais e administrativos sobre a ocupação do terreno, pertencente à União. Em 2025, uma decisão favorável à empresa de Willer foi mantida no Superior Tribunal de Justiça (STJ). O senador e o advogado negam irregularidades.
A PF também apura as condições do financiamento concedido pelo Banco de Brasília (BRB) a Flávio para a compra de uma mansão de aproximadamente R$ 6 milhões na capital federal. O empréstimo de R$ 3,1 milhões foi contratado com juros inferiores à média praticada pelo próprio banco e quitado cerca de 27 anos antes do prazo previsto. Flávio afirma que a operação foi legal.
As suspeitas sobre negócios imobiliários são anteriores. Em 2020, o Ministério Público Federal (MPF) apontou indícios de lavagem de dinheiro em operações realizadas quando Flávio era deputado estadual. Foram examinadas 37 transações entre 2005 e 2018, com suspeitas identificadas em pelo menos três delas.
Rachadinhas, loja de chocolates e relações com milicianos
O histórico de acusações inclui o caso das “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) denunciou Flávio sob a acusação de comandar um esquema de recolhimento de parte dos salários de assessores, operado por Fabrício Queiroz, com desvios superiores a R$ 6 milhões.
Entre as pessoas contratadas pelo gabinete estavam a mãe e a então mulher de Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do grupo de extermínio Escritório do Crime. Segundo a denúncia, as duas teriam participado de 310 desvios mediante a devolução de parte dos salários. Reportagens baseadas nas apurações também apontaram suspeitas de que recursos do esquema teriam financiado construções ilegais de milícias no Rio.
A investigação alcançou a franquia da Kopenhagen da qual Flávio era sócio no Via Parque Shopping, na zona oeste carioca. O Ministério Público suspeitava que a loja fosse utilizada para lavar dinheiro das rachadinhas. Extratos bancários revelaram 1.512 depósitos em espécie, com valores repetidos e fracionados, entre março e dezembro de 2018. Para os investigadores, as movimentações eram incompatíveis com o faturamento declarado do estabelecimento.
O caso das rachadinhas foi encerrado após decisões judiciais que anularam provas, incluindo as obtidas por meio da quebra de sigilo bancário. O arquivamento ocorreu sem julgamento do mérito das acusações. Flávio sempre negou irregularidades.
As relações com personagens ligados às milícias também aparecem em atos oficiais. Flávio concedeu homenagens a Adriano da Nóbrega e a Ronald Paulo Alves Pereira, apontado como liderança da milícia de Rio das Pedras. O levantamento recupera ainda condecorações concedidas por Flávio e Carlos Bolsonaro a policiais denunciados por participação em organizações criminosas.
Mais recentemente, a PF identificou a negociação de uma emenda parlamentar entre uma assessora do senador e Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, condenado por organização criminosa no caso Marielle Franco. O repasse de aproximadamente R$ 200 mil foi destinado a uma entidade no Rio. Flávio afirma que a emenda seguiu a legislação e atribui à organização beneficiária a responsabilidade pela execução dos recursos.
Abin paralela e uso da estrutura de governo
As tentativas de utilizar a estrutura federal em benefício de familiares também integram o histórico reunido pelo dossiê. Em 2020, Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça acusando Jair Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal e obter acesso a informações sigilosas. A investigação das rachadinhas de Flávio, por sua vez, era conduzida pelo Ministério Público estadual.
No caso da chamada “Abin paralela”, as apurações apontaram o uso da Agência Brasileira de Inteligência para favorecer a defesa do senador. Uma gravação de reunião realizada em agosto de 2020, com Jair Bolsonaro, integrantes do governo e advogadas de Flávio, registrou discussões sobre medidas relacionadas à investigação e ao acesso a dados fiscais.
A investigação sobre a agência também alcançou o monitoramento ilegal de autoridades, parlamentares e adversários políticos do governo.
Atuação na defesa de policial acusado de matar Ana Clara
A atividade de Flávio como advogado também ganhou destaque na campanha. Já no exercício do mandato de senador, ele integrou a defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de matar Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, atingida por um disparo de fuzil quando brincava na porta de casa, em Niterói, em fevereiro de 2021.
O nome do senador consta no recurso apresentado ao STJ para tentar retirar o policial do julgamento pelo tribunal do júri. O pedido foi rejeitado. A defesa do militar afirma que a atuação de Flávio ocorreu de forma gratuita e dentro das prerrogativas da advocacia, e sustenta a inocência do acusado.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades em seus negócios e afirma que seu patrimônio e suas receitas decorrem de atividades lícitas, incluindo a advocacia. Sobre o financiamento de Dark Horse, sustenta que buscou investimento privado e que os recursos foram destinados à produção do filme.