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Vorcaro, refugiadas e Flávio: Revelando Brasil amplia o foco do escândalo

A Polícia Federal investiga uma possível rede internacional de prostituição financiada por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, que teria recrutado mulheres estrangeiras, entre elas refugiadas de guerra, para eventos privados no Brasil e no exterior. Reportagem de Natália Portinari, Cézar Feitoza e Fabio Serapião, publicada pelo UOL em 13 de outubro, revelou mensagens extraídas do celular do banqueiro que indicam sua participação na seleção das mulheres, na organização das contratações e no financiamento da estrutura. Segundo a reportagem, os investimentos identificados chegam a pelo menos R$ 4,3 milhões.

O conteúdo das conversas é de uma sordidez que dispensa adjetivos. Em uma das mensagens, depois que o promotor de eventos Diogo Batista pergunta sobre a presença de três ucranianas, Vorcaro responde: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”. A frase é especialmente brutal porque não se refere a mulheres em condições quaisquer. As conversas mencionam refugiadas ucranianas, mulheres que deixaram para trás suas casas e suas referências para escapar de uma guerra. Uma delas, segundo as mensagens relatadas pelo UOL, não tinha para onde ir porque sua cidade estava sendo bombardeada. Diego Batista afirmou que a impediu de partir para a Itália em busca de refúgio e, ao comentar a possibilidade de encaminhá-la para a agência, escreveu: “Gata e novinha”.

A vulnerabilidade dessa jovem aparece, assim, como parte de uma negociação. É difícil imaginar retrato mais cruel de uma lógica que transforma sofrimento em vantagem para quem tem dinheiro e acredita que pode dispor da vida alheia.

Em outro áudio vazado, Batista descreveu a Vorcaro o comportamento de uma mulher: “Ela pede permissão até para ir no banheiro. Doutrinamos, meu garoto, nunca mais você verá desvio de conduta”, seguido de um caloroso “saudade de você, irmão”.

O vocabulário é revelador. As mulheres são descritas a partir de sua submissão. As mensagens também levantam questões sobre o papel do dinheiro na manutenção dessa estrutura e até que ponto os recursos financeiros eram usados para viabilizar relações marcadas pela desigualdade de poder.

Ainda de acordo com o UOL , Batista atuava no recrutamento e na organização do grupo e recebia cerca de R$ 120 mil mensais de Vorcaro. A estrutura envolvia agência de modelos, hospedagens, viagens e intermediários. A Polícia Federal investiga suspeitas de exploração sexual e tráfico de pessoas e busca esclarecer se a vulnerabilidade das mulheres foi explorada no recrutamento e se elas tinham condições reais de recusar as contratações ou deixar a rede.

Conexões políticas e jurídicas ampliam o contexto do caso

O caso também lança luz sobre as relações políticas, empresariais e jurídicas que cercavam Vorcaro. No sétimo episódio do Revelando Brasil, apresentado por Fábio Porchat, o programa amplia o mapa dessas conexões e coloca no centro da apuração o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, o advogado Willer Tomaz e o ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques. A produção descreve uma rede de relações que passa por contas bancárias, empresas, imóveis e aeronaves, com indícios de vínculos financeiros que vão além da convivência social.

No caso de Flávio, o episódio destaca dois pontos: o acesso do senador, como “usuário master”, à conta bancária de uma empresa ligada a Willer Tomaz e a negociação com Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. O programa também aborda viagens em aeronave vinculada a empresas associadas ao advogado e ao banqueiro. Flávio afirma que sua relação com Willer é de amizade e declarou ter viajado como convidado. Os elementos apresentados pelo Revelando Brasil ajudam a dimensionar os vínculos financeiros e empresariais entre os personagens, mas não comprovam, por si só, participação do senador ou dos demais citados na suposta rede de exploração sexual.

Leia também: PF aponta Flávio como “usuário master” de conta de empresa ligada a jatinho de Vorcaro

Vorcaro nega ter explorado ou desrespeitado mulheres e contesta aspectos das mensagens divulgadas. Cabe à investigação esclarecer as responsabilidades individuais e as circunstâncias em que as mulheres foram recrutadas. Mas o debate não pode se perder nos nomes, nos valores milionários e nos bastidores de poder a ponto de deixar as próprias mulheres em segundo plano.

A dignidade das mulheres para além dos bastidores do poder

A situação das refugiadas dá ao caso uma dimensão ainda mais grave. Mulheres que deixaram seus países para escapar da guerra podem ter sido recrutadas em condições de vulnerabilidade e inseridas em uma estrutura financiada por homens com recursos e influência. A Polícia Federal investiga suspeitas de exploração sexual e tráfico de pessoas para esclarecer as circunstâncias do recrutamento, as condições a que essas mulheres foram submetidas e as responsabilidades dos envolvidos.

Vorcaro e outros homens que circulam entre grandes fortunas e círculos de influência não inventaram a lógica que transforma mulheres em objetos de consumo. Mas as mensagens atribuídas ao banqueiro e a Diogo Batista mostram como essa lógica se manifesta nas conversas, em que a submissão feminina é tratada com naturalidade. O caso também expõe uma cultura que tolera e relativiza comportamentos misóginos, sobretudo quando partem de homens com dinheiro e influência.

O caso não pode se perder entre cifras milionárias, conexões políticas e disputas de poder. A investigação precisa esclarecer quem organizou e financiou a estrutura, em que condições as mulheres foram recrutadas e se podiam recusar as contratações ou deixar a rede. Nenhuma fortuna, influência ou posição social confere a alguém o direito de tratar outra pessoa como propriedade.

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