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Em 1936, Walter Benjamin publicou um de seus textos mais conhecidos, no qual refletia sobre a arte naquele contexto, impactada pelo desenvolvimento tecnológico. Em suas reflexões, Benjamin apontava para o desgaste da produção artística em meio à possibilidade de reprodução infinita. Benjamin chamava a atenção para a contradição entre o desenvolvimento tecnológico, que permitia o registro por meio de fotos e filmes e sua reprodução, e o que chamava de perda da aura.
O texto de Benjamin, em alguns momentos, parecia empolgado com aquele cenário e, em outros, preocupado com o que poderia vir a acontecer com a arte. Segundo Benjamin, “a reprodução técnica da obra de arte representa um processo novo, que se vem desenvolvendo na história intermitentemente, através de saltos separados por longos intervalos, mas com intensidade crescente”.1
Benjamin parecia ver a possibilidade de produção e difusão quase infinitas como algo que poderia inclusive chegar a criar um certo estranhamento da arte em relação tanto a seus criadores como em relação a quem consumia aquela produção. Para Benjamin, “ao se emancipar dos seus fundamentos no culto, na era da reprodutibilidade técnica, a arte perdeu para sempre qualquer aparência de autonomia”.2
Se havia esse tipo de preocupação na década de 1930, imagine-se qual seria a reação de Benjamin ao observar o cenário contemporâneo. O cinema se consolidou como uma indústria, sendo um dos principais ramos da economia em âmbito mundial. Em paralelo, a televisão foi durante décadas um veículo de movimentação da economia. Mais recentemente, com a ampliação do acesso à internet e pela difusão em plataformas diversas, os streamings se tornaram um dos centros na distribuição não apenas de filmes e séries, mas inclusive de músicas, jogos e outros produtos culturais.
Se em âmbito da distribuição o streaming ganhou destaque, no processo de criação avançou o acesso a formas mais simples de gravação, por meio do digital. Se em outro momento a produção era dependente de rolos de filmes e pesados equipamentos, na atualidade os celulares se tornaram ferramentas que possibilitam não apenas a gravação, mas até mesmo uma edição rápida e o tratamento de imagens. Qualquer pessoa, tendo um celular e um computador com velocidades e memórias razoáveis, pode se aventurar a fazer um filme, independente das qualidades técnicas e artísticas que possa ter essa produção.
Por outro lado, essa facilidade na produção é atravessada pelo desenvolvimento da inteligência artificial, que vem possibilitando a criação quase irrestrita de produtos dos mais diversos. Os textos criados por IA abertamente circulam em páginas de internet e redes sociais e, mais do que isso, vem se tornando possível a criação de vídeos relativamente realistas. Embora ainda demande equipamento e versões pagas das IAs, colocam abertamente a possibilidade de mecanização da criação audiovisual e, o que é pior, ameaçam aquela criação artística que parte da subjetividade e dos sentimentos das pessoas.
Olhando de forma mais ampla todo esse processo, o que se tem é o afastamento da obra em relação aos artistas. Benjamin destacava que “a reprodução técnica pode colocar a cópia do original em situação inatingível para o próprio original”.3 No caso da distribuição, as obras estão disponíveis na internet, podendo ser reproduzidas centenas ou mesmo milhares de vezes ao dia, sem que seus criadores tenham uma ideia precisa desse processo. Para Benjamin, “a obra de arte reproduzida é cada vez mais a reprodução de uma obra de arte criada para ser reproduzida”.4
No que se refere à produção, a popularização de equipamentos permite que literalmente qualquer pessoa com acesso a eles seja um “criador de conteúdo” e possa difundir isso na internet, monetizando por meio de visualizações e curtidas. Benjamin destacava que “a reprodutibilidade técnica da obra de arte modifica a relação das massas com a arte”.5 Na atualidade, literalmente qualquer pessoa pode se dizer um artista.
Por fim, a IA coloca em questão os problemas éticos envolvidos, na medida em que as criações, sejam de textos ou de imagens, não existem no vazio, e são uma versão de algo criado por uma pessoa anteriormente. Essa apropriação muitas vezes não é devidamente creditada. Outro problema tem relação com a autoria, afinal não está muito evidente se é a máquina ou a pessoa que fez o tratamento daquelas informações por meio de comandos quem deve ser considerada seu criador.
O que se tem é um aprofundamento do cenário descrito por Walter Benjamin na década de 1930. Se naquele momento expressões artísticas como a fotografia e o cinema davam um esboço dos riscos da reprodutibilidade da arte, no atual contexto tornam-se quase que infinitas as possibilidades de criação, produção e distribuição. Benjamin lembrava que “a reprodução em massa corresponde à reprodução das massas”.6
Esse processo é contraditório e multifacetado. O desenvolvimento técnico, ao mesmo em que amplia possibilidades, também faz com que qualquer coisa seja produzida ou distribuída. Os criadores e mesmo os consumidores não possuem qualquer controle sobre o processo, sendo criada uma relação de estranhamento em que pouco vale a identidade dos artistas, da obra ou mesmo do seu público.
Notas
]1 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 180.
2 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 190.
3 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 182.
4 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 186.
5 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 202.
6 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 210.
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