{"id":100561,"date":"2026-08-17T16:21:01","date_gmt":"2026-08-17T19:21:01","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rediker-o-navio-a-fabrica-antes-da-fabrica\/"},"modified":"2026-08-17T16:21:01","modified_gmt":"2026-08-17T19:21:01","slug":"rediker-o-navio-a-fabrica-antes-da-fabrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rediker-o-navio-a-fabrica-antes-da-fabrica\/","title":{"rendered":"Rediker: o navio, a f\u00e1brica antes da f\u00e1brica"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"960\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/iStock-909045422-1920.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/iStock-909045422-1920.jpg 1280w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/iStock-909045422-1920-300x225.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/iStock-909045422-1920-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\"><figcaption>Imagem: IStock<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Marcus Rediker<\/strong> em entrevista a <strong>Thiago Gama<\/strong><\/p>\n<p>Marcus Rediker nasceu em Owensboro, Kentucky, em 1951, numa fam\u00edlia com ra\u00edzes nas minas e nas f\u00e1bricas do Kentucky, do Tennessee e da Virg\u00ednia. Largou a universidade, trabalhou tr\u00eas anos numa f\u00e1brica e s\u00f3 ent\u00e3o retomou os estudos: graduou-se em Hist\u00f3ria em 1976 e doutorou-se pela Universidade da Pensilv\u00e2nia, em 1982, com uma tese sobre a sociedade e a cultura dos marinheiros anglo-americanos de longo curso entre 1700 e 1750. Lecionou em Georgetown de 1982 a 1994 e, desde ent\u00e3o, ensina na Universidade de Pittsburgh, onde ocupa, desde 2010, a c\u00e1tedra de <em>Distinguished Professor<\/em> de Hist\u00f3ria do Atl\u00e2ntico <em>[1]<\/em>, em plena atividade docente.<\/p>\n<p>A inova\u00e7\u00e3o que trouxe ao seu campo tem enunciado simples e consequ\u00eancia longa: levou ao mar a hist\u00f3ria vista de baixo <em>[2]<\/em>. Onde a historiografia via rota comercial, ele viu local de trabalho; onde via tonelagem e fretes, viu divis\u00e3o do trabalho, hierarquia, sal\u00e1rio e disciplina. O navio deixou de ser cen\u00e1rio e passou a ser a unidade de an\u00e1lise da modernidade: f\u00e1brica antes da f\u00e1brica, pris\u00e3o flutuante, m\u00e1quina de fabricar ra\u00e7a e, ao mesmo tempo, laborat\u00f3rio de formas de luta que depois desembarcaram em terra. Desse deslocamento sa\u00edram conceitos hoje correntes: a hidrarquia <em>[3]<\/em>, que nomeia de uma s\u00f3 vez a ordem imposta do alto pelos Estados e pelo capital mercantil e a autoorganiza\u00e7\u00e3o que vem de baixo; a tripula\u00e7\u00e3o variegada <em>[4]<\/em>, sujeito multi\u00e9tnico dos motins, das greves e dos tumultos portu\u00e1rios; e a hidra de muitas cabe\u00e7as, imagem com que os poderosos designavam aquilo que n\u00e3o conseguiam decapitar. Sua obra, vertida a vinte l\u00ednguas, recebeu, entre outras distin\u00e7\u00f5es, o George Washington Book Prize e, por duas vezes, o Merle Curti Award. Produziu com o cineasta Tony Buba o document\u00e1rio <em>Ghosts of Amistad<\/em>, premiado pela American Historical Association, e \u00e9 curador convidado da galeria dedicada a J. M. W. Turner, na Tate Britain, em Londres.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Prancheta--13.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Prancheta--13.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>O senhor descreve a embarca\u00e7\u00e3o de longo curso como uma tecnologia mar\u00edtima, uma f\u00e1brica antes da f\u00e1brica, e os marinheiros como um proletariado precoce, pago em sal\u00e1rio, forma de trabalho que os obrigou a inventar novos modos de resist\u00eancia: o motim, a greve, a deser\u00e7\u00e3o em massa. Gostaria de insistir numa assimetria: a f\u00e1brica, a pris\u00e3o, o quartel, todos disciplinam, mas os que est\u00e3o dentro deles nunca tomaram posse da m\u00e1quina, e os marinheiros tomaram. Minha pergunta \u00e9 esta: foi o navio o \u00fanico aparelho disciplinar pass\u00edvel de ser tomado?<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7o pelo grande veleiro europeu, apenas para estabelecer o contexto de tudo o mais que direi. Aquele grande veleiro europeu foi uma tecnologia que literalmente mudou o mundo. Era uma esp\u00e9cie de m\u00e1quina situada, como escrevi, \u201centre o diabo e o mar azul profundo\u201d <em>[5]<\/em>, movida a trabalho assalariado, com um grupo heterog\u00eaneo de trabalhadores a bordo, for\u00e7ados a cooperar sob disciplina violenta. H\u00e1 ali uma divis\u00e3o do trabalho complexa, e o trabalho daquelas pessoas, reunidas naquele espa\u00e7o, produziu um valor descomunal, \u00e0 medida que esses navios conectavam o mundo.<\/p>\n<p>Este \u00e9 meu primeiro ponto: o grande veleiro europeu \u00e9 essencial para a ascens\u00e3o do capitalismo, porque sem aquele navio n\u00e3o h\u00e1 mercado mundial; sem o trabalho daqueles marinheiros, n\u00e3o h\u00e1 mercado mundial. Em consequ\u00eancia, temos de reconhecer a import\u00e2ncia daquela tecnologia. Muita gente diz que a m\u00e1quina mais importante para a ascens\u00e3o do capitalismo \u00e9 a m\u00e1quina a vapor, mas penso que o veleiro de longo curso, movido por meios naturais, pelo vento, foi uma tecnologia exatamente t\u00e3o importante quanto ela.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo do livro, <em>Between the Devil and the Deep Blue Sea<\/em>, pretende descrever o dilema dos marinheiros comuns. O diabo, nesse t\u00edtulo, \u00e9 o capit\u00e3o do navio, que \u00e9 o agente do capitalismo global; e h\u00e1, evidentemente, o mar azul profundo que o cerca.<\/p>\n<p>Os marinheiros, portanto, tiveram de encontrar meios de resist\u00eancia dentro daquele conjunto incomum de circunst\u00e2ncias. Alguns meios eram muito comuns: tentar controlar o ritmo do trabalho, por exemplo. Isso era muito importante. Os trabalhadores se confederavam para levar a cabo motins ou, mais tarde, no s\u00e9culo XVIII, a greve. Muita gente n\u00e3o sabe que a palavra inglesa que designa a paralisa\u00e7\u00e3o do trabalho, <em>strike<\/em>, vem de um protesto ocorrido em Londres em 1768 <em>[6]<\/em>. Os mercadores haviam cortado os sal\u00e1rios dos marinheiros, e os marinheiros responderam indo de navio em navio para <em>strike the sails<\/em>, isto \u00e9, para arriar as velas, o que significava que a m\u00e1quina parava de funcionar. Essas formas de resist\u00eancia nasceram, ent\u00e3o, do trabalho e da solidariedade dos marinheiros comuns.<\/p>\n<p>O senhor tem raz\u00e3o ao comparar o navio \u00e0 f\u00e1brica, \u00e0 pris\u00e3o e ao quartel: s\u00e3o todas institui\u00e7\u00f5es de disciplina social, de disciplina do trabalho. Mas eu discordaria ligeiramente, porque \u00e0s vezes os trabalhadores de fato tomam as f\u00e1bricas: a ocupa\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas \u00e9 uma forma de resist\u00eancia especialmente importante nas d\u00e9cadas de 1910 e 1920. De quando em quando, os presos se levantaram para tomar as pris\u00f5es: revoltas em penitenci\u00e1rias s\u00e3o coisa comum. E mesmo nos quart\u00e9is houve motins, nos quais os soldados por vezes tomaram os lugares onde viviam.<\/p>\n<p>Mas o ponto essencial de sua pergunta est\u00e1 absolutamente correto: h\u00e1 algo de diferente no navio. O que faz do navio algo diferente \u00e9 sua mobilidade. Uma vez que os marinheiros tivessem a per\u00edcia necess\u00e1ria para conduzir aquele navio, podiam lev\u00e1-lo a qualquer ponto da por\u00e7\u00e3o aquosa do globo. Podiam navegar para onde quisessem e, ao faz\u00ea-lo, escapavam \u00e0s autoridades, ou ao menos tornavam mais dif\u00edcil que estas os capturassem.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Uma das coisas que decorrem de tomar o local de trabalho e os meios de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 que isso d\u00e1 liberdade de movimento aos rebeldes que assumiram o controle. E essa \u00e9 sempre uma op\u00e7\u00e3o atraente: se voc\u00ea est\u00e1 em circunst\u00e2ncias opressivas, pode pegar o capit\u00e3o e os demais oficiais, deix\u00e1-los em terra e zarpar. E, evidentemente, os oceanos do mundo s\u00e3o muito, muito grandes, o que significa que, nos s\u00e9culos XVII e XVIII, uma vez que uma tripula\u00e7\u00e3o amotinada tivesse partido, era muito dif\u00edcil captur\u00e1-la.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das coisas que impulsionaram a campanha contra os piratas nas d\u00e9cadas de 1710 e 1720. As autoridades imperiais, sobretudo na Gr\u00e3-Bretanha, mas tamb\u00e9m na Fran\u00e7a, na Espanha, em Portugal e nos Pa\u00edses Baixos, queriam eliminar a pirataria. Ent\u00e3o enviaram suas marinhas, enviaram aquilo que se poderia chamar de for\u00e7as policiais no mar, para tentar capturar essas embarca\u00e7\u00f5es amotinadas e rebeldes. Ainda assim, era extremamente dif\u00edcil consegui-lo, e muita gente que tomou parte nesse tipo de resist\u00eancia conseguiu escapar.<\/p>\n<p><strong>O tr\u00e1fico atl\u00e2ntico ligou o continente africano ao continente americano; a modernidade come\u00e7a no norte da Europa, mas a experi\u00eancia dos navios atravessa toda essa linha e \u00e9 absolutamente decisiva para o Sul Global. Como o senhor v\u00ea essa dimens\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Uma vez que aqueles marinheiros tomavam o controle da embarca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havia limite para onde pudessem ir. Uma das coisas importantes aqui \u00e9 o que poder\u00edamos chamar de teatro da resist\u00eancia, o lugar onde a resist\u00eancia \u00e9 encenada. E, embora os navios sejam organizados sobretudo por mercadores europeus e, em certa medida, por norte-americanos e sul-americanos, as embarca\u00e7\u00f5es s\u00e3o genuinamente transnacionais em seu modo de operar.<\/p>\n<p><strong>O senhor l\u00ea a embarca\u00e7\u00e3o como f\u00e1brica, como pris\u00e3o e como lugar de terror, a m\u00e1quina na qual a ra\u00e7a moderna foi fabricada. E, no entanto, aquele mesmo espa\u00e7o sob o conv\u00e9s produziu solidariedade e produziu revolta. Como a embarca\u00e7\u00e3o criou os fundamentos do capitalismo racial, e o que a resist\u00eancia a bordo nos ensina sobre a sobreviv\u00eancia do Atl\u00e2ntico negro?<\/strong><\/p>\n<p>Como Cedric Robinson argumentou ao formular a teoria do capitalismo racial <em>[7]<\/em>, sabemos que as designa\u00e7\u00f5es raciais existiam na Europa antes da ascens\u00e3o do capitalismo e que aquelas divis\u00f5es raciais foram, de certo modo, fundamentais para a maneira como o capitalismo se desenvolveu em seguida.<\/p>\n<p>O navio negreiro marca um novo limiar, a partir do qual o capitalismo \u00e9 racializado nos modos mais extremos. Essa tecnologia, essa f\u00e1brica, como eu disse, essa m\u00e1quina, esse lugar de terror, tem alcance global: est\u00e1 na base da cria\u00e7\u00e3o daqueles imp\u00e9rios de \u00e1guas profundas fundados na escravid\u00e3o. Isso \u00e9 realmente crucial.<\/p>\n<p>As duas institui\u00e7\u00f5es principais da escravid\u00e3o moderna s\u00e3o o navio negreiro e a <em>plantation<\/em> (Nota 8). Sem o navio negreiro, a vida na <em>plantation<\/em> teria sido muito diferente, teria sido muito mais limitada, pois teria dependido do trabalho ind\u00edgena. E isso, obviamente, nem sempre funcionava, porque os povos ind\u00edgenas, sobretudo nas Am\u00e9ricas, conheciam suas ecologias locais e podiam escapar da <em>plantation<\/em> com muita facilidade.<\/p>\n<p>Mas, quando o navio negreiro come\u00e7ou a transportar o que viriam a ser milh\u00f5es de pessoas, de 12 a 15 milh\u00f5es de pessoas atrav\u00e9s do Atl\u00e2ntico, para a Virg\u00ednia, Barbados, Jamaica, Brasil, deparamos com um sistema econ\u00f4mico inteiramente novo, no qual a escravid\u00e3o mover\u00e1 a economia, a economia global e, especialmente, a economia atl\u00e2ntica, por pelo menos duzentos ou trezentos anos. Uma vez em opera\u00e7\u00e3o o navio negreiro, as quest\u00f5es de ra\u00e7a passam a ser inscritas no capitalismo de um modo fundamentalmente novo.<\/p>\n<p>Uma coisa que acho fascinante nessa pergunta \u00e9 que, por muit\u00edssimo tempo, os historiadores, seguindo Adam Smith, o fil\u00f3sofo e economista pol\u00edtico escoc\u00eas, pensaram que a escravid\u00e3o tinha pouco a ver com o capitalismo. Adam Smith argumentou que ela era, na verdade, um empecilho ao capitalismo. Hoje n\u00e3o somos mais obrigados a acreditar nisso, e vemos que a escravid\u00e3o, o sistema escravista, que, como disse C.L.R. James, produziu uma quantidade de riqueza verdadeiramente inimagin\u00e1vel, moveu todos os demais empreendimentos econ\u00f4micos, inclusive a industrializa\u00e7\u00e3o. Eric Williams escreveu sobre isso muitos anos atr\u00e1s, em <em>Capitalismo e escravid\u00e3o<\/em> (1944). Hoje, quase todo o resto chegou \u00e0 mesma conclus\u00e3o. Se olharmos, por exemplo, para o novo livro de Sven Beckert, <em>Capitalism: A Global History<\/em>, ele faz das economias escravistas do Novo Mundo um motor de primeira ordem do crescimento capitalista.<\/p>\n<p>O navio negreiro \u00e9, portanto, realmente fundamental para o crescimento do capitalismo. Ele produz ra\u00e7a, como o senhor diz em sua pergunta, mas produz tamb\u00e9m vastas quantidades de for\u00e7a de trabalho, o que foi crucial para o modo como o capitalismo racial operou.<\/p>\n<p><strong>A elei\u00e7\u00e3o de capit\u00e3es, os artigos escritos, uma forma de seguro social e tripula\u00e7\u00f5es que cruzavam a linha da cor. Ent\u00e3o, aqui vai minha pergunta: por que a cultura popular conserva a bandeira e abandona a constitui\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Publiquei meu primeiro artigo sobre o assunto em 1981 e publiquei o livro <em>Villains of All Nations<\/em> <em>[9]<\/em> vinte e tr\u00eas anos depois, e o assunto continua viv\u00edssimo. As pessoas s\u00e3o fascinadas; nunca se cansam de ler sobre piratas.<\/p>\n<p>Uma das coisas que aprendi ao estudar os piratas \u00e9 que a hist\u00f3ria efetiva, a hist\u00f3ria real, a hist\u00f3ria social, \u00e9 muito mais interessante do que os mitos de Hollywood.<\/p>\n<p>Hollywood criou o pirata como uma esp\u00e9cie de caricatura: um pobre-diabo de dentes ruins e cabelo ruim, um papagaio no ombro e, com frequ\u00eancia, faltando-lhe uma m\u00e3o ou uma perna. Boa parte dessa imagem vem de <em>A ilha do tesouro<\/em>, de Robert Louis Stevenson. A ind\u00fastria do cinema criou e disseminou essa imagem, e ela est\u00e1 cheia de condescend\u00eancia de classe. Simplesmente n\u00e3o conseguem levar a s\u00e9rio essa gente pobre que decidiu arriscar a vida e tornar-se pirata. Ent\u00e3o os inventaram como figuras de mitologia.<\/p>\n<p>Quando comecei meu trabalho sobre os piratas, eu tinha uma pergunta orientadora muito simples: o que aqueles marinheiros pobres e comuns pensavam estar fazendo quando decidiram tornar-se piratas? Isso nos leva \u00e0 hist\u00f3ria vista de baixo. O que eles pensavam que estava acontecendo? Quais eram suas raz\u00f5es para tornar-se piratas? Uma raz\u00e3o, evidentemente, era conseguir dinheiro. A condi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do prolet\u00e1rio \u00e9 ter de vender sua for\u00e7a de trabalho por dinheiro, e os pobres nunca t\u00eam dinheiro suficiente. Esses marinheiros pobres, proletarizados, queriam dinheiro, precisavam de dinheiro para viver.<\/p>\n<p>Mas ocorre que as coisas eram muito mais complexas do que isso. O modo como investiguei essa quest\u00e3o foi propondo o seguinte problema: quando aqueles marinheiros pobres e comuns tomavam um navio, como o organizavam? Faziam simplesmente o que fazia a ind\u00fastria da navega\u00e7\u00e3o mercante, ou o que faziam as marinhas do mundo? Mantinham a mesma ordem social? Mantinham a mesma hierarquia? Mantinham o mesmo tipo de poder e de autoridade? A resposta foi enfaticamente n\u00e3o. N\u00e3o mantinham. Criaram um tipo muito diferente de ordem social a bordo do navio.<\/p>\n<p>Como diz sua pergunta, com toda a franqueza, aquela ordem social era democr\u00e1tica. Os piratas elegiam seus capit\u00e3es, e os demais oficiais eram eleitos. Criaram o que se chamava de artigos, uma esp\u00e9cie de constitui\u00e7\u00e3o escrita sobre o que era permitido e o que n\u00e3o era. Criaram um sistema de seguro social para cuidar dos feridos em combate. As marinhas da \u00e9poca n\u00e3o faziam isso. Criaram uma esp\u00e9cie de igualdade r\u00fastica no modo de dividir o saque.<\/p>\n<p>Todas essas coisas eram bastante extraordin\u00e1rias em seu tempo. Os piratas constru\u00edram, a bordo, uma nova ordem social, muito amea\u00e7adora para os capitalistas da \u00e9poca, porque demonstravam: vejam, n\u00e3o \u00e9 preciso conduzir um navio do modo usual, com o capit\u00e3o espancando os marinheiros o tempo todo, todos recebendo comida p\u00e9ssima e sendo lesados em seus sal\u00e1rios. Podemos fazer isso de um modo muito diferente, diziam eles. E fizeram. Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais tantos milhares de marinheiros comuns quiseram juntar-se aos navios piratas.<\/p>\n<p>A ideia de eleger o pr\u00f3prio capit\u00e3o: naquela \u00e9poca, o capit\u00e3o de um navio mercante ou de guerra do s\u00e9culo XVIII tinha poder praticamente ilimitado sobre a tripula\u00e7\u00e3o e estava, ademais, longe das institui\u00e7\u00f5es sociais de governo. Em consequ\u00eancia, era frequente que um capit\u00e3o espancasse at\u00e9 a morte um marinheiro que ousasse resistir a suas ordens. Quase todo marinheiro conhecia hist\u00f3rias assim. Ent\u00e3o, quando tinham \u201ca escolha em si mesmos\u201d <em>[10]<\/em>, como se dizia, eles de fato limitaram aquele tipo de poder do capit\u00e3o: primeiro, elegendo-o; depois, criando uma regra segundo a qual podiam destituir um capit\u00e3o sempre que n\u00e3o gostassem do que ele estivesse fazendo.<\/p>\n<p>E deram ainda outro passo. Criaram tamb\u00e9m outra posi\u00e7\u00e3o na divis\u00e3o do trabalho a bordo, a do <em>quartermaster<\/em> <em>[11]<\/em>, igualmente eleito e quase sempre o membro mais confi\u00e1vel da tripula\u00e7\u00e3o. Sua fun\u00e7\u00e3o era vigiar o capit\u00e3o, assegurar-se de que ele n\u00e3o abusasse de seu poder. Isso \u00e9 not\u00e1vel.<\/p>\n<p>Eis o que me fascina: seria poss\u00edvel supor que a campanha de exterm\u00ednio em massa contra os piratas, na qual muitas centenas deles foram enforcadas em todas as cidades portu\u00e1rias do mundo, nas d\u00e9cadas de 1710 e 1720, foi movida inteiramente pelos crimes contra a propriedade que haviam cometido, pela tomada das embarca\u00e7\u00f5es pertencentes aos capitalistas mercantis das cidades portu\u00e1rias. Essa \u00e9 uma raz\u00e3o muito importante para a repress\u00e3o que se abateu sobre esses piratas, mas n\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria toda.<\/p>\n<p>Uma parte muito importante do exterm\u00ednio violento foi que, uma vez organizada pelos piratas sua pr\u00f3pria ordem social, isso constitu\u00eda uma express\u00e3o subversiva. Em outras palavras, todos sabiam que aqueles piratas conduziam seus navios de modo diferente do de todos os outros navios do mundo. As classes dominantes decidiram que precisavam destruir aquela alternativa. N\u00e3o se podia permitir que os piratas fizessem as coisas a seu pr\u00f3prio modo.<\/p>\n<p>A campanha foi, portanto, uma reafirma\u00e7\u00e3o de controle, mas tamb\u00e9m uma reafirma\u00e7\u00e3o de poder de cima para baixo, em favor da autoridade do capit\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma das coisas que tornam a pirataria t\u00e3o fascinante, e \u00e9 tamb\u00e9m o que a torna t\u00e3o popular. O que as pessoas apreciam nos piratas \u00e9 que, mesmo assistindo a esses m\u00edticos filmes de Hollywood, sabem que aqueles homens lutavam contra os mais poderosos do mundo de seu tempo. Em sua \u00e9poca, os atacados eram os governantes mais poderosos do mundo. Os piratas zombavam deles, capturavam seus navios e organizavam os seus pr\u00f3prios de maneiras democr\u00e1ticas e igualit\u00e1rias. Aquele foi um poderoso momento de radicalismo, algo reconhecido no mundo inteiro.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a din\u00e2mica poderosa que estava por tr\u00e1s dos piratas e por tr\u00e1s da campanha atroz para enforc\u00e1-los. E n\u00e3o apenas para enforc\u00e1-los: a classe dominante tomava os corpos dos executados e os pendurava em correntes na entrada dos portos. Assim, cada vez que uma embarca\u00e7\u00e3o entrava ou sa\u00eda, os marinheiros viam expostos os corpos de piratas mortos. Isso enviava uma mensagem aos marinheiros do mundo: se ousarem resistir a n\u00f3s, \u00e9 isto o que faremos com voc\u00eas. Vamos mat\u00e1-los, vamos expor seus corpos e vamos deixar que os corvos lhes arranquem os olhos.<\/p>\n<p><strong>Se me permite, apenas para deixar claro: a ordem dos Estados modernos, sobretudo o ingl\u00eas, n\u00e3o \u00e9 separ\u00e1vel de sua rela\u00e7\u00e3o com os piratas. Estou correto?<\/strong><\/p>\n<p>O senhor est\u00e1 correto. Os piratas for\u00e7aram a mudan\u00e7a a partir de baixo. Penso que h\u00e1 equivalentes disso na economia capitalista de hoje. Piratas continuam em atividade, em lugares como o estreito de Malaca, no Sudeste Asi\u00e1tico, e ao largo da costa da Som\u00e1lia, h\u00e1 anos.<\/p>\n<p><strong>Mas \u00e9 o mesmo fen\u00f4meno? A pirataria do primeiro momento \u00e9 a mesma coisa?<\/strong><\/p>\n<p>O senhor tem raz\u00e3o. A natureza da pirataria mudou ao longo do tempo. Originalmente, os piratas eram empregados por monarcas, como a rainha Elizabeth I, que enviou Francis Drake para capturar o ouro da Am\u00e9rica espanhola. Isso era pirataria de cima para baixo, concebida em benef\u00edcio da na\u00e7\u00e3o inglesa.<\/p>\n<p>Quando se chega ao s\u00e9culo XVII, esse tipo de coisa ainda ocorre: monarcas ingleses e franceses financiavam grupos de bucaneiros para atacar o <em>Spanish Main<\/em> <em>[12]<\/em>. Mais uma vez, isso ainda \u00e9 pirataria de cima para baixo.<\/p>\n<p>Mas, por volta de 1690, algo come\u00e7ou a mudar. Os governantes ingleses, por exemplo, perceberam que podiam ganhar mais dinheiro produzindo a\u00e7\u00facar do que financiando essas expedi\u00e7\u00f5es, e come\u00e7aram a se voltar contra os piratas.<\/p>\n<p>Quando se chega \u00e0s d\u00e9cadas de 1710 e 1720, todos os elementos das classes altas desapareceram, e a pirataria passou a ser controlada inteiramente por marinheiros trabalhadores. \u00c9 ent\u00e3o que ela se torna radical. \u00c9 ent\u00e3o que a alternativa subversiva \u00e9 criada. E \u00e9 ent\u00e3o que come\u00e7am a enforcar tantos piratas quantos conseguem.<\/p>\n<p>Os governos encorajaram a pirataria e dela se beneficiaram antes, nos s\u00e9culos XVI e XVII, mas, uma vez que os marinheiros comuns passaram a control\u00e1-la, era hora de tentar suprimi-la.<\/p>\n<p><strong>O conceito que o senhor construiu com Peter Linebaugh, a hidrarquia, nomeia ao mesmo tempo a disciplina mar\u00edtima imposta de cima, pelos Estados e pelo capital mercantil, e a autoorganiza\u00e7\u00e3o que vem de baixo, dos marinheiros, dos escravizados e dos despossu\u00eddos. Como essa vis\u00e3o de um proletariado transatl\u00e2ntico sobrevive diante de uma historiografia que a apaga?<\/strong><\/p>\n<p>Comecemos por falar da hidrarquia. Antes que Peter Linebaugh e eu come\u00e7\u00e1ssemos a escrever sobre ela, era uma palavra fora de uso. Encontrei-a originalmente num escrito publicado em 1631, no qual um autor ingl\u00eas falava do modo como os marinheiros viviam numa hidrarquia. E me perguntei: j\u00e1 que a hidra era uma ideia central daquele livro, o que poderia ser a hidrarquia?<\/p>\n<p>\u00c9 um conceito dial\u00e9tico. H\u00e1 uma hidrarquia vinda de cima, e com isso quero dizer a cria\u00e7\u00e3o de imp\u00e9rios transatl\u00e2nticos e verdadeiramente globais pelos pr\u00f3prios Estados da Europa. Como j\u00e1 dissemos, os primeiros foram Portugal e Espanha, e depois vieram a Fran\u00e7a, os ingleses e os holandeses, que chegaram relativamente tarde. Esses imp\u00e9rios foram fenomenalmente bem-sucedidos em saquear o ouro e a prata dos povos ind\u00edgenas do hemisf\u00e9rio ocidental, mas tudo isso teve de ser organizado em termos de tecnologia e de trabalho. Levar a prata de volta \u00e0 Europa exigia o desdobramento complexo do com\u00e9rcio. H\u00e1 todo um conjunto de tecnologias, de trabalho e de tudo o mais que precisa ser organizado para que isso se realize. Em consequ\u00eancia, a hidrarquia nos ajuda a ver como as pot\u00eancias imperiais usaram a tecnologia mar\u00edtima e o trabalho mar\u00edtimo para construir seus imp\u00e9rios.<\/p>\n<p>Mas Peter e eu n\u00e3o nos satisfizemos com essa defini\u00e7\u00e3o, que \u00e9 apenas a de cima. O que tamb\u00e9m descobrimos foi que, quando muitas pessoas diferentes se organizam, elas tamb\u00e9m se organizam em hidrarquia, por baixo.<\/p>\n<p>O que acabamos de dizer sobre os piratas \u00e9 um excelente exemplo. Ali o senhor viu como os piratas se reorganizaram segundo princ\u00edpios diferentes e com objetivos muito diferentes: n\u00e3o enriquecer os mercadores e os reis e rainhas da Europa, mas beneficiar as pessoas que fazem todo o trabalho.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um exemplo, mas h\u00e1 muitos outros. Pessoas transatl\u00e2nticas de alt\u00edssima mobilidade tinham v\u00e1rias maneiras distintas de se organizar. Como discutimos, inventaram tamb\u00e9m a greve, um novo tipo de organiza\u00e7\u00e3o, na qual os trabalhadores elaboram suas raz\u00f5es e v\u00e3o confrontar os capit\u00e3es e os mercadores a respeito das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Outros exemplos inclu\u00edam as revoltas de escravizados, a resist\u00eancia dos servos por contrato <em>[13]<\/em>, as a\u00e7\u00f5es das multid\u00f5es nas cidades portu\u00e1rias e os motins nas marinhas de guerra. A hidrarquia de baixo desafiou a hidrarquia de cima.<\/p>\n<p>Como o senhor talvez saiba, realizamos em Pittsburgh, em maio de 2025, uma confer\u00eancia com o tema \u201cA hidra de muitas cabe\u00e7as, vinte e cinco anos depois\u201d. O historiador brasileiro Felipe Azevedo esteve presente e apresentou um excelente trabalho sobre a hidra de muitas cabe\u00e7as e a resist\u00eancia \u00e0 escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>A confer\u00eancia revelou que resta muita vida nos conceitos que se originaram em <em>A hidra de muitas cabe\u00e7as<\/em>, na hidra como conceito de resist\u00eancia m\u00f3vel, na hidrarquia, como discutimos. Outro conceito muito importante \u00e9 o da tripula\u00e7\u00e3o variegada, o grupo multi\u00e9tnico de trabalhadores que gerou greves, tumultos, motins e assim por diante. Peter e eu a contrap\u00fanhamos \u00e0 no\u00e7\u00e3o de multid\u00e3o, formulada mais ou menos ao mesmo tempo, em 2000, por Michael Hardt e Antonio Negri. Sent\u00edamos que a tripula\u00e7\u00e3o variegada oferecia mais, porque nascia do trabalho e demonstrava ag\u00eancia.<\/p>\n<p>A tripula\u00e7\u00e3o variegada foi o elemento presente em muitos dos tumultos nas cidades portu\u00e1rias, nas greves e em todos esses diferentes tipos de resist\u00eancia que ocorrem nos s\u00e9culos XVII e XVIII, mas o conceito tamb\u00e9m tem valor no presente. Os protestos massivos do movimento Black Lives Matter, ap\u00f3s a execu\u00e7\u00e3o de George Floyd, representaram tripula\u00e7\u00f5es variegadas em escala massiva e mundial: esses protestos foram provavelmente as maiores manifesta\u00e7\u00f5es antirracistas que o mundo j\u00e1 viu.<\/p>\n<p>Isso tem a ver com a pol\u00edtica de hoje. Importa ter uma hist\u00f3ria da resist\u00eancia, uma hist\u00f3ria que possa ser mobilizada para contribuir com os movimentos. Os militantes dos movimentos precisam conhecer sua hist\u00f3ria e, especialmente, uma hist\u00f3ria vista de baixo, porque podem aprender com ela li\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas sobre o que pode acontecer em termos de resist\u00eancia. Podem tamb\u00e9m extrair inspira\u00e7\u00e3o do conhecimento dos movimentos passados.<\/p>\n<p><strong>O an\u00e3o, o quacre que vivia numa caverna, um abolicionista absoluto muito antes de o abolicionismo se tornar respeit\u00e1vel. H\u00e1 algo de inc\u00f4modo em sua hist\u00f3ria, tratada por muit\u00edssimo tempo como a de um exc\u00eantrico e de um polemista. O que uma figura como Lay faz \u00e0quela hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>Benjamin Lay \u00e9 uma figura hist\u00f3rica enormemente importante e, ainda assim, permanece quase completamente desconhecido, precisamente pela raz\u00e3o inscrita em sua pergunta.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria que geralmente se conta \u00e9 a de que a escravid\u00e3o foi abolida por um grupo de cavalheiros esclarecidos, produto de um per\u00edodo particular, o final do s\u00e9culo XVIII, que decidiram que a escravid\u00e3o violava as normas da humanidade. E assim esses cavalheiros esclarecidos puseram-se a agitar pela aboli\u00e7\u00e3o, a fim de libertar pessoas no mundo inteiro.<\/p>\n<p>Pois bem, h\u00e1 apenas um problema com essa hist\u00f3ria: ela n\u00e3o \u00e9 verdadeira. E o modo como \u00e9 contada torna invis\u00edveis cem anos de luta contra a escravid\u00e3o travada pelos pr\u00f3prios escravizados. \u00c9 um presente concedido por um grupo de cavalheiros e, nessa narrativa, em nenhum momento \u00e9 preciso saber o que era a escravid\u00e3o no terreno, no Brasil ou em qualquer outro lugar.<\/p>\n<p>Escrevi tr\u00eas livros que considero serem sobre a aboli\u00e7\u00e3o a partir de baixo: <em>The Amistad Rebellion<\/em>, que ser\u00e1 publicado em breve pela Companhia das Letras; <em>The Fearless Benjamin Lay<\/em>; e o mais recente, <em>Freedom Ship: The Uncharted History of Escaping Slavery by Sea<\/em>. Como discutimos, a aboli\u00e7\u00e3o pode ser estudada de cima e de baixo. Todos sabem, ou deveriam saber, que os primeiros abolicionistas foram sempre os pr\u00f3prios escravizados.<\/p>\n<p>Benjamin Lay \u00e9 um exemplo dessa aboli\u00e7\u00e3o a partir de baixo. Era um homem do povo, de uma fam\u00edlia inglesa humilde, que foi marinheiro por dez ou doze anos, tempo durante o qual absorveu os valores da solidariedade e do cosmopolitismo, tornando-se um cidad\u00e3o do mundo, e assim se identificava. Cinquenta ou sessenta anos antes do Iluminismo, exigiu que a escravid\u00e3o fosse abolida imediatamente. (O abolicionista norte-americano William Lloyd Garrison tornar-se-ia famoso por sustentar o mesmo argumento cem anos depois.) Lay escreveu, em 1738, um livro intitulado <em>All Slave-Keepers That Keep the Innocent in Bondage, Apostates<\/em> (Nota 14). O t\u00edtulo significava que os crist\u00e3os n\u00e3o podem praticar a escravid\u00e3o e permanecer fi\u00e9is \u00e0 sua f\u00e9. Ele argumentou que a escravid\u00e3o era obra do diabo, com base numa leitura muito criativa do Livro do Apocalipse, na B\u00edblia.<\/p>\n<p>E l\u00e1 est\u00e1 ele, duas gera\u00e7\u00f5es antes do nascimento do abolicionismo moderno, nas d\u00e9cadas de 1780 e 1790, clamando por essas coisas. Por que ele \u00e9 desconhecido?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, Lay n\u00e3o se encaixa naquela hist\u00f3ria dos cavalheiros esclarecidos do final do s\u00e9culo XVIII. De certo modo, portanto, ele vira aquela hist\u00f3ria inteira pelo avesso, mostrando que o antiescravismo tem origem muito mais antiga e vinda de uma classe social mais baixa. A outra coisa importante sobre Benjamin Lay \u00e9 que ele tinha plena consci\u00eancia da resist\u00eancia que estava ocorrendo no terreno, entre os escravizados. Viveu cerca de um ano e meio em Barbados, uma das mais poderosas sociedades escravistas do mundo, e aprendeu com as lutas dos africanos em Barbados. A\u00ed, de novo, vemos a aboli\u00e7\u00e3o a partir de baixo. Penso que essa \u00e9 a coisa mais importante.<\/p>\n<p>Benjamin Lay foi uma figura extremamente radical, porque n\u00e3o era apenas abolicionista: era feminista; era contra o privil\u00e9gio de classe; era protetor do meio ambiente; era vegetariano; era defensor dos direitos dos animais, tudo isso trezentos anos atr\u00e1s. Isso \u00e9 muito not\u00e1vel. Ocorre que a hist\u00f3ria do radicalismo \u00e9 mais profunda e mais antiga do que sab\u00edamos.<\/p>\n<p>E Benjamin Lay \u00e9, penso eu, uma figura muito boa para o nosso momento presente. \u00c9 por isso que n\u00e3o escrevi apenas o livro acad\u00eamico sobre ele: escrevi tamb\u00e9m uma novela gr\u00e1fica, com o artista David Lester, chamada <em>Prophet Against Slavery<\/em>. Trabalhei com a dramaturga Naomi Wallace para criar uma pe\u00e7a, <em>The Return of Benjamin Lay<\/em>, que estreou em Londres alguns anos atr\u00e1s. E trabalhei com outro escritor e outro artista para criar um livro infantil sobre Benjamin Lay. Estou tentando trazer esse homem de volta \u00e0 mem\u00f3ria p\u00fablica, porque ele \u00e9 uma figura muito importante na hist\u00f3ria da resist\u00eancia, n\u00e3o apenas \u00e0 escravid\u00e3o, mas ao capitalismo.<\/p>\n<p>Ele viu, basicamente 125 anos antes de Karl Marx, que o sangue das pessoas exploradas estava escondido nas mercadorias que elas produziam. O a\u00e7\u00facar, dizia ele, \u00e9 feito com o sangue dos africanos em lugares como Barbados; o ch\u00e1 \u00e9 feito com o sangue dos trabalhadores na \u00cdndia e na China. Portanto, dizia ele, n\u00e3o se deve consumir essas coisas, ou nos tornaremos c\u00famplices da escravid\u00e3o. Ele tinha, desse modo, uma compreens\u00e3o da pol\u00edtica do consumo. \u00c9 a mesma ideia que temos hoje a respeito das oficinas de superexplora\u00e7\u00e3o <em>[15]<\/em> que produzem t\u00eanis de basquete de duzentos d\u00f3lares para a Nike.<\/p>\n<p>Benjamin Lay compreendeu essa ideia trezentos anos atr\u00e1s, e precisamos compreend\u00ea-la. \u00c9 uma figura dif\u00edcil de assimilar nos livros de hist\u00f3ria porque perturba muito do saber estabelecido. Essa \u00e9 outra raz\u00e3o pela qual ele \u00e9 t\u00e3o importante.<\/p>\n<p><strong>Professor, penso que seu trabalho como historiador \u00e9 muito dif\u00edcil, porque as pessoas sobre as quais o senhor escreve quase n\u00e3o deixaram documentos. Foram registradas por aqueles que as capturaram, por aqueles que as venderam. Como se trabalha com um arquivo desse tipo, de modo que ele revele o horizonte dos rebeldes e n\u00e3o apenas as categorias de seus captores?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a quest\u00e3o central da hist\u00f3ria vista de baixo: o problema das fontes, porque a gente comum trabalhadora criou pouqu\u00edssimas fontes pr\u00f3prias. Isso significa que, se voc\u00ea quiser escrever esse tipo de hist\u00f3ria, tem de usar documentos criados, em muitos casos, pelos inimigos de classe de seus personagens: documentos criados pelo Estado, pelos senhores de escravos, pelos capit\u00e3es de navio, para usar exemplos das hist\u00f3rias de que estivemos falando.<\/p>\n<p>Como podemos fazer com que esses documentos entreguem seus segredos sobre a gente comum trabalhadora que queremos estudar?<\/p>\n<p>Tomemos o exemplo da rebeli\u00e3o do <em>Amistad<\/em>, um caso de 1839, no qual 53 africanos, 49 homens e quatro crian\u00e7as, tomaram uma escuna negreira ao largo da costa norte de Cuba, mataram o capit\u00e3o, conduziram a embarca\u00e7\u00e3o at\u00e9 a costa da Am\u00e9rica do Norte, desembarcaram em New London, Connecticut, e deflagraram um momento muito importante na luta contra a escravid\u00e3o. O arquivo sobre os rebeldes do <em>Amistad<\/em> foi produzido quase inteiramente por pessoas que se opunham \u00e0 liberdade deles. Mas ocorre que \u00e9 poss\u00edvel ler esses documentos de outros modos, a fim de compreender as coisas do ponto de vista deles.<\/p>\n<p>E aqui est\u00e1 a chave: para compreender como pessoas como os rebeldes do <em>Amistad<\/em> entendiam sua situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso saber quem eram. Quem eram, l\u00e1 na \u00c1frica Ocidental? A que tipos de cultura pertenciam? Que condi\u00e7\u00f5es experimentaram a bordo daquela escuna negreira? O que precipitou a revolta? Como organizaram a revolta? Com que tipo de saber, que saber nativo, vindo das sociedades de onde vinham? Pelo que lutavam? Com essas perguntas em mente, torna-se poss\u00edvel ler os documentos com outros olhos. Pode-se imaginar como os pr\u00f3prios rebeldes teriam visto a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deixe-me dar um exemplo. Na d\u00e9cada de 1830, no sul de Serra Leoa, de onde vinham todos os africanos a bordo do <em>Amistad<\/em>, havia muitas guerras causadas pelo tr\u00e1fico de escravizados. Os vai <em>[16]<\/em> eram um reino costeiro cujos chefes recebiam armas dos traficantes europeus e as usavam para entrar no interior, capturar pessoas, traz\u00ea-las de volta \u00e0 costa e vend\u00ea-las aos traficantes. Nas aldeias sob ataque, as pessoas se organizavam para revidar, o que significava que havia muitos guerreiros altamente treinados entre os rebeldes do <em>Amistad<\/em>. Todos aqueles 49 homens teriam tido treinamento militar. Sabiam usar armas. Tinham disciplina. Sabiam lutar, e isso se torna uma das chaves para compreender por que tiveram \u00eaxito. Se n\u00e3o se conhece o passado africano deles, n\u00e3o se pode compreender como capturaram a embarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das maneiras pelas quais ler os documentos em m\u00faltiplos contextos atl\u00e2nticos se torna realmente crucial. Um dos maiores historiadores da hist\u00f3ria vista de baixo, E. P. Thompson, tinha um modo muito engenhoso de descrever o que se deve fazer para escrev\u00ea-la. Ele dizia: pegue um documento, erga-o contra uma luz sat\u00e2nica e leia-o de tr\u00e1s para diante. O que ele queria dizer com isso \u00e9 que uma das habilidades especiais que se atribu\u00edam \u00e0s pessoas acusadas de bruxaria nos s\u00e9culos XVI e XVII era a de ler de tr\u00e1s para diante. Isto \u00e9, \u00e9 preciso ler a contrapelo, ler nas entrelinhas, p\u00f4r o documento numa esp\u00e9cie de crisol das rela\u00e7\u00f5es de classe e compreender como ele operava. \u00c9 assim que se pode fazer com que esses documentos sirvam a prop\u00f3sitos que seus criadores n\u00e3o pretendiam.<\/p>\n<p><strong>Se me permite, uma palavra agora sobre seu pa\u00eds, os Estados Unidos, sobre o governo Trump e sobre a profunda divis\u00e3o do pa\u00eds, especialmente em torno da ra\u00e7a. O que o senhor tem a dizer sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7o citando Benjamin Lay, que disse em 1738, dirigindo-se ao povo na Am\u00e9rica: se n\u00e3o abolirem a escravid\u00e3o, viver\u00e3o com o veneno da escravid\u00e3o por centenas de anos. Essa foi sua profecia. E \u00e9 exatamente o que aconteceu nos Estados Unidos neste momento. Ainda vivemos com o veneno da escravid\u00e3o, que entrou no corpo pol\u00edtico. Uma vez ocorrido isso, dizia ele, seria muito dif\u00edcil tir\u00e1-lo de l\u00e1.<\/p>\n<p>Penso que isso \u00e9 absolutamente verdadeiro. Tivemos uma guerra civil que deveria p\u00f4r fim \u00e0 institui\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. A escravid\u00e3o foi formalmente encerrada, mas surgiram novas formas de explora\u00e7\u00e3o e de opress\u00e3o, sobretudo a parceria agr\u00edcola <em>[17]<\/em> e as leis Jim Crow <em>[18]<\/em>, o que, por sua vez, exigiu um movimento pelos direitos civis e um movimento Black Power para tentar alcan\u00e7ar uma nova etapa da promessa democr\u00e1tica dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Estamos agora numa situa\u00e7\u00e3o lament\u00e1vel, na qual aquelas conquistas da era dos direitos civis est\u00e3o sendo revertidas, com o direito de voto sob ataque. E, o que \u00e9 ainda mais central para os nossos prop\u00f3sitos nesta entrevista, a hist\u00f3ria que foi escrita, recuperando aquela extraordin\u00e1ria experi\u00eancia da escravid\u00e3o, est\u00e1 agora sendo censurada: professores de escola est\u00e3o sendo advertidos de que n\u00e3o podem ensinar a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o e da resist\u00eancia \u00e0 escravid\u00e3o, de que n\u00e3o podem ensinar sobre o movimento pelos direitos civis. H\u00e1, portanto, um conflito inacreditavelmente feroz em curso, neste momento, nos Estados Unidos, sobre como a hist\u00f3ria deve ser ensinada. E eu arriscaria dizer que ele est\u00e1 em curso em muitos outros lugares, como o Brasil.<\/p>\n<p>Se olharmos para a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica global dos \u00faltimos sessenta anos, eu argumentaria que o trabalho feito sobre ra\u00e7a e escravid\u00e3o, especialmente no Brasil e nos Estados Unidos, \u00e9 o melhor conjunto de estudos produzido em qualquer parte do mundo. Hoje sabemos imensamente mais sobre o sistema escravista atl\u00e2ntico do que jamais soubemos. Muitas centenas, na verdade milhares, de livros genuinamente sofisticados foram publicados. Mas o que o p\u00fablico em geral sabe dessa hist\u00f3ria permanece limitado. E agora for\u00e7as reacion\u00e1rias est\u00e3o fazendo tudo o que podem para impedir que essa hist\u00f3ria, fundada naqueles estudos de alto n\u00edvel, seja ensinada, porque ela promete mais resist\u00eancia. A luta continua.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>Nota 1. <em>Distinguished Professor<\/em>: t\u00edtulo de c\u00e1tedra conferido pela Universidade de Pittsburgh a docentes de reconhecimento internacional em seu campo. N\u00e3o corresponde exatamente ao professor titular brasileiro nem ao em\u00e9rito, que pressup\u00f5e aposentadoria. Rediker o recebeu em 2010 e permanece lecionando.<\/p>\n<p>Nota 2. Hist\u00f3ria vista de baixo: no original, <em>history from below<\/em>. Programa historiogr\u00e1fico que desloca o foco das elites e do Estado para as classes subalternas e sua a\u00e7\u00e3o. A express\u00e3o firmou-se com a historiografia social brit\u00e2nica, sobretudo com E. P. Thompson, citado adiante pelo entrevistado.<\/p>\n<p>Nota 3. Hidrarquia: no original, <em>hydrarchy<\/em>. Conceito recolhido por Rediker e Peter Linebaugh num escrito ingl\u00eas de 1631 e desenvolvido em <em>A hidra de muitas cabe\u00e7as<\/em>. Designa, de um lado, a organiza\u00e7\u00e3o mar\u00edtima do poder imperial e, de outro, a autoorganiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do mar.<\/p>\n<p>Nota 4. Tripula\u00e7\u00e3o variegada: no original, <em>motley crew<\/em>. <em>Motley<\/em> nomeia o tecido de retalhos multicoloridos do buf\u00e3o e, por extens\u00e3o, aquilo que \u00e9 heterog\u00eaneo e malcasado. O conceito designa o sujeito coletivo multi\u00e9tnico dos motins, greves e tumultos portu\u00e1rios, formulado por Linebaugh e Rediker em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 multid\u00e3o de Michael Hardt e Antonio Negri.<\/p>\n<p>Nota 5. <em>Between the Devil and the Deep Blue Sea<\/em>: express\u00e3o idiom\u00e1tica inglesa que descreve a situa\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 entre dois perigos igualmente graves, pr\u00f3xima do nosso \u201centre a cruz e a espada\u201d. D\u00e1 t\u00edtulo ao primeiro livro do entrevistado, de 1987, sem edi\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Nota 6. <em>Strike<\/em>: em ingl\u00eas, greve. O verbo <em>to strike<\/em> significa golpear e, no vocabul\u00e1rio n\u00e1utico, arriar velas, mastros ou bandeira. A cena descrita pelo entrevistado, em Londres, 1768, est\u00e1 na origem da acep\u00e7\u00e3o moderna da palavra.<\/p>\n<p>Nota 7. Capitalismo racial: formula\u00e7\u00e3o de Cedric J. Robinson em <em>Black Marxism: The Making of the Black Radical Tradition<\/em> (1983). O capitalismo n\u00e3o teria apenas encontrado diferen\u00e7as raciais preexistentes: desenvolveu-se produzindo e organizando hierarquias raciais.<\/p>\n<p>Nota 8. <em>Plantation<\/em>: termo consagrado na historiografia brasileira e por isso mantido no original. Designa a grande propriedade monocultora, voltada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o e assentada no trabalho escravizado.<\/p>\n<p>Nota 9. <em>Villains of All Nations: Atlantic Pirates in the Golden Age<\/em> (2004), sem edi\u00e7\u00e3o brasileira. Aqui e adiante, os t\u00edtulos ainda n\u00e3o traduzidos no Brasil aparecem no original; a rela\u00e7\u00e3o completa, com as edi\u00e7\u00f5es brasileiras existentes, est\u00e1 ao final.<\/p>\n<p>Nota 10. \u201cA escolha em si mesmos\u201d: no original, <em>the choice in themselves<\/em>. F\u00f3rmula dos marinheiros do s\u00e9culo XVIII para dizer que a decis\u00e3o estava em suas pr\u00f3prias m\u00e3os, subtra\u00edda ao comando.<\/p>\n<p>Nota 11. <em>Quartermaster<\/em>: nas marinhas mercante e de guerra, cargo subalterno ligado ao leme e \u00e0 arruma\u00e7\u00e3o da carga; nos navios piratas, cargo eletivo que funcionava como contrapeso do capit\u00e3o, encarregado da divis\u00e3o do saque e da disciplina a bordo. N\u00e3o h\u00e1 equivalente exato em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Nota 12. <em>Spanish Main<\/em>: designa\u00e7\u00e3o inglesa para a faixa continental da Am\u00e9rica espanhola banhada pelo Caribe, do istmo do Panam\u00e1 \u00e0 foz do Orinoco, e, por extens\u00e3o, para as \u00e1guas adjacentes.<\/p>\n<p>Nota 13. Servos por contrato: no original, <em>indentured servants<\/em>. Trabalhadores, em geral europeus pobres, que emigravam mediante contrato de servid\u00e3o tempor\u00e1ria, pagando com anos de trabalho a passagem para as col\u00f4nias.<\/p>\n<p>Nota 14. <em>All Slave-Keepers That Keep the Innocent in Bondage, Apostates<\/em>: \u201cTodos os escravocratas que mant\u00eam os inocentes em cativeiro s\u00e3o ap\u00f3statas\u201d, livro de Benjamin Lay publicado na Filad\u00e9lfia em 1738.<\/p>\n<p>Nota 15. Oficinas de superexplora\u00e7\u00e3o: no original, <em>sweatshops<\/em>. Oficinas de confec\u00e7\u00e3o e montagem em que se trabalha por jornadas extensas, sal\u00e1rios \u00ednfimos e condi\u00e7\u00f5es insalubres, em geral subcontratadas por grandes marcas.<\/p>\n<p>Nota 16. Vai: povo da faixa litor\u00e2nea situada entre a atual Serra Leoa e a Lib\u00e9ria, falante de uma l\u00edngua da fam\u00edlia mand\u00ea.<\/p>\n<p>Nota 17. Parceria agr\u00edcola: no original, <em>sharecropping<\/em>. Regime em que o cultivador trabalha terra alheia e paga com parte da colheita. No Sul dos Estados Unidos, tornou-se, depois de 1865, a principal forma de sujei\u00e7\u00e3o dos libertos ao endividamento permanente.<\/p>\n<p>Nota 18. Leis Jim Crow: conjunto de leis estaduais e municipais de segrega\u00e7\u00e3o racial vigentes no Sul dos Estados Unidos entre o fim da Reconstru\u00e7\u00e3o e a d\u00e9cada de 1960. O nome vem de uma personagem caricatural do teatro de menestr\u00e9is branco do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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E a organiza\u00e7\u00e3o coletiva de marinheiros contra Estados e o capital no s\u00e9culo XVII, que levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de \u201cdemocracias piratas\u201d<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/rediker-o-navio-a-fabrica-antes-da-fabrica\/\">Rediker: o navio, a f\u00e1brica antes da f\u00e1brica<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":100562,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[80119,80120,80121,978,80122,5488,80123,80124,17370,80125,80126,39142,626,80127,80128,480,80129],"tags":[],"class_list":["post-100561","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-abolicionismo-moderno","category-antiescravismo","category-ascensao-do-capitalismo","category-capitalismo","category-fabricas","category-historia-e-memoria","category-marcus-rediker","category-meios-de-producao","category-navio","category-navio-negreiro","category-piratas","category-proletariado","category-resistencia","category-sociedades-escravistas","category-tecnologia-maritma","category-trabalhadores","category-veleiros-europeus"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100561","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=100561"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100561\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/100562"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=100561"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=100561"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=100561"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}