{"id":100671,"date":"2026-08-18T16:17:21","date_gmt":"2026-08-18T19:17:21","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cinco-anos-depois-da-pandemia-mulheres-seguem-sobrecarregadas-e-apontam-saidas-coletivas-para-o-cuidado\/"},"modified":"2026-08-18T16:17:21","modified_gmt":"2026-08-18T19:17:21","slug":"cinco-anos-depois-da-pandemia-mulheres-seguem-sobrecarregadas-e-apontam-saidas-coletivas-para-o-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cinco-anos-depois-da-pandemia-mulheres-seguem-sobrecarregadas-e-apontam-saidas-coletivas-para-o-cuidado\/","title":{"rendered":"Cinco anos depois da pandemia, mulheres seguem sobrecarregadas e apontam sa\u00eddas coletivas para o cuidado"},"content":{"rendered":"<p>Em 2020, a pesquisa \u201c<a href=\"https:\/\/mulheresnapandemia.sof.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>Sem Parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia<\/u><\/a>\u201d revelou que 50% das mulheres brasileiras passaram a ser respons\u00e1veis pelo cuidado de algu\u00e9m com a chegada da pandemia de Covid-19. Essa pesquisa, realizada pela Sempreviva Organiza\u00e7\u00e3o Feminista (SOF) e pela G\u00eanero e N\u00famero (GN), deu visibilidade \u00e0 sobrecarga de trabalho dom\u00e9stico e de cuidado das mulheres e ao impacto dos meses iniciais da pandemia sobre a perda de trabalho e renda.<\/p>\n<p>Em 2025, SOF e GN se juntaram novamente, com apoio do Minist\u00e9rio das Mulheres, para retomar a investiga\u00e7\u00e3o na pesquisa \u201c<a href=\"https:\/\/semparar2025.sof.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>Sem Parar 2025: o impacto da pandemia no trabalho e na vida das mulheres, <\/u><u>cinco<\/u><u> anos depois<\/u><\/a>\u201d. Nesta edi\u00e7\u00e3o, o objetivo foi investigar como estavam organizadas as din\u00e2micas de trabalho remunerado, dom\u00e9stico e de cuidado na vida das mulheres cinco anos depois da pandemia, buscando responder a perguntas como: qual foi o impacto da pandemia na situa\u00e7\u00e3o de trabalho e renda das mulheres? Houve reorganiza\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas e de cuidado que aliviasse a sobrecarga? Qual o impacto da sobreposi\u00e7\u00e3o desses trabalhos na sa\u00fade e no bem-estar das mulheres?<\/p>\n<p>A pesquisa ouviu, entre julho e agosto de 2025, 2.173 mulheres de todo o Brasil. A parceria com movimentos sociais como a Marcha Mundial de Mulheres, o Movimento dos Atingidos por Barragens, a Federa\u00e7\u00e3o Nacional de Trabalhadoras Dom\u00e9sticas contribuiu para fazer a pesquisa chegar em mais territ\u00f3rios, e permitiu realizar an\u00e1lises espec\u00edficas das integrantes desses movimentos.<\/p>\n<p>A pandemia aumentou a carga laboral das mulheres no mercado de trabalho e em casa, mas o seu fim n\u00e3o resultou em al\u00edvio para elas. Embora o contexto pand\u00eamico tenha sido superado, a sobrecarga persiste, gerando exaust\u00e3o e ac\u00famulo de responsabilidades. Cinco anos depois, os dados da pesquisa mostram o que sentimos e sabemos: as mulheres brasileiras s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pelo trabalho dom\u00e9stico, tem sob sua responsabilidade o cuidado de outras pessoas, possuem v\u00ednculos de trabalho prec\u00e1rios e informais, est\u00e3o cansadas e sobrecarregadas e com grande sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a. Isso \u00e9 express\u00e3o da impossibilidade de equil\u00edbrio individual entre os trabalhos de gera\u00e7\u00e3o de renda e de reprodu\u00e7\u00e3o cotidiana da vida.<\/p>\n<p><strong>Informalidade e inseguran\u00e7a no trabalho remunerado<\/strong><\/p>\n<p>Uma parcela consider\u00e1vel das respondentes da pesquisa <strong>Sem Parar 2025<\/strong> tem alto n\u00edvel de escolaridade. Por\u00e9m, essa escolaridade n\u00e3o se traduz em mais v\u00ednculos formais de trabalho, tampouco representa uma condi\u00e7\u00e3o financeira confort\u00e1vel para as mulheres. 37% das respondentes relataram ter renda mensal de at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos (at\u00e9 R$ 3.036,00), o que sabemos ser pouco para o sustento de uma fam\u00edla frente ao alto custo de vida. A diferen\u00e7a de renda entre mulheres negras e brancas \u00e9 marcante: no conjunto de respondentes pretas e pardas, a faixa de mulheres que recebiam at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 quatro vezes maior do que entre as respondentes brancas.<\/p>\n<p>As mulheres que cumpriam as menores jornadas de trabalho remunerado (at\u00e9 20 horas semanais) eram a maioria das respons\u00e1veis por cuidar de outra pessoa (55%). A sobrecarga de trabalho tamb\u00e9m se evidencia quando temos que 57% das mulheres entrevistadas relataram trabalhar mais de 40 horas semanais. Dessas, 49% eram respons\u00e1veis por cuidar de algu\u00e9m de forma n\u00e3o remunerada. Esses dados contribuem para as recentes discuss\u00f5es sobre a redu\u00e7\u00e3o da escala de trabalho 6\u00d71, assunto que deve ser abordado desde uma perspectiva feminista, sendo indissoci\u00e1vel da discuss\u00e3o sobre a corresponsabiliza\u00e7\u00e3o do trabalho de reprodu\u00e7\u00e3o social, para que o menor tempo no trabalho remunerado n\u00e3o seja sin\u00f4nimo, na vida das mulheres, de mais tempo dedicado ao trabalho de cuidados.<\/p>\n<p>36% das mulheres apontam ter tido uma diminui\u00e7\u00e3o na renda ap\u00f3s a pandemia. Se olharmos apenas para o conjunto de mulheres para quem a renda diminuiu, temos que 60% delas s\u00e3o mulheres negras. 17% das entrevistadas passaram a trabalhar de forma remota nos \u00faltimos cinco anos. Em 2025, 59% das mulheres responderam realizar seu trabalho remunerado total ou parcialmente em casa, mostrando que algumas transforma\u00e7\u00f5es no mundo do trabalho potencializadas na pandemia permaneceram. Se, por um lado, realizar o trabalho remunerado no domic\u00edlio pode ser um caminho para facilitar a execu\u00e7\u00e3o de outros trabalhos n\u00e3o remunerados, como limpar a casa, cuidar de filhos ou preparar as refei\u00e7\u00f5es, por outro, essa sobreposi\u00e7\u00e3o tem o risco de se traduzir em uma extenuante sobrecarga f\u00edsica e mental.<\/p>\n<p>A pesquisa mostra que as mulheres seguem trabalhando <em>sem parar<\/em>: as jornadas de trabalho remunerado s\u00e3o extensas, os sal\u00e1rios baixos e os v\u00ednculos prec\u00e1rios, mesmo entre as mulheres com escolaridade mais elevada. Cresce o trabalho remoto ou h\u00edbrido, o que pode parecer facilitar a articula\u00e7\u00e3o cotidiana entre trabalho remunerado e n\u00e3o remunerado, mas, na verdade, encobre uma sobrecarga adoecedora para as mulheres. \u00c9 grande o n\u00famero de mulheres que trabalham por conta pr\u00f3pria e cada vez maior o n\u00famero daquelas que trabalham por aplicativos, apontando as tend\u00eancias do mercado de rela\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e sem acesso aos direitos trabalhistas. As configura\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e inst\u00e1veis de trabalho e renda se refletem na sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao futuro na vida das mulheres e apontam para a persist\u00eancia de desigualdades hist\u00f3ricas entre mulheres brancas e negras.<\/p>\n<p><strong>Trabalho dom\u00e9stico e de cuidado n\u00e3o remunerado<\/strong><\/p>\n<p>Os dados da pesquisa <strong>Sem Parar 2025<\/strong> mostram que a participa\u00e7\u00e3o dos homens na divis\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o se alterou de maneira significativa entre 2020 e 2025. A pandemia evidenciou a centralidade do cuidado, a dimens\u00e3o \u201cessencial\u201d das tarefas de reprodu\u00e7\u00e3o da vida e a interdepend\u00eancia entre as pessoas, ligada \u00e0 vulnerabilidade. Mas isso n\u00e3o se refletiu em uma mudan\u00e7a na responsabiliza\u00e7\u00e3o pelo cuidado, muito menos numa transforma\u00e7\u00e3o estrutural da divis\u00e3o sexual e racial desse trabalho.<\/p>\n<p>No que diz respeito ao trabalho dom\u00e9stico e de cuidados n\u00e3o remunerado, as mulheres seguem sendo as \u00fanicas ou principais respons\u00e1veis, com a perman\u00eancia de desigualdades entre as urbanas e rurais e entre mulheres negras e brancas. O trabalho de cuidado aparece com for\u00e7a em sua dimens\u00e3o emocional, e cresce o n\u00famero de mulheres que s\u00e3o respons\u00e1veis pelo cuidado de pessoas idosas.<\/p>\n<p>O percentual de mulheres que relataram ser as \u00fanicas respons\u00e1veis pelo trabalho dom\u00e9stico \u00e9 significativamente maior entre as mulheres com renda mais baixa (aquelas que recebem at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo). Dentre as mulheres que disseram compartilhar o trabalho dom\u00e9stico, 56% o fazem com homens, mas a participa\u00e7\u00e3o deles segue sendo insatisfat\u00f3ria e insuficiente. Destas mulheres, 51% relataram realizar a maior parte do trabalho dom\u00e9stico, sendo as principais respons\u00e1veis por tarefas como preparar ou servir alimentos, lavar a lou\u00e7a, cuidar da limpeza e manuten\u00e7\u00e3o das roupas, arrumar ou limpar o domic\u00edlio \u2013 tarefas que precisam ser realizadas em frequ\u00eancia di\u00e1ria. Esse n\u00famero \u00e9 significativamente menor quando a pessoa com quem se compartilhava o trabalho dom\u00e9stico era do g\u00eanero feminino (37%), ou seja, a distribui\u00e7\u00e3o das tarefas se mostrou mais equilibrada nesses casos.<\/p>\n<p>30% das mulheres avaliaram se dedicar mais ao trabalho dom\u00e9stico e de cuidado em 2025 do que em 2020. A raz\u00e3o para esse aumento \u00e9 atribu\u00edda \u00e0 mudan\u00e7a da composi\u00e7\u00e3o dom\u00e9stico-familiar (27%), \u00e0 redu\u00e7\u00e3o na renda familiar (18%) e ao retorno de outras pessoas do domic\u00edlio \u00e0s atividades presenciais (13%).<\/p>\n<p>Entre aquelas que identificaram redu\u00e7\u00e3o de acesso a equipamentos e servi\u00e7os p\u00fablicos (educa\u00e7\u00e3o, CRAS, restaurante popular, lavanderia coletiva, etc) e a iniciativas comunit\u00e1rias (cozinhas comunit\u00e1rias, creches comunit\u00e1rias, grupo de apoio, etc), 59% eram negras e 39% eram brancas. Esses dados apontam de forma contundente que, se queremos enfrentar e reduzir as desigualdades, a sa\u00edda ser\u00e1 por meio da cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e estrat\u00e9gias coletivas, combinando comunidades e a atua\u00e7\u00e3o ativa do Estado. Pretensas sa\u00eddas pela via do mercado refor\u00e7am desigualdades de classe e raciais, pois se apresentam como solu\u00e7\u00f5es predominantemente para mulheres brancas.<\/p>\n<p>A principal tarefa de cuidado exercida pelas mulheres \u00e9 a de \u201ccarinho e suporte emocional\u201d, identificada por 84% das mulheres respons\u00e1veis por cuidar de algu\u00e9m, dado que refor\u00e7a a defini\u00e7\u00e3o multidimensional do cuidado. Refor\u00e7a, tamb\u00e9m, a indissociabilidade das dimens\u00f5es objetivas e subjetivas, \u00e9ticas e pol\u00edticas. Falar do cuidado como um trabalho implica reconhecer que ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 material e t\u00e9cnico, mas tamb\u00e9m emocional, tendo uma importante dimens\u00e3o subjetiva. Consequentemente, quando falamos de sobrecarga, tamb\u00e9m estamos falando de uma sobrecarga emocional, que n\u00e3o pode ficar sob o v\u00e9u da invisibilidade<\/p>\n<p>Ao refletirem sobre o pr\u00f3prio cuidado, as entrevistadas relatam recorrer predominantemente \u00e0s rela\u00e7\u00f5es pessoais. Os familiares s\u00e3o a principal rede de apoio das mulheres, mas elas tamb\u00e9m recorrem a amigos e vizinhos. Ainda que a discuss\u00e3o acerca do trabalho n\u00e3o remunerado das mulheres inclua aspectos de coletiviza\u00e7\u00e3o e conte com a participa\u00e7\u00e3o em iniciativas comunit\u00e1rias, o apoio mant\u00e9m-se majoritariamente individualizado, segundo a percep\u00e7\u00e3o das respondentes. Se colocam dois desafios: ampliar a disponibilidade de espa\u00e7os coletivos de cuidado e fortalecer o entendimento de que o \u201ccarinho e suporte emocional \u201c tamb\u00e9m \u00e9 imprescind\u00edvel para quem cuida.<\/p>\n<p>Como a pesquisa mostra, a fam\u00edlia ainda \u00e9 o n\u00facleo do cuidado, inclusive o destinado \u00e0s mulheres que cuidam, ainda que essa rela\u00e7\u00e3o entre prover e receber cuidado seja significativamente desigual. A participa\u00e7\u00e3o dos homens ainda \u00e9 insatisfat\u00f3ria, tanto quando falamos da propor\u00e7\u00e3o de responsabilidades assumidas, como do tipo de tarefas executadas. Individualmente e como grupo social, eles continuam se beneficiando da atual divis\u00e3o sexual do trabalho. Urge consolidar, de forma estrutural, uma melhor divis\u00e3o das responsabilidades e tarefas que envolva homens, mulheres, comunidades e Estado.<\/p>\n<p><strong>Mulheres organizadas s\u00e3o mais esperan\u00e7osas e confiantes<\/strong><\/p>\n<p>Os dados da pesquisa <strong>Sem Parar 2025<\/strong> mostram que as mulheres organizadas s\u00e3o mais esperan\u00e7osas e confiantes. Entre aquelas que participam de movimentos sociais ou sindicais, como a Marcha Mundial de Mulheres, o Movimento dos Atingidos por Barragens ou a Federa\u00e7\u00e3o Nacional das Trabalhadoras Dom\u00e9sticas, eleva-se a presen\u00e7a de sentimentos de esperan\u00e7a, confian\u00e7a e realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre as mulheres organizadas, observa-se tamb\u00e9m a presen\u00e7a forte de redes de amizade e vizinhan\u00e7a entre os apoios relevantes para a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico e de cuidado n\u00e3o remunerado, aspecto que fica particularmente vis\u00edvel nos dados das mulheres atingidas organizadas no Movimento dos Atingidos por Barragens.<\/p>\n<p>Entre as trabalhadoras dom\u00e9sticas integrantes da Federa\u00e7\u00e3o Nacional das Trabalhadoras Dom\u00e9sticas, que foram entrevistadas durante o Congresso Nacional das Trabalhadoras Dom\u00e9sticas, os n\u00edveis de confian\u00e7a e esperan\u00e7a subiram exponencialmente.<\/p>\n<p>Embora estejam submetidas \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de precariza\u00e7\u00e3o produzidas pelo atual sistema socioecon\u00f4mico, as mulheres t\u00eam desenvolvido diferentes estrat\u00e9gias de resist\u00eancia e enfrentamento. Essas iniciativas contribuem para reorganizar as rela\u00e7\u00f5es entre trabalho, cuidado e reprodu\u00e7\u00e3o da vida a partir de perspectivas coletivas, como demonstram as experi\u00eancias vinculadas \u00e0 economia solid\u00e1ria e \u00e0 economia feminista. Essas formas de a\u00e7\u00e3o coletiva se manifestam tanto por meio da reivindica\u00e7\u00e3o de direitos e da defesa da expans\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas quanto pela constru\u00e7\u00e3o de redes e pr\u00e1ticas comunit\u00e1rias voltadas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o e \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da vida em suas diferentes dimens\u00f5es, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 racionalidade produtivista pr\u00f3pria do capital.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o e o fortalecimento de espa\u00e7os coletivos constituem, como aponta a pesquisa, dimens\u00f5es fundamentais para promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e para o enfrentamento das viol\u00eancias e desigualdades que marcam a vida das mulheres, contribuindo para sua sobrecarga e adoecimento. Tamb\u00e9m apontam para a import\u00e2ncia dos comuns: formas de organiza\u00e7\u00e3o, instrumentos de resist\u00eancia e possibilidades de constru\u00e7\u00e3o de alternativas \u00e0 l\u00f3gica hegem\u00f4nica que permite dividir melhor os trabalhos e construir um horizonte comum compartilhado de uma vida livre de sobrecarga e de viol\u00eancia. Historicamente, as mulheres mantiveram uma rela\u00e7\u00e3o particularmente estreita com os comuns, tanto por sua import\u00e2ncia para a reprodu\u00e7\u00e3o da vida quanto pelo protagonismo assumido em sua preserva\u00e7\u00e3o e defesa.<\/p>\n<p><strong>Pistas para a elabora\u00e7\u00e3o de um Plano Nacional de Cuidados<\/strong><\/p>\n<p>Realizamos a pesquisa em um per\u00edodo de intensa constru\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Cuidados no Brasil. Os dados colaboram para debates e propostas atuais no \u00e2mbito da legisla\u00e7\u00e3o e das pol\u00edticas p\u00fablicas. O dado de que as mulheres respons\u00e1veis pelo cuidado de crian\u00e7as de at\u00e9 seis anos s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pelo trabalho de cuidado n\u00e3o remunerado, mesmo quando dividido, se relaciona, por exemplo, com avan\u00e7os nas discuss\u00f5es sobre o aumento da licen\u00e7a paternidade. \u00c9 preciso promover este debate no conjunto da sociedade e buscar estrat\u00e9gias que construam condi\u00e7\u00f5es e obriga\u00e7\u00f5es para que os homens assumam a responsabilidade com os filhos e com os idosos, dentro e fora das casas.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es organizadas em torno e por meio do Estado devem estar orientadas para recuperar seu sentido p\u00fablico. Ou seja, \u00e9 preciso combater a l\u00f3gica do mercado que permeia diferentes \u00e1reas de pol\u00edticas p\u00fablicas. Para que a resposta alcance o conjunto das mulheres brasileiras e esteja orientada para a constru\u00e7\u00e3o de igualdade de g\u00eanero e ra\u00e7a, as pol\u00edticas de cuidado precisam ser criadas e oferecidas de forma universal. As pol\u00edticas de cuidado devem alcan\u00e7ar o conjunto da sociedade para serem efetivamente apoio, refer\u00eancia e alternativa para as mulheres da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Essa pesquisa abre novos caminhos de reflex\u00e3o e de a\u00e7\u00e3o, que devem ocorrer de maneira indissoci\u00e1vel. Como avan\u00e7ar na elabora\u00e7\u00e3o de concep\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas de cuidado que enfrentam as desigualdades? Como construir uma sociedade onde as mulheres n\u00e3o estejam t\u00e3o sobrecarregadas com o cuidado alheio e recebendo t\u00e3o pouco cuidado para si? A economia feminista fundamenta nosso caminho: solidariedade, coopera\u00e7\u00e3o, solu\u00e7\u00f5es coletivas e organiza\u00e7\u00e3o popular s\u00e3o fundamentais para construir essas respostas, para al\u00e9m do discurso, na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A pesquisa sugere a necessidade de compreender melhor as formas de atua\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, sindicais e das iniciativas comunit\u00e1rias e suas poss\u00edveis contribui\u00e7\u00f5es para a vida cotidiana das mulheres. Tamb\u00e9m nos interpela a refletir sobre a reorganiza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para alterar o papel do Estado, responsabilizando-o pelo fomento e financiamento de iniciativas auto-organizadas pelas mulheres nos seus territ\u00f3rios, sem burocratiz\u00e1-las, nem tirar delas sua autonomia.<\/p>\n<p>Como uma iniciativa enraizada nas pr\u00e1ticas e nas elabora\u00e7\u00f5es do feminismo popular, a pesquisa <strong>Sem Parar 2025<\/strong> convida todas as pessoas a refletirem sobre estrat\u00e9gias coletivas, como a economia solid\u00e1ria, os movimentos sociais, as iniciativas comunit\u00e1rias de cuidado e a participa\u00e7\u00e3o popular para a constru\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Elas trazem o potencial de responder \u00e0 demanda de equilibrar melhor as tarefas de cuidado, politizando compreens\u00f5es do que \u00e9 o cuidado e apontando caminhos criativos, inovadores e ancestrais para sua coletiviza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os dados da pesquisa <strong>Sem Parar 2025<\/strong> contribuem para a constru\u00e7\u00e3o de uma agenda pol\u00edtica feminista sobre o cuidado. Indicam que a sa\u00edda passa pelo fortalecimento de iniciativas comunit\u00e1rias, que n\u00e3o apenas se mostram como respostas concretas de melhor divis\u00e3o desses trabalhos, mas tamb\u00e9m como poss\u00edveis fontes de autonomia econ\u00f4mica. Al\u00e9m disso, carregam em si o potencial de politizar e transformar a divis\u00e3o sexual e racial do trabalho a partir de uma perspectiva cr\u00edtica, feminista e antirracista.<\/p>\n<p>Para saber mais sobre a pesquisa, acesse: <a href=\"http:\/\/semparar2025.sof.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>semparar2025.sof.org.br<\/u><\/a><\/p>\n<p>No portal virtual est\u00e3o disponibilizados um relat\u00f3rio com a an\u00e1lise completa dos dados, al\u00e9m de entrevistas e artigos tem\u00e1ticos, chamados de <em>an\u00e1lises feministas<\/em> que ajudam a conhecer com mais profundidade dados das mulheres negras; mulheres rurais; das atingidas por barragens, crimes socioambientais e eventos extremos da crise clim\u00e1tica; e das trabalhadoras dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p><em><strong>Beatriz Schwenck <\/strong>\u00e9 soci\u00f3loga e militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM). Coordenadora da pesquisa Sem Parar 2025 pela SOF Sempreviva Organiza\u00e7\u00e3o Feminista.<\/em><\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-que-o-crescimento-evangelico-desacelerou-no-brasil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Por que o crescimento evang\u00e9lico desacelerou no Br...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fim-de-semana-cultural-no-ceara-reune-musica-tradicao-popular-e-programacao-inclusiva\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fim de semana cultural no Cear\u00e1 re\u00fane m\u00fasica, trad...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mulheres-lesbicas-e-bissexuais-fazem-caminhada-em-sp-contra-violencia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Mulheres l\u00e9sbicas e bissexuais fazem caminhada em ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/indigena-e-assassinado-em-mais-um-caso-de-violencia-no-sul-da-bahia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/fogo-casa-pataxo-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ind\u00edgena \u00e9 assassinado em mais um caso de viol\u00eanci...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2020, a pesquisa \u201cSem Parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia\u201d revelou que 50% das mulheres brasileiras passaram a ser respons\u00e1veis pelo cuidado de algu\u00e9m com a chegada da pandemia de Covid-19. Essa pesquisa, realizada pela Sempreviva Organiza\u00e7\u00e3o Feminista (SOF) e pela G\u00eanero e N\u00famero (GN), deu visibilidade \u00e0 sobrecarga de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[2153,2276,82,38877,80250,22633,4407,80251,377],"tags":[],"class_list":["post-100671","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analise","category-desigualdade","category-mulheres","category-pandemia-covid","category-pesquisa-sem-parar","category-politica-de-cuidado","category-renda","category-sof-sempreviva-organizacao-feminista","category-trabalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100671","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=100671"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100671\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=100671"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=100671"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=100671"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}