{"id":101651,"date":"2026-08-25T13:05:34","date_gmt":"2026-08-25T16:05:34","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ainda-sobre-a-inflacao-de-alimentos-no-brasil\/"},"modified":"2026-08-25T13:05:34","modified_gmt":"2026-08-25T16:05:34","slug":"ainda-sobre-a-inflacao-de-alimentos-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ainda-sobre-a-inflacao-de-alimentos-no-brasil\/","title":{"rendered":"Ainda sobre a infla\u00e7\u00e3o de alimentos no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7o a coluna aproveitando o gancho do meu colega Gustavo Faleiros, que gentilmente me trouxe para conversa ao falar sobre a infla\u00e7\u00e3o de alimentos, em sua coluna da semana passada. (Para quem ainda n\u00e3o leu, Gustavo traz uma excelente explica\u00e7\u00e3o sobre o impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no pre\u00e7o dos alimentos.)\u00a0<\/p>\n<p>Trago aqui mais algumas camadas desse problema t\u00e3o complexo, me baseando no relat\u00f3rio \u201cA Infla\u00e7\u00e3o de Alimentos No Brasil: Um Fen\u00f4meno Estrutural, Espec\u00edfico E Sist\u00eamico\u201d, do economista Valter Palmieri Junior., e nas formula\u00e7\u00f5es dos que s\u00e3o, indiscutivelmente, os maiores especialistas no assunto: o Instituto Fome Zero (IFZ).<\/p>\n<p>Como bem colocado pelo Gustavo, a infla\u00e7\u00e3o de alimentos se tornou uma preocupa\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios pa\u00edses, especialmente a partir da pandemia do COVID-19. Mas, aqui no Brasil, o fen\u00f4meno propriamente dito \u00e9 mais antigo, e j\u00e1 \u00e9 percebido h\u00e1 duas d\u00e9cadas.\u00a0<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o de alimentos acontece quando os pre\u00e7os de alimentos e bebidas crescem mais do que a infla\u00e7\u00e3o como um todo. Ou seja, quando o \u00cdndice de Pre\u00e7os de Alimentos e Bebidas (IPAB) cresce mais do que o \u00cdndice de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo (IPCA) \u2013pelo qual normalmente medimos a infla\u00e7\u00e3o no Brasil.\u00a0<\/p>\n<p>E isso acontece praticamente todo ano desde 2007. De l\u00e1 para c\u00e1, o pre\u00e7o dos alimentos subiu 1,6 vez mais do que o restante dos pre\u00e7os. Por isso, especialistas v\u00eam alertando para o problema da infla\u00e7\u00e3o dos alimentos h\u00e1 bastante tempo.\u00a0<\/p>\n<p>Mas, desde a pandemia, uma coisa mudou: o grupo que puxava o crescimento do IPAB at\u00e9 ent\u00e3o era, sobretudo, o da alimenta\u00e7\u00e3o fora do domic\u00edlio. Ou seja, pre\u00e7os de comida em bares, lanchonetes e restaurantes. Desde 2020 \u00e9 o grupo de alimentos consumidos no domic\u00edlio quem cresce mais, acumulando uma alta de 65% em apenas seis anos!\u00a0<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a tem efeitos perversos. A despesa com alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 incontorn\u00e1vel: todos precisam comer. \u00c9 claro que existem diferen\u00e7as na alimenta\u00e7\u00e3o de pessoas com mais e menos dinheiro, mas, no limite, todos gastam com isso. \u00c9 uma conta que pesa mais para quem ganha menos e precisa destinar uma parcela maior de seu or\u00e7amento para a comida.\u00a0<\/p>\n<p>Dados do IBGE mostram que a alimenta\u00e7\u00e3o representava, em 2018, 23,8% dos gastos das fam\u00edlias que ganhavam at\u00e9 dois sal\u00e1rios-m\u00ednimos. J\u00e1 para as que ganhavam mais de 25 sal\u00e1rios-m\u00ednimos, era apenas 11,5%. Com a escalada dos pre\u00e7os desde ent\u00e3o, \u00e9 bem prov\u00e1vel que essa propor\u00e7\u00e3o tenha subido, com ainda mais intensidade para os mais pobres.\u00a0<\/p>\n<p>Comer fora muitas vezes \u00e9 um luxo, a base da alimenta\u00e7\u00e3o da maioria dos brasileiros \u00e9 de refei\u00e7\u00f5es preparadas em casa. Essa op\u00e7\u00e3o segue sendo a mais barata, mas seu custo vem crescendo com maior rapidez.\u00a0<\/p>\n<p>Aqui, vale destacar: s\u00e3o os alimentos <em>in natura<\/em> e minimamente processados \u2013 aqueles colhidos diretos do p\u00e9 ou compostos de poucos ingredientes \u2013 que recebem a maior alta de pre\u00e7os, o que tamb\u00e9m \u00e9 grave do ponto de vista nutricional.\u00a0<\/p>\n<p>O pre\u00e7o das frutas cresceu 2,8 vezes mais do que a infla\u00e7\u00e3o geral nos \u00faltimos vinte anos, e o dos legumes, 1,9 vez mais.\u00a0<\/p>\n<p>Em resumo, o biscoito recheado \u00e9 mais barato que a ma\u00e7\u00e3. Assim, quem tem menos renda tamb\u00e9m est\u00e1 perdendo, aos poucos, o direito a uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel.\u00a0<\/p>\n<p>No relat\u00f3rio, Palmieri Junior. destaca cinco principais fatores que explicam a infla\u00e7\u00e3o de alimentos. Um deles, o Gustavo trouxe: as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.\u00a0<\/p>\n<p>Escolho focar em outro: nosso modelo agroexportador. Em especial porque, curiosamente, defensores hist\u00f3ricos do agroneg\u00f3cio decidiram ligar, neste per\u00edodo eleitoral, para o custo de vida dos brasileiros.\u00a0<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio Bolsonaro (PL-RJ) mencionou, em seu discurso de lan\u00e7amento da campanha, a preocupa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias brasileiras com os pre\u00e7os nas prateleiras.<\/p>\n<p>Nikolas Ferreira (PL-MG) lan\u00e7ou um v\u00eddeo em que faz compras no mercado e, com pre\u00e7os mentirosamente inflacionados, reclama do custo das coisas.\u00a0<\/p>\n<p>No v\u00eddeo, o Nikolas acompanha uma mulher fazendo uma compra de cinco alimentos (caf\u00e9, ovo, feij\u00e3o, leite e picanha), que soma R$255,96. Por\u00e9m, o jornalista Guga Noblat foi a um supermercado de Bras\u00edlia (DF) e comprou as mesmas coisas, a fim de fazer uma checagem de pre\u00e7os, e chegou a uma conta de R$137,36 \u2013 86% a menos.<\/p>\n<p>Acontece que \u00e9 incoerente defender a expans\u00e3o desenfreada do agroneg\u00f3cio e depois reclamar de uma de suas consequ\u00eancias mais imediatas, como fazem ambos os candidatos mencionados e muitos outros.\u00a0<\/p>\n<p>Explico.\u00a0<\/p>\n<p>A guinada agro do Brasil levou \u00e0 redu\u00e7\u00e3o expressiva dos hectares destinados ao cultivo de alimentos b\u00e1sicos, que foram perdendo espa\u00e7o, principalmente, para a soja, o milho e a cana de a\u00e7\u00facar, mais vendidos no mercado externo, como mostra o gr\u00e1fica abaixo.\u00a0<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a8db1774e70a\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a8db1774e70a\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption><em>Fonte: Palmieri Junior (2026). A infla\u00e7\u00e3o de alimentos no Brasil: um fen\u00f4meno estrutural, espec\u00edfico e sist\u00eamico<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Isso mudou bastante a din\u00e2mica e os custos de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola no Brasil, mesmo para alimentos que s\u00e3o mais consumidos internamente do que exportados. O feij\u00e3o, por exemplo.\u00a0<\/p>\n<p>Como explica Palmieri Junior, ao privilegiar as culturas de exporta\u00e7\u00e3o, recursos fundamentais, como terras, cr\u00e9dito e incentivos fiscais s\u00e3o deslocados para esses cultivos, o que acaba esvaziando a produ\u00e7\u00e3o dos demais alimentos, que se tornam menos atrativos.\u00a0<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o pre\u00e7o da terra sobe, porque a agricultura se torna uma zona de investimento lucrativo, o que tamb\u00e9m encarece os alimentos \u00e0 mesa.\u00a0<\/p>\n<p>Ainda que esse deslocamento produtivo n\u00e3o signifique uma escassez literal da comida no supermercado, certamente influencia sua din\u00e2mica de pre\u00e7os, tanto pela falta de incentivos quanto pela redu\u00e7\u00e3o da oferta.<\/p>\n<p>O modelo agroexportador que prioriza o cultivo de commodities ao de alimentos n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico fator para a eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o da comida. Mas \u00e9 um bem importante.\u00a0<\/p>\n<p>E em um mundo de instabilidades internacionais, guerra e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, \u00e9 um dos poucos sobre os quais a pol\u00edtica interna ainda consegue decidir.\u00a0<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o possamos controlar totalmente o pre\u00e7o dos combust\u00edveis e fertilizantes ou o tamanho do El-Ni\u00f1o \u2013 mesmo que a a\u00e7\u00e3o humana contribua para todos esses fatores.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Mas a forma como produzimos comida ainda \u00e9 uma escolha pol\u00edtica nossa.\u00a0<\/p>\n<p>Direcionar incentivos produtivos para alimentos \u2013\u00a0 como feij\u00e3o, arroz, mandioca e batata \u2013 em vez de commodities, como a soja, retomar os estoques reguladores da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) e investir na log\u00edstica de transporte e armazenagem para o mercado interno s\u00e3o pol\u00edticas p\u00fablicas importantes, eficazes e, sobretudo, muito poss\u00edveis. Mas requerem vontade pol\u00edtica.\u00a0<\/p>\n<p>Por isso, fica o apelo para que a soberania alimentar seja uma bandeira \u2013 atenta, e n\u00e3o demag\u00f3gica \u2013 tamb\u00e9m nestas elei\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/melhor-tenista-brasileira-em-atividade-bia-avanca-na-australia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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