{"id":101876,"date":"2026-08-25T19:08:26","date_gmt":"2026-08-25T22:08:26","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/minerais-criticos-o-neocolonialismo-ronda-o-brasil\/"},"modified":"2026-08-25T19:08:26","modified_gmt":"2026-08-25T22:08:26","slug":"minerais-criticos-o-neocolonialismo-ronda-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/minerais-criticos-o-neocolonialismo-ronda-o-brasil\/","title":{"rendered":"Minerais cr\u00edticos: O neocolonialismo ronda o Brasil"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"557\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/mineracao-lavagem-transporte-sigma-lithium-minas-geraisjpg.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/mineracao-lavagem-transporte-sigma-lithium-minas-geraisjpg.jpg 1000w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/mineracao-lavagem-transporte-sigma-lithium-minas-gerais.jpg-300x166.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/mineracao-lavagem-transporte-sigma-lithium-minas-gerais.jpg-768x428.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/mineracao-lavagem-transporte-sigma-lithium-minas-gerais.jpg-219x121.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption>Mina de l\u00edtio Grota do Cirilo da Sigma, no Vale do Jequitinhonha. Foto: Benchmark \/ Divulga\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A disputa pelos chamados minerais cr\u00edticos tornou-se um dos eixos centrais da geopol\u00edtica contempor\u00e2nea. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, apresentada ao mundo como resposta \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica, depende de um conjunto de mat\u00e9rias-primas sem as quais n\u00e3o h\u00e1 carro el\u00e9trico, turbina e\u00f3lica, painel solar ou data center. L\u00edtio, terras raras, ni\u00f3bio, grafita, n\u00edquel e cobre passaram a ocupar, nas estrat\u00e9gias de seguran\u00e7a das grandes pot\u00eancias, o lugar que o petr\u00f3leo ocupou ao longo do s\u00e9culo XX. E, como ocorreu com o petr\u00f3leo, a corrida por esses recursos vem acompanhada de press\u00f5es, amea\u00e7as e inger\u00eancias sobre os pa\u00edses que os possuem.<\/p>\n<p>O comportamento recente do governo norte-americano ilustra bem essa nova fase. Em 2025, Washington imp\u00f4s tarifas elevadas sobre produtos brasileiros e condicionou sua revis\u00e3o a decis\u00f5es internas do Estado brasileiro, inclusive de natureza judicial, tratando o com\u00e9rcio como instrumento de coer\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o se trata de epis\u00f3dio isolado. A mesma pot\u00eancia acumula, na Am\u00e9rica Latina e em outras regi\u00f5es do sul global, san\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as e declara\u00e7\u00f5es que tratam pa\u00edses soberanos como \u00e1rea natural de influ\u00eancia e seus recursos como ativos de seguran\u00e7a dos Estados Unidos, como se a riqueza alheia fosse extens\u00e3o do pr\u00f3prio territ\u00f3rio. Nesse quadro, o subsolo brasileiro deixou de ser tema de pol\u00edtica econ\u00f4mica para se tornar tema de soberania. E a amea\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas externa. Setores da pol\u00edtica nacional se movem abertamente no sentido de apoiar a agenda de Washington, e um pr\u00e9-candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ligado \u00e0 extrema-direita alinhada ao trumpismo, chegou a defender publicamente que os Estados Unidos sejam o parceiro preferencial para explorar os recursos naturais do pa\u00eds. A decis\u00e3o sobre quem controlar\u00e1 essa riqueza, em que termos e em benef\u00edcio de quem, estar\u00e1 em jogo nas urnas em outubro de 2026, e caber\u00e1 ao eleitorado brasileiro a responsabilidade de compreender o que est\u00e1 em disputa.<\/p>\n<p>Um epis\u00f3dio recente mostra que essa tentativa de integra\u00e7\u00e3o subordinada j\u00e1 est\u00e1 em curso. Em abril de 2026, tornou-se p\u00fablica a aquisi\u00e7\u00e3o da Minera\u00e7\u00e3o Serra Verde, instalada no munic\u00edpio de Mina\u00e7u, no norte de Goi\u00e1s, por uma corpora\u00e7\u00e3o americana do setor de terras raras, em neg\u00f3cio de 2,8 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. A opera\u00e7\u00e3o de Mina\u00e7u \u00e9 a \u00fanica extra\u00e7\u00e3o comercial de terras raras fora da \u00c1sia, o que a converteu em ativo estrat\u00e9gico de primeira ordem. Meses antes, a empresa j\u00e1 havia recebido 565 milh\u00f5es de d\u00f3lares em financiamento da Corpora\u00e7\u00e3o Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos, ag\u00eancia do governo federal americano, e firmado contrato de quinze anos para fornecer ao mercado americano \u00f3xidos de dispr\u00f3sio e t\u00e9rbio com pre\u00e7os m\u00ednimos garantidos ao comprador. O cerrado goiano passou a integrar, formalmente e por contrato, a estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a mineral de Washington.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/14--29.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/14--29.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Os n\u00fameros que permanecem no territ\u00f3rio s\u00e3o de outra grandeza. Dados da Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o mostram que as terras raras geraram apenas 1,89 milh\u00e3o de reais em Compensa\u00e7\u00e3o Financeira pela Explora\u00e7\u00e3o Mineral em 2025, o equivalente a 0,82% da arrecada\u00e7\u00e3o miner\u00e1ria de Goi\u00e1s. A compara\u00e7\u00e3o \u00e9 eloquente. Um neg\u00f3cio avaliado em bilh\u00f5es de d\u00f3lares no mercado internacional produz, na ponta local, um royalty que n\u00e3o custeia sequer a manuten\u00e7\u00e3o das estradas por onde o min\u00e9rio \u00e9 escoado. A riqueza sai, o valor \u00e9 agregado fora e a compensa\u00e7\u00e3o que fica \u00e9 simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>O Brasil ocupa posi\u00e7\u00e3o singular nessa corrida. Segundo o Servi\u00e7o Geol\u00f3gico do Brasil, o pa\u00eds det\u00e9m a segunda maior reserva mundial de terras raras, com 21 milh\u00f5es de toneladas, cerca de 23% do total global, atr\u00e1s apenas da China. Concentra ainda 94% das reservas mundiais conhecidas de ni\u00f3bio e posi\u00e7\u00f5es de destaque em grafita e n\u00edquel. Os elementos mais valorizados desse grupo, como o neod\u00edmio, o praseod\u00edmio, o dispr\u00f3sio e o t\u00e9rbio, s\u00e3o justamente os empregados na fabrica\u00e7\u00e3o de \u00edm\u00e3s permanentes para motores el\u00e9tricos e geradores e\u00f3licos, cuja demanda deve crescer de forma acelerada nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Em tese, essa dota\u00e7\u00e3o mineral daria ao pa\u00eds enorme poder de barganha nas negocia\u00e7\u00f5es internacionais, permitindo escolher parceiros, impor condi\u00e7\u00f5es, exigir contrapartidas tecnol\u00f3gicas e planejar o aproveitamento das reservas no longo prazo, segundo o interesse nacional. Na pr\u00e1tica, o que se observa \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o antigo, em que a pressa dos compradores dita o ritmo e os termos da explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O movimento dos compradores \u00e9 r\u00e1pido e articulado. A Uni\u00e3o Europeia acelera parcerias para garantir o suprimento de compostos de terras raras extra\u00eddos em Minas Gerais, como a carta de inten\u00e7\u00f5es firmada entre a mineradora que opera o projeto Colossus, em Po\u00e7os de Caldas, e uma multinacional qu\u00edmica belga. O Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Jap\u00e3o anunciaram pacote financeiro para mapear \u00e1reas promissoras na Bahia e no Vale do Jequitinhonha. O governo brasileiro, por sua vez, formulou em 2026 a Estrat\u00e9gia Nacional de Terras Raras, que desaguou na Pol\u00edtica Nacional de Minerais Cr\u00edticos e Estrat\u00e9gicos, aprovada pela C\u00e2mara dos Deputados. A moldura institucional avan\u00e7a. O que ainda n\u00e3o avan\u00e7ou foi a garantia de que essa riqueza servir\u00e1 ao desenvolvimento do pa\u00eds e dos territ\u00f3rios de onde \u00e9 extra\u00edda.<\/p>\n<p>O risco de repeti\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 concreto, pois a cadeia produtiva desses minerais envolve etapas complexas de beneficiamento e refino que permanecem pouco desenvolvidas no Brasil. Sem dominar essas etapas, o pa\u00eds tende a continuar exportando concentrado mineral de baixo valor e importando, a pre\u00e7os muito superiores, os \u00edm\u00e3s, as baterias e os equipamentos fabricados com sua pr\u00f3pria mat\u00e9ria-prima. \u00c9 o mesmo padr\u00e3o de depend\u00eancia que marcou toda a hist\u00f3ria econ\u00f4mica brasileira. Do pau-brasil ao ouro, do caf\u00e9 ao min\u00e9rio de ferro, a posi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds na divis\u00e3o internacional do trabalho se repete. A novidade \u00e9 apenas a embalagem discursiva, que reveste a velha exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas com a linguagem da sustentabilidade. Agora a extra\u00e7\u00e3o se apresenta como contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>Nenhum caso exp\u00f5e o custo local desse arranjo com tanta clareza quanto o do l\u00edtio no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Uma mineradora canadense iniciou em 2023 a produ\u00e7\u00e3o comercial de concentrado de l\u00edtio no complexo Grota do Cirilo, entre os munic\u00edpios de Ara\u00e7ua\u00ed e Itinga, e rapidamente se tornou a maior opera\u00e7\u00e3o do g\u00eanero no pa\u00eds. A empresa se apresenta ao mercado internacional como produtora de l\u00edtio verde, com selo pr\u00f3prio de sustentabilidade que alega zero uso de \u00e1gua pot\u00e1vel, zero barragens de rejeito e zero emiss\u00f5es. O discurso \u00e9 impec\u00e1vel. A realidade documentada no territ\u00f3rio conta outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da \u00e1gua \u00e9 o n\u00facleo do conflito. A mineradora obteve outorga da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas para captar 3,6 milh\u00f5es de litros por dia em uma regi\u00e3o semi\u00e1rida que convive com escassez h\u00eddrica cr\u00f4nica. Fam\u00edlias das comunidades rurais do entorno sobrevivem com 30 a 50 litros di\u00e1rios por pessoa. O Movimento dos Atingidos por Barragens calcula que o volume outorgado \u00e0 empresa seria suficiente para abastecer 34 mil fam\u00edlias. O contexto clim\u00e1tico agrava o quadro. Estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais revelou que o Vale do Jequitinhonha concentra 18 das 20 cidades que mais aqueceram no Brasil em 2023. \u00c9 nesse cen\u00e1rio que a empresa distribui \u00e0s fam\u00edlias caixas d\u2019\u00e1gua de mil litros, estampadas com seu logotipo e abastecidas uma vez por m\u00eas por caminh\u00e3o-pipa, como parte de um programa social que apresenta ao mercado como evid\u00eancia de responsabilidade corporativa. Mil litros mensais para uma fam\u00edlia inteira, concedidos por quem capta milh\u00f5es de litros di\u00e1rios do mesmo territ\u00f3rio. A escassez, que j\u00e1 era severa antes da chegada do empreendimento, converteu-se em disputa direta entre a produ\u00e7\u00e3o destinada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o e a sobreviv\u00eancia cotidiana das fam\u00edlias, e essa disputa vem sendo decidida, at\u00e9 aqui, em favor da exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os impactos v\u00e3o muito al\u00e9m da \u00e1gua. Moradores das comunidades de Piau\u00ed Po\u00e7o Dantas, Ponte do Piau\u00ed e Taquaral Seco relatam poeira permanente, doen\u00e7as respirat\u00f3rias, ru\u00eddo ininterrupto de m\u00e1quinas e rachaduras nas casas provocadas pelas detona\u00e7\u00f5es. Relat\u00f3rio do Minist\u00e9rio P\u00fablico de Minas Gerais identifica cerca de 70 fam\u00edlias diretamente impactadas pelo empreendimento. Nota t\u00e9cnica assinada por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Estadual de Montes Claros aponta irregularidades no licenciamento ambiental, aus\u00eancia de consulta \u00e0s comunidades e a ado\u00e7\u00e3o de tecnologias mais baratas e mais destrutivas do que as alternativas dispon\u00edveis, recomendando a paralisa\u00e7\u00e3o das atividades. Parecer t\u00e9cnico do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal registra que o Estudo de Impacto Ambiental do empreendimento n\u00e3o contou com nenhum antrop\u00f3logo ou soci\u00f3logo, o que comprometeu a identifica\u00e7\u00e3o das comunidades tradicionais afetadas, entre elas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e quilombolas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HUCITEC-basaglia1-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HUCITEC-basaglia1-1.png 728w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2022\/11\/HUCITEC-basaglia1-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Diante dessa realidade documentada por relat\u00f3rios, notas t\u00e9cnicas e den\u00fancias das pr\u00f3prias comunidades, as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de controle come\u00e7aram a se movimentar e a produzir respostas concretas. Em setembro de 2025, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal recomendou \u00e0 Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o a suspens\u00e3o e a revis\u00e3o de todas as autoriza\u00e7\u00f5es de pesquisa e extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio no Vale do Jequitinhonha, exigindo consulta pr\u00e9via, livre, informada e de boa-f\u00e9 \u00e0s popula\u00e7\u00f5es locais antes de qualquer nova concess\u00e3o. Em dezembro do mesmo ano, o Minist\u00e9rio P\u00fablico de Minas Gerais ajuizou a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica pedindo o bloqueio de 50 milh\u00f5es de reais da mineradora para garantir a repara\u00e7\u00e3o dos danos coletivos, al\u00e9m de auditoria independente e assessoria jur\u00eddica permanente para as comunidades. Tramita ainda no Supremo Tribunal Federal a\u00e7\u00e3o direta que questiona a legalidade do empreendimento e dedica um cap\u00edtulo ao racismo ambiental, argumentando que a popula\u00e7\u00e3o do Vale, majoritariamente preta, parda e ind\u00edgena, sofre impacto desproporcional e \u00e9 tratada nos documentos da empresa como parte impactada, e n\u00e3o como parte interessada.<\/p>\n<p>Um epis\u00f3dio ocorrido durante a COP30, em novembro de 2025, sintetizou a dimens\u00e3o simb\u00f3lica dessa rela\u00e7\u00e3o. Em entrevista a uma rede internacional de televis\u00e3o, a presidente-executiva da mineradora afirmou que a empresa havia treinado a gera\u00e7\u00e3o perdida do Vale, formada por mulas de \u00e1gua, crian\u00e7as sem escola que carregavam latas na cabe\u00e7a. A declara\u00e7\u00e3o provocou rep\u00fadio imediato de moradores, prefeitos, lideran\u00e7as comunit\u00e1rias e parlamentares da regi\u00e3o. A fala \u00e9 reveladora justamente porque n\u00e3o foi um acidente. Ela expressa o modo como o capital minerador enxerga as popula\u00e7\u00f5es dos territ\u00f3rios que explora. N\u00e3o como sujeitos de direitos com quem se negocia em p\u00e9 de igualdade, mas como paisagem atrasada que a empresa alega redimir pelo emprego. \u00c9 a mesma ret\u00f3rica civilizat\u00f3ria que acompanhou todos os ciclos extrativos anteriores, da col\u00f4nia \u00e0 rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O paradoxo central merece ser enunciado sem rodeios. A descarboniza\u00e7\u00e3o das economias do norte global, necess\u00e1ria e urgente, est\u00e1 sendo constru\u00edda sobre a reprodu\u00e7\u00e3o do pacto colonial nos territ\u00f3rios do sul. O carro el\u00e9trico que circula na Europa e nos Estados Unidos carrega l\u00edtio extra\u00eddo com \u00e1gua que falta \u00e0s fam\u00edlias do semi\u00e1rido mineiro. A turbina que descarboniza a matriz el\u00e9trica americana depende de dispr\u00f3sio e t\u00e9rbio garantidos por contrato de longo prazo em Mina\u00e7u, a pre\u00e7os m\u00ednimos definidos em benef\u00edcio do comprador. Os custos ambientais e sociais da transi\u00e7\u00e3o foram transferidos para comunidades que pouco ou nada consomem da energia limpa gerada com seus recursos, enquanto os benef\u00edcios econ\u00f4micos e tecnol\u00f3gicos se concentram nos pa\u00edses compradores e nos acionistas das mineradoras.<\/p>\n<p>Nesse arranjo, a ret\u00f3rica da sustentabilidade cumpre fun\u00e7\u00e3o precisa. Os selos de l\u00edtio verde, as certifica\u00e7\u00f5es ESG e os relat\u00f3rios corporativos de responsabilidade social n\u00e3o protegem os territ\u00f3rios. Legitimam a opera\u00e7\u00e3o perante investidores e consumidores distantes, que compram a promessa de um produto limpo sem conhecer o que ocorre na origem. O caso do Jequitinhonha oferece um exemplo acabado dessa engenharia reputacional. A mesma empresa que se apresenta como produtora de l\u00edtio carbono zero compensou suas emiss\u00f5es com cr\u00e9ditos de carbono de um projeto na Amaz\u00f4nia investigado por suspeita de grilagem de terras p\u00fablicas. A sustentabilidade anunciada no mercado financeiro internacional se sustenta, na pr\u00e1tica, sobre passivos empurrados para os elos mais fracos da cadeia.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, uma disputa em aberto, e ela importa. A aprova\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Minerais Cr\u00edticos e o debate sobre a cria\u00e7\u00e3o de uma empresa estatal para o setor, a Terrabras, defendida por parlamentares e combatida pelo empresariado da minera\u00e7\u00e3o, indicam que o desenho institucional ainda n\u00e3o est\u00e1 fechado. Soberania, aqui, n\u00e3o significa fechar o pa\u00eds ao investimento externo. Significa a capacidade do Estado de definir os termos da explora\u00e7\u00e3o. Significa exigir beneficiamento e industrializa\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio nacional, transfer\u00eancia efetiva de tecnologia, consulta pr\u00e9via e vinculante \u00e0s comunidades atingidas e reparti\u00e7\u00e3o real de benef\u00edcios com os munic\u00edpios produtores. Significa, sobretudo, n\u00e3o permitir que contratos privados de longo prazo, firmados sob press\u00e3o geopol\u00edtica, hipotequem o controle nacional sobre recursos que ser\u00e3o decisivos pelas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. O pr\u00f3prio Brasil j\u00e1 viveu essa encruzilhada. Foi a decis\u00e3o de manter o controle nacional sobre o petr\u00f3leo, com a cria\u00e7\u00e3o da Petrobras, que transformou uma posi\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia em capacidade tecnol\u00f3gica e industrial reconhecida mundialmente. A li\u00e7\u00e3o vale integralmente para os minerais da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>O poder p\u00fablico brasileiro tem responsabilidade direta nesse quadro, e n\u00e3o apenas por omiss\u00e3o regulat\u00f3ria. O Fundo Clima, gerido pelo BNDES e criado para financiar o enfrentamento da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, concedeu 500 milh\u00f5es de reais \u00e0 mesma mineradora do Jequitinhonha para dobrar sua capacidade de produ\u00e7\u00e3o, com base nas licen\u00e7as concedidas pelos \u00f3rg\u00e3os ambientais estaduais. O Estado que financia a expans\u00e3o do modelo \u00e9 o mesmo que deveria fiscaliz\u00e1-lo. Enquanto os governos estaduais competem entre si oferecendo isen\u00e7\u00f5es fiscais e licenciamento ambiental acelerado, com prazos encurtados e exig\u00eancias abrandadas, para atrair mineradoras, as comunidades atingidas seguem sem ser consultadas, e a arrecada\u00e7\u00e3o que fica nos territ\u00f3rios permanece irris\u00f3ria. Trata-se de uma escolha pol\u00edtica, n\u00e3o de uma fatalidade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Mina\u00e7u e do Jequitinhonha ensina que a corre\u00e7\u00e3o de rumo n\u00e3o vir\u00e1 por concess\u00e3o espont\u00e2nea do capital. Vir\u00e1 da press\u00e3o organizada das comunidades atingidas, da atua\u00e7\u00e3o dos Minist\u00e9rios P\u00fablicos, da pesquisa universit\u00e1ria independente e do jornalismo que documenta o que os relat\u00f3rios corporativos omitem. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u00e9 indispens\u00e1vel, mas n\u00e3o haver\u00e1 transi\u00e7\u00e3o justa enquanto ela repetir a viol\u00eancia colonial que pretende superar. Sem soberania sobre a cadeia produtiva e sem as popula\u00e7\u00f5es locais como protagonistas das decis\u00f5es, o extrativismo verde \u00e9 apenas extrativismo. E o Brasil conhece, h\u00e1 cinco s\u00e9culos, o final dessa hist\u00f3ria. Cabe ao pa\u00eds, agora, escrever um final diferente.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Fontes consultadas<\/strong><\/p>\n<p>AG\u00caNCIA BRASIL. Terras raras, minerais estrat\u00e9gicos e cr\u00edticos: entenda as diferen\u00e7as. abr. 2026. Vale do L\u00edtio: explora\u00e7\u00e3o de metais cr\u00edticos impacta comunidades em MG. out. 2025.<\/p>\n<p>AG\u00caNCIA P\u00daBLICA. Extra\u00e7\u00e3o de terras raras em Goi\u00e1s vira neg\u00f3cio bilion\u00e1rio com aquisi\u00e7\u00e3o americana. abr. 2026. Minist\u00e9rio P\u00fablico aciona Sigma Lithium e pede bloqueio de R$ 50 milh\u00f5es da mineradora. dez. 2025.<\/p>\n<p>BRASIL DE FATO. A\u00e7\u00e3o no STF questiona legalidade de projeto de l\u00edtio no Vale do Jequitinhonha. jul. 2025. Pesquisadores denunciam viola\u00e7\u00f5es da mineradora Sigma no Vale do Jequitinhonha (MG). maio 2025. Acesso \u00e0 \u00e1gua e minera\u00e7\u00e3o: o impacto da Sigma no Jequitinhonha (MG). ago. 2026.<\/p>\n<p>MONGABAY BRASIL. Comunidade no Vale do Jequitinhonha relata doen\u00e7as ap\u00f3s chegada de mina de l\u00edtio. nov. 2024, atualizada em jan. 2026.<\/p>\n<p>NACLA (NORTH AMERICAN CONGRESS ON LATIN AMERICA). \u201cWe Are Not the Lithium Valley!\u201d. ago. 2025.<\/p>\n<p>OBSERVAT\u00d3RIO DA MINERA\u00c7\u00c3O. Boom do l\u00edtio no Jequitinhonha restringe acesso \u00e0 sa\u00fade e aumenta o custo de vida para a comunidade local. abr. 2025. Pesquisadores pedem paralisa\u00e7\u00e3o da extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio da Sigma no Vale do Jequitinhonha. maio 2025.<\/p>\n<p>REP\u00d3RTER BRASIL. Fala de CEO da Sigma sobre moradores do Jequitinhonha gera rep\u00fadio. nov. 2025.<\/p>\n<p>REVISTA F\u00d3RUM. Minerais do futuro: Brasil ganha protagonismo em corrida bilion\u00e1ria por terras raras. jun. 2026.<\/p>\n<p>SERVI\u00c7O GEOL\u00d3GICO DO BRASIL. Esclarecimentos sobre o potencial do pa\u00eds para terras raras e minerais estrat\u00e9gicos. 2026.<\/p>\n<p>TRIBUNA DO PLANALTO. Terras raras ainda t\u00eam baixa participa\u00e7\u00e3o na minera\u00e7\u00e3o de Goi\u00e1s. maio 2026.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Casos em Goi\u00e1s e Vale do Jequitinhonha s\u00e3o emblem\u00e1ticos. Pa\u00eds aceitar\u00e1 novo ciclo de depend\u00eancia e extrativismo? Como construir pol\u00edticas soberanas e resgatar a ind\u00fastria nacional<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/minerais-criticos-o-neocolonialismo-ronda-o-brasil\/\">Minerais cr\u00edticos: O neocolonialismo ronda o Brasil<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":101877,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[347,6007,5398,1312,10615,20500,4992,5471,1048,1482,553,44791],"tags":[],"class_list":["post-101876","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","category-crise-brasileira","category-emergencia-climatica","category-geopolitica","category-minerais-criticos","category-norte-global","category-politica-economica","category-politica-nacional","category-soberania","category-sul-global","category-transicao-energetica","category-violencia-colonial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101876","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101876"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101876\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/101877"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101876"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101876"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101876"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}