{"id":101880,"date":"2026-08-25T19:22:49","date_gmt":"2026-08-25T22:22:49","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-mercado-das-aguas-e-o-futuro-das-cidades\/"},"modified":"2026-08-25T19:22:49","modified_gmt":"2026-08-25T22:22:49","slug":"o-mercado-das-aguas-e-o-futuro-das-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-mercado-das-aguas-e-o-futuro-das-cidades\/","title":{"rendered":"O mercado das \u00e1guas e o futuro das cidades"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"684\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ChatGPT-Image-25-de-ago-de-2026-19_31_47-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/ChatGPT-Image-25-de-ago.-de-2026-19_31_47-1-1500x684.png 1500w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/ChatGPT-Image-25-de-ago.-de-2026-19_31_47-1-300x137.png 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/ChatGPT-Image-25-de-ago.-de-2026-19_31_47-1-768x350.png 768w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/ChatGPT-Image-25-de-ago.-de-2026-19_31_47-1-1536x701.png 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ChatGPT-Image-25-de-ago-de-2026-19_31_47-1.png 1857w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Foto: Ricardo Oliveira\/CENARIUM<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Faltam sete anos. \u00c9 o prazo que o Marco Legal do Saneamento fixou ao Brasil para universalizar o acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel e ao esgotamento sanit\u00e1rio com planos municipais e regionais que devem prever metas progressivas at\u00e9 o fim de 2033, conforme estabelece a ANA (Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas e Saneamento B\u00e1sico). No Brasil, aproximadamente 90 milh\u00f5es de pessoas ainda n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 coleta de esgoto, cerca de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o sofre com a falta de saneamento b\u00e1sico adequado e apenas 51,8% do esgoto gerado \u00e9 tratado antes de retornar ao meio ambiente, segundo dados de 2024 do Minist\u00e9rio das Cidades.<\/p>\n<p>S\u00f3 que o andar da carruagem \u00e9, exatamente, o <em>andar da carruagem<\/em>: em vez de avan\u00e7ar a jato, como o prazo exigiria, as pol\u00edticas p\u00fablicas seguem no ritmo de cavalo cansado puxando carro\u00e7a, em um cen\u00e1rio no qual as corpora\u00e7\u00f5es entraram com sede de lucro e j\u00e1 operam os servi\u00e7os de \u00e1gua e esgoto de metade das cidades brasileiras. Tarifas disparam, companhias privadas demitem e terceirizam funcion\u00e1rios, a infraestrutura \u00e9 sucateada e contratos s\u00e3o firmados com pouca transpar\u00eancia. A falta d\u2019\u00e1gua vira rotina em v\u00e1rias cidades e interrup\u00e7\u00f5es no abastecimento paralisaram escolas e postos de sa\u00fade por dias. A press\u00e3o da \u00e1gua nas torneiras \u00e9 reduzida nas periferias, fam\u00edlias inadimplentes t\u00eam o fornecimento cortado e o servi\u00e7o nunca chega em regi\u00f5es consideradas \u201ceconomicamente invi\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es est\u00e3o a\u00ed: hora de pressionar candidatos a deputados, senadores, governadores e \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica por um projeto de reconstru\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Saneamento B\u00e1sico. E uma Plataforma para tal, com uma an\u00e1lise afiada dos retrocessos e propostas instigantes para revert\u00ea-los, foi lan\u00e7ada recentemente pelo ONDAS (Observat\u00f3rio Nacional dos Direitos \u00e0 \u00c1gua e ao Saneamento) e pela Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Urbanit\u00e1rios (FNU). Constru\u00edda a v\u00e1rias m\u00e3os e assinada por diversas entidades e movimentos da sociedade civil, ela defende que o saneamento n\u00e3o pode ser reduzido a um mero setor de infraestrutura ou a uma commodity negociada no mercado: \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica estruturante, indispens\u00e1vel para a dignidade humana, a justi\u00e7a social e a soberania do pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1-26.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1-26.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cO Brasil tem capacidade t\u00e9cnica consolidada e grande potencial t\u00e9cnico e tecnol\u00f3gico instalado h\u00e1 muitos anos. Trabalhadores e trabalhadoras muito qualificados, universidades e institui\u00e7\u00f5es capazes de apoiar a universaliza\u00e7\u00e3o do acesso aos servi\u00e7os\u201d, destaca o soci\u00f3logo Edson Aparecido da Silva. \u201cO grande problema, na nossa concep\u00e7\u00e3o, \u00e9 construir uma estrat\u00e9gia nacional que articule planejamento, financiamento e coopera\u00e7\u00e3o federativa entre estados e Uni\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Edson Aparecido foi um dos formuladores da Plataforma. Trabalhou por 40 anos na Sabesp, a maior empresa de saneamento do Brasil e uma das maiores do mundo. Hoje, \u00e9 secret\u00e1rio-executivo do ONDAS e assessor da FNU, entidade que re\u00fane trabalhadores dos setores de saneamento, energia, g\u00e1s e meio ambiente de todo o pa\u00eds. Para ele, o setor \u00e9 atravessado por um embate entre duas l\u00f3gicas: \u201cUma \u00e9 a financeira, por meio das privatiza\u00e7\u00f5es: o que mais importa \u00e9 a rentabilidade do servi\u00e7o, a gera\u00e7\u00e3o de dividendos e a valoriza\u00e7\u00e3o dos ativos da empresa. A outra \u00e9 a l\u00f3gica do direito, que \u00e9 alcan\u00e7ar a universaliza\u00e7\u00e3o, garantir a acessibilidade econ\u00f4mica e a qualidade dos servi\u00e7os prestados\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ponto de inflex\u00e3o, ocorrido h\u00e1 pouco mais de seis anos, que ajuda a compreender como essa tens\u00e3o se exacerbou no Brasil \u2014 e pende muit\u00edssimo para um dos lados.<\/p>\n<p><strong>Financeiriza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua brasileira<\/strong><\/p>\n<p>Est\u00e1vamos em plena pandemia quando o Congresso Nacional aprovou o Novo Marco Legal do Saneamento (Lei n\u00ba 14.026\/2020), o que alterou completamente as regras do jogo e <em>abriu as porteiras<\/em> do setor para o capital privado. Ficavam proibidos acordos diretos e sem concorr\u00eancia entre prefeituras e empresas estatais de saneamento. As licita\u00e7\u00f5es p\u00fablicas tornaram-se obrigat\u00f3rias, for\u00e7ando as cidades a abrir leil\u00f5es nos quais o setor privado e o p\u00fablico disputariam os servi\u00e7os. O resultado n\u00e3o foi bem uma disputa entre estes atores, mas a entrega do setor com papel e la\u00e7o de presente \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es. Em apenas cinco anos, a popula\u00e7\u00e3o atendida por companhias privadas saltou de 32 milh\u00f5es de pessoas para 93,8 milh\u00f5es, afirma Edson Aparecido. Hoje, praticamente metade dos munic\u00edpios brasileiros tem o saneamento sob o controle de concession\u00e1rias privadas, subconcess\u00f5es e Parcerias P\u00fablico-Privadas (PPPs).<\/p>\n<p>O avan\u00e7o da privatiza\u00e7\u00e3o consolidou um mercado altamente concentrado: cinco grupos \u2014 Aegea, BRK Ambiental, Equatorial, Igu\u00e1 Saneamento e Grupo \u00c1guas do Brasil \u2014 controlam 92% da popula\u00e7\u00e3o atendida por operadores privados no pa\u00eds. Por tr\u00e1s desses conglomerados est\u00e3o grandes fundos de investimento e grupos financeiros nacionais e estrangeiros: a BRK Ambiental \u00e9 controlada pela canadense Brookfield; a Igu\u00e1 tem entre seus controladores grandes fundos canadenses; e a Aegea re\u00fane, em sua estrutura de controle, Equipav, Ita\u00fasa e o fundo soberano de Singapura. O caso mais emblem\u00e1tico \u00e9 o da Aegea, que se tornou a maior empresa privada de saneamento do pa\u00eds: estava presente em somente seis munic\u00edpios em 2010, hoje em 892 em 2026, atendendo 39 milh\u00f5es de pessoas em 15 estados \u2014 e, nos nove primeiros meses de 2025, registrou receita operacional l\u00edquida de R$ 14,4 bilh\u00f5es. O saneamento brasileiro, portanto, atravessa um grave processo de financeiriza\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>E a engrenagem que permite isso tem financiamento do pr\u00f3prio Estado, pois o BNDES est\u00e1 atuando como principal modelador das concess\u00f5es e direcionando recursos p\u00fablicos para viabilizar cons\u00f3rcios privados. Nos leil\u00f5es estruturados pelo banco, vence quem oferece o maior valor de outorga, ou seja, a taxa paga pelo direito de explorar o servi\u00e7o. E o saneamento tornou-se t\u00e3o lucrativo e seus leil\u00f5es, acirrados, que contratos s\u00e3o arrematados com at\u00e9 2.000% do pre\u00e7o m\u00ednimo estabelecido no edital. Este modelo, claro, seduz prefeitos e governadores ao injetar cifras alt\u00edssimas, num <em>passe de m\u00e1gica<\/em>, nos cofres p\u00fablicos. \u201cPor\u00e9m, o dinheiro pago como valor de outorga onerosa n\u00e3o vai para o saneamento: acaba sendo usado para cobrir outras despesas da administra\u00e7\u00e3o\u201d, destaca o secret\u00e1rio-executivo do ONDAS.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>A revis\u00e3o do papel do BNDES e de outros bancos p\u00fablicos \u00e9, portanto, uma das propostas da Plataforma para a reconstru\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica nacional de saneamento. Em vez de apoiar as privatiza\u00e7\u00f5es, que est\u00e3o elevando o valor das tarifas e sucateando os servi\u00e7os de \u00e1gua e esgoto, n\u00e3o poderiam oferecer linhas permanentes de cr\u00e9dito para estados, munic\u00edpios, companhias estaduais, autarquias, servi\u00e7os municipais e cons\u00f3rcios p\u00fablicos?<\/p>\n<p>Enquanto isso, o cen\u00e1rio tende a se agravar \u2014 e a onda de privatiza\u00e7\u00e3o deve chegar a v\u00e1rias outras cidades brasileiras neste ano, aponta Edson Aparecido. A lista inclui PPPs no Cear\u00e1 e no Rio Grande do Norte; a privatiza\u00e7\u00e3o da Casal, em Alagoas; um grande projeto de PPP no Esp\u00edrito Santo; al\u00e9m de privatiza\u00e7\u00f5es e concess\u00f5es em Minas Gerais e Santa Catarina. Em Goi\u00e1s, Mato Grosso e Rond\u00f4nia, tamb\u00e9m est\u00e3o previstas PPPs e concess\u00f5es, com uma grande licita\u00e7\u00e3o em Rond\u00f4nia que pode sair em meados de setembro. No Rio Grande do Sul, tamb\u00e9m novas concess\u00f5es est\u00e3o sendo preparadas. Soma-se a isso a privatiza\u00e7\u00e3o da Copasa, em Minas Gerais, realizada neste ano nos moldes da Sabesp. Apenas Acre, Roraima, Distrito Federal e Rio Grande do Norte ainda n\u00e3o t\u00eam participa\u00e7\u00e3o privada no saneamento.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, lembra o urbanit\u00e1rio, o governo Tarc\u00edsio, ap\u00f3s entregar a Sabesp para o setor privado, lan\u00e7ou o Universaliza SP, programa destinado a apoiar a privatiza\u00e7\u00e3o nos munic\u00edpios que ainda operam diretamente os servi\u00e7os de saneamento. A Sabesp atende 375 dos 645 munic\u00edpios paulistas. Restam, portanto, um \u201cmercado\u201d de 270 cidades. A proposta do governador \u00e9 uma clara barganha: promete recursos para os prefeitos autorizarem o estado paulista a conduzir as licita\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p><strong>\u00c1gua e esgoto: as rimas com o Direito \u00e0 Cidade<\/strong><\/p>\n<p>O saneamento b\u00e1sico \u00e9 parte indissoci\u00e1vel do planejamento urbano e da garantia do direito \u00e0 cidade \u2014 reduzi-lo a tubula\u00e7\u00f5es subterr\u00e2neas, sugere Edson Aparecido, \u00e9 ignorar a complexa realidade do territ\u00f3rio. Uma proposta central da Plataforma \u00e9 romper com o modelo setorial, a partir de uma integra\u00e7\u00e3o radical entre saneamento, habita\u00e7\u00e3o, meio ambiente e sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>O drama hist\u00f3rico das cidades brasileiras ilustra essa urg\u00eancia. A aus\u00eancia cr\u00f4nica de pol\u00edticas habitacionais para a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda empurrou historicamente as fam\u00edlias mais vulner\u00e1veis para periferias distantes e para \u00e1reas sens\u00edveis de preserva\u00e7\u00e3o, como as zonas de prote\u00e7\u00e3o de mananciais. Esse padr\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o irregular, intensificado nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980, produz um duplo impacto: social e ecol\u00f3gico, pois sem infraestrutura, essas comunidades ficam sem \u00e1gua pot\u00e1vel e sem esgotamento sanit\u00e1rio digno.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cHoje, a maioria dos corpos d\u2019\u00e1gua das cidades est\u00e1 completamente comprometida. O grande respons\u00e1vel pela polui\u00e7\u00e3o \u00e9 o despejo de esgoto <em>in natura<\/em>, que deveria ser destinado \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de tratamento\u201d, analisa Edson Aparecido. Um relat\u00f3rio da ONU refor\u00e7a o ponto: esgoto lan\u00e7ado sem tratamento amea\u00e7a diretamente a sa\u00fade p\u00fablica e o meio ambiente das popula\u00e7\u00f5es vizinhas, violando os direitos humanos \u00e0 \u00e1gua, \u00e0 sa\u00fade e a um ambiente saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>E a crise clim\u00e1tica adiciona uma camada dram\u00e1tica a esse cen\u00e1rio. Eventos extremos exp\u00f5em a fragilidade das estruturas urbanas tradicionais e penalizam, antes de tudo, as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis. Edson Aparecido lembra que secas prolongadas provocam crises severas de desabastecimento, enquanto enchentes \u2014 como a cat\u00e1strofe do Rio Grande do Sul \u2014 danificam diretamente esta\u00e7\u00f5es e instala\u00e7\u00f5es de tratamento.\u00a0<\/p>\n<p>A esse quadro dram\u00e1tico, soma-se o avan\u00e7o da privatiza\u00e7\u00e3o e a precariza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os. Depois da venda da Sabesp, S\u00e3o Paulo passou a conviver com interrup\u00e7\u00f5es mais frequentes no fornecimento e com trag\u00e9dias como o rompimento de um reservat\u00f3rio em Mairipor\u00e3, que resultou em uma morte. No Rio de Janeiro, sob a concession\u00e1ria Aegea, a popula\u00e7\u00e3o enfrentou em 2024 uma falha no abastecimento que durou mais de uma semana, paralisando escolas e postos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Como resposta, a Plataforma prop\u00f5e uma Pol\u00edtica Nacional de Seguran\u00e7a H\u00eddrica e Transi\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica, com diretrizes r\u00edgidas de adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica para as opera\u00e7\u00f5es de saneamento \u2014 entre elas, a prote\u00e7\u00e3o ativa de cabeceiras e mananciais por meio de reflorestamento e recomposi\u00e7\u00e3o de matas ciliares. O documento tamb\u00e9m aposta em solu\u00e7\u00f5es baseadas na natureza e prop\u00f5e regulamentar o re\u00faso de \u00e1gua tratada para fins n\u00e3o pot\u00e1veis, como lavagem de vias e rega de jardins, poupando as reservas de \u00e1gua pot\u00e1vel para o consumo humano essencial.<\/p>\n<p>A Plataforma defende tamb\u00e9m a transi\u00e7\u00e3o das companhias para um modelo de Economia Circular no Saneamento: aproveitamento energ\u00e9tico do biog\u00e1s gerado no tratamento de efluentes, recupera\u00e7\u00e3o de nutrientes do lodo de esgoto para uso agr\u00edcola e redu\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da pegada de carbono do setor. E sugere incorporar o conceito de Sa\u00fade \u00danica (One Health) \u2014 que reconhece a conex\u00e3o entre sa\u00fade humana, animal e integridade dos ecossistemas \u2014 como um pilar para a universaliza\u00e7\u00e3o do saneamento.<\/p>\n<p><strong>Saneamento al\u00e9m do CEP\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O sucesso das pol\u00edticas de saneamento n\u00e3o deve ser mensurado apenas pela cobertura domiciliar, defende a Plataforma. Afinal, as cidades s\u00e3o \u00e1speras para catadores de recicl\u00e1veis, feirantes, ambulantes, camel\u00f4s, garis, trabalhadores de aplicativos e entregadores que, muitas vezes, passam horas por dia nas ruas. Essa aspereza se torna ainda mais brutal para a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, que j\u00e1 soma 392,4 mil pessoas no pa\u00eds, segundo dados do Cad\u00danico. H\u00e1, portanto, uma lacuna: como garantir que essa massa de sem-teto e trabalhadores precarizados tenha acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, possa fazer suas necessidades, lavar as m\u00e3os e tomar banho? Para eles, o direito ao saneamento n\u00e3o termina na porta de casa \u2014 quando h\u00e1 uma porta. A batalha \u00e9 di\u00e1ria.<\/p>\n<p>Um caminho \u00e9 a ideia de \u201csaneamento al\u00e9m do domic\u00edlio\u201d: o acesso \u00e0 \u00e1gua e \u00e0 higiene em todos os espa\u00e7os da vida, inclusive nas ruas e espa\u00e7os p\u00fablicos, de forma gratuita, ampla e com qualidade. Por isso, a Plataforma prop\u00f5e pol\u00edticas espec\u00edficas para implantar bebedouros, banheiros p\u00fablicos e equipamentos de higiene nas cidades brasileiras, em um contraponto ao modelo urbano brasileiro: transformar o espa\u00e7o p\u00fablico em lugar de perman\u00eancia e encarar que o corpo tamb\u00e9m precisa de infraestrutura p\u00fablica.<\/p>\n<p>O Brasil ainda n\u00e3o possui uma rede nacional de banheiros p\u00fablicos urbanos como pol\u00edtica universal de infraestrutura. No Senado, o PL 728\/2022 pretende obrigar munic\u00edpios com mais de 300 mil habitantes a instalar banheiros p\u00fablicos gratuitos, mas sequer avan\u00e7ou na Comiss\u00e3o de Assuntos Sociais. O atraso brasileiro, inclusive, levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a intervir: em suas pol\u00edticas de zeladoria urbana, prefeitos e governadores devem \u201cdisponibilizar bebedouros, banheiros p\u00fablicos e lavanderias sociais de f\u00e1cil acesso para a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua\u201d, determinou a Argui\u00e7\u00e3o de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 976, julgada em 2023. Pouco mudou desde ent\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Edson Aparecido aponta o absurdo: no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, cidades como S\u00e3o Paulo tinham grande quantidade de bebedouros p\u00fablicos em funcionamento. Mas, paulatinamente, o poder p\u00fablico desativou essas estruturas existentes no pa\u00eds, diferentemente de pa\u00edses da Europa, como Fran\u00e7a e It\u00e1lia, que mant\u00eam redes de bebedouros distribu\u00eddas por suas cidades.\u00a0<\/p>\n<p>O urbanit\u00e1rio cita outra proposta para ir al\u00e9m do CEP: as lavanderias p\u00fablicas. No ano passado, o governo federal destinou R$ 13 milh\u00f5es \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o de 17 unidades no pa\u00eds, no \u00e2mbito do Plano Nacional de Cuidados. A primeira foi inaugurada em Caruaru (PE), e outras quatro j\u00e1 est\u00e3o em fase de implementa\u00e7\u00e3o. A ideia \u00e9 que esses equipamentos aliviem a sobrecarga das mulheres, sujeitas a duplas jornadas de trabalho, e funcionem como pequenos centros comunit\u00e1rios, com cursos de capacita\u00e7\u00e3o, atendimento social e espa\u00e7os de conviv\u00eancia. <\/p>\n<p><strong>O contraste campo-cidade<\/strong><\/p>\n<p>O saneamento rural \u00e9 outro ponto destacado pela Plataforma. Afinal, aplicar \u00e0s \u00e1reas rurais as mesmas l\u00f3gicas adotadas nas grandes concentra\u00e7\u00f5es urbanas \u00e9 muito mais caro, porque exige extensas redes de \u00e1gua e esgoto para atender a resid\u00eancias dispersas.<\/p>\n<p>Como, ent\u00e3o, garantir saneamento \u00e0s popula\u00e7\u00f5es rurais e ind\u00edgenas? A pol\u00edtica de saneamento rural ganhou um marco institucional no governo Dilma Rousseff, em novembro de 2013, com a assinatura do decreto que instituiu o Plano Nacional de Saneamento B\u00e1sico (Plansab), mas ainda n\u00e3o conseguiu sair do papel, aponta Edson Aparecido. E o saneamento ind\u00edgena imp\u00f5e um desafio adicional: o governo federal vem tentando instituir uma pol\u00edtica espec\u00edfica para essas popula\u00e7\u00f5es, mas sua implementa\u00e7\u00e3o continua dif\u00edcil. Pol\u00edticas para enfrentar o problema existem; o que falta \u00e9 coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica, afirma o urbanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cUm dos princ\u00edpios dos direitos humanos \u00e9 a aceitabilidade: as pol\u00edticas t\u00eam que atender aos aspectos culturais das comunidades. Precisamos pensar em pol\u00edticas de tecnologias sociais, em que as tecnologias n\u00e3o precisam ser as mesmas utilizadas nos grandes centros urbanos\u201d, sublinha Edson Aparecido. \u201cTemos que escapar da l\u00f3gica das grandes empreiteiras, que s\u00f3 conseguem enxergar o saneamento da forma tradicional, trabalhando em \u00e1reas consolidadas, e come\u00e7ar a pensar em alternativas para \u00e1reas com menor concentra\u00e7\u00e3o populacional\u201d.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Remunicipaliza\u00e7\u00e3o: a batalha a ser travada<\/strong><\/p>\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 irrevers\u00edvel. Ali\u00e1s, o processo quase sempre foi acompanhado de forte resist\u00eancia dos movimentos sociais. Mas querer um \u00e1rduo trabalho de conquistar <em>cora\u00e7\u00f5es e mentes<\/em>, aponta Edson Aparecido. A remunicipaliza\u00e7\u00e3o do saneamento b\u00e1sico j\u00e1 avan\u00e7a no mundo como uma resposta direta aos limites e abusos gerados pelas privatiza\u00e7\u00f5es do setor nas \u00faltimas d\u00e9cadas. No Norte Global, centenas de cidades retomaram o controle p\u00fablico da \u00e1gua no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI. O caso de Paris \u00e9 emblem\u00e1tico: em 2010, a capital francesa reestatizou seus servi\u00e7os, um marco simb\u00f3lico por se tratar de um pa\u00eds que abriga gigantescas corpora\u00e7\u00f5es do setor. Outros munic\u00edpios franceses, como Grenoble, Nice, Bordeaux, Montpellier e Lyon, seguiram o mesmo caminho p\u00fablico de sucesso. Hoje, h\u00e1 a crise da Thames Water, na Inglaterra e Pa\u00eds de Gales, que est\u00e1 \u00e0 beira da fal\u00eancia devido a servi\u00e7os de p\u00e9ssima qualidade sob gest\u00e3o privada, motivando calorosos debates e manifesta\u00e7\u00f5es populares sobre desprivatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Sul Global, a insatisfa\u00e7\u00e3o com as tarifas elevadas e a exclus\u00e3o das periferias provocaram rea\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Na Bol\u00edvia, a c\u00e9lebre \u201cGuerra da \u00c1gua\u201d em Cochabamba (2000) eclodiu ap\u00f3s a concession\u00e1ria privada aumentar abusivamente os pre\u00e7os e tentar cobrar comunidades ind\u00edgenas pelo uso de sistemas comunit\u00e1rios de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua que elas pr\u00f3prias haviam constru\u00eddo. Em Buenos Aires, a incapacidade do mercado em expandir a rede para as periferias e a escalada tarif\u00e1ria resultaram no cancelamento da concess\u00e3o e na cria\u00e7\u00e3o da estatal AySA, embora hoje seja alvo de uma investida privatista do governo Milei.<\/p>\n<p>O Uruguai tornou-se caso emblem\u00e1tico ao proibir constitucionalmente a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua. Ap\u00f3s concess\u00f5es parciais nos anos 1990 gerarem forte revolta popular, movimentos sociais e sindicais organizaram-se na Comiss\u00e3o Nacional em Defesa da \u00c1gua e da Vida (CNDAV). Em 2004, por meio de um plebiscito vitorioso apoiado por 64% dos eleitores, o pa\u00eds incluiu o Artigo 47 em sua Constitui\u00e7\u00e3o, que declara a \u00e1gua e o esgoto como direitos humanos fundamentais, reservando sua presta\u00e7\u00e3o exclusivamente ao Estado.<\/p>\n<p>Quando ser\u00e1 a hora e vez do Brasil?<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Eleva tarifas e sucateia servi\u00e7os. Quais os caminhos para integrar Habita\u00e7\u00e3o, Sa\u00fade, Clima e Saneamento?  Como garantir o direito \u00e0 \u00e1gua no campo e aldeias? Uma plataforma prop\u00f5e sa\u00eddas ao Brasil<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/o-mercado-das-aguas-e-o-futuro-das-cidades\/\">O mercado das \u00e1guas e o futuro das cidades<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[80797,17781,80798,5511,7045,30105,6163,650,80799,80800],"tags":[],"class_list":["post-101880","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-agea","category-banheiros-publicos","category-bebedouros-publicos","category-capa","category-direito-a-agua","category-outras-cidades","category-privatizacao-do-saneamento","category-saneamento","category-saneamento-indigena","category-saneamento-rural"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101880","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101880"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101880\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101880"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101880"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101880"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}