{"id":102015,"date":"2026-08-26T18:32:44","date_gmt":"2026-08-26T21:32:44","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/palestina-o-resgate-de-uma-historia-violada\/"},"modified":"2026-08-26T18:32:44","modified_gmt":"2026-08-26T21:32:44","slug":"palestina-o-resgate-de-uma-historia-violada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/palestina-o-resgate-de-uma-historia-violada\/","title":{"rendered":"Palestina: o resgate de uma Hist\u00f3ria violada"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"710\" height=\"432\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Sem-titulo-19.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Sem-titulo-19.jpeg 710w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/Sem-titulo-19-300x183.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 710px) 100vw, 710px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Jihane Sfeir,<\/strong> no <em>Eurozine<\/em> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>Escrever a hist\u00f3ria da Palestina levanta uma quest\u00e3o historiogr\u00e1fica fundamental: como produzir uma narrativa hist\u00f3rica diante do ex\u00edlio, da dispers\u00e3o e da destrui\u00e7\u00e3o? Desde Marc Bloch, a hist\u00f3ria deixou de ser compreendida apenas como o relato de eventos passados, para se tornar uma investiga\u00e7\u00e3o sobre as sociedades humanas a partir de vest\u00edgios fragment\u00e1rios, que s\u00e3o sempre situados e preservados de forma desigual. No caso da Palestina, isso assume uma forma particular: os arquivos foram dispersos, confiscados ou destru\u00eddos, e o pr\u00f3prio acesso ao passado tornou-se indissoci\u00e1vel das rela\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da Palestina e do seu povo foi durante muito tempo marginalizada pela narrativa israelense dominante. Embora ausente, fragmentada ou relegada \u00e0s margens do \u201cconflito Israel-Palestina\u201d, essa hist\u00f3ria continuou, no entanto, a ser escrita nos c\u00edrculos acad\u00eamicos \u00e1rabes e, mais tarde, em redes transnacionais. A historiografia palestina foi forjada por meio da ruptura: a ruptura da expuls\u00e3o e do ex\u00edlio, e o desaparecimento de um mundo social.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1-28.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1-28.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Desde a Nakba, escrever a hist\u00f3ria palestina est\u00e1 intrinsecamente ligado \u00e0 luta contra o apagamento. A historiografia palestina n\u00e3o se limita \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o de um passado nacional: ela investiga as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es que tornam poss\u00edvel uma narrativa hist\u00f3rica. Como contar a hist\u00f3ria de uma sociedade que foi dispersada? Como escrever a hist\u00f3ria quando os lugares de mem\u00f3ria foram destru\u00eddos, as bibliotecas saqueadas e os arquivos tornados inacess\u00edveis?<\/p>\n<p>Tra\u00e7ar a evolu\u00e7\u00e3o da historiografia palestina \u00e9 analisar como os regimes de conhecimento sucessivos responderam a esse desafio persistente, da queda do Imp\u00e9rio Otomano aos dias atuais. Este artigo examina, primeiramente, a constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa nacional na Palestina Mandat\u00e1ria e no ex\u00edlio e, em seguida, investiga o papel dos arquivos no surgimento de um campo historiogr\u00e1fico palestino. O objetivo \u00e9 demonstrar como, diante das din\u00e2micas de apagamento, escrever a hist\u00f3ria e preservar arquivos s\u00e3o pr\u00e1ticas ao mesmo tempo acad\u00eamicas, ativistas e existenciais.<\/p>\n<h3><strong>A na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe palestina e a Revolta \u00c1rabe de 1936<\/strong><\/h3>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"527\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Israeli_soldier_removing_Arabic_text_from_sign_in_East_Jerusalem_1967-768x527-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Israeli_soldier_removing_Arabic_text_from_sign_in_East_Jerusalem_1967-768x527-1.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/08\/Israeli_soldier_removing_Arabic_text_from_sign_in_East_Jerusalem_1967-768x527-1-300x206.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\"><figcaption>Um soldado israelense na rec\u00e9m-libertada Jerusal\u00e9m Oriental, derrubando a placa \u00e1rabe que nomeava o Muro das Lamenta\u00e7\u00f5es como \u201cCavalo de Maom\u00e9 El Bourak\u201d, junho de 1967. Fonte: Wikimedia Commons <\/figcaption><\/figure>\n<p>Os primeiros historiadores palestinos situaram a hist\u00f3ria da Palestina em um horizonte mais amplo, moldado pela dissolu\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Otomano, pela ascens\u00e3o dos nacionalismos \u00e1rabes e pelo estabelecimento do Mandato Brit\u00e2nico para a Palestina. Esse enquadramento mais amplo n\u00e3o era apenas uma quest\u00e3o de ideologia. Naquele momento hist\u00f3rico, as categorias de pertencimento estavam sendo reconfiguradas. O termo \u201cpalestino\u201d come\u00e7ou lentamente a emergir como um identificador distinto, sem substituir imediatamente os termos \u201cotomano\u201d ou \u201c\u00e1rabe\u201d. A afirma\u00e7\u00e3o da identidade \u00e1rabe da Palestina esteve ligada a esfor\u00e7os de nomea\u00e7\u00e3o e narrativiza\u00e7\u00e3o, nos quais referir-se a si mesmo como \u201cpalestino\u201d ajudou a construir um sujeito coletivo.<\/p>\n<p>Como espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o dessas novas categorias de identifica\u00e7\u00e3o, a imprensa desempenhou um papel central nesse processo. A ascens\u00e3o dos jornais \u00e1rabes no in\u00edcio do s\u00e9culo XX fomentou o uso do termo \u201cpalestino\u201d, que gradualmente se tornou uma ferramenta de coes\u00e3o, mobilizada em debates relacionados ao sionismo, \u00e0 migra\u00e7\u00e3o e \u00e0 mudan\u00e7a social. A afirma\u00e7\u00e3o da identidade \u00e1rabe da terra e a luta contra a nega\u00e7\u00e3o dessa reivindica\u00e7\u00e3o por parte das autoridades do Mandato e do movimento sionista faziam parte de uma narrativa hist\u00f3rica com forte dimens\u00e3o performativa: o objetivo n\u00e3o era apenas relatar a hist\u00f3ria, mas criar as condi\u00e7\u00f5es para a identifica\u00e7\u00e3o coletiva. Avan\u00e7ada pelas elites intelectuais, mas disseminada em uma esfera p\u00fablica mais ampla, essa narrativa buscava inspirar um sentimento de unidade dentro de uma comunidade \u00e1rabe politicamente definida, que transcendia as divis\u00f5es religiosas. Ela contribuiu para estabilizar os contornos de uma identidade palestina emergente, sem jamais fix\u00e1-la completamente.<\/p>\n<p>A Revolta \u00c1rabe de 1936\u201339 foi um momento decisivo, amplamente identificado na historiografia \u00e1rabe como um momento fundacional para o nacionalismo palestino. Uma das principais revoltas anticoloniais contra o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico no per\u00edodo entre guerras, ela fez parte de uma din\u00e2mica regional mais ampla de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem colonial, ao mesmo tempo em que revelava as caracter\u00edsticas distintivas do caso palestino. Por essa raz\u00e3o, a Revolta \u00c1rabe ocupa um lugar central na constru\u00e7\u00e3o da narrativa nacional palestina.<\/p>\n<p>Os escritos do per\u00edodo s\u00e3o permeados por uma forte dimens\u00e3o pol\u00edtica que buscava fortalecer o sentimento de unidade dentro da comunidade \u00e1rabe \u2013 tanto crist\u00e3 quanto mu\u00e7ulmana \u2013 diante da domina\u00e7\u00e3o estrangeira. Essa historiografia, que se esfor\u00e7ava por ser amplamente documentada e fundamentada tanto em arquivos \u00e1rabes quanto ocidentais, foi produzida em uma sociedade palestina unificada, antes que ela fosse despeda\u00e7ada pelos tumultos de 1948. Foi escrita a partir de dentro de um territ\u00f3rio que ainda era um espa\u00e7o vivo, habitado e socialmente organizado. A revolta de 1936 marcou, assim, o \u00faltimo grande momento hist\u00f3rico anterior \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o e \u00e0 dispers\u00e3o da sociedade palestina, ao mesmo tempo em que representou um importante ponto de refer\u00eancia para as narrativas posteriores da luta nacional.<\/p>\n<p>Tanto a repress\u00e3o da Revolta \u00c1rabe quanto seu fracasso final fizeram parte de doutrinas imperiais mais amplas de contrainsurg\u00eancia, baseadas no desmantelamento deliberado do tecido social como meio de controle pol\u00edtico. Do ponto de vista historiogr\u00e1fico, a revolta n\u00e3o foi, portanto, apenas um momento de mobiliza\u00e7\u00e3o nacional, mas tamb\u00e9m um campo de testes para as pr\u00e1ticas coloniais, cujos efeitos continuaram a ser sentidos muito depois do fim do Mandato.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/banner-outras-palavras-8m-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/banner-outras-palavras-8m-2.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2024\/03\/banner-outras-palavras-8m-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A narrativa constru\u00edda em torno desses eventos, amplamente divulgada pela imprensa \u00e1rabe, contribuiu para a estabiliza\u00e7\u00e3o do termo \u201cpalestino\u201d como uma categoria pol\u00edtica e hist\u00f3rica. Ao nomear os envolvidos na revolta e situar sua luta dentro de uma cronologia nacional, a imprensa desempenhou um papel crucial na transforma\u00e7\u00e3o da revolta em um momento fundador de uma narrativa coletiva.<\/p>\n<p>Assim, a revolta de 1936\u201339 n\u00e3o pode ser compreendida apenas como um confronto militar: ela constitui um momento de cristaliza\u00e7\u00e3o no qual convergem din\u00e2micas de resist\u00eancia, pr\u00e1ticas de domina\u00e7\u00e3o colonial e formas concorrentes de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento hist\u00f3rico. Ela se tornou parte de uma s\u00e9rie mais longa de eventos que culminaram na ruptura de 1948 e contribu\u00edram para o surgimento de um movimento nacional no qual se forjou uma consci\u00eancia coletiva, constru\u00edda em torno da resist\u00eancia ao colonialismo e da afirma\u00e7\u00e3o de uma narrativa nacional palestina.<\/p>\n<p>Por muito tempo compreendida como uma derrota estrat\u00e9gica decorrente de divis\u00f5es internas e de um desequil\u00edbrio de for\u00e7as, a Revolta \u00c1rabe est\u00e1 sendo agora reavaliada como um momento de politiza\u00e7\u00e3o em massa que ajudou a dar forma \u00e0 consci\u00eancia nacional emergente. No entanto, seu fracasso enfraqueceu o movimento nacional palestino no final da d\u00e9cada de 1930. Combinado com a consolida\u00e7\u00e3o das estruturas militares e pol\u00edticas do projeto sionista sob prote\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica, o fracasso da Revolta \u00c1rabe parece ser um dos fatores que contribu\u00edram para tornar poss\u00edvel a ruptura de 1948. Ela se insere, portanto, em uma hist\u00f3ria mais longa de lutas anticoloniais, ao mesmo tempo em que sublinha as condi\u00e7\u00f5es assim\u00e9tricas nas quais o conhecimento hist\u00f3rico sobre a Palestina \u00e9 produzido, transmitido e contestado.<\/p>\n<h3><strong>Depois da Na<\/strong><strong>k<\/strong><strong>ba<\/strong><\/h3>\n<p>O ano de 1948 marcou um ponto de virada: pela primeira vez desde que se tornaram Estados-na\u00e7\u00e3o, os pa\u00edses \u00e1rabes independentes entraram em guerra contra o novo Estado de Israel e foram derrotados. Essa \u00e9 a cat\u00e1strofe da Nakba: o apagamento de um Estado \u00e1rabe na Palestina, a fragmenta\u00e7\u00e3o de uma sociedade e o surgimento do problema dos refugiados. Na historiografia palestina, 1948 \u00e9 geralmente tomado como o \u201cAno Zero\u201d, marcando tanto o fim da Palestina hist\u00f3rica com suas fronteiras da era do Mandato quanto o ponto de partida de uma hist\u00f3ria agora estruturada pela dispers\u00e3o. A \u201clenta e aparentemente intermin\u00e1vel trag\u00e9dia\u201d que foi a Nakba transformou completamente os quadros pelos quais o passado era compreendido.<\/p>\n<p><em>O Significado da Cat\u00e1strofe<\/em>, de Constantine Zurayk, publicado pela primeira vez em \u00e1rabe em 1948, desencadeou uma mudan\u00e7a decisiva ao definir esse momento como uma \u201ccat\u00e1strofe\u201d, uma derrota que n\u00e3o era apenas militar, mas moral e psicol\u00f3gica, envolvendo todo o mundo \u00e1rabe e exigindo uma reelabora\u00e7\u00e3o intelectual e pol\u00edtica do projeto nacionalista \u00e1rabe. A perda de territ\u00f3rio e a experi\u00eancia do ex\u00edlio reconfiguraram a \u201cgeografia\u201d da Palestina, com a narrativa nacional sendo escrita a partir de fora de sua p\u00e1tria hist\u00f3rica, delineando os contornos de um territ\u00f3rio perdido, mas constantemente reafirmado.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 1950, no entanto, testemunhou um decl\u00ednio relativo na produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica palestina, um tempo de sil\u00eancio e dispers\u00e3o intelectual. A dispers\u00e3o da elite por diferentes pa\u00edses de acolhimento fomentou o surgimento de uma literatura do ex\u00edlio, permeada por um profundo sentimento de injusti\u00e7a e pela dificuldade de reconstruir quadros compartilhados de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Nesse contexto, a ascens\u00e3o do nacionalismo \u00e1rabe tendeu a incluir a quest\u00e3o palestina em um quadro mais amplo, tornando-a uma causa central para o mundo \u00e1rabe em suas intera\u00e7\u00f5es com a comunidade internacional e produzindo, assim, uma leitura \u201cglobalizante\u201d da Palestina.<\/p>\n<p>A derrota de junho de 1967 marcou outro grande ponto de virada que afetou todo o Oriente M\u00e9dio, alterando os equil\u00edbrios pol\u00edticos e intelectuais. Ela coincidiu com o surgimento de uma nova lideran\u00e7a palestina oriunda dos movimentos de resist\u00eancia armada (fedayeen), cuja entrada em cena transformou profundamente os quadros anal\u00edticos. A renovada centralidade da Palestina no discurso pol\u00edtico veio acompanhada de uma mudan\u00e7a de perspectiva: a Palestina n\u00e3o era mais vista apenas como uma causa a ser apoiada pela unidade \u00e1rabe, mas como um meio pelo qual essa unidade poderia ser avan\u00e7ada.<\/p>\n<p>Pesquisadores e historiadores palestinos, em muitos casos influenciados pelo marxismo, come\u00e7aram a reinterpretar a hist\u00f3ria palestina por meio de novas categorias, dando origem a escritos altamente politizados e com forte vi\u00e9s ativista. Esse per\u00edodo tamb\u00e9m foi marcado por uma transforma\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica do campo intelectual: uma nova gera\u00e7\u00e3o, muitos dos quais haviam crescido nos campos de refugiados e sido educados nas redes da UNRWA, ajudou a redefinir as figuras-chave da narrativa hist\u00f3rica, em particular colocando o campon\u00eas resistente e as classes trabalhadoras em primeiro plano.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a partir de meados da d\u00e9cada de 1960, a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento sobre a Palestina se institucionalizou por meio da funda\u00e7\u00e3o de centros de pesquisa e editoras. Estes estavam sediados principalmente em Beirute, a capital intelectual do mundo \u00e1rabe na \u00e9poca e a capital cultural e pol\u00edtica da causa palestina. Esse desenvolvimento atendia a uma necessidade central: afirmar a exist\u00eancia da Palestina fora de seu territ\u00f3rio, por meio da escrita de sua hist\u00f3ria, da cria\u00e7\u00e3o de arquivos e da dissemina\u00e7\u00e3o de conhecimento estruturado.<\/p>\n<p>Institui\u00e7\u00f5es como o Institute for Palestine Studies (Instituto de Estudos Palestinos), fundado em 1963, e o Palestinian Research Center (Centro de Pesquisa Palestino), fundado em 1965 pela Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP), desempenharam um papel crucial como espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, contribuindo para a internacionaliza\u00e7\u00e3o dos Estudos Palestinos. O projeto historiogr\u00e1fico assumiu uma dimens\u00e3o emancipat\u00f3ria, colocando em primeiro plano as figuras do campon\u00eas, do refugiado e do combatente como her\u00f3is da narrativa de liberta\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Por meio de suas publica\u00e7\u00f5es, programas editoriais e empreendimentos documentais, essas institui\u00e7\u00f5es ajudaram a estabelecer os Estudos Palestinos como um campo acad\u00eamico, combinando hist\u00f3ria, ci\u00eancias sociais, arquivos e estudos da mem\u00f3ria. Escrever a hist\u00f3ria tornou-se uma forma de combater a invisibilidade, produzindo narrativas capazes de restaurar um senso de continuidade hist\u00f3rica palestina para al\u00e9m da ruptura de 1948.<\/p>\n<h3><strong>Arquivos e a luta contra o apagamento<\/strong><\/h3>\n<p>A invas\u00e3o israelense de Beirute em 1982 desferiu um duro golpe no trabalho cultural e acad\u00eamico das institui\u00e7\u00f5es palestinas. Os centros de pesquisa, documenta\u00e7\u00e3o e os centros culturais e art\u00edsticos de Beirute tornaram-se alvos priorit\u00e1rios do ex\u00e9rcito israelense. O saque dos arquivos do PRC (Centro de Pesquisa Palestino) e da unidade de cinematografia da OLP privou os palestinos de uma consider\u00e1vel parcela de seu patrim\u00f4nio documental. Manuscritos, fotografias, filmes e materiais relativos tanto \u00e0 vida cotidiana quanto \u00e0 resist\u00eancia foram apreendidos e incorporados aos arquivos militares israelenses, catalogados de acordo com categorias e normas impostas pela pot\u00eancia colonial.<\/p>\n<p>O controle sobre os arquivos faz parte de um processo mais amplo de reescrita da mem\u00f3ria coletiva, por meio do qual uma narrativa colonial do passado \u00e9 imposta, apagando todo vest\u00edgio da presen\u00e7a ou identidade palestina em territ\u00f3rio israelense. Ao se apropriar dos vest\u00edgios documentais palestinos, Israel exerce um controle decisivo sobre as condi\u00e7\u00f5es em que o conhecimento hist\u00f3rico pode ser produzido, preservado e transmitido. Nesse contexto de despossess\u00e3o, escrever a hist\u00f3ria e colecionar arquivos tornam-se meios fundamentais de resistir ao apagamento. Preservar, reconstruir e compartilhar arquivos adquirem significado pol\u00edtico, memorial\u00edstico e acad\u00eamico.<\/p>\n<p>Na aus\u00eancia de um Estado palestino soberano e com os arquivos dispersos, a hist\u00f3ria oral tornou-se um dos principais modos de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento hist\u00f3rico sobre a Palestina. A oralidade torna-se tanto uma pr\u00e1tica historiogr\u00e1fica quanto um ato pol\u00edtico, visando afirmar a exist\u00eancia de um povo disperso e preservar a mem\u00f3ria de uma sociedade destru\u00edda em 1948. A partir da d\u00e9cada de 1980, campanhas de coleta de testemunhos orais sobre a Nakba foram realizadas nos territ\u00f3rios palestinos e entre a di\u00e1spora por universidades, centros de pesquisa e ONGs.<\/p>\n<p>O n\u00famero cada vez maior de narrativas, grava\u00e7\u00f5es, fotografias e arquivos familiares faz parte do que Beshara Doumani chamou de \u201cfebre do arquivo\u201d palestina. Em campos de refugiados, centros de pesquisa e ambientes dom\u00e9sticos, os palestinos re\u00fanem os vest\u00edgios de um mundo perdido. Hist\u00f3rias de vida, can\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas, bordados, mapas de aldeias destru\u00eddas e \u00e1lbuns de fotos tornam-se ve\u00edculos da mem\u00f3ria. Ao dar um papel central a refugiados, camponeses e mulheres, essas narrativas trazem \u00e0 tona uma hist\u00f3ria alternativa, fundada na experi\u00eancia vivida do desenraizamento e do ex\u00edlio \u2013 uma hist\u00f3ria escrita de baixo para cima.<\/p>\n<p>Tr\u00eas linhas de reflex\u00e3o emergem ao se considerar os arquivos e a hist\u00f3ria nesse contexto. A primeira diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o colonial com os arquivos. Desde a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, a hist\u00f3ria palestina tem sido marcada pelo confisco, pela ressignifica\u00e7\u00e3o e pela reatribui\u00e7\u00e3o de vest\u00edgios do passado e do patrim\u00f4nio cultural palestino. Arquivos, bibliotecas e artefatos arqueol\u00f3gicos s\u00e3o alvos frequentes de uma pot\u00eancia colonial que busca n\u00e3o apenas controlar o territ\u00f3rio, mas tamb\u00e9m impor sua pr\u00f3pria narrativa hist\u00f3rica. O saque das bibliotecas palestinas em 1948, o confisco dos arquivos da OLP em Beirute em 1982 e a recente destrui\u00e7\u00e3o de centros culturais e de documenta\u00e7\u00e3o em Gaza s\u00e3o todos movidos pela mesma l\u00f3gica: controlar as condi\u00e7\u00f5es em que o conhecimento \u00e9 produzido e transmitido.<\/p>\n<p>A segunda dimens\u00e3o diz respeito \u00e0 necessidade de repensar a forma que os arquivos assumem no contexto da ocupa\u00e7\u00e3o permanente. Na aus\u00eancia de um Estado palestino soberano capaz de proteger cole\u00e7\u00f5es por meio de institui\u00e7\u00f5es, estruturas centralizadas como museus e arquivos s\u00e3o particularmente vulner\u00e1veis. A experi\u00eancia do Museu Palestino em Birzeit, inaugurado vazio em 2016 como um gesto simb\u00f3lico, demonstra a impossibilidade de proteger cole\u00e7\u00f5es a longo prazo sob domina\u00e7\u00e3o colonial. A aus\u00eancia de objetos em exposi\u00e7\u00e3o serviu tanto como estrat\u00e9gia de preserva\u00e7\u00e3o quanto como cr\u00edtica pol\u00edtica da condi\u00e7\u00e3o colonial. Dessa perspectiva, os arquivos palestinos precisam ser conceitualizados como estruturas m\u00f3veis, dispersas, digitalizadas ou ocultas, capazes de escapar \u00e0 pilhagem e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A terceira e \u00faltima dimens\u00e3o diz respeito ao fato de que a Palestina agora existe muito al\u00e9m de seu territ\u00f3rio geogr\u00e1fico. A dispers\u00e3o dos palestinos, consequ\u00eancia direta da Nakba e dos deslocamentos sucessivos, contribuiu para espalhar os vest\u00edgios da Palestina por todo o mundo. Gra\u00e7as \u00e0 internacionaliza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o palestina e \u00e0s redes de solidariedade transnacionais, os arquivos palestinos circulam agora em uma multiplicidade de espa\u00e7os. C\u00f3pias de filmes redescobertos em T\u00f3quio ou Roma, fotografias preservadas em cole\u00e7\u00f5es particulares na Europa e documentos salvaguardados por ativistas ou institui\u00e7\u00f5es estrangeiras demonstram a presen\u00e7a fragmentada, por\u00e9m persistente, da Palestina no mundo.<\/p>\n<p>A dispers\u00e3o, vivida em primeiro lugar como despossess\u00e3o, tornou-se, assim, um meio de preservar a narrativa hist\u00f3rica palestina. A Palestina n\u00e3o pode ser compreendida apenas como um territ\u00f3rio ocupado: ela tamb\u00e9m existe como uma constela\u00e7\u00e3o fragmentada de arquivos, narrativas, obras intelectuais e mem\u00f3rias espalhadas pelo globo. A hist\u00f3ria palestina \u00e9 constru\u00edda a partir de c\u00f3pias, testemunhos orais e da circula\u00e7\u00e3o de documentos que escaparam das din\u00e2micas de apagamento. Nesse contexto, produzir conhecimento, publicar peri\u00f3dicos, digitalizar arquivos e rastrear filmes perdidos fazem parte da mesma luta para manter viva a pr\u00f3pria possibilidade de uma hist\u00f3ria palestina.<\/p>\n<p>Desde 2023, a guerra em Gaza alterou profundamente a forma como a narrativa palestina \u00e9 produzida e transmitida. Apesar da devasta\u00e7\u00e3o de vidas, lugares e arquivos f\u00edsicos, os palestinos continuam documentando seu cotidiano, compartilhando suas experi\u00eancias de guerra e preservando os vest\u00edgios de sua exist\u00eancia. Blogs, jornais online, redes sociais e plataformas colaborativas tornaram-se arquivos alternativos, produzidos a partir das margens e escapando parcialmente ao controle das narrativas dominantes. Essa documenta\u00e7\u00e3o digital faz parte de uma hist\u00f3ria mais longa da luta palestina contra o apagamento.<\/p>\n<p>Quando os arquivos s\u00e3o confiscados, as bibliotecas s\u00e3o destru\u00eddas e as institui\u00e7\u00f5es culturais permanecem fr\u00e1geis, documentar a vida cotidiana torna-se um ato de resist\u00eancia. Cada testemunho, fotografia e narrativa ajuda a preservar uma mem\u00f3ria coletiva que est\u00e1 sob amea\u00e7a de desaparecimento. Nesse sentido, a hist\u00f3ria oral, as redes sociais e a blogosfera palestina n\u00e3o s\u00e3o apenas espa\u00e7os de autoexpress\u00e3o, mas tamb\u00e9m contribuem para a constru\u00e7\u00e3o de um arquivo vivo e descentralizado. Dessa forma, a escrita da hist\u00f3ria palestina expandiu-se agora para al\u00e9m do quadro das institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, dos centros de arquivo e das fronteiras impostas pela dispers\u00e3o e pela ocupa\u00e7\u00e3o. Essa historiografia constantemente renovada ajuda a contestar a narrativa israelense dominante e a resituar a hist\u00f3ria da Palestina em uma narrativa mais ampla e compartilhada da terra, contrapondo-se, assim, \u00e0s din\u00e2micas de apagamento.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. 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Como investigar em bibliotecas, documentos e centros culturais destru\u00eddos? Hist\u00f3ria de uma busca. Um povo encontra formas criativas para que passado e presente sobrevivam ao terror sionista<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/palestina-resgate-deuma-historia-violada\/\">Palestina: o resgate de uma Hist\u00f3ria violada<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":102016,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[40099,5511,9063,52,80855,5488,80856,80857,3273,80858,80859,6077,54,80860,80861,77122],"tags":[],"class_list":["post-102015","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquivos-historicos","category-capa","category-estado-de-israel","category-gaza","category-historia-da-palestina","category-historia-e-memoria","category-historiadores-palestinos","category-historiografia-palestina","category-luta-palestina","category-nacionalismo-palestino","category-nacionalismos-arabes","category-nakba","category-palestina","category-revolta-arabe","category-sociedade-palestina","category-territorios-palestinos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102015","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=102015"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102015\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/102016"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=102015"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=102015"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=102015"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}