{"id":102510,"date":"2026-09-01T10:58:45","date_gmt":"2026-09-01T13:58:45","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/soberania-alimentar-e-terra-agua-sementes-pao-e-solidariedade-entrevista-com-maria-de-jesus-dos-santos-gomes\/"},"modified":"2026-09-01T10:58:45","modified_gmt":"2026-09-01T13:58:45","slug":"soberania-alimentar-e-terra-agua-sementes-pao-e-solidariedade-entrevista-com-maria-de-jesus-dos-santos-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/soberania-alimentar-e-terra-agua-sementes-pao-e-solidariedade-entrevista-com-maria-de-jesus-dos-santos-gomes\/","title":{"rendered":"Soberania alimentar \u00e9 terra, \u00e1gua, sementes, p\u00e3o e solidariedade: entrevista com Maria de Jesus dos Santos Gomes"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"512\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\"><figcaption><em>Maria de Jesus<\/em> <em>durante o ato pol\u00edtico. Foto: Flaviana Alencar<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Francisco Regis Lopes Ramos* e Kenia Sousa Rios**<br \/>Da Revista Acad\u00eamica Hist\u00f3ria Oral<\/em><\/p>\n<p>A entrevista aconteceu no Centro de Forma\u00e7\u00e3o Frei Humberto, em Fortaleza, na noite do dia 20 de maio de 2026. Maria de Jesus nos aguardava depois de um dia inteiro como feirante de seus produtos numa Feira da Reforma Agr\u00e1ria que acontecia aqueles dias em Fortaleza. O lugar escolhido para entrevista foi o Centro de Forma\u00e7\u00e3o Frei Humberto, espa\u00e7o dedicado \u00e0s diversas atividades da Via Campesina no estado do Cear\u00e1. Nos acomodamos no audit\u00f3rio que homenageia o poeta cearense Patativa do Assar\u00e9 e entre palavras de ordem da luta pela terra e pela vida espalhadas nas paredes do audit\u00f3rio, demos in\u00edcio a nossa conversa.<\/p>\n<p><strong>Francisco Regis e Kenia Rios <\/strong>\u2013 Gostar\u00edamos que voc\u00ea se apresentasse a n\u00f3s. Seu nome, o lugar onde nasceu e como voc\u00ea gostaria de ser apresentada nesta publica\u00e7\u00e3o da RBHO.<\/p>\n<p><strong>Maria de Jesus \u2013<\/strong> Sou Maria de Jesus dos Santos Gomes. Nasci na comunidade de Ipueira dos Gomes, munic\u00edpio de Canind\u00e9, no Cear\u00e1. Nasci no dia 18 de junho de 1971. L\u00e1 onde eu nasci, no Canind\u00e9 \u00e9 munic\u00edpio do semi\u00e1rido. Fa\u00e7o parte da coordena\u00e7\u00e3o estadual do MST-CE.<\/p>\n<p><strong>FR e KR \u2013<\/strong> Gostaria que voc\u00ea contasse pra n\u00f3s um pouco da sua hist\u00f3ria. Lembran\u00e7as marcantes da inf\u00e2ncia, como era o lugar, sobretudo o que voc\u00eas comiam. Como acessavam a comida; se voc\u00eas mesmo plantavam, como plantavam e quais as principais dificuldades. Um pouco isso. V\u00e1 nos contando do jeito que vier na lembran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>MJ <\/strong>\u2013 Ent\u00e3o, eu sou filha de pequenos agricultores, mas tipo assim, meu pai tinha dez hectares de terra. N\u00f3s somos seis irm\u00e3os, ent\u00e3o essa terra era al\u00e9m da minha fam\u00edlia para tamb\u00e9m meus tios. Ent\u00e3o n\u00f3s somos filhos de pequenos agricultores, sou filha de pequenos agricultores. E l\u00e1 n\u00f3s t\u00ednhamos a produ\u00e7\u00e3o de subsist\u00eancia, o feij\u00e3o, o milho, o jerimum, o algod\u00e3o, a batata. Meu pai, no ver\u00e3o, ele plantava as vazantes, n\u00f3s tamb\u00e9m cri\u00e1vamos cabra, gado, t\u00ednhamos vacas. Ent\u00e3o, o meu av\u00f4 era criador de gado, inclusive n\u00e3o faltava leite para n\u00f3s. E assim, qual foi a grande dificuldade que eu enfrentei na minha inf\u00e2ncia? Foi no per\u00edodo de seca, de 79 a 83. N\u00f3s tivemos aqui no Nordeste um per\u00edodo que a gente diz que o Nordeste passou por um etnoc\u00eddio1. Ent\u00e3o, naquela \u00e9poca, imagina, eu tinha l\u00e1 entre meus 8 a 12 anos, nesse per\u00edodo. E todo esse per\u00edodo da seca, na comunidade onde eu nasci, toda semana morreu gente. E uma coisa me incomodava muito, porque eu dizia assim, e n\u00f3s \u00e9ramos do catecismo, da primeira comunh\u00e3o, estava fazendo a perseveran\u00e7a, era obriga\u00e7\u00e3o nossa acompanhar todos os enterros. Cantando e rezando. E aquilo ali me incomodava muito, porque eu digo assim, eu n\u00e3o acredito que Deus est\u00e1 matando n\u00f3s. N\u00e3o acredito que isso \u00e9 uma quest\u00e3o que n\u00f3s estamos sendo castigados. Ent\u00e3o, a primeira inquieta\u00e7\u00e3o minha foi essa. Depois, em 87, eu fui fazer um curso de catequese no Instituto de Catequese S\u00e3o Francisco, que era uma escola de catequese da Diocese de Fortaleza. L\u00e1 eu conheci Dom Alo\u00edsio, l\u00e1 tive a oportunidade de conhecer\u2026 Padre Luiz, Padre Hermano, tantos da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, e eu comecei a compreender que a quest\u00e3o da seca n\u00e3o era uma quest\u00e3o de Deus castigando n\u00f3s, era uma quest\u00e3o de classe. Porque l\u00e1 no Canind\u00e9, os vereadores n\u00e3o passavam fome, os comerciantes n\u00e3o passavam fome, nenhum comerciante perdeu seu filho ou sua filha, nem o idoso que era, vamos dizer, que era rico, que era funcion\u00e1rio p\u00fablico do banco ou dos outros, essas pessoas n\u00e3o passavam fome. Mas n\u00f3s, agricultores\u2026 Sim, passava fome, morreu meu irm\u00e3o, morreu meu irm\u00e3o, n\u00e9, desde assim, morreu\u2026<\/p>\n<p><strong>FR e KR \u2013<\/strong> E ele morreu de fome? Voc\u00eas entendiam que ele morreu de fome? <\/p>\n<p><strong>MJ <\/strong>\u2013 Morreu de difteria\u2026 Difteria era a doen\u00e7a da fome, era uma desnutri\u00e7\u00e3o, dava aquela diarreia e aquela crian\u00e7a dentro de 48 horas morria. Afundava a muleira, como diziam os nossos pais, e morria. <\/p>\n<p><strong>FR e KR \u2013<\/strong> Mas voc\u00eas diziam isso, voc\u00eas sentiam que era de fome? As doen\u00e7as vinham da fome? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>Era da fome. As doen\u00e7as que a gente tinha e que a gente enfrentava era da fome. Era verminose, era da fome e das m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es. E \u00e1gua? \u00c1gua n\u00e3o tinha l\u00e1 no lugar. Voc\u00ea acredita que eu ia\u2026 Nessa \u00e9poca eu botava 13 latas d\u2019\u00e1gua, a minha tarefa era botar \u00e1gua. Na fam\u00edlia. Eu s\u00f3 tinha tarefa dif\u00edcil. A minha tarefa era botar \u00e1gua e lenha. Era mais velha. <\/p>\n<p><strong>R \u2013<\/strong> E a \u00e1gua vinha de onde?<\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>A \u00e1gua vinha de um rio que est\u00e1 do lado, perto da minha casa. S\u00f3 que, assim, olha, no per\u00edodo da seca, a cacimba ficou muito l\u00e1 embaixo. A gente descia muito e pra tirar, a gente chegava \u00e0s 5 horas, sa\u00eda 9 horas pra tirar 20 litros d\u2019\u00e1gua. Olha, essa \u00e9 a grande diferen\u00e7a que eu digo no Nordeste hoje, porque minha casa hoje, l\u00e1 dos meus pais, tem um po\u00e7o profundo com 5 mil litros por\u2026 Tem uma vaz\u00e3o por hora, 5 mil litros por hora. De \u00e1gua para atender a popula\u00e7\u00e3o da comunidade. Tem v\u00e1rios po\u00e7os hoje profundos l\u00e1. \u00c1gua encanada nas casas das fam\u00edlias. Ningu\u00e9m tem mais aquele sofrimento de carregar \u00e1gua na cabe\u00e7a que eu tive. E isso s\u00e3o pol\u00edticas de Lula e Dilma.<\/p>\n<p><strong>KR \u2013<\/strong> E voc\u00eas caminhavam muito at\u00e9 a fonte? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>A gente caminhava. Eu caminhava em torno de uns 300 metros para ir buscar essa \u00e1gua. E assim, uma dificuldade t\u00e3o grande. De buscar essa \u00e1gua e era uma \u00e1gua salobra, n\u00e3o era uma \u00e1gua salgada, que tem muito aqui no nosso semi\u00e1rido, essa \u00e9 a realidade. E depois, para a gente ter o consumo, a gente ia numa l\u00e9gua com jumento buscar em a\u00e7udes vizinhos l\u00e1 na nossa comunidade. Ent\u00e3o, assim, essa quest\u00e3o da \u00e1gua, da sede, da fome, da morte dos animais, da falta de alimenta\u00e7\u00e3o, era uma coisa que a gente vivenciava, n\u00f3s s\u00f3 n\u00e3o morremos de fome l\u00e1 na comunidade, porque n\u00f3s t\u00ednhamos uma freira da nossa fam\u00edlia, e ela na diocese de Fortaleza conseguiu cestas b\u00e1sicas, e ela levava de 15 em 15 dias com um caminhoneiro tamb\u00e9m que era da nossa fam\u00edlia, A Josy e a Maria, que eram as irm\u00e3s, levavam para a nossa comunidade e a gente teve essa assist\u00eancia. N\u00f3s s\u00f3 n\u00e3o morremos de fome por causa disso. <\/p>\n<p><strong>R \u2013<\/strong> Me diga uma coisa\u2026 Voc\u00ea falou em cabra, tinham as cabras. Era muito importante a cabra? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> Sim. <\/p>\n<p><strong>R \u2013<\/strong> Diga por qu\u00ea. <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> Olha, porque os caprinos s\u00e3o do semi\u00e1rido. Eles s\u00e3o adaptados ao semi\u00e1rido. O caprino \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o que voc\u00ea n\u00e3o precisa muita comida, como o gado, por exemplo. Voc\u00ea com pouco alimento, voc\u00ea tem um rebanho, tem leite. Olha, para voc\u00ea ter uma ideia, naquele tempo, n\u00f3s com\u00edamos, a nossa merenda de manh\u00e3, a minha m\u00e3e fazia o seguinte, era leite de cabra com jerimum, que o meu pai plantava nas vazantes dos a\u00e7udes, e n\u00f3s todo dia, e o papai para motivar n\u00f3s, ele dizia assim, n\u00e3o coma, porque quem come jerimum todo dia, leite de cabra, fica com as pernas grossas, fica bonito os cabelos. Papai ficava fazendo incentivos de beleza pra n\u00f3s, n\u00e9? No sentido da gente achar que era natural comer todo dia a mesma coisa. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013<\/strong> A\u00ed, isso eu queria que voc\u00ea falasse mais, como era a dieta? O que voc\u00eas comiam de manh\u00e3, depois, de noite? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> N\u00e3o, olha, quando tinha inverno, muita fartura. Porque a gente tinha as cria\u00e7\u00f5es, tinha galinha, tinha o milho. Do milho faz muita comida, faz mugunz\u00e1, faz a pamonha, faz a canjica. [\u2026] A gente plantava tamb\u00e9m milho. Ent\u00e3o quando tem inverno, tem fartura na nossa mesa. O feij\u00e3o maduro, o feij\u00e3o, o bai\u00e3o de dois. Ent\u00e3o a gente tinha fartura quando tinha inverno. Agora quando era seca, olha, n\u00f3s amanhecia o dia, n\u00f3s ia atr\u00e1s sabe de que? De fruto de carna\u00faba. N\u00f3s \u00edamos derrubar o fruto da carna\u00faba, o fruto do ju\u00e1. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013 <\/strong>E como \u00e9 que prepara isso para comer? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>N\u00e3o, o fruto do ju\u00e1 a gente derrubava, a gente ia atr\u00e1s de tanger as abelhas, n\u00e9? Ent\u00e3o, assim, onde tivesse a gente jogava, assim, o pau, derrubava os frutos e colhia e comia. T\u00e1 entendendo? Essas frutas, nossa, a fruta da carna\u00faba eu acho uma del\u00edcia. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013<\/strong> E n\u00e3o tinha nenhum preparo n\u00e3o, voc\u00ea derrubava e comia? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> N\u00e3o, derrubava e se alimentava. E depois, quando era na hora do almo\u00e7o, era o caldo de bila. A minha m\u00e3e chama de caldo de bila. Mas ela pegava assim, \u00e0s vezes, olha, para tu ter uma ideia, assim, eu me lembro demais disso. A\u00ed quando chegou o socorro da C\u00e1ritas com as doa\u00e7\u00f5es de alimentos, isso a\u00ed mudou, n\u00e9? N\u00f3s t\u00ednhamos pelo menos arroz com feij\u00e3o todo dia, n\u00f3s t\u00ednhamos alguma coisa assim, n\u00e3o tinha mistura, mas o b\u00e1sico dos cereais tinha. Eu comia muito arroz com feij\u00e3o, uma colherada de \u00f3leo, dava uma mexida e machucava. Comia com o maior gosto, ficava muito bem. Mas eu quero dizer assim, que isso era uma situa\u00e7\u00e3o de fome. Era garapa de a\u00e7\u00facar. Garapa de a\u00e7\u00facar pra gente. Ave Maria, era boa demais. A gente merendava garapa de a\u00e7\u00facar. Caf\u00e9 com farinha. Caf\u00e9 com farinha. Comia muito caf\u00e9 com farinha. N\u00e3o tinha esse neg\u00f3cio de bolacha. N\u00e3o tinha essas coisas. Era caf\u00e9 com farinha. Ent\u00e3o n\u00f3s com\u00edamos aquilo\u2026 Muito gosto n\u00e9 era uma dieta mesmo de uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia de fome n\u00e9, mas depois quando a gente descobre que isso \u00e9 uma quest\u00e3o de classe que a gente pode passar por uma seca e pode n\u00e3o passar sede n\u00e3o passar fome,pode n\u00e3o ver nenhum animal morrer de fome, eu acho que essa \u00e9 a grande novidade que o MST trouxe para Canind\u00e9 olha quando o MST chegou no Canind\u00e9 acabou isso. Hoje, Canind\u00e9 passa por uma seca, mas o povo n\u00e3o morre mais de fome, n\u00e3o. Pode pegar as estat\u00edsticas, depois que o MST chegou em 1989, no munic\u00edpio de Canind\u00e9, para c\u00e1, se em seca, o povo est\u00e1 morrendo? N\u00e3o, tem luta. Na \u00faltima seca que teve l\u00e1, n\u00f3s conseguimos a maior cesta b\u00e1sica, 130 kg. N\u00e3o era cesta b\u00e1sica miser\u00e1vel n\u00e3o, al\u00e9m de ter frente de servi\u00e7o e exigir condi\u00e7\u00f5es de a gente sobreviver, porque a luta traz essa outra dimens\u00e3o. Porque antes a gente ficava roubando S\u00e3o Jos\u00e9, ficava fazendo aquelas promessas, botando S\u00e3o Jos\u00e9 de cabe\u00e7a para baixo. Fazia aquelas coisas assim todas, para vir a chuva, ficava fazendo as ora\u00e7\u00f5es, que isso, a gente n\u00e3o deixa de pedir a S\u00e3o Jos\u00e9 a b\u00ean\u00e7\u00e3o de um bom inverno, mas a gente foi descobrir depois, que n\u00f3s, tinha que ter pol\u00edticas, e o MST que traz essa contribui\u00e7\u00e3o para n\u00f3s, n\u00f3s trabalhadores e trabalhadoras, agricultores e agricultoras. Ent\u00e3o, o MST no Sert\u00e3o Central, ele vai trazer essa outra dimens\u00e3o, para al\u00e9m do saque. Tem o saque, mas tamb\u00e9m tem a exig\u00eancia de uma media\u00e7\u00e3o junto ao Estado brasileiro, junto \u00e0 sociedade, que resolva emergencialmente aquele per\u00edodo da seca. Ent\u00e3o, hoje, as pol\u00edticas de conviv\u00eancia com o semi\u00e1rido, que a articula\u00e7\u00e3o do semi\u00e1rido sistematizou, porque s\u00e3o pol\u00edticas de mais de 400 anos, constru\u00eddas pela resist\u00eancia popular do povo do Nordeste, porque a gente sabe o que \u00e9 uma baixa. Uma baixa no sert\u00e3o \u00e9 fartura. Aquelas \u00e1reas pr\u00f3ximas aos rios, aos riachos. S\u00e3o \u00e1reas que voc\u00ea\u2026 Ent\u00e3o, uma barragem subterr\u00e2nea faz toda a diferen\u00e7a para voc\u00ea. Um cacimb\u00e3o, um po\u00e7o artesiano, um a\u00e7ude. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013 <\/strong>E as cisternas?<\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>As cisternas. Olha, voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o. Quando a gente n\u00e3o tinha cisterna, cisterna hoje \u00e9 um bem precioso da fam\u00edlia. A gente cuida da cisterna, vamos dizer, na minha casa, hoje, por exemplo, a cisterna, a \u00e1gua que vai para a cisterna \u00e9 algo que n\u00f3s temos muito cuidado, cuidado para n\u00e3o contaminar, cuidado para ser bem lacradinha, para n\u00e3o ter nenhuma\u2026 Ent\u00e3o, a \u00e1gua da cisterna que chegou do sert\u00e3o, antigamente a gente tinha muito problema de diarreia. Muito problema de verminose, muito problema de \u00e1gua cheia de barro, \u00e1gua barrenta, \u00e1gua cheia de\u2026 Hoje n\u00e3o, gente. A gente tem \u00e9 cisterna. Dependendo da fam\u00edlia, ela passa de um inverno para outro. Aquela \u00e1gua de beber, ela \u00e9 uma \u00e1gua, assim, acabou esse problema, por mais dif\u00edcil que tenha, a pessoa ter diarreia, hoje uma infec\u00e7\u00e3o intestinal no sert\u00e3o, onde tem cisterna n\u00e3o tem esse tipo de problema de sa\u00fade. Porque esse tipo de doen\u00e7a est\u00e1 ligado a essa quest\u00e3o do acesso \u00e0 \u00e1gua. Ent\u00e3o, \u00e9 uma quest\u00e3o muito importante. A cisterna, assim, minha m\u00e3e, l\u00e1 na nossa comunidade, n\u00f3s tivemos a primeira cisterna, uma foi l\u00e1 para a minha casa. A gente ganhou do Frei Humberto. Que era um padre l\u00e1 de Canind\u00e9. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013<\/strong> Que \u00e9 o que d\u00e1 o nome, n\u00e9? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> \u00c9, que d\u00e1 o nome aqui do nosso centro de forma\u00e7\u00e3o. E o Frei Humberto foi e doou, ele fez assim para v\u00e1rias comunidades e doou para n\u00f3s da milit\u00e2ncia do movimento. E a\u00ed eu implantei l\u00e1 em casa. E minha gente aquilo ali fez toda a diferen\u00e7a. A minha m\u00e3e tratava aquela \u00e1gua assim, e o meu pai, e eu, todo mundo, era um tesouro. \u00c9 um tesouro. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013<\/strong> Era uma coisa sagrada\u2026<\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> [\u2026] \u00e1gua pra n\u00f3s \u00e9 coisa sagrada. Eu n\u00e3o me acostumo com essa hist\u00f3ria de comprar \u00e1gua. Eu sou indignada com isso porque para mim a \u00e1gua \u00e9 um bem da natureza, \u00e9 um bem comum. Ela n\u00e3o \u00e9 para ser comercializada. Ent\u00e3o acho que a cisterna, o armazenamento de \u00e1gua, a estocagem de \u00e1gua, porque agora o movimento fala de estocagem de \u00e1gua. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013 <\/strong>Estocagem?<\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>O que \u00e9 isso? N\u00e3o \u00e9 n\u00f3s termos \u00e1gua simplesmente para quest\u00e3o emergencial, n\u00e3o. Mas se vier uma seca, n\u00f3s ter \u00e1gua para cinco anos, n\u00f3s ter \u00e1gua para os nossos animais, n\u00f3s ter \u00e1gua para o nosso consumo humano, para o consumo produtivo. <\/p>\n<p><strong>R \u2013 <\/strong>E \u00e9 importante a terra com \u00e1gua. A terra sem \u00e1gua, como \u00e9 que fica? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> \u00c9 muito dif\u00edcil. E \u00e1gua, a quest\u00e3o da \u00e1gua passa tamb\u00e9m pela floresta. A preserva\u00e7\u00e3o. O MST tem essa campanha maravilhosa de plantar, produzir alimentos saud\u00e1veis, que ela \u00e9 fundamental. O plantio de \u00e1rvores, ele altera as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. N\u00f3s temos que preservar o nosso bioma, a Caatinga. A gente tem aqui um bioma espec\u00edfico. Ent\u00e3o n\u00f3s temos esse cuidado. Ent\u00e3o hoje os conhecimentos, a luta pol\u00edtica dos movimentos populares, ela tem sido fundamental para alterar essa rela\u00e7\u00e3o de conviver com a seca. De que a gente pode passar a seca, mas a gente pode produzir alimentos na seca. N\u00f3s estamos aprendendo isso com as escolas do campo. As escolas do campo, que hoje tem cursos t\u00e9cnicos em agroecologia, elas t\u00eam feito toda a diferen\u00e7a nos territ\u00f3rios. As escolas agr\u00edcolas que n\u00f3s temos aqui no estado do Cear\u00e1 tem feito toda a diferen\u00e7a no sentido de educar o campesinato para resistir no per\u00edodo da seca, convivendo com ela. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013 <\/strong>E voc\u00ea pode dar exemplos disso? O que \u00e9 que se planta hoje em per\u00edodos de seca para amenizar o problema da fome? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> N\u00f3s temos focado em quatro soberanias. A gente diz assim, a soberania florestal, a import\u00e2ncia da gente plantar \u00e1rvores, principalmente as \u00e1rvores do nosso bioma, mas plantar principalmente frut\u00edferas, frut\u00edferas do nosso bioma. N\u00f3s temos v\u00e1rias frutas que na seca elas produzem, o umbu, a cajarana, a seriguela, s\u00e3o frutas, a ata. Ent\u00e3o a gente tem buscado ter essa orienta\u00e7\u00e3o dos cultivos de \u00e1rvores resistentes, frut\u00edferas, que d\u00ea alimento, mas tamb\u00e9m que d\u00ea que resista ao clima de um per\u00edodo de seca. A outra quest\u00e3o tamb\u00e9m sobre as forragens, com a palma forrageira, com o sisal, com outras, o pr\u00f3prio mandacaru. Cultivar mandacaru, por que n\u00e3o? Ent\u00e3o a gente tem incentivado a assumir os capins, que tem os tipos de capim que s\u00e3o resistentes. Aproveitar tudo. Isso a\u00ed o Padre C\u00edcero j\u00e1 ensinava. Ele j\u00e1 ensinava.<\/p>\n<p><strong>R \u2013<\/strong> Se cada romeiro plantar uma \u00e1rvore a\u00ed o sert\u00e3o vai mudar. Ele dizia isso.<\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>Isso a\u00ed \u00e9 um ensinamento antigo. Ent\u00e3o a gente busca cultivar e promover isso. Ent\u00e3o, por exemplo, eu me lembro aqui l\u00e1 no Tamboril. Tamboril \u00e9 um lugar muito seco. Fui l\u00e1 na casa da dona Isabel, que \u00e9 uma lideran\u00e7a hist\u00f3rica l\u00e1 no nosso assentamento do Monte Alegre. Plena seca, fazia tr\u00eas anos de seca. Entrei no quintal da dona Isabel, a horta, a coisa mais linda. Os plantios de fruta, coisa mais linda, mam\u00e3o, ata. Parecia que a gente estava em um o\u00e1sis. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 agricultura extensiva em grande escala, mas \u00e9 uma agricultura agroecol\u00f3gica em pequena escala que atende \u00e0 necessidade daquela fam\u00edlia e atende at\u00e9 a necessidade da comunidade. Ent\u00e3o esses pequenos o\u00e1sis eles v\u00e3o dando uma outra dimens\u00e3o diferente, porque voc\u00ea pensa a integra\u00e7\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o de animais. <\/p>\n<p><strong>R \u2013 <\/strong>Fiquei curioso, a cabra continua importante do mesmo jeito? MJ \u2013 Continua, no sert\u00e3o, continua. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013<\/strong> Jesus, eu queria voltar \u00e0 quest\u00e3o que voc\u00ea estava falando, para eu entender, para voc\u00ea explicar para a gente qual a diferen\u00e7a entre soberania alimentar e seguran\u00e7a alimentar. Por que voc\u00eas usam soberania? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>Olha, a seguran\u00e7a alimentar \u00e9 o acesso a alimentos. Ela pode vir de alimentos contaminados com agrot\u00f3xicos, pode vir do agroneg\u00f3cio, na grande escala. Mas garante aquele acesso ao alimento para aquela popula\u00e7\u00e3o, independente da sua qualidade. Ent\u00e3o isso \u00e9 uma forma, assim, garante a seguran\u00e7a alimentar. Mas o crit\u00e9rio \u00e9 acessar alimentos. Pode ser alimentos transg\u00eanicos, contaminados de agrot\u00f3xicos. Isso n\u00e3o tem para a pol\u00edtica da seguran\u00e7a alimentar, isso n\u00e3o importa. O importante \u00e9 que as pessoas tenham acesso a alimentos. Isso \u00e9 garantia de seguran\u00e7a alimentar. Isso \u00e9 uma propaganda muito grande da ONU. Esse conceito \u00e9 sistematizado pela ONU e pela FAO. \u00c9 um conceito que a FAO sistematiza. Agora, o que \u00e9 a soberania alimentar? A\u00ed ela tem uma constru\u00e7\u00e3o do movimento campon\u00eas mundial. Quem sistematizou esse conceito foi a Via Campesina Internacional. E essa \u00e9 uma bandeira de luta hoje nos 168 pa\u00edses que n\u00f3s temos a Via Campesina. \u00c9 uma das bandeiras principais da luta dos camponeses e camponesas. <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> E o que n\u00f3s compreendemos como soberania alimentar? A soberania alimentar, a nossa compreens\u00e3o parte do nosso controle. Primeiro de ter terra para produzir. Ent\u00e3o, o acesso \u00e0 terra, o direito \u00e0 terra e que n\u00f3s, nesse momento da conjuntura internacional e da altera\u00e7\u00e3o do capitalismo com a hegemonia do capital financeiro. Essa quest\u00e3o da terra, ela virou um ativo financeiro. Ent\u00e3o, hoje, a quest\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o da terra e da retomada, tipo assim, da expropria\u00e7\u00e3o da terra dos camponeses e camponesas, inclusive no Brasil, n\u00f3s estamos passando nos \u00faltimos 20 anos uma grande acelera\u00e7\u00e3o, que hoje n\u00f3s estamos se comparando a concentra\u00e7\u00e3o de terra ao tempo da coloniza\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p><strong>R \u2013 <\/strong>E as monoculturas?<\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> [\u2026] os monocultivos. Ent\u00e3o o que acontece? O acesso \u00e0 terra \u00e9 a primeira condi\u00e7\u00e3o para a soberania alimentar. E a outra quest\u00e3o \u00e9 o controle sobre a organiza\u00e7\u00e3o dessa produ\u00e7\u00e3o, de que a gente tenha semente, de que a gente tenha o manejo certo, que a gente fa\u00e7a plantios diversificados, que atende a toda aquela pir\u00e2mide nutricional, que a gente possa produzir alimentos que tenham minerais, que tenham prote\u00ednas, que tenham carboidratos, que tenham vitaminas. Ent\u00e3o, n\u00f3s precisamos pensar na nossa produ\u00e7\u00e3o olhando para a soberania alimentar com alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e nutritiva. Porque voc\u00ea pode ter uma ideia assim, eu posso estar aqui comendo um alimento, eu ter alimento em abund\u00e2ncia, mas ele pode ser nutritivo s\u00f3, por exemplo, em carboidratos. E cad\u00ea os minerais? E cad\u00ea as vitaminas? E cad\u00ea as prote\u00ednas? Que isso hoje gera um grande problema de sa\u00fade na sociedade, que \u00e9 o problema da obesidade. Por uma m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o, as pessoas est\u00e3o tendo esse problema de sa\u00fade da obesidade que ocasiona outros problemas de sa\u00fade. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013<\/strong> Que \u00e9 um tipo de desnutri\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>Que \u00e9 um tipo de desnutri\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a import\u00e2ncia da gente pensar soberania alimentar com essa caracter\u00edstica da produ\u00e7\u00e3o de um alimento saud\u00e1vel e nutritivo, considerando toda essa compreens\u00e3o, isso \u00e9 algo que n\u00f3s estamos trabalhando com todos os camponeses e camponesas. E para n\u00f3s, tem outra novidade. A agroecologia, para n\u00f3s, \u00e9 uma forma de organizar nossa produ\u00e7\u00e3o. Mas n\u00f3s n\u00e3o temos, n\u00f3s, o MST, inclusive, rompe com uma vis\u00e3o de agroecologia porque quando a agroecologia surge n\u00e3o se falava nas tr\u00eas matrizes, porque a agroecologia tem tr\u00eas matrizes. Ela tem uma matriz ancestral, que s\u00e3o saberes ancestrais de uma agricultura anterior \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Verde, anterior ao uso de agrot\u00f3xicos. Tem muitos saberes dessa agricultura, fala-se de 12 mil anos de conhecimentos, n\u00e9? Dessa produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis. Mas depois, quando vem a Revolu\u00e7\u00e3o Verde, principalmente na d\u00e9cada aqui, n\u00f3s no Brasil, na d\u00e9cada de 50 para c\u00e1, h\u00e1 uma altera\u00e7\u00e3o muito grande na agricultura brasileira, que \u00e9 essa agricultura empresarial, capitalista, com o objetivo do com\u00e9rcio. E isso se acirra nos \u00faltimos anos com a quest\u00e3o da comoditiza\u00e7\u00e3o dos alimentos. Quando a OMC transformou alimento em commodity ou em mercadoria, n\u00f3s camponeses e camponesas no mundo todo, n\u00f3s entendemos que alimento \u00e9 um bem comum. Ele n\u00e3o pode ser uma commodity. Ele n\u00e3o pode ser uma <em>commodity<\/em>. Ent\u00e3o, a natureza, para n\u00f3s, ela n\u00e3o pode ser commodity. A terra n\u00e3o pode ser <em>commodity<\/em>. Ent\u00e3o, a terra n\u00e3o pode ser mercadoria. O ar n\u00e3o pode ser mercadoria. A \u00e1gua n\u00e3o pode ser mercadoria. O alimento tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser mercadoria. Para n\u00f3s, os alimentos, ent\u00e3o, a soberania alimentar, ela compreende essa quest\u00e3o do controle da produ\u00e7\u00e3o. Desde o acesso \u00e0 terra do plantio, ou tamb\u00e9m do controle da terra pelos camponeses, que a gente n\u00e3o vende a nossa terra. E at\u00e9 todo o processo do manejo \u00e0 colheita, \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o, que d\u00ea conta de atender \u00e0s necessidades da sua fam\u00edlia e aquilo que sobra lhe d\u00ea uma renda. <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> Que a gente possa ofertar para a sociedade esse alimento tamb\u00e9m. Mas \u00e9 um alimento saud\u00e1vel. N\u00f3s temos feito um debate que a grande tarefa nossa, dos camponeses e camponesas, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis. E no Brasil, 70% dos alimentos s\u00e3o produzidos por n\u00f3s da agricultura familiar. \u00c9 o avesso. N\u00f3s temos o m\u00ednimo de investimento na nossa produ\u00e7\u00e3o, o agroneg\u00f3cio tem, eles est\u00e3o assim, vamos dizer, eles t\u00eam trilh\u00f5es de investimento na produ\u00e7\u00e3o deles, uma produ\u00e7\u00e3o que contamina solo, contamina ar, contamina pessoas, tem um interesse s\u00f3 comercial de gerar, vamos dizer, a hist\u00f3ria do super\u00e1vit prim\u00e1rio. Que \u00e9 uma coisa que alimenta essa nova fase do capital financeiro, mas isso n\u00e3o permite \u00e0 sociedade ter alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>R \u2013<\/strong> Eu estava lembrando que em 2003, o St\u00e9dile publicou um texto com o seguinte t\u00edtulo as sementes s\u00e3o patrim\u00f4nio da humanidade. Contra a privatiza\u00e7\u00e3o das sementes. Como \u00e9 que est\u00e1 hoje essa quest\u00e3o? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> Ela continua sendo uma grande campanha nossa. A quest\u00e3o da preserva\u00e7\u00e3o, da conserva\u00e7\u00e3o da semente, da reprodu\u00e7\u00e3o das sementes. Inclusive, n\u00f3s do MST temos uma experi\u00eancia de uma cooperativa nossa, que \u00e9 a Bionatur, que hoje est\u00e1 se nacionalizando com esse intuito. Ela \u00e9 do Rio Grande do Sul, ela trabalha muito com hortali\u00e7as, mas n\u00f3s estamos nacionalizando ela para que ela tamb\u00e9m fa\u00e7a a reprodu\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias sementes no Brasil, de acordo com os biomas. Porque n\u00f3s tamb\u00e9m, o movimento, ele tem avan\u00e7ado nesse estudo dos biomas. Como \u00e9 que o nosso\u2026 E n\u00f3s estamos fazendo um di\u00e1logo muito lindo, que \u00e9 o aproveitamento da nossa produ\u00e7\u00e3o. Vamos dizer, eu sou de uma experi\u00eancia que n\u00f3s trabalhamos na nossa comunidade os derivados do caju e da castanha. Hoje a gente faz, na minha fam\u00edlia, n\u00f3s fazemos 14 produtos do caju. A gente utiliza o ped\u00fanculo do caju. N\u00f3s fazemos l\u00e1\u2026 Eu estou dando aqui um exemplo em rela\u00e7\u00e3o ao caju. Mas n\u00f3s podemos fazer isso com a macaxeira, com a mandioca. N\u00f3s podemos fazer isso com o umbu, ele pode dar v\u00e1rios subprodutos. O milho, o leite de cabra, o leite de gado. Est\u00e1 entendendo? Ent\u00e3o, n\u00f3s precisamos aprimorar. N\u00e3o \u00e9 uma ideia de uma agroind\u00fastria. Com a ideia de processamento de alimentos, alterando os alimentos. N\u00e3o. Por exemplo, eu sou de uma agroind\u00fastria que est\u00e1 agora come\u00e7ando nossa agroind\u00fastria, n\u00f3s somos um grupo de mulheres que produzimos. N\u00f3s conquistamos agora a agroind\u00fastria. N\u00f3s produzimos derivados da castanha. O que n\u00f3s fazemos l\u00e1? N\u00f3s fazemos 14 produtos. N\u00f3s fazemos assim, a pasta da castanha do caju, o queijo cremoso da castanha, o biscoito da castanha, a gente faz o nut cacau, \u00e9 um produto com cacau e a pasta da castanha. A gente faz a pa\u00e7oca de castanha, que \u00e9 uma del\u00edcia. A gente faz uma barra de cereal da castanha, a gente faz o leite da castanha, o doce de leite da castanha do caju. A gente est\u00e1 fazendo tamb\u00e9m\u2026 A castanha caramelizada com a\u00e7\u00facar demerara, a gente faz a castanha assada\u2026<\/p>\n<p><strong>KR \u2013<\/strong> Eu t\u00f4 com \u00e1gua na boca (risos).<\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> [\u2026] a gente faz a farinha da castanha, a gente faz a farinha da castanha, a gente faz bombons, uns bombons maravilhosos da castanha. A gente faz um queijo maturado, que ele tem inclusive uma dura\u00e7\u00e3o de tr\u00eas meses. Esses 14 produtos, s\u00e3o zero lactose, zero gl\u00faten, zero gorduras trans, zero a\u00e7\u00facar e s\u00e3o produtos que enfrentam as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Porque, por exemplo, os derivados do leite de gado, o gado \u00e9 um dos maiores emissores de gases na camada de oz\u00f4nio, ent\u00e3o n\u00f3s estamos nessa produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 um grupo de mulheres, mas que envolve toda a comunidade de acordo com a produ\u00e7\u00e3o e a gente v\u00ea assim essa quest\u00e3o do aproveitamento da castanha sabe ent\u00e3o assim \u00e9 uma quest\u00e3o muito importante e desses a\u00ed nove produtos a gente n\u00e3o usa um pingo de \u00e1gua. Nove produtos, n\u00f3s n\u00e3o usamos \u00e1gua. Eu digo, \u00e9 uma, vamos dizer assim, \u00e9 uma agroind\u00fastria do semi\u00e1rido. Ent\u00e3o, imagina que lindo uma produ\u00e7\u00e3o dessa. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013 <\/strong>Que dialoga e respeita o bioma caatinga. <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>Que valoriza uma produ\u00e7\u00e3o nossa, que n\u00f3s l\u00e1 somos produtores de caju e de castanha. E com o caju, a gente faz a caju\u00edna, faz o mel do caju, a gente faz o vinho do caju. A gente faz quatro tipos de doce de caju, inclusive tem um doce que a gente faz onde a gente ado\u00e7a o doce do caju com o mel do caju, que eu digo \u00e9 uma iguaria. A gente faz, a gente tem tamb\u00e9m assim a rapadura do caju.<\/p>\n<p><strong>KR \u2013 <\/strong>A carne de caju?<\/p>\n<p><strong>MJ \u2013<\/strong> [\u2026] A gente faz tamb\u00e9m o canjir\u00e3o. Fazemos tamb\u00e9m a carne do caju. Ent\u00e3o a gente faz o vinagre do caju. Uma del\u00edcia. Ent\u00e3o eu quero dizer a voc\u00eas que todos s\u00e3o saberes camponeses. Que n\u00f3s vamos valorizando nossa produ\u00e7\u00e3o. E vamos ao mesmo tempo valorizando uma planta da Caatinga que \u00e9 o caju. O caju \u00e9 nosso. Ent\u00e3o eu quero dizer assim que hoje n\u00f3s estamos dentro da soberania alimentar, eu estou dando esse exemplo do caju, da castanha e do caju, porque o fruto \u00e9 a castanha, viu? N\u00e3o \u00e9 o caju. Ent\u00e3o eu estou dando esse exemplo desse fruto. Que \u00e9 uma planta que a gente aproveita tudo dela. E assim n\u00f3s temos muitas plantas no nosso bioma Caatinga que s\u00e3o plantas sagradas, que n\u00f3s podemos fazer uma resist\u00eancia num per\u00edodo de conviv\u00eancia com a seca. E assim, n\u00f3s n\u00e3o vamos sofrer fome. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013 <\/strong>E n\u00e3o \u00e9 um plantio em larga escala? Como \u00e9 feita a comercializa\u00e7\u00e3o? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>Ent\u00e3o a gente est\u00e1 com essa experi\u00eancia. A discuss\u00e3o de soberania alimentar \u00e9 esse conceito, do controle da nossa produ\u00e7\u00e3o com autonomia camponesa. Tem um objetivo de saciar necessidades de alimentos da fam\u00edlia, olhando para a nossa pir\u00e2mide nutricional, porque \u00e9 importante a gente n\u00e3o perder de vista essa pir\u00e2mide nutricional, e olhando para a qualidade desse alimento, mas tamb\u00e9m pensando na sociedade. Como a gente tamb\u00e9m produzir uma escala maior que possa ofertar para a sociedade e gerar renda para nossas fam\u00edlias atender o conjunto das suas necessidades. Ent\u00e3o, n\u00f3s hoje estamos numa transforma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. O campesinato que n\u00f3s do movimento estamos lutando; a gente quer um campesinato que ele tenha conhecimento, ele tenha estudo, ele tenha acesso a tecnologias. Agora o nosso movimento est\u00e1 lutando por m\u00e1quinas. Ent\u00e3o a soberania alimentar tem outras soberanias que existem com ela. Ent\u00e3o n\u00f3s temos feito um debate muito lindo com as escolas do campo aqui no Cear\u00e1 e no Nordeste. Com o conjunto do movimento sobre agroecologia. A agroecologia que defendemos articula o qu\u00ea?<\/p>\n<p>A <strong>soberania florestal<\/strong>, que \u00e9 a preserva\u00e7\u00e3o do bioma, dos biomas, n\u00e9? N\u00f3s temos no Brasil seis biomas. Ent\u00e3o, cuidado com esses biomas. N\u00f3s nos colocamos como guardi\u00e3s e guardi\u00f5es do bioma. E o movimento fez uma grande campanha, que \u00e9 o Plano Nacional Planta \u00c1rvores e Alimentos Saud\u00e1veis. Que a ideia \u00e9 valorizar as \u00e1rvores que s\u00e3o alimentos desse bioma. <\/p>\n<p>A <strong>soberania h\u00eddrica<\/strong>. Ela \u00e9 fundamental e hoje ela \u00e9 um problema em todos os biomas do nosso pa\u00eds. Com o desmatamento, com as queimadas, todos esses processos. Ent\u00e3o, a gente est\u00e1 discutindo soberania h\u00eddrica, a soberania alimentar, a <strong>soberania forrageira<\/strong>.<\/p>\n<p>Ora, se eu vou criar, eu tenho que produzir o alimento dos meus animais, para que a gente n\u00e3o fique dependendo, n\u00e9? Porque n\u00f3s temos situa\u00e7\u00e3o aqui no semi\u00e1rido que tem pessoas que pegam sua aposentadoria e metade dela \u00e9 para comprar ra\u00e7\u00e3o para os animais. N\u00f3s temos que produzir a forragem, porque esse sal\u00e1rio tem que dar conta de outras necessidades que a fam\u00edlia tem. <\/p>\n<p>A <strong>soberania energ\u00e9tica<\/strong>\u2026 N\u00f3s entendemos a import\u00e2ncia das energias renov\u00e1veis, mas n\u00e3o na l\u00f3gica das empresas de energia solar. N\u00f3s somos contra esse modelo. N\u00f3s somos a favor das pequenas usinas que abaste\u00e7am os territ\u00f3rios. E atendem \u00e0s nossas necessidades de irriga\u00e7\u00e3o. Tem a energia e\u00f3lica, que altera todo o ambiente. As pessoas n\u00e3o conseguem morar pr\u00f3ximo\u2026 A fauna some, a \u00e1gua some. Ent\u00e3o, n\u00f3s somos contra esse modelo de latif\u00fandio de energias. Mas n\u00f3s queremos as energias renov\u00e1veis, num modelo distributivo. <\/p>\n<p>Uma outra quest\u00e3o para n\u00f3s importante \u00e9 a <strong>soberania econ\u00f4mica<\/strong>. Que n\u00f3s precisamos enquanto camponeses e camponesas, pensar. Olha, se a gente est\u00e1 num per\u00edodo de seca, criar pequenos animais \u00e9 algo que voc\u00ea consegue, porque criar galinha, voc\u00ea vai ter o ovo, voc\u00ea vai ter a carne. Ent\u00e3o como \u00e9 que a gente potencializa num per\u00edodo desse a cria\u00e7\u00e3o dos pequenos animais? As cabras, vai ter o leite. Como \u00e9 que a gente valoriza isso? Ent\u00e3o se n\u00e3o d\u00e1 para a gente plantar o feij\u00e3o, o milho, por conta que a gente n\u00e3o tem \u00e1gua, Mas como \u00e9 que a gente garante produ\u00e7\u00f5es para aquele per\u00edodo? Ent\u00e3o a gente tamb\u00e9m tem que pensar as produ\u00e7\u00f5es na forma de ciclos. Ent\u00e3o a economia camponesa no semi\u00e1rido, esse \u00e9 um tema que eu estudo na pr\u00e1tica. E eu sou uma grande incentivadora nos acampamentos, nos assentamentos, que o nosso povo sonhe, tenha sonhos. Eu digo, gente, n\u00f3s n\u00e3o podemos pensar nossa economia igual a do fazendeiro. Porque n\u00f3s somos diferentes. Primeiro, n\u00f3s n\u00e3o temos as mesmas condi\u00e7\u00f5es. E segundo, n\u00f3s nem queremos ser igual a eles. N\u00f3s temos um outro projeto de campo, de reforma agr\u00e1ria, de agricultura. Ent\u00e3o, n\u00f3s queremos ter uma economia que atenda nossas necessidades humanas, sociais, mas que essa economia, ela d\u00ea conta disso pra gente ter uma qualidade de vida digna no campo. N\u00f3s do MST, queremos um com educa\u00e7\u00e3o, com cultura, com sa\u00fade, com direitos sociais, com todos os direitos que a gente entende que tem, direitos pol\u00edticos, sociais, econ\u00f4micos, n\u00f3s n\u00e3o queremos s\u00f3 um direito, vamos dizer, s\u00f3 a terra, a gente quer todos esses direitos. Ent\u00e3o, nesse sentido, a soberania econ\u00f4mica \u00e9 essa dimens\u00e3o da gente olhar as v\u00e1rias possibilidades nas cria\u00e7\u00f5es, na produ\u00e7\u00e3o da parte de hortas, pequenas hortas, na quest\u00e3o das frutas, tendo presente as necessidades que a gente tem.<\/p>\n<p>A outra quest\u00e3o \u00e9 a <strong>soberania medicinal<\/strong>. Ent\u00e3o a gente tem cultivado saberes ancestrais aqui no Brasil, n\u00f3s temos muito conhecimento ancestrais em rela\u00e7\u00e3o ao uso das plantas e as plantas da Caatinga. Eu sou apaixonada pela Caatinga porque toda planta \u00e9 um rem\u00e9dio. N\u00f3s temos, olha, os problemas mentais hoje, n\u00e3o tem planta melhor do que o Mulungu. Para a ansiedade, ch\u00e1 de mulungu. Para a depress\u00e3o, ch\u00e1 de mulungu. Para a ins\u00f4nia, ch\u00e1 de mulungu. Est\u00e1 entendendo?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu quero dizer a voc\u00eas que n\u00f3s temos plantas que \u00e9 nossa! Tanta coisa linda! E n\u00f3s podemos estar promovendo esses conhecimentos ancestrais, os lambedores, os xaropes, esses medicamentos todos que a gente pode ter. Ent\u00e3o, cultivar plantas medicinais \u00e9 muito importante.<\/p>\n<p>Uma outra quest\u00e3o tamb\u00e9m que n\u00f3s temos trabalhado \u00e9 a <strong>soberania cultural<\/strong>. Que \u00e9 assim, na soberania cultural tem coisa da cultura camponesa que n\u00f3s n\u00e3o queremos cultivar. N\u00e3o queremos o patriarcado, n\u00e3o queremos o machismo, n\u00e3o queremos o autoritarismo, n\u00e3o queremos rela\u00e7\u00f5es dominadoras, mas n\u00f3s queremos sim, do campesinato, os mutir\u00f5es. N\u00f3s queremos sim as trocas, n\u00f3s queremos sim as partilhas, das farturas. Quem \u00e9 que n\u00e3o faz isso, n\u00e9 gente? Na comunidade camponesa, quando come\u00e7a a ter o jerimum, a gente reparte o jerimum para a vizinhan\u00e7a, vamos dizer, a gente corta o jerimum e j\u00e1 d\u00e1 um peda\u00e7o para cada um da vizinhan\u00e7a. Ent\u00e3o essas pr\u00e1ticas comunit\u00e1rias. A quest\u00e3o dos alimentos, vamos dizer, que o nosso povo aprendeu a fazer com milho, com feij\u00e3o, com todos os tipos de alimentos. Para n\u00f3s \u00e9 muito importante essa culin\u00e1ria camponesa ser preservada. N\u00f3s agora nas escolas estamos promovendo cursos. Como \u00e9 que faz uma pamonha? Como \u00e9 que faz uma canjica? A gente n\u00e3o pode perder isso, porque s\u00e3o conhecimentos que v\u00e3o se perdendo. Como \u00e9 que faz uma rapadura? A gente n\u00e3o pode perder esses conhecimentos. Ent\u00e3o, nesse sentido, a gente entende que a gente precisa, na agroecologia, tamb\u00e9m promover essa quest\u00e3o da culin\u00e1ria. Numa culin\u00e1ria saud\u00e1vel, numa culin\u00e1ria camponesa, que valoriza os alimentos ancestrais, mas tamb\u00e9m que valoriza os novos alimentos mais saud\u00e1veis para uma alimenta\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o importante \u00e9 o <strong>conhecimento<\/strong>. Olha, n\u00f3s entendemos que como agricultores e agricultoras \u00e9 preciso ter conhecimento. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 da gente se alfabetizar, n\u00e3o. \u00c9 a escolariza\u00e7\u00e3o. O MST iniciou agora no Nordeste, neste governo do Lula, n\u00f3s j\u00e1 fizemos dois anos de um processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Agora vamos fazer mais dois anos de escolariza\u00e7\u00e3o do ensino fundamental. E n\u00f3s queremos, depois desse processo, fazer o EJA t\u00e9cnico. N\u00f3s vamos formar de forma massiva os camponeses na agroecologia. De forma massiva na administra\u00e7\u00e3o, com \u00eanfase nas empresas sociais, de associa\u00e7\u00f5es e cooperativismo. E o Cear\u00e1 \u00e9 pioneiro nesse processo. N\u00f3s j\u00e1 temos hoje nas escolas do campo 68 cursos t\u00e9cnicos de agroecologia, de administra\u00e7\u00e3o com \u00eanfase nas organiza\u00e7\u00f5es sociais e de inform\u00e1tica. Porque a gente entende que o acesso \u00e0 tecnologia \u00e9 fundamental para a agricultura. Inclusive o MST agora criou a IARA, que \u00e9 uma intelig\u00eancia artificial para a agroecologia. Ent\u00e3o a gente entende que n\u00f3s temos que se atualizar. Ent\u00e3o n\u00f3s temos que ter os cursos t\u00e9cnicos de agronomia, de energias renov\u00e1veis, de tudo, para pensar esse campo que n\u00f3s queremos. Esse campo que n\u00f3s queremos. <\/p>\n<p><strong>KR \u2013<\/strong> Bem, para a gente j\u00e1 ir quase terminando, n\u00e3o sei se o R\u00e9gis tem mais perguntas, mas eu tenho uma\u2026 \u00c9 mesmo uma quest\u00e3o que eu queria que voc\u00ea me ajudasse a pensar. \u00c9 poss\u00edvel a gente dizer que ainda existe fome no sert\u00e3o? No semi\u00e1rido? Se tem? O que seria a fome no semi\u00e1rido hoje? <\/p>\n<p><strong>MJ \u2013 <\/strong>Olha, com os governos que n\u00f3s temos hoje aqui no estado do Cear\u00e1, essa quest\u00e3o da fome, ela tem sido amenizada por essas pol\u00edticas emergenciais, que eu considero o Bolsa Fam\u00edlia uma pol\u00edtica emergencial. Eu n\u00e3o considero uma pol\u00edtica estrutural, nem conjuntural. Mas ela d\u00e1 conta de atender \u00e0s necessidades imediatas. Mas ela n\u00e3o d\u00e1 conta da soberania alimentar. Que \u00e9 essa quest\u00e3o da gente ter todos os alimentos da pir\u00e2mide. Ela n\u00e3o d\u00e1 conta. Ent\u00e3o, por isso a import\u00e2ncia da reforma agr\u00e1ria. A reforma agr\u00e1ria \u00e9 atual para o povo brasileiro. Ela, inclusive, est\u00e1 bloqueada pelo capital financeiro no Brasil. Porque hoje ela \u00e9 um ativo financeiro \u00e0 terra. A natureza hoje \u00e9 uma grande, vamos dizer, commodity. Ent\u00e3o, hoje o capital, o agroneg\u00f3cio no Brasil dependem dessa concentra\u00e7\u00e3o da terra. Mas o povo brasileiro, para a gente ter uma soberania alimentar e para a gente superar as pol\u00edticas emergenciais assistencialistas, n\u00f3s precisamos de uma verdadeira reforma agr\u00e1ria no campo. E de uma reforma agr\u00e1ria que venha com pol\u00edticas sociais, inclusive de um processo de educa\u00e7\u00e3o na agroecologia. Porque a gente n\u00e3o pode pensar assim, aquele agricultor que foi o meu av\u00f4 n\u00e3o existe mais. O meu pai. N\u00e3o, aquele agricultor que tinha l\u00e1 s\u00f3 o cabo da enxada. N\u00e3o, s\u00f3 a enxada. N\u00e3o. Hoje n\u00f3s temos que pensar a agricultura com tecnologias adaptadas \u00e0 agroecologia. Inclusive, tem muitos conhecimentos atuais dos bioinsumos. De m\u00e1quinas adaptadas \u00e0 agroecologia, faz toda a diferen\u00e7a. Ent\u00e3o a gente tem que pensar isso e inserir a sucess\u00e3o rural, a juventude da sucess\u00e3o rural n\u00e3o vai ser mais aquela juventude que n\u00e3o sabe ler e escrever, vai ser a juventude t\u00e9cnica, agr\u00edcola. Em agroecologia, vai ser uma juventude com Agronomia, vai ser uma juventude com Pedagogia. Essa juventude \u00e9 esse campo, um campo com pessoas com conhecimento. Isso eu vi em Cuba. Em Cuba eu encontrei atriz, que era atriz famosa na televis\u00e3o nacional, mas agricultora. Encontrei professor universit\u00e1rio, famoso na academia, e agricultor. Ent\u00e3o, essa dimens\u00e3o do agricultor, que tem a preocupa\u00e7\u00e3o com a sua reprodu\u00e7\u00e3o social, mas dentro de um outro paradigma. Temos m\u00e9dicos aqui no Cear\u00e1, m\u00e9dico, agricultor, sem-terra, que trabalha na terra. L\u00e1 em Madalena, n\u00f3s temos o Tatu, n\u00f3s chamamos ele de Tatu. Faz gosto ver a planta\u00e7\u00e3o dele l\u00e1. E ele trabalha como m\u00e9dico na semana, mas s\u00e1bado e domingo ele est\u00e1 dentro da ro\u00e7a dele. E assim n\u00f3s temos v\u00e1rios que s\u00e3o desse jeito. Ent\u00e3o essa \u00e9 a nossa perspectiva. Porque a gente precisa construir um outro mundo poss\u00edvel. N\u00e3o d\u00e1 para a gente se conformar com essa decad\u00eancia do capitalismo.<\/p>\n<p><canvas width=\"756\" height=\"1040\"><\/canvas><\/p>\n<p>* Francisco Regis Lopes Ramos \u00e9 Professor Titular do Departamento de Hist\u00f3ria e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Cear\u00e1 (PPGH\/UFC). Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfi co e Tecnol\u00f3gico (CNPq) com bolsa produtividade (n\u00edvel 2). Possui gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria pela UFC (1992), mestrado em Sociologia pela UFC (1996) e doutorado em Hist\u00f3ria pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP) (2000)<\/p>\n<p>**Kenia Sousa Rios \u00e9 Professora da gradua\u00e7\u00e3o e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Social da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC). Coordena o grupo de pesquisa As formas da Hist\u00f3ria: narrativa e est\u00e9tica na Hist\u00f3ria da Fome no Brasil. E-mail: <a href=\"mailto:keniata13@hotmail.com\">keniata13@hotmail.com<\/a><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2026\/09\/01\/soberania-alimentar-e-terra-agua-sementes-pao-e-solidariedade-entrevista-com-maria-de-jesus-dos-santos-gomes\/\">Soberania alimentar \u00e9 terra, \u00e1gua, sementes, p\u00e3o e solidariedade: entrevista com Maria de Jesus dos Santos Gomes<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/julgamento-do-feminicidio-de-debora-moraes-sera-em-7-de-agosto-data-simbolica-da-lei-maria-da-penha\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image--11-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Julgamento do feminic\u00eddio de D\u00e9bora Moraes ser\u00e1 em...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/folha-tem-oportunidade-de-se-responsabilizar-e-reparar-apoio-a-ditadura\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-Tela-2025-04-28-as-182047-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Folha tem oportunidade de se responsabilizar e rep...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/integra-das-respostas-da-reportagem-quem-e-quem-no-lobby-do-plastico-em-brasilia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">\u00cdntegra das respostas da reportagem \u201cQuem \u00e9 quem n...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/torcidas-lgbt-homenageiam-volmar-santos-da-coligay-que-entrou-para-a-historia-do-futebol-brasileiro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Torcidas LGBT+ homenageiam Volmar Santos, da Colig...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria de Jesus durante o ato pol\u00edtico. 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