{"id":104192,"date":"2026-09-10T18:54:02","date_gmt":"2026-09-10T21:54:02","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-nova-tormenta-nos-mercados-financeiros\/"},"modified":"2026-09-10T18:54:02","modified_gmt":"2026-09-10T21:54:02","slug":"a-nova-tormenta-nos-mercados-financeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-nova-tormenta-nos-mercados-financeiros\/","title":{"rendered":"A nova tormenta nos mercados financeiros"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1456\" height=\"804\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/260910-Turbulencias3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/260910-Turbulencias3.jpg 1456w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/260910-Turbulencias3-300x166.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/260910-Turbulencias3-768x424.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/260910-Turbulencias3-700x387.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/260910-Turbulencias3-219x121.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 1456px) 100vw, 1456px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Michael <\/strong>Roberts, no <em>Next Recession Blog | <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Antonio Martins<\/strong><\/p>\n<p>A m\u00eddia financeira e os economistas tradicionais est\u00e3o em polvorosa. Os rendimentos dos t\u00edtulos dos governos subiram acentuadamente desde o fim da crise da pandemia, retornando a n\u00edveis n\u00e3o vistos desde a crise financeira global de 2008-2009.<\/p>\n<p>O que significa um aumento nos \u201crendimentos \u2013 ou margens \u2014 dos t\u00edtulos\u201d? Quando os Estados e as grandes empresas tomam dinheiro emprestado, eles n\u00e3o pedem um empr\u00e9stimo a um banco. Em vez disso, vendem t\u00edtulos de d\u00edvida a investidores e prometem reembolsar o dinheiro com uma determinada taxa de juros. Quando esses t\u00edtulos preveem reembolso em muitos anos, s\u00e3o chamadas de <em>b\u00f4nus<\/em>. As promiss\u00f3rias que os governos pagar\u00e3o mais rapidamente \u2014 em alguns meses ou um ano \u2014 s\u00e3o chamadas de <em>letras<\/em>.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Prancheta-4-9.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Prancheta-4-9.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"602\" height=\"289\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-5.png 602w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/image-5-300x144.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Esses b\u00f4nus ou letras s\u00e3o comprados por institui\u00e7\u00f5es financeiras, como seguradoras, fundos de pens\u00e3o, bancos comerciais, fundos de hedge etc. Os t\u00edtulos dos Estados s\u00e3o os mais comprados por serem considerados \u201cseguros\u201d, j\u00e1 que \u00e9 muito improv\u00e1vel que os governos deixem de pagar o t\u00edtulo quando o prazo terminar. Os Estados contam com o respaldo da arrecada\u00e7\u00e3o de impostos e da capacidade de \u201cimprimir dinheiro\u201d para pagar o empr\u00e9stimo do t\u00edtulo. Mas os investidores tamb\u00e9m compram e vendem, frequentemente, esses t\u00edtulos entre si, criando um <em>mercado secund\u00e1rio<\/em>. Fazem isso para resgatar o investimento antecipadamente, antes do vencimento do t\u00edtulo, ou porque buscam especular sobre as varia\u00e7\u00f5es nos pre\u00e7os dos t\u00edtulos. Os mercados de t\u00edtulos tornaram-se a fonte de cr\u00e9dito mais importante nas economias capitalistas. Seu tamanho \u00e9 muito maior do que o dos mercados de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas aqui est\u00e1 o problema. Nos pa\u00edses do centro do sistema \u2013 ao contr\u00e1rio do que ocorre no Brasil<sup>1<\/sup> \u2013 a taxa de juros do t\u00edtulo \u00e9 fixa. Se o t\u00edtulo come\u00e7ar a parecer menos atrativo para compra (por raz\u00f5es que discutiremos abaixo), um comprador que entrar nesse \u201cmercado secund\u00e1rio\u201d de t\u00edtulos poder\u00e1 comprar um t\u00edtulo que originalmente valia US$ 100 por menos do que isso. Qualquer queda no pre\u00e7o significa que o novo comprador obter\u00e1 um retorno percentual maior sobre seu dinheiro do que a taxa de juros fixa que o t\u00edtulo pagava sobre seu valor nominal original. Esse retorno \u00e9 chamado de rendimento do t\u00edtulo. Quando os investidores vendem t\u00edtulos, este movimento pressiona os pre\u00e7os dos t\u00edtulos para baixo, assim como uma venda maci\u00e7a nas bolsas de valores faz com que os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es despencem. Quando os pre\u00e7os dos t\u00edtulos caem, isso eleva os rendimentos dos t\u00edtulos, que se movem na dire\u00e7\u00e3o oposta.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"601\" height=\"172\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-6-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-6-1.png 601w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/image-6-300x86.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 601px) 100vw, 601px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>\u00c9 exatamente isso que est\u00e1 acontecendo agora em todos os principais mercados de t\u00edtulos p\u00fablicos do mundo. Os pre\u00e7os est\u00e3o caindo no mercado secund\u00e1rio de t\u00edtulos e, consequentemente, os rendimentos est\u00e3o subindo. Os rendimentos dos t\u00edtulos globais atingiram o n\u00edvel mais alto desde 2008.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"602\" height=\"339\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-7.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-7.png 602w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/image-7-300x169.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Os custos de empr\u00e9stimos de longo prazo do Reino Unido aumentaram ainda mais, atingindo seu n\u00edvel mais alto desde o in\u00edcio de 1998. J\u00e1 o<u> rendimento dos t\u00edtulos japoneses<\/u> com vencimento em dez anos chegou a 3% pela primeira vez em 30 anos.<\/p>\n<p>Quais as poss\u00edveis causas desse aumento nos rendimentos e por que os investidores e analistas financeiros est\u00e3o fazendo tanto alarde? Os especialistas apontam quatro raz\u00f5es principais: infla\u00e7\u00e3o global crescente; d\u00edvida p\u00fablica elevada; investimentos de capital privado em expans\u00e3o, aumentando a necessidade de empr\u00e9stimos; e crescente incerteza em rela\u00e7\u00e3o a uma futura crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Vamos analisar a infla\u00e7\u00e3o. Como argumentei em posts anteriores, a era da desinfla\u00e7\u00e3o (ou seja, a desacelera\u00e7\u00e3o das taxas de infla\u00e7\u00e3o) que a maioria das economias avan\u00e7adas vivenciou durante a Grande Depress\u00e3o da d\u00e9cada de 2010<u> <\/u><u>chegou ao fim. <\/u>Desde o t\u00e9rmino da recess\u00e3o causada pela pandemia em 2020, houve um aumento significativo na infla\u00e7\u00e3o. Enquanto a taxa de infla\u00e7\u00e3o anual nas economias avan\u00e7adas geralmente ficava abaixo de 2% ao ano durante a d\u00e9cada de 2010 \u2014 ou seja, abaixo da meta de infla\u00e7\u00e3o estabelecida pela maioria dos bancos centrais \u2013 agora ela \u00e9 o dobro desse valor. De acordo com o FMI, a infla\u00e7\u00e3o global anual dever\u00e1 atingir 4,7% este ano.<\/p>\n<p>J\u00e1 discuti em <\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>Historicamente, os aumentos nos rendimentos dos t\u00edtulos geralmente s\u00e3o causados por aumentos na infla\u00e7\u00e3o. \u00c9 simples. A alta dos pre\u00e7os faz com que os compradores de t\u00edtulos acreditem que os juros fixos anuais nominais que receber\u00e3o pelo t\u00edtulo ser\u00e3o desvalorizados ao longo do tempo pela infla\u00e7\u00e3o \u2013 de modo que o retorno real que receber\u00e3o diminuir\u00e1. Assim, os investidores s\u00f3 comprar\u00e3o t\u00edtulos no mercado secund\u00e1rio a pre\u00e7os mais baixos, para compensar. Como explicamos acima, a queda nos pre\u00e7os dos t\u00edtulos significa rendimentos mais altos. Al\u00e9m disso, os governos que emitem novos t\u00edtulos ter\u00e3o que oferecer taxas fixas mais altas para atrair novos compradores.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, esta \u00e9 a principal causa da atual \u201ccrise dos t\u00edtulos\u201d ou da forte alta das taxas de juros. No entanto, outras raz\u00f5es s\u00e3o apresentadas. Muitos governos ao redor do mundo est\u00e3o apresentando grandes d\u00e9ficits or\u00e7ament\u00e1rios e contraindo mais empr\u00e9stimos. Os n\u00edveis de d\u00edvida p\u00fablica est\u00e3o aumentando em termos absolutos e at\u00e9 mesmo em rela\u00e7\u00e3o ao PIB. Para cobrir esses d\u00e9ficits e \u201crenovar\u201d os t\u00edtulos que est\u00e3o chegando ao fim de seu prazo, os governos precisam emitir mais t\u00edtulos. Assim, a oferta aumenta mais rapidamente do que a demanda dos compradores. Isso for\u00e7a os governos a oferecer taxas de juros mais altas e, consequentemente, as taxas de juros no mercado secund\u00e1rio aumentam.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que os bancos centrais, seguindo o mantra equivocado de que o aperto da pol\u00edtica monet\u00e1ria (ou seja, o aumento das taxas de juros de curto prazo e a redu\u00e7\u00e3o da oferta de moeda) \u00e9 necess\u00e1rio e eficaz para controlar a infla\u00e7\u00e3o, est\u00e3o come\u00e7ando a falar sobre o aumento de suas taxas de juros nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p>O Banco Central Europeu j\u00e1 come\u00e7ou a fazer isso, \u00e0 medida que as taxas de infla\u00e7\u00e3o da zona do euro continuam a subir. O novo presidente do Federal Reserve dos EUA, Kevin Warsh, nomeado por Trump para cortar as taxas de juros, est\u00e1 agora insinuando que as taxas americanas ter\u00e3o de subir. O Banco do Jap\u00e3o, receoso de que a infla\u00e7\u00e3o japonesa, historicamente pr\u00f3xima de zero durante d\u00e9cadas, esteja come\u00e7ando a explodir, tamb\u00e9m se prepara para aument\u00e1-la. Se esses aumentos se concretizarem, n\u00e3o ir\u00e3o conter a infla\u00e7\u00e3o, mas simplesmente aumentar\u00e3o os custos de empr\u00e9stimo do governo e, consequentemente, o n\u00edvel de endividamento, al\u00e9m de se espalharem pela economia, elevando o custo do cr\u00e9dito para fam\u00edlias (hipotecas) e empresas (empr\u00e9stimos).<\/p>\n<p>H\u00e1 at\u00e9 quem fale em possibilidade de alguns governos importantes darem calote em suas d\u00edvidas. Investidores estrangeiros em t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica francesa est\u00e3o alimentando esse temor. Mas por tr\u00e1s dessa afirma\u00e7\u00e3o est\u00e1, na verdade, uma tentativa do governo franc\u00eas de impor novas medidas de austeridade \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, como cortes em benef\u00edcios previdenci\u00e1rios e outros gastos sociais. O calote n\u00e3o vai acontecer. Primeiro, embora os rendimentos dos t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica tenham subido desde 2020, eles n\u00e3o est\u00e3o em n\u00edveis historicamente altos, nem mesmo na Fran\u00e7a.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"602\" height=\"246\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-8.png 602w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/image-8-300x123.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Sim, \u00e9 verdade: o tamanho da d\u00edvida p\u00fablica \u00e9 muito maior do que h\u00e1 20 anos. Mas isso se deve ao fato de os governos terem tido que resgatar o setor privado em pelo menos duas ocasi\u00f5es: primeiro, durante a crise financeira global de 2008-2009; e segundo, durante a recess\u00e3o causada pela pandemia em 2020. N\u00e3o \u00e9 verdade que tenha havido \u201cgastos perdul\u00e1rios\u201d por parte dos governos com assist\u00eancia social, sa\u00fade p\u00fablica e pens\u00f5es, como afirmam os \u201cvigilantes da d\u00edvida\u201d e os economistas tradicionais. Os \u00fanicos gastos perdul\u00e1rios, al\u00e9m dos resgates de bancos e empresas, foram os gastos com defesa, combinados com cortes de impostos para os ricos e as corpora\u00e7\u00f5es (como, por exemplo, o \u201cgrande e belo\u201d or\u00e7amento de Trump).<\/p>\n<p>A raz\u00e3o pela qual a d\u00edvida do setor p\u00fablico aumentou tanto no s\u00e9culo XXI foi o resgate dos setores financeiro e privado durante a crise financeira global de 2008-2009, a crise da d\u00edvida da zona do euro at\u00e9 2012 e o apoio fiscal necess\u00e1rio para que as pessoas superassem a recess\u00e3o causada pela pandemia em 2020. Esses foram os per\u00edodos em que os \u00edndices de endividamento p\u00fablico dispararam (ver figura abaixo, bloco azul). Nos per\u00edodos intermedi\u00e1rios, foram aplicadas pol\u00edticas de austeridade (principalmente cortes em benef\u00edcios sociais e investimentos em infraestrutura), juntamente com alguma recupera\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico, de modo que os \u00edndices de endividamento permaneceram mais ou menos est\u00e1veis (ver figura, bloco laranja). Cortes nos impostos sobre a renda (principalmente para os grupos de renda mais alta) e sobre os lucros corporativos fizeram com que a receita tribut\u00e1ria do governo como percentual do PIB permanecesse est\u00e1vel em torno de 35% do PIB, o que levou a um aumento nos d\u00e9ficits anuais.<\/p>\n<p>N\u00edveis mais altos de d\u00edvida p\u00fablica significam custos de juros mais elevados (ou seja, os juros pagos sobre os t\u00edtulos do governo vendidos aos investidores). Nos EUA, a despesa anual estimada com juros da d\u00edvida federal atingiu o recorde de US$ 1,38 trilh\u00e3o. Isso equivale a 4,2% do PIB norte-americano, a maior porcentagem desde 1997. Em compara\u00e7\u00e3o, esse valor era de 2,3% no quarto trimestre de 2020. A despesa anual com juros aumentou US$ 900 bilh\u00f5es, ou quase 200%, nos \u00faltimos cinco anos, crescendo a uma taxa m\u00e9dia anual de 24%. Enquanto isso, nos primeiros nove meses do ano fiscal de 2026, a despesa com juros saltou US$ 78 bilh\u00f5es, chegando a US$ 827 bilh\u00f5es. O custo do servi\u00e7o da d\u00edvida federal americana nunca foi t\u00e3o alto. Se agora os bancos centrais aumentarem as taxas de juros, o custo do servi\u00e7o da d\u00edvida aumentar\u00e1 ainda mais.<\/p>\n<p>O quarto motivo para o aumento dos rendimentos dos t\u00edtulos \u00e9 a incerteza quanto ao futuro das economias. Os investidores em t\u00edtulos exigem um \u201cpr\u00eamio de prazo\u201d mais alto \u2014 juros extras \u2014 por manterem seu dinheiro investido em t\u00edtulos de longo prazo por 10 ou 30 anos, pois temem futuras crises econ\u00f4micas. Esse pr\u00eamio de prazo, medido pelo Fed (Banco Central dos EUA), adicionou cerca de 0,6 ponto percentual ao rendimento dos t\u00edtulos no \u00faltimo ano.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"609\" height=\"177\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-9.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-9.png 609w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/image-9-300x87.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 609px) 100vw, 609px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Mas n\u00e3o haver\u00e1 calotes de t\u00edtulos do governo, porque os governos sempre podem recorrer ao que os economistas chamam de \u201crepress\u00e3o financeira\u201d. \u201cRepress\u00e3o financeira\u201d \u00e9 um termo pejorativo usado por economistas tradicionais que veem a interven\u00e7\u00e3o governamental como algo que \u201cdistorce\u201d os pre\u00e7os dos t\u00edtulos. Governos e bancos centrais sempre podem prometer honrar os pagamentos da d\u00edvida \u201cimprimindo dinheiro\u201d. Na d\u00e9cada de 2010, isso era chamado de \u201cafrouxamento quantitativo\u201d. Foi o que o BCE fez sob a lideran\u00e7a de Mario Draghi durante a crise da d\u00edvida da zona do euro, entre 2012 e 2015. Ao se comprometer com acordos monet\u00e1rios ilimitados (\u201ctransa\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias diretas\u201d, como eram chamadas), os detentores de t\u00edtulos foram tranquilizados de que receberiam seu dinheiro de volta. Draghi disse que o BCE faria \u201co que fosse necess\u00e1rio\u201d para pagar a d\u00edvida e reduzir os custos de empr\u00e9stimo.<\/p>\n<p>Mesmo agora, os custos de empr\u00e9stimo, por exemplo, na Fran\u00e7a, s\u00e3o muito menores do que poderiam ser em outras circunst\u00e2ncias, gra\u00e7as \u00e0 amea\u00e7a de repress\u00e3o financeira. E isso foi parcialmente utilizado recentemente pelo governo dos EUA. O secret\u00e1rio do Tesouro, Scott Bessent, iniciou um pequeno programa de recompra de t\u00edtulos do Tesouro, no qual o governo recompra seus t\u00edtulos de longo prazo emitindo letras do Tesouro de curto prazo. O governo dos EUA possui US$ 1 trilh\u00e3o em fundos \u201cexcedentes\u201d em sua \u201cconta geral\u201d que poderiam ser utilizados.<\/p>\n<p>Mas tais medidas de repress\u00e3o financeira t\u00eam consequ\u00eancias. A mais significativa \u00e9 que aumentariam a oferta de moeda injetada na economia, o que significaria uma queda no d\u00f3lar, j\u00e1 que a oferta mundial de d\u00f3lares aumentaria em compara\u00e7\u00e3o com outras moedas. Dado que os EUA ainda importam enormes quantidades de bens essenciais, os pre\u00e7os das importa\u00e7\u00f5es subiriam e se espalhariam, produzindo infla\u00e7\u00e3o generalizada. Al\u00e9m disso, a queda do d\u00f3lar tornaria os investidores estrangeiros em t\u00edtulos do governo americano menos propensos a compr\u00e1-los, elevando assim os rendimentos. A repress\u00e3o financeira \u00e9 contraproducente e uma pol\u00edtica de desespero,<u> adotada apenas em momentos de crise.<\/u><\/p>\n<p>Mas haver\u00e1 uma crise? H\u00e1 quem n\u00e3o s\u00f3 negue que a atual alta nos rendimentos dos t\u00edtulos levar\u00e1 a uma crise, como v\u00e1 al\u00e9m, argumentando que essa alta, na verdade, expressa uma economia em expans\u00e3o e bem-sucedida. O governador do Federal Reserve, Steve Miran, aliado de Trump, argumenta que a economia americana em \u201cr\u00e1pido crescimento\u201d (!) e o <em>boom <\/em>da intelig\u00eancia artificial est\u00e3o impulsionando os rendimentos dos t\u00edtulos pelos motivos certos \u2013 ou seja, aumentando a demanda por cr\u00e9dito para investimentos. Esse argumento tamb\u00e9m est\u00e1 sendo defendido pelo keynesiano Matthew Klein, que <u>considera <\/u><u>a alta nos rendimentos dos t\u00edtulos uma boa not\u00edcia.<\/u><\/p>\n<blockquote>\n<p><em>\u201cA explica\u00e7\u00e3o mais simples \u00e9 tamb\u00e9m a mais benigna: os investidores est\u00e3o cada vez mais confiantes de que as d\u00e9cadas perdidas ficaram para tr\u00e1s\u201d, <\/em>diz Klein. <em>\u201cTaxas de juros mais altas podem ajudar na medida em que desestimulam atividades de menor prioridade e\/ou incentivam as pessoas no resto do mundo a aceitar promessas de bens e servi\u00e7os futuros em troca de bens e servi\u00e7os reais hoje. Nesse contexto, o n\u00edvel atual das taxas de juros parece at\u00e9 benigno.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Mas esse argumento n\u00e3o se sustenta empiricamente. O diferencial entre os rendimentos dos t\u00edtulos e os rendimentos ap\u00f3s a dedu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o tem aumentado constantemente desde 2020. Desde o fim da pandemia, os rendimentos dos t\u00edtulos do governo americano com vencimento em dez anos abriram uma diferen\u00e7a de 2,7 pontos percentuais em rela\u00e7\u00e3o aos rendimentos reais com vencimento em dez anos (ou seja, excluindo a infla\u00e7\u00e3o), um aumento de 1,7 ponto percentual desde 2020. Na verdade, o rendimento real est\u00e1 atualmente abaixo do de mar\u00e7o de 2023 \u2013 o que contradiz a hip\u00f3tese de que a causa da eleva\u00e7\u00e3o do custo do cr\u00e9dito seja o <em>boom<\/em> da IA, e n\u00e3o a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade, como Marx explicou (<em>O Capital<\/em>, Volume 3), que em per\u00edodos de expans\u00e3o do ciclo econ\u00f4mico, a taxa de retorno sobre o capital investido aumenta, permitindo que as taxas de juros subam sem comprimir o lucro l\u00edquido (o \u201clucro das empresas\u201d). Mas quando a taxa geral de retorno cai<em>, <\/em>o lucro l\u00edquido \u00e9 comprimido se as taxas de juros continuarem a subir, podendo eventualmente ocorrer uma crise. Essa crise, por\u00e9m, surgir\u00e1 no setor privado, n\u00e3o no setor p\u00fablico, que ser\u00e1 utilizado para socorrer o primeiro. O gr\u00e1fico abaixo \u00e9 do artigo de Henrique de Abreu Grazziotin, dispon\u00edvel aqui .<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"602\" height=\"250\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-10.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/image-10.png 602w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/image-10-300x125.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\"><\/figure>\n<\/p>\n<p>Atualmente, o boom da IA nos EUA alcan\u00e7ou uma expans\u00e3o relativa na lucratividade, de modo que um aumento nas taxas de juros pode n\u00e3o desencadear uma crise ainda, a menos que as taxas de juros subam muito mais. Por ora, a queda nos pre\u00e7os dos t\u00edtulos ou a aparente crise expressa no aumento dos rendimentos dos t\u00edtulos reflete principalmente dois fen\u00f4menos: a infla\u00e7\u00e3o crescente e o risco de que os bancos centrais aumentem o custo do cr\u00e9dito, elevando as taxas de juros em sua tentativa errada de controlar a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se e quando a infla\u00e7\u00e3o diminuir, os rendimentos dos t\u00edtulos tamb\u00e9m diminuir\u00e3o. Enquanto isso, n\u00e3o haver\u00e1 um colapso no sentido de que algum governo de uma grande economia deixe de honrar sua d\u00edvida. Em vez disso, o aumento dos rendimentos ser\u00e1 usado por \u201cvigilantes da d\u00edvida\u201d pr\u00f3-mercado para justificar novos cortes nos gastos sociais dos Estados e aumento de impostos para os trabalhadores. Tudo isso a fim de melhorar o que eles chamam de \u201cespa\u00e7o fiscal\u201d \u2013 espa\u00e7o a ser usado para aumentar os gastos com armamentos e subs\u00eddios para o setor privado.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>1 O Brasil \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o ao que o texto descreve a seguir. Al\u00e9m de de os juros pagos pelo Estado serem quase invariavelmente, h\u00e1 quatro d\u00e9cadas, as mais altas do mundo, os t\u00edtulos p\u00fablicos pagam aos rentistas que os compram taxas <em>vari\u00e1veis, <\/em>que s\u00e3o corrigidas automaticamentes segundo a varia\u00e7\u00e3o da Selic. Por isso, qualquer eleva\u00e7\u00e3o da \u201ctaxa b\u00e1sica\u201d fixada pelo Banco Central repercute <em>imediatamente <\/em>sobre a d\u00edvida p\u00fablica \u2013 e n\u00e3o de forma indireta, como na quase totalidade dos demais pa\u00edses. <strong>[Nota do Tradutor]<\/strong><\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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