{"id":104210,"date":"2026-09-11T17:53:50","date_gmt":"2026-09-11T20:53:50","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-discreto-charme-da-sublimacao\/"},"modified":"2026-09-11T17:53:50","modified_gmt":"2026-09-11T20:53:50","slug":"o-discreto-charme-da-sublimacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-discreto-charme-da-sublimacao\/","title":{"rendered":"O discreto charme da sublima\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"855\" height=\"561\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/photo_4983710944991054938_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/photo_4983710944991054938_y.jpg 855w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/photo_4983710944991054938_y-300x197.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/photo_4983710944991054938_y-768x504.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 855px) 100vw, 855px\"><figcaption>Foto: Andr\u00e9 Breton<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"270\" height=\"385\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/51j9Z0au6PL_SY385_.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/51j9Z0au6PL_SY385_.jpg 270w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/51j9Z0au6PL._SY385_-210x300.jpg 210w\" sizes=\"auto, (max-width: 270px) 100vw, 270px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p><strong>MAIS<\/strong><br \/>Livro: <em>Teoria Est\u00e9tica na Obra Freudiana: Sublima\u00e7\u00e3o<\/em><br \/>Autora: Alessandra Affortunati Martins<br \/>Editora: Blucher<br \/>352 p\u00e1ginas<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cN\u00e3o seria essa psican\u00e1lise [freudiana], interpretadora de sonhos, essa psican\u00e1lise que desperta, que se aparta expressa e polemicamente do hipnotismo [\u2026], ela pr\u00f3pria parte do <em>art nouveau<\/em>, com a qual coincide no tempo?\u201d. Esta divisa, formulada em 1935 por Theodor Adorno em carta a Walter Benjamin, fornece, provocativamente, um dos fios condutores de <em>Teoria Est\u00e9tica na Obra Freudiana: Sublima\u00e7\u00e3o<\/em>, novo livro da psicanalista e fil\u00f3sofa Alessandra Affortunati Martins. Primeiro volume de uma trilogia dedicada \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dos operadores est\u00e9ticos subjacentes \u00e0 obra freudiana \u2013 identificados por Affortunati nos conceitos de \u201csublima\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cinfamiliar\u201d e \u201cestrangeiro\u201d \u2013, a obra parece radicalizar a intui\u00e7\u00e3o adorniana, formulada na esteira de seus estudos sobre a obra de Wagner, ao construir uma esp\u00e9cie de \u201cconstela\u00e7\u00e3o\u201d benjaminiana em torno do conceito de \u201csublima\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Assim, ao situar a emerg\u00eancia e o desenvolvimento desse conceito entre a virada do s\u00e9culo XIX e o in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial \u2013 momento em que Freud rearticulou as suas no\u00e7\u00f5es sobre a cultura e em que a \u201csublima\u00e7\u00e3o\u201d teria caducado ante da experi\u00eancia traum\u00e1tica do choque e do aniquilamento \u2013, a autora p\u00f4de estabelecer, com grande densidade conceitual e hist\u00f3rica, a filia\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de sublima\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura vienense do s\u00e9culo XIX, marcada pelos influxos do romantismo tardio e, conforme a assertiva adorniana, pela consolida\u00e7\u00e3o da <em>art nouveau<\/em>, por meio do grupo Secess\u00e3o, como \u201carte oficial\u201d do Estado. Com agudeza cr\u00edtica, Affortunati relaciona esses processos art\u00edsticos e intelectuais, em sua filia\u00e7\u00e3o com o pensamento freudiano, a seus correlatos sociais mais gerais, expressos, na Viena <em>fin-de-si\u00e8cle<\/em>, nas \u201csolu\u00e7\u00f5es de compromisso\u201d de tipo bonapartista conduzidas pelo reinado decadente de Francisco Jos\u00e9 I, na reforma urbana vienense iniciada em 1857 e no processo de obsolesc\u00eancia da figura do patriarca, tal como institu\u00edda desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Trata-se de um esfor\u00e7o denso e brilhante de reconstituir historicamente, pode-se dizer, uma esp\u00e9cie de \u201csociedade de sublimadores\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Sublima\u00e7\u00e3o repressiva?<\/strong><\/h3>\n<p>Affortunati aborda o conceito de sublima\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de \u00e2ngulos \u2013 desde sua articula\u00e7\u00e3o \u00e0 imago paterna, ent\u00e3o em decad\u00eancia, at\u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com os estados melanc\u00f3licos e com as tentativas de restabelecimento do narcisismo prim\u00e1rio. Dessa esp\u00e9cie de montagem, pode-se depreender, com precis\u00e3o, o modo como a autora mapeia as fontes concretas da elabora\u00e7\u00e3o conceitual freudiana, remetendo-a tanto a vertentes rom\u00e2nticas, com seus elogios da interioridade, da beleza e do esoterismo, quanto a uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas art\u00edsticas fundadas na ideia de contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/14-1-8.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/14-1-8.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Assim, Affortunati p\u00f4de estabelecer historicamente a no\u00e7\u00e3o de sublima\u00e7\u00e3o \u2013 como uma esp\u00e9cie de \u201cforma mais bem-sucedida de simboliza\u00e7\u00e3o\u201d (p. 254), ou um \u201cla\u00e7o feliz entre as inst\u00e2ncias ps\u00edquicas e o mundo externo\u201d (p. 108) \u2013 em suas caracter\u00edsticas conservadoras, ligadas \u00e0 adequa\u00e7\u00e3o social. Na escrita da autora, portanto, a no\u00e7\u00e3o de sublima\u00e7\u00e3o freudiana estaria associada a par\u00e2metros conciliadores, que postulariam a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica como uma zona harm\u00f4nica vinculada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da \u201cbela forma\u201d \u2013 num elo umbilical com a cultura est\u00e9tica difundida nos altos estratos austr\u00edacos e, num plano mais geral, com a \u201cideologia capitalista burguesa do pr\u00e9-guerra\u201d (p. 30).<\/p>\n<p>Numa visada absolutamente original, Affortunati afirma ser a sublima\u00e7\u00e3o o processo em que \u201c[\u2026] o desejo \u00e9 costurado aos valores da cultura por meio de t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00f5es e formas j\u00e1 reconhecidas como socialmente v\u00e1lidas e leg\u00edtimas\u201d (p. 212-213). Desse modo, sublima\u00e7\u00e3o e \u201cbela forma\u201d comporiam uma esp\u00e9cie de d\u00edptico hist\u00f3rico, que se poderia constatar tanto no procedimento de Goethe, em <em>As Afinidades Eletivas<\/em>, de \u201cesconder\u201d seu processo produtivo, quanto no amortecimento dos efeitos de choque proporcionados pelas ornamenta\u00e7\u00f5es <em>art nouveau<\/em> nas obras de Gustav Klimt ou, ainda, na \u201cinfantiliza\u00e7\u00e3o\u201d de \u00c9dipo, em <em>\u00c9dipo e a Esfinge<\/em>, de Hugo von Hofmannsthal. O leitor encontrar\u00e1 uma an\u00e1lise detalhada de cada um destes exemplos no livro de Affortunati.<\/p>\n<p>Em todas essas obras, observa-se uma esp\u00e9cie de suspens\u00e3o dos conflitos e das contradi\u00e7\u00f5es em prol de uma compensa\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, centrada na harmoniza\u00e7\u00e3o dos opostos ou na valoriza\u00e7\u00e3o m\u00edstica do car\u00e1ter uno das obras, tomadas como entidades acabadas. Al\u00e9m disso, conforme sugere a autora, a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica que embasar\u00e1 a elabora\u00e7\u00e3o freudiana da sublima\u00e7\u00e3o participou de uma esp\u00e9cie de naturaliza\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o social do trabalho, expressa, neste caso, na cis\u00e3o social entre artistas \u2013 tidos como g\u00eanios \u2013 e p\u00fablico, considerado uma massa passiva de consumidores. Noutros termos, \u00e9 poss\u00edvel considerar a concep\u00e7\u00e3o freudiana da sublima\u00e7\u00e3o como alinhada \u00e0s estrat\u00e9gias desenvolvidas no correr do s\u00e9culo XIX em torno daquilo que Susan Buck-Morss nomeou como \u201canest\u00e9tica\u201d \u2013 isto \u00e9, dispositivos como a <em>art nouveau<\/em> ou a \u201cobra de arte total\u201d wagneriana, centrados em promover, mediante a satura\u00e7\u00e3o dos sentidos, uma esp\u00e9cie de entorpecimento dos sujeitos. \u00c9 desse solo que emergir\u00e1, criticamente, o conceito de \u201cinfamiliar\u201d, centrado no combate a tal embotamento e cuja an\u00e1lise constituir\u00e1 o centro do segundo volume da trilogia da autora.<sup>1<\/sup><\/p>\n<h3><strong>Em defesa da hist\u00f3ria<\/strong><\/h3>\n<p>Entre os diversos m\u00e9ritos de <em>Teoria Est\u00e9tica na Obra Freudiana<\/em> \u2013 como a an\u00e1lise est\u00e9tica embasada e rigorosa de um grande n\u00famero de obras, assim como a revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica apurada acerca do conceito de sublima\u00e7\u00e3o \u2013, pode-se destacar justamente o car\u00e1ter de investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do livro. Ao circunscrever a elabora\u00e7\u00e3o dos conceitos freudianos ao seu tempo, a autora se inscreve nas fileiras de uma nova leva bibliogr\u00e1fica sobre a psican\u00e1lise \u2013 expressa, ainda que noutros termos, pelos trabalhos de George Makari, Hannah Proctor ou Matt Ffytche \u2013, que a pensa como historicamente constitu\u00edda e que opera, neste sentido, movimentos te\u00f3ricos destinados a subtrair-lhe o fetiche a que algumas vertentes intelectuais a condenaram. Assim, pode-se sugerir, mesmo, que Affortunati pensa numa psican\u00e1lise \u201cdessublimada\u201d, no sentido de que a teoria freudiana, aqui, tem o seu processo produtivo exposto \u2013 ao inv\u00e9s de \u201cornamentado\u201d e amortecido.<\/p>\n<p>Neste sentido, a autora nos for\u00e7a a pensar a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica como produto hist\u00f3rico, assim com seus conceitos. Tal opera\u00e7\u00e3o, ela sugere, encontra-se, inclusive, na contram\u00e3o daquela empreendida por Freud desde os prim\u00f3rdios da psican\u00e1lise: a de um relativo alheamento de seu contexto hist\u00f3rico. Um dos frutos deste alheamento, analisa Affortunati, foi o desenvolvimento, por Freud, de um m\u00e9todo biogr\u00e1fico e psicologizante para a an\u00e1lise de obras art\u00edsticas. Em contrapartida, o que aqui se prop\u00f5e \u00e9 que a perspectiva hist\u00f3rica deve informar o modo como pensamos qualquer pr\u00e1tica \u2013 art\u00edstica ou ps\u00edquica.<\/p>\n<p>Assim, um conceito freudiano como o de \u201cmal-estar\u201d, por exemplo, s\u00f3 pode ser compreendido em sua densidade quando se tem em mente o hedonismo burgu\u00eas ent\u00e3o propagandeado. Analogamente, tamb\u00e9m a no\u00e7\u00e3o de sublima\u00e7\u00e3o s\u00f3 adquire relevo mediante a investiga\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas art\u00edsticas, est\u00e9ticas e pol\u00edticas que a formataram \u2013 e das quais, inversamente, ela funciona como um condensador conceitual. Affortunati impede, portanto, que ela seja tomada como uma no\u00e7\u00e3o a-hist\u00f3rica, facilmente manej\u00e1vel e acopl\u00e1vel a qualquer contexto ou processo produtivo. Conforme lembra a autora, num dos trechos mais fulgurantes de seu livro: \u201cDin\u00e2micas e processos ps\u00edquicos n\u00e3o flutuam no ar. Sublimar est\u00e1 longe de ser uma articula\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que ocorre a despeito do solo concreto por onde pisa o sujeito. Seus resultados dependem tanto dos meios de produ\u00e7\u00e3o historicamente dispon\u00edveis quanto das rela\u00e7\u00f5es de poder e estruturas sociopol\u00edticas que circunda o sujeito confeccionador de obras sublimadas\u201d (p. 37).<\/p>\n<p>\u00c9 da mat\u00e9ria hist\u00f3rica, portanto, que se trata. E Affortunati a tem em m\u00e3os para manejar esta esp\u00e9cie de lampejo do passado \u2013 a sublima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/curso-rosa-luxemburgo-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/curso-rosa-luxemburgo-1.png 728w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2024\/04\/curso-rosa-luxemburgo-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>1 \u00c9 not\u00e1vel, neste caso, que, se a sublima\u00e7\u00e3o aparece como um conceito associado \u00e0 ideologia formalista das elites austr\u00edacas, j\u00e1 o \u201cinfamiliar\u201d emerge como uma no\u00e7\u00e3o derivada dos debates de vanguarda, que, tal como se pode constatar a partir dos r<em>eady-made duchampianos <\/em>ou da pr\u00e1tica dos construtivistas russos, procederam uma cr\u00edtica da arte burguesa como um \u201cnarc\u00f3tico\u201d, que funcionava como uma esp\u00e9cie de amortecedor dos conflitos sociais.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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