{"id":104285,"date":"2026-09-11T18:58:35","date_gmt":"2026-09-11T21:58:35","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/memorias-do-jornalismo-a-ditadura-arreganha-os-dentes\/"},"modified":"2026-09-11T18:58:35","modified_gmt":"2026-09-11T21:58:35","slug":"memorias-do-jornalismo-a-ditadura-arreganha-os-dentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/memorias-do-jornalismo-a-ditadura-arreganha-os-dentes\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias do Jornalismo: A ditadura arreganha os dentes"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"771\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/manifestacao-estudantil-contra-a-ditadura-militar-372-30e6f4-1024.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/manifestacao-estudantil-contra-a-ditadura-militar-372-30e6f4-1024.jpg 1024w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/manifestacao-estudantil-contra-a-ditadura-militar-372-30e6f4-1024-300x226.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/manifestacao-estudantil-contra-a-ditadura-militar-372-30e6f4-1024-768x578.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Foto: Acervo Arquivo Nacional<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O texto a seguir comp\u00f5e a s\u00e9rie\u00a0<em>Passageiro da Hist\u00f3ria<\/em>, mem\u00f3rias de Carlos Azevedo.<br \/>Leia tamb\u00e9m:<strong><br \/>Carlos Azevedo,<em>\u00a0Passageiro da Hist\u00f3ria<\/em><br \/>[1] O dia em que J\u00e2nio Quadros renunciou<br \/>[2] Mem\u00f3rias do Jornalismo: A Semana da Legalidade<\/strong><br \/><strong>[3] Um pa\u00eds polarizado e um rep\u00f3rter brincando com fogo<\/strong><br \/><strong>[4] Mem\u00f3rias do Jornalismo: Em 1964, vendo o golpe acontecer<\/strong><br \/><strong>[5] Mem\u00f3rias do Jornalismo: Revista ousada em tempo obscuro<\/strong><\/p>\n<p>Em 1968 a resist\u00eancia \u00e0 ditadura se ampliava, com as primeiras a\u00e7\u00f5es armadas da guerrilha urbana, e a repress\u00e3o endurecia. Financiada pelo empresariado, a OBAN, Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes, j\u00e1 prendia e torturava. Em outubro foram presos cerca de 800 estudantes durante um congresso da Uni\u00e3o Nacional de Estudantes, UNE, que se pretendia clandestino, na cidadezinha de Ibi\u00fana, vizinha a S\u00e3o Paulo. Que clandestinidade era essa quando acontecia a compra de milhares de p\u00e3es nas padarias da vizinhan\u00e7a? Foram presos inclusive o dirigente da UNE, Lu\u00eds Travassos, que era da A\u00e7\u00e3o Popular, e Vladimir Palmeira, seu opositor, da juventude do PCB.<\/p>\n<p>Em 13 de dezembro o general ditador Costa e Silva decretou o Ato Institucional no. 5, o Ato 5, alegando enfrentar uma guerra revolucion\u00e1ria. Era a medida mais violenta, que suprimia todos os direitos do cidad\u00e3o, como o habeas corpus e o prazo legal para pris\u00e3o preventiva, de modo que uma pessoa podia ficar presa por tempo indeterminado sem processo legal. Porta aberta para a tortura e assassinatos de opositores, o que aconteceu em escala crescente, como todos sabem.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/15-9.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/15-9.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A A\u00e7\u00e3o Popular tinha uma c\u00e9lula de jornalistas por um tempo dirigida por mim, umas cinco pessoas, da <em>Folha de S. Paulo <\/em>e da <em>Editora Abril.<\/em> Em algum momento de 1969, a coordena\u00e7\u00e3o da c\u00e9lula foi transferida para um militante n\u00e3o jornalista, que havia vindo foragido de Pernambuco.<\/p>\n<p>Por que a dire\u00e7\u00e3o fez essa indica\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que n\u00e3o tinha qualquer viv\u00eancia do setor? Ele foi preso (ou era um infiltrado?) e entregou \u00e0 pol\u00edcia todos os nossos nomes. Sergio de Sousa, Narciso Kalili, Ruy Barbosa e n\u00e3o lembro se houve outros, foram chamados ao Dops. Tiveram que contar tudo que faziam, milit\u00e2ncia inclusive, fichados e liberados com amea\u00e7as de que na pr\u00f3xima vez ia ser pior. Ainda tenho um exemplar da ficha de Narciso Kalili no Dops.<\/p>\n<p>Fui chamado tamb\u00e9m, mas n\u00e3o compareci. Disse que n\u00e3o ia. O militar que estava na investiga\u00e7\u00e3o me mandou dizer por meio de Ruy Barbosa que na pr\u00f3xima vez iria me buscar com uma metralhadora. Sabendo isso, o colega Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro me mandou um chiste: \u201cSe entrega Corisco; eu n\u00e3o me entrego n\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>A partir da\u00ed foi expedida uma ordem de pris\u00e3o contra mim que nunca se cumpriu, felizmente. Ainda tenho comigo o documento divulgado pelo Dops. Estava na clandestinidade, com documentos falsos de p\u00e9ssima qualidade. Mas nunca fui abordado por policiais. Em geral eu procuro ter uma postura discreta que n\u00e3o provoca suspeitas.<\/p>\n<p>Em meados de 1968 minha companheira me diz que est\u00e1 gr\u00e1vida. Estava me envolvendo cada vez mais com a milit\u00e2ncia pol\u00edtica e n\u00e3o planejava ampliar a fam\u00edlia. Discutimos e decidimos fazer um aborto. Fomos a um hospital e acertamos com um m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Lembro bem. Ele estava com uma seringa na m\u00e3o com o rem\u00e9dio para a anestesia. Notei um desconforto de Maria Lucia. Perguntei: o que \u00e9? Respondeu: \u201cqueria ficar\u2026\u201d Olhei para ela, estava de olhos baixos, humilde. Eu disse: \u201ct\u00e1 bom, ent\u00e3o vamos ficar!\u201d O m\u00e9dico riu, disse que n\u00e3o havia nada a pagar. Comentou: \u201c\u00e9 preciso ocupar a Amaz\u00f4nia!\u201d No dia 21 de mar\u00e7o de 1969 iria nascer a muito amada Ana!<\/p>\n<p>Como minha fun\u00e7\u00e3o era fazer o <em>Liberta\u00e7\u00e3o<\/em>, fui poupado de ir para uma f\u00e1brica, o que, ali\u00e1s, eu n\u00e3o seria capaz de assumir, mas em 1969 tive que ir morar em Osasco, na Vila S\u00e3o Jos\u00e9, um bairro dormit\u00f3rio oper\u00e1rio. Levei a fam\u00edlia, a companheira Maria Lucia e os tr\u00eas filhos, Rog\u00e9rio (14 anos), Luciano (4) e Ana, rec\u00e9m-nascida. Para morar numa casa de fundos de quintal, sem poder fazer contato com os moradores locais. A ideia \u00e9 que a gente se tornasse revolucion\u00e1rio morando na pobreza. Para mim a \u00fanica utilidade foi ficar escondido da a\u00e7\u00e3o repressiva.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/OUTRAS-PALAVRAS-_A-LA-CAARTE728x90px-1-1-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/OUTRAS-PALAVRAS-_A-LA-CAARTE728x90px-1-1-1.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2022\/08\/OUTRAS-PALAVRAS-_A-LA-CAARTE728x90px-1-1-300x37.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Est\u00e1vamos vivendo na pobreza, apenas com o necess\u00e1rio para sobreviver, inclusive com a ajuda de minha m\u00e3e e da m\u00e3e de Maria Lucia, a bondosa Julia de Morais Carmo e de sua generosa cunhada, Maria Jos\u00e9 da Silva Carmo. And\u00e1vamos de \u00f4nibus para ir at\u00e9 a Lapa e dali para outras partes da cidade. Uma ocasi\u00e3o fui me encontrar com algum companheiro. Estava s\u00f3 com o dinheiro da passagem do \u00f4nibus para ir at\u00e9 \u00e0 Lapa. Eu lembrava que ia precisar pedir dinheiro para o companheiro para poder voltar para casa.<\/p>\n<p>Na hora de voltar me dei conta de que havia esquecido de pedir dinheiro da passagem para o companheiro. Afli\u00e7\u00e3o. Anoitecia. Resolvi sair procurando moedas pelas ruas em torno do Mercado da Lapa. Inacredit\u00e1vel! Num tempo entre meia hora e quarenta minutos fui achando moedas pelo meio fio, misturadas com pap\u00e9is e lixo. Mas n\u00e3o consegui juntar dinheiro suficiente. A passagem custava algo como, por exemplo, 2 cruzeiros. Tinha reunido 1,80. Decidi subir no \u00f4nibus mesmo assim. Disse ao cobrador que n\u00e3o tinha dinheiro suficiente. Respondeu: \u201cpassa na catraca! Outro dia voc\u00ea me paga!\u201d Foi generoso. Mas acho que tamb\u00e9m valeu eu ser um cara s\u00e9rio, com jeito de trabalhador, de 30 anos, branco\u2026 No mais, eu andava muito a p\u00e9. Basta dizer que gastava a sola de dois pares de sapatos <em>Vulcabr\u00e1s<\/em> por ano!<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, sua not\u00e1vel companheira, a soci\u00f3loga Sizue Imanishi e as quatro filhas de nomes b\u00edblicos, Ana, Lia, Ruth e Raquel, moravam no Alto da Lapa. Com uma certa frequ\u00eancia eu ia visit\u00e1-lo para trocar ideias e, \u00e0s vezes, almo\u00e7ar. Ele estava deixando a revista <em>Veja<\/em>. Insatisfeito, procurava reunir outros jornalistas discutindo o projeto de um jornal. Participei de uma ou outra dessas reuni\u00f5es. Infelizmente n\u00e3o lembro o nome dos outros, exceto de seu colega da USP, o arquiteto Ant\u00f4nio Carlos Ferreira, o Tonico, e sua namorada, futura esposa, Teia Magalh\u00e3es, e Arlindo Mungioli. Ali germinava a ideia do jornal <em>Opini\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>A repress\u00e3o estava se abatendo duramente contra militantes de AP em Pernambuco. Fui mandado para Recife a fim de levantar informa\u00e7\u00f5es e fazer um <em>Liberta\u00e7\u00e3o <\/em>especial denunciando esses crimes da ditadura. Viajei por 48 horas num \u00f4nibus prec\u00e1rio que partiu do bairro do Br\u00e1s em S\u00e3o Paulo. Em um sinal de nosso voluntarismo fui quase sem dinheiro. Tinha encontro marcado com um companheiro em Recife que, eu supunha, tivesse meios para me sustentar. Eu s\u00f3 tive dinheiro para me hospedar por uma noite num hotel humilde na rua do Sol. E para comer um <em>Agulha, <\/em>um peixinho frito com um p\u00e3o, numa barraca.<\/p>\n<p>No dia seguinte fui ao ponto e me encontrei com um estudante. Era Luciano Siqueira, que se tornou dirigente do PCdoB, foi deputado e vice-prefeito por diversas gest\u00f5es. Na \u00e9poca era um rapaz simp\u00e1tico e solid\u00e1rio. Entretanto, disse que o dinheiro era pouco, mas ia se virar para me sustentar enquanto eu preparava o jornal.<\/p>\n<p>O trabalho demorou duas semanas entre levantar as informa\u00e7\u00f5es e redigir o jornal, que depois foi impresso por estudantes. Na maior pobreza, dormia cada dia em um local, seja nos fundos de uma igreja, seja em velhas casas de bairro. Em poucos dias j\u00e1 me deslocava sozinho, a p\u00e9 ou de \u00f4nibus. Adorei a cidade e a rela\u00e7\u00e3o com as pessoas do povo, cordiais e divertidas.<\/p>\n<p>Luciano e eu est\u00e1vamos sempre juntos, criando uma amizade que perdura at\u00e9 hoje. Com\u00edamos <em>pratos feitos<\/em> \u2013 arroz, feij\u00e3o, um peda\u00e7o de carne ensopada e farinha de mandioca.<\/p>\n<p>Um epis\u00f3dio inesperado. Estava andando pela avenida principal, perto do Pal\u00e1cio do Governo. De repente, um taxi parou em frente ao port\u00e3o e dele desceu com pressa o jornalista Dirceu Brizola, meu conhecido da revista Veja. Estava como eu levantando informa\u00e7\u00f5es sobre as torturas que, sob a editoria de Raimundo Rodrigues Pereira, a revista iria publicar em seguida com grande repercuss\u00e3o. N\u00e3o me viu e eu me encolhi, n\u00e3o olhei para ele, fazendo como sempre fa\u00e7o quando n\u00e3o quero ser reconhecido.<\/p>\n<p>Voltei para S\u00e3o Paulo de \u00f4nibus trazendo um casal de militantes e sua filhinha que hospedei em casa por semanas enquanto a organiza\u00e7\u00e3o lhe preparava destino. Pouca comida e logo a seguir Maria Lucia e Ana pegaram rub\u00e9ola e ficaram de cama. Ap\u00f3s uma semana levei-as para a casa da av\u00f3 para se recuperarem em melhores condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em seguida, um problema grave. Esquecendo as orienta\u00e7\u00f5es de n\u00e3o revelar o pr\u00f3prio endere\u00e7o a ningu\u00e9m, cometi um erro que felizmente n\u00e3o teve graves consequ\u00eancias para mim e minha fam\u00edlia. Algum tempo antes havia levado at\u00e9 nossa casa o companheiro Marcos Arruda. Ele estava integrado na produ\u00e7\u00e3o, trabalhando como oper\u00e1rio na <em>Sofunge,<\/em> uma metal\u00fargica da Lapa. Por determina\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o devia saber meu endere\u00e7o.<\/p>\n<p>Marcos foi denunciado por algum dedo duro e preso pela pol\u00edcia pol\u00edtica. Levado para o Dops sofreu b\u00e1rbaras torturas por semanas. A m\u00e3e de Marcos escreveu um livro contando essa hist\u00f3ria: \u201c<em>Esquecer? Nunca mais\u201d<\/em> sobre o qual publiquei uma resenha no site da Funda\u00e7\u00e3o Grabois em julho de 2025.<\/p>\n<p>O relato dela: os militares recusavam a visita por ser esse seu comportamento padr\u00e3o, mas tamb\u00e9m e principalmente porque n\u00e3o queriam revelar que Marcos havia sido t\u00e3o cruelmente torturado que esteve \u00e0 beira da morte e inclusive recebeu extrema un\u00e7\u00e3o de um padre. Os torturadores estavam frustrados porque o prisioneiro resistiu heroicamente a todos os supl\u00edcios e jamais lhes deu qualquer informa\u00e7\u00e3o que prejudicasse outros combatentes da resist\u00eancia \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p>Marcos estava fisicamente destro\u00e7ado ap\u00f3s seis horas no pau-de-arara, o que lhe custou a perda motora de um dos bra\u00e7os, a total paralisia da perna direita, e mal conseguia abrir os olhos e falar. Mas moralmente estava vitorioso sobre a crueldade bestial.<\/p>\n<p>Temendo que Marcos dissesse onde eu morava, a organiza\u00e7\u00e3o me mandou mudar imediatamente. Maria Lucia, sempre muito competente, transportou a nossa mob\u00edlia para um guarda-m\u00f3veis e nos mudamos em pouco mais de 24 horas para a casa da m\u00e3e dela, no Ipiranga. Depois eu soube que teria sido desnecess\u00e1rio porque o heroico Marcos nada disse aos malditos torturadores. Gratid\u00e3o eterna!<\/p>\n<p>Em agosto de 1969 o ditador general Costa e Silva teve um derrame cerebral. Iria se iniciar ali uma luta interna agressiva entre os generais de v\u00e1rias tend\u00eancias que se digladiavam pelo poder. Ele morreu em dezembro e o general ga\u00facho Garrastazu Medici foi o vencedor da disputa, iniciando o per\u00edodo mais sangrento da ditadura.<\/p>\n<p>Mudamos para a Vila Pauliceia, bairro oper\u00e1rio, na vizinhan\u00e7a da f\u00e1brica da Mercedes Benz, em S\u00e3o Bernardo do Campo. Eu j\u00e1 vivia como clandestino.<\/p>\n<p>No ano de 1970 recebi refor\u00e7os para o setor de Propaganda da AP. Dois jovens militantes, Bernardo Joffily e J\u00f4 Morais vieram trabalhar comigo e aprender a escrever mat\u00e9rias. Faz\u00edamos o <em>Liberta\u00e7\u00e3o<\/em>. E, sob a dire\u00e7\u00e3o de Duarte Pereira, fizemos o hist\u00f3rico <em>Livro Negro da Ditadura, <\/em>com den\u00fancias das torturas e assassinatos. A capa era do companheiro Elifas Andreato, uma caveira com quepe de general. Ficou famosa.<\/p>\n<p>Alguns meses depois o meu amigo Raimundo Rodrigues Pereira estava na dire\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o da monumental<em> Realidade Amazonia,<\/em> e me convidou para escrever sobre os ind\u00edgenas. Aceitei e fui conversar com o Vlado Herzog, que era editor-chefe da revista <em>Vis\u00e3o,<\/em> e tamb\u00e9m combinei fazer uma mat\u00e9ria para ele.<\/p>\n<p>Para o improv\u00e1vel leitor pode parecer estranho, mas mesmo vivendo como clandestino, eu arriscava viagens e outros eventos em que atuava de surpresa sem condi\u00e7\u00f5es de a repress\u00e3o me alcan\u00e7ar. Al\u00e9m do mais, n\u00e3o estava sendo ativamente procurado como os militantes da guerrilha urbana.<\/p>\n<p>Mais uma vez deixei Maria Lucia e as crian\u00e7as sozinhas e peguei um voo para Bras\u00edlia. Ali contatei um funcion\u00e1rio da Funai, que estava temeroso da repress\u00e3o, mas me deu informa\u00e7\u00f5es. Aluguei um taxi a\u00e9reo (isso era poss\u00edvel, em que pese a ditadura ningu\u00e9m pedia documentos), e aterrisei no Parque Ind\u00edgena do Xingu, no posto Diauarum, onde me encontrei com o amigo indigenista Claudio Villas Boas.<\/p>\n<p>Ele estava precisando levar um \u00edndio doente ao setor de sa\u00fade do Posto Leonardo, e me fui junto, de bote a motor. Ali quem comandava era seu irm\u00e3o mais velho, Orlando Villas Boas. Este me deu uma bronca por eu chegar no Parque sem autoriza\u00e7\u00e3o. Fiquei chateado, fui dormir sem jantar. Peguei as informa\u00e7\u00f5es para a mat\u00e9ria sobre a estrada que o governo estava projetando fazer at\u00e9 o Xingu abrindo caminho para a invas\u00e3o das terras ind\u00edgenas. E fiquei esperando passar o avi\u00e3o do Correio A\u00e9reo Nacional, da FAB, para voltar.<\/p>\n<p>Hoje eu reconhe\u00e7o que Orlando tinha raz\u00e3o em me criticar, porque a ditadura estava investigando sinais de guerrilha na regi\u00e3o, e desconfiava de todo mundo. Na manh\u00e3 seguinte, Claudio, que havia percebido que fiquei chateado com a bronca, me convidou para ir at\u00e9 a aldeia dos iaulapitis, cujo cacique Canato era meu conhecido. Antes eu havia feito uma reportagem para <em>Realidade<\/em> (<em>Indinho brinca de \u00edndio, <\/em>t\u00edtulo horroroso que Paulo Patarra inventou), contando como se preparava um guerreiro, tendo como personagem seu filho Aritan\u00e3, que no futuro viria a ser um chefe importante da tribo e defensor do Parque do Xingu.<\/p>\n<p>Depois de citado na <em>Realidade <\/em>o nome Aritan\u00e3, reduzido para Aritana ficou popular, Diversos meninos foram assim batizados.<\/p>\n<p>Por sugest\u00e3o de Claudio a tribo fez uma homenagem para mim, dan\u00e7ando e cantando. O cacique me deu uma linda panela de barro em forma de tartaruga que eu tenho at\u00e9 hoje (2026).<\/p>\n<p>Interrompemos a cerim\u00f4nia ao ouvir o ronco do avi\u00e3o do Correio A\u00e9reo Nacional. Corri para embarcar. Naqueles sert\u00f5es embarcava quem precisasse. Ningu\u00e9m pedia documento.<\/p>\n<p>Voltei a S\u00e3o Paulo, estava tudo bem em nossa casa humilde da Vila Pauliceia. Maria Lucia trabalhando fora. Rogerio estudando para torneiro mec\u00e2nico no Senai (ele se formou). Luciano, no primeiro ano do prim\u00e1rio. Aninha tinha dois anos. Ficava aos cuidados de uma vizinha. Eu a surpreendi andando pelas ruas empoeiradas, com outras crian\u00e7as, de sandalinha havaiana e os p\u00e9s sujos. Fiquei com um misto de carinho e sentimento de culpa, abracei-a e a carreguei no colo para casa.<\/p>\n<p>Fiz as mat\u00e9rias para as duas revistas. A mat\u00e9ria de <em>Realidade Amazonia <\/em>teve o t\u00edtulo <em>A guerra de quatro s\u00e9culos<\/em>, referindo-se ao etnoc\u00eddio contra os povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Ganhei algum dinheiro e retornei para a milit\u00e2ncia. Fui a um ponto de encontro para combinar com Bernardo e J\u00f4 Morais a elabora\u00e7\u00e3o de um outro <em>Liberta\u00e7\u00e3o.<\/em> N\u00f3s tr\u00eas habitualmente tamb\u00e9m faz\u00edamos reuni\u00e3o andando pelas ruas ou numa pra\u00e7a como aquela do jardim em frente ao Museu do Ipiranga. Acho que pelo menos em uma ocasi\u00e3o nos reunimos entre as sepulturas do cemit\u00e9rio da Quarta Parada. N\u00e3o h\u00e1 lugar mais sossegado.<\/p>\n<p>Com ordem de pris\u00e3o emitida, n\u00e3o poderia apresentar meus documentos caso fosse parado pela pol\u00edcia. Precisava de outros documentos. Conversei com companheiros do setor de documenta\u00e7\u00e3o e eles foram procurar documentos para mim e Maria Lucia. Com caracter\u00edsticas semelhantes. No nosso caso, brancos, trinta anos.<\/p>\n<p>Sabe improv\u00e1vel leitor como obtinham esses documentos? Iam \u00e0 garage de uma linha de \u00f4nibus urbana e l\u00e1 diziam: \u201cPerdi meus documentos, acho que foi num \u00f4nibus dessa linha\u201d. Algu\u00e9m mostrava um arm\u00e1rio cheio de documentos extraviados. \u201cProcura a\u00ed, veja se acha o seu\u201d. E ia fazer outra coisa. O militante vasculhava o monte buscando as caracter\u00edsticas indicadas. Branco, 30 anos\u2026<\/p>\n<p>Para mim trouxeram uma certid\u00e3o de nascimento com o nome de Marcos Jo\u00e3o Rovaris, branco, mesma idade, nascido em Crici\u00fama, Santa Catarina. Para Maria Lucia uma certid\u00e3o de branca, mesma idade, nome: Maria Pedro. N\u00e3o me lembro do local de nascimento. Mas, como n\u00e3o era procurada nem tinha meu sobrenome (n\u00e3o \u00e9ramos casados no papel), manteve sua pr\u00f3pria identidade, Maria L\u00facia Morais Carmo.<\/p>\n<p>Em seguida tirei uma Carteira de Trabalho com o nome de Marcos Jo\u00e3o Rovaris.<\/p>\n<p><em>(Sobre ele tenho um registro curioso: em 1983, j\u00e1 de volta \u00e0 vida legal, eu estava trabalhando como rep\u00f3rter no programa de TV Globo Rural (TV Globo). Viajando de avi\u00e3o de Porto Alegre para S\u00e3o Paulo, houve uma escala em Santa Catarina quando foram oferecidos jornais dali aos passageiros. Num jornal havia uma not\u00edcia que me causou surpresa. Dizia algo assim: \u201cMarcos Jo\u00e3o Rovaris, quadro do PMDB catarinense etc. etc., est\u00e1 sendo processado por corrup\u00e7\u00e3o\u2026\u201d Pode uma coincid\u00eancia dessa?)<\/em><\/p>\n<p>Quando j\u00e1 est\u00e1vamos morando em Campinas, Maria Lucia apresentou-se em um cart\u00f3rio e, alegando que os filhos ainda n\u00e3o tinham documentos e precisavam deles para ir \u00e0 escola, conseguiu obter c\u00f3pias de certid\u00e3o de nascimento para Luciano e Ana com o sobrenome Carmo Rovaris, nascidos em Jardim, uma distante cidadezinha do Mato Grosso do Sul. Com esses documentos os dois puderam ser matriculados no curso prim\u00e1rio em Campinas. Luciano teve de perder um ano j\u00e1 cursado com seu nome verdadeiro. E Ana foi \u00e0 escola pensando que seu sobrenome era mesmo Rovaris.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Mem\u00f3rias do Jornalismo: A ditadura arreganha os dentes appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-tempo-da-justica-na-era-da-digital\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/a3405cb3b06a9826c4d28157e00e22b1_1736958317192_1559364110-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">O tempo da Justi\u00e7a na era da digital<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/conam-defende-autonomia-e-retomada-da-agenda-comunitaria-nacional\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Captura-de-Tela-2026-07-16-as-174647-2048x1326-1-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Conam defende autonomia e retomada da agenda comun...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/stj-condena-marco-buzzi-a-perda-do-cargo-por-assedio-sexual-em-decisao-inedita\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">STJ condena Marco Buzzi \u00e0 perda do cargo por ass\u00e9d...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-comunicacao-popular-como-braco-do-movimento-estudantil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/53924348613_c72fd6bde0_o-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">A comunica\u00e7\u00e3o popular como bra\u00e7o do movimento estu...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um jovem jornalista na clandestinidade. Os perrengues e o medo de pris\u00e3o, apesar dos protocolos de seguran\u00e7a. A tarefa \u00e1rdua de conciliar milit\u00e2ncia, fam\u00edlia e trabalho. 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