{"id":104779,"date":"2026-09-15T19:48:53","date_gmt":"2026-09-15T22:48:53","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/terras-raras-um-passo-pequeno-demais\/"},"modified":"2026-09-15T19:48:53","modified_gmt":"2026-09-15T22:48:53","slug":"terras-raras-um-passo-pequeno-demais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/terras-raras-um-passo-pequeno-demais\/","title":{"rendered":"Terras raras: um passo pequeno demais"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"853\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4994845849569398129.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4994845849569398129.jpg 1280w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/4994845849569398129-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/4994845849569398129-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/4994845849569398129-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\"><figcaption>Uma mina operada pela mineradora Serra Verde no estado de Goi\u00e1s, Brasil. Cr\u00e9dito: Eraldo Peres\/Associated Press<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<p>Infelizes os pa\u00edses que n\u00e3o t\u00eam projeto. Em 3 de setembro, enquanto os jornais mexericavam sobre a crise do STF, evitando colocar em foco a rela\u00e7\u00e3o estrutural ente o poder econ\u00f4mico e as institui\u00e7\u00f5es, o Senado aprovou ao Projeto de Lei 2780\/2024,que cria a chamada Pol\u00edtica Nacional de Minerais Cr\u00edticos e Estrat\u00e9gicos. O presidente Lula tem prazo at\u00e1 25\/9 para sancion\u00e1-la. Durante os dois anos em que tramitou,nem a imprensa,nem o governo, nem os partidos pol\u00edticos fizeram qualquer movimento relevante para debat\u00ea-la.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio afronta a enorme import\u00e2ncia que a prov\u00e1vel lei tem para o futuro do pa\u00eds. O Brasil concentra a segura maior reserva mundial de terras raras e minerais cr\u00edticos \u2013 elementos cruciais para as tecnologias de ponta do s\u00e9culo XXI. Os Estados Unidos desenvolveram \u2013 especialmente sob Trump \u2013 esfor\u00e7o expl\u00edcito para apoderar-se delas. A ultradireita brasileira promete de modo expl\u00edcito, nas declara\u00e7\u00f5es de Fl\u00e1vio Bolsonaro, curvar-se \u00e0 Casa Branca.<\/p>\n<p>P\u00f3s-doutoranda pela Instituto de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), a pesquisadora Edna Aparecida da Silva, produziu, em dez dias, uma an\u00e1lise t\u00e3o rara quanto profunda. H\u00e1 muito, Edna est\u00e1 debru\u00e7ada sobre o tema. J\u00e1 no in\u00edcio deste ano, quando o tema apenas se insinuava em c\u00edrculos restritos, ela produziu um estudo alentado, que descrevia o potencial da riqueza brasileira e chamava aten\u00e7\u00e3o para os esfor\u00e7os de captura dos Estados Unidos, em especial sob Trump. Pouco depois, entre abril e maio, <em>Outras Palavras <\/em>publicou, em tr\u00eas partes (1 2 3), um ensaio que ela aventava o risco de o pa\u00eds repetir, em rela\u00e7\u00e3o a materiais novos e estrat\u00e9gicos, a velha \u201cvoca\u00e7\u00e3o colonial\u201d.<\/p>\n<p>A \u00faltima parte do texto fazia refer\u00eancia a uma proposta que tem repercutido de forma crescente entre quem debate alternativas a este destino. Edna defendia a cria\u00e7\u00e3o da <em>Terrabr\u00e1s, <\/em>Esta empresa p\u00fablica, sustentava ela, n\u00e3o deveria ser vista como um mito, Precisaria ser constitu\u00edda tanto para evitar a privatiza\u00e7\u00e3o de um bem comum dos brasileiros, ou sua exporta\u00e7\u00e3o em estado bruto, quanto para estimular seu processamento e a capacita\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica para faz\u00ea-lo, al\u00e9m de formular pol\u00edticas para a riqueza expressa nas jazidas reverta em favor de um novo projeto de desenvolvimento.<\/p>\n<p>No artigo que acaba de finalizar, e que publicamos a seguir, a pesquisadora concentra o foco no projeto rec\u00e9m-aprovado. Ele traz inova\u00e7\u00f5es conceituais relevantes. Estabelece a inten\u00e7\u00e3o de industrializar as terras raras e os minerais cr\u00edticos. Fala em capacita\u00e7\u00e3o. Cria um Programa Federal de Beneficiamento e Transforma\u00e7\u00e3o de Minerais Cr\u00edticos e Estrat\u00e9gicos (PFMCE). Ainda mais importante: institui um Conselho Nacional para a Industrializa\u00e7\u00e3o de Minerais Cr\u00edticos e Estrat\u00e9gicos (CIMCE), com poderes relevantes. Ele poder\u00e1, entre outras medidas, interferir sobre mudan\u00e7as no controle acion\u00e1rio das empresas respons\u00e1veis pela lavra dos min\u00e9rios e, em especial, bloquear transfer\u00eancias a propriet\u00e1rios estrangeiros.<\/p>\n<p>\u00c9 algo, mostra Edna. Tanto que a quase-lei tem sofrido cr\u00edticas de federa\u00e7\u00f5es empresariais como a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral e Minera\u00e7\u00e3o (ABPM), o Instituto Brasileiro de Minera\u00e7\u00e3o (Ibram) e a Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias de Minas Gerais (Fieng). Para estas, os dispositivos que regulam a propriedade das jazidas s\u00e3o \u201cestatistas\u201d, bloqueiam a \u201clivre iniciativa\u201d e \u201catrasam\u201d a explora\u00e7\u00e3o dos min\u00e9rios. As cr\u00edticas reverberam a velha concep\u00e7\u00e3o das elites predat\u00f3rias, interessadas em oferecer a estrangeiros o que, em outras condi\u00e7\u00f5es, estimularia o bem-estar coletivo e poderia reverter a reprimariza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas Edna tamb\u00e9m alerta para os limites do projeto rec\u00e9m-aprovado. Dois deles chamam aten\u00e7\u00e3o. Primeiro: como tirar do papel os princ\u00edpios elegantes adotados? Haver\u00e1 recursos para o \u201cbeneficiamento e transforma\u00e7\u00e3o\u201d dos minerais cr\u00edticos e para o desenvolvimento de tecnologias necess\u00e1rias para tanto? De que forma estes objetivos nobres poder\u00e3o suplantar a barreira do \u201cajuste fiscal\u201d, que amputa a capacidade de investimento do Estado brasileiro?<\/p>\n<p>O texto mostra: o risco de as boas ideias n\u00e3o sa\u00edrem do papel \u00e9 t\u00e3o grande que, em meio \u00e0 pr\u00f3pria tramita\u00e7\u00e3o do projeto, o Brasil perdeu duas importantes reservas de minerais cr\u00edticos. \u00danica jazida de terras raras em explora\u00e7\u00e3o comercial fora da \u00c1sia, a mina de Serra Verde, em Minua\u00e7u, norte de Goi\u00e1s, foi abocanhada pela <em>USA Rare Earth. <\/em>O Departamento da Guerra de Washington teve papel central na opera\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m em Goi\u00e1s, a norte-americana Aclara estabeleceu o Projeto Carina, que extrair\u00e1 carbonato misto de terras raras e o enviar\u00e1 a um futuro centro de processamento no estado norte-americano de Louisiana.<\/p>\n<p>A segunda brecha do projeto aprovado no Senado deve-se ao modelo de governan\u00e7a do lulismo, que prefere nunca pressionar a institucionalidade conservadora. A lei estabelece o conselho respons\u00e1vel pela execu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de terras raras \u2013 mas quem constituir\u00e1 este \u00f3rg\u00e3o? O texto \u00e9 vago, mencionando apenas representantes da Uni\u00e3o, Estados, Munic\u00edpios, empresas e universidades. Parece algo t\u00edpico dos arranjos com o Centr\u00e3o. Caso perdure o arranjo atual entre um governo petista e um Congresso conservador, tende a ser um \u00f3rg\u00e3o h\u00edbrido. Caso o pa\u00eds venha a ser governado por uma ultradireita trumpista, poder\u00e1 se converter num instrumento para a entrega da riqueza mineral brasileira.<\/p>\n<p>O texto de Edna \u00e9 um alento. Em meio a um ambiente pol\u00edtico em que temas cruciais s\u00e3o esquecidos, \u00e9 estimulante saber que a cr\u00edtica e a formula\u00e7\u00e3o de alternativas resistem, em alguns espa\u00e7os. \u00c9 a partir destas ilhas de intelig\u00eancia e defesa de uma soberania popular que poder\u00e1 se reconstituir um projeto de pa\u00eds.<br \/><strong><br \/>A.M<\/strong>.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h2><strong>Quem decide sobre as reservas brasileiras? <\/strong><br \/><strong>O Conselho de Minerais Cr\u00edticos e a disputa pela soberania mineral<\/strong><br \/><\/h2>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O Senado Federal aprovou, em 2 de setembro de 2026, o texto final do Projeto de Lei n\u00ba 2.780\/2024, que institui a Pol\u00edtica Nacional de Minerais Cr\u00edticos e Estrat\u00e9gicos (PNMCE) e o Conselho Nacional para a Industrializa\u00e7\u00e3o de Minerais Cr\u00edticos e Estrat\u00e9gicos (CIMCE), vinculado \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. O texto foi encaminhado \u00e0 san\u00e7\u00e3o presidencial.<\/p>\n<p>A proposta institui uma pol\u00edtica nacional para organizar e promover o desenvolvimento das cadeias de minerais cr\u00edticos e estrat\u00e9gicos. Tal pol\u00edtica abrange a pesquisa, a lavra, o beneficiamento, a transforma\u00e7\u00e3o mineral, a industrializa\u00e7\u00e3o, a inova\u00e7\u00e3o e a minera\u00e7\u00e3o urbana. A PNMCE busca ampliar a produ\u00e7\u00e3o e a agrega\u00e7\u00e3o de valor em territ\u00f3rio nacional, fortalecer capacidades produtivas e tecnol\u00f3gicas e reduzir vulnerabilidades associadas \u00e0 depend\u00eancia externa. Essa agenda se desenvolve em um contexto internacional marcado pela disputa entre os Estados Unidos e seus aliados, de um lado, e a China, de outro, pela configura\u00e7\u00e3o das cadeias globais de minerais cr\u00edticos. Sob lideran\u00e7a dos Estados Unidos, essa disputa envolve a busca por reduzir a depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China e construir cadeias de suprimento alternativas. Nesse processo, as reservas brasileiras adquirem import\u00e2ncia estrat\u00e9gica, tanto pela disponibilidade de minerais considerados cr\u00edticos quanto pelo potencial de ampliar a produ\u00e7\u00e3o e a agrega\u00e7\u00e3o de valor no pa\u00eds. A import\u00e2ncia desses minerais conecta, assim, a pol\u00edtica mineral \u00e0s estrat\u00e9gias de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, seguran\u00e7a alimentar, desenvolvimento tecnol\u00f3gico, desenvolvimento regional e defesa nacional.<\/p>\n<p>Para isso, o projeto combina instrumentos de promo\u00e7\u00e3o, financiamento, industrializa\u00e7\u00e3o, informa\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o. Entre eles est\u00e3o o Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM), o Programa Federal de Beneficiamento e Transforma\u00e7\u00e3o de Minerais Cr\u00edticos e Estrat\u00e9gicos (PFMCE) e o Certificado Mineral de Baixo Carbono (CMBC). Somam-se a esses o Cadastro Nacional de Projetos de Minerais Cr\u00edticos e Estrat\u00e9gicos (CNPMCE), projetos de pesquisa e desenvolvimento tecnol\u00f3gico, leil\u00f5es de \u00e1reas com potencial mineral, contratos de streaming e royalties, al\u00e9m de incentivos fiscais, financeiros, credit\u00edcios e regulat\u00f3rios. O texto determina que esses instrumentos sejam aplicados de forma coordenada, integrada e complementar para fortalecer as cadeias produtivas de minerais cr\u00edticos e estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/14--15.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/14--15.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A pol\u00edtica tamb\u00e9m busca direcionar esses instrumentos a projetos capazes de gerar efeitos mais amplos na economia nacional. Entre os crit\u00e9rios de prioriza\u00e7\u00e3o est\u00e3o a contrata\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra e servi\u00e7os das comunidades afetadas, compras no com\u00e9rcio local e na ind\u00fastria nacional, desenvolvimento local e inova\u00e7\u00e3o industrial. Al\u00e9m disso, consideram-se a gera\u00e7\u00e3o de valor agregado em territ\u00f3rio nacional, o desenvolvimento regional, a prote\u00e7\u00e3o ambiental e a contribui\u00e7\u00e3o para a soberania, a defesa e o interesse nacional.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse desenho que reside a principal novidade institucional do projeto: o CIMCE. Al\u00e9m de coordenar, planejar e acompanhar a PNMCE, o Conselho recebe atribui\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 an\u00e1lise e homologa\u00e7\u00e3o de determinadas opera\u00e7\u00f5es envolvendo empresas titulares de direitos miner\u00e1rios sobre minerais cr\u00edticos e estrat\u00e9gicos (Cap. II, art. 3\u00ba, \u00a7 2\u00ba). O projeto prev\u00ea, entre outras situa\u00e7\u00f5es, a submiss\u00e3o \u00e0 triagem de mudan\u00e7as diretas ou indiretas de controle societ\u00e1rio, inclusive por reorganiza\u00e7\u00e3o; formas de participa\u00e7\u00e3o ou influ\u00eancia de pessoas jur\u00eddicas estrangeiras; contratos e parcerias internacionais de fornecimento que possam afetar a seguran\u00e7a econ\u00f4mica ou geopol\u00edtica; e opera\u00e7\u00f5es envolvendo t\u00edtulos miner\u00e1rios outorgados pela Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o do Conselho tamb\u00e9m \u00e9 relevante para compreender como essas novas compet\u00eancias ser\u00e3o exercidas. O CIMCE ter\u00e1 participa\u00e7\u00e3o de representantes do governo federal, dos estados e do Distrito Federal, dos munic\u00edpios, do setor privado e de institui\u00e7\u00f5es de ensino superior. Como o Conselho ter\u00e1 fun\u00e7\u00f5es que alcan\u00e7am a aprova\u00e7\u00e3o e habilita\u00e7\u00e3o de projetos e a homologa\u00e7\u00e3o de determinadas opera\u00e7\u00f5es envolvendo propriedade, controle e participa\u00e7\u00e3o estrangeira, sua composi\u00e7\u00e3o definir\u00e1 quem estar\u00e1 representado nas inst\u00e2ncias respons\u00e1veis por essas decis\u00f5es.O projeto procura responder a parte desse problema ao estabelecer um novo marco regulat\u00f3rio que garante uma controle estatal sobre o processo.. Para isso, determina que as fun\u00e7\u00f5es de formula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, aprova\u00e7\u00e3o e habilita\u00e7\u00e3o de projetos e an\u00e1lise de atos societ\u00e1rios e contratuais sejam exercidas por inst\u00e2ncias de composi\u00e7\u00e3o distinta. Tamb\u00e9m prev\u00ea mandatos fixos, estabilidade para os membros das inst\u00e2ncias decis\u00f3rias, publica\u00e7\u00e3o fundamentada das decis\u00f5es com fundamenta\u00e7\u00e3o expl\u00edcita e identifica\u00e7\u00e3o dos votantes, al\u00e9m de vedar o ac\u00famulo dessas fun\u00e7\u00f5es por um mesmo integrante.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o e o funcionamento dessas inst\u00e2ncias ser\u00e3o, portanto, parte fundamental da capacidade decis\u00f3ria do novo Conselho. Essas quest\u00f5es s\u00e3o particularmente importantes porque a PNMCE introduz novos mecanismos em um setor cuja pol\u00edtica foi profundamente transformada pelas reformas liberais, que ampliaram a participa\u00e7\u00e3o privada e estrangeira e reduziram o papel do Estado na explora\u00e7\u00e3o mineral. O que est\u00e1 em discuss\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas uma nova pol\u00edtica para minerais cr\u00edticos, mas uma tentativa de reconfigura\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o entre Estado, capital estrangeiro e explora\u00e7\u00e3o de recursos minerais.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir dessas quest\u00f5es que este artigo examina o novo marco. Primeiro, apresenta as mudan\u00e7as introduzidas pela PNMCE e as novas compet\u00eancias atribu\u00eddas ao CIMCE, situando-as na trajet\u00f3ria recente da pol\u00edtica mineral brasileira e nas cr\u00edticas formuladas pelas entidades empresariais. Em seguida, analisa a estrat\u00e9gia dos Estados Unidos para minerais cr\u00edticos e a coordena\u00e7\u00e3o estatal do capital na disputa pela configura\u00e7\u00e3o dessas cadeias, tomando como casos MP Materials, Serra Verde e U.S. Steel. A discuss\u00e3o sobre investment screening permite, ent\u00e3o, comparar o novo mecanismo brasileiro com instrumentos existentes nos Estados Unidos, no Canad\u00e1 e na Austr\u00e1lia, pa\u00edses de origem de parte relevante das empresas e dos capitais que investem na minera\u00e7\u00e3o brasileira. Por fim, o artigo discute o que est\u00e1 em jogo para o Brasil quando seus ativos minerais estrat\u00e9gicos s\u00e3o incorporados a cadeias cuja propriedade, financiamento, processamento e mercados s\u00e3o organizados em escala internacional: se o pa\u00eds conseguir\u00e1 utilizar suas reservas para construir capacidade produtiva e tecnol\u00f3gica pr\u00f3pria ou se continuar\u00e1 fornecendo recursos estrat\u00e9gicos para cadeias controladas a partir de outros centros de poder. Responder a essa pergunta depende, em grande medida, da capacidade do Estado brasileiro de decidir sobre a propriedade, o controle e os efeitos desses investimentos.<\/p>\n<h3><strong>As cr\u00edticas do setor mineral<\/strong><\/h3>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do CIMCE provocou cr\u00edticas relativamente convergentes entre diferentes representantes do setor privado, ainda que com \u00eanfases distintas. Para o Instituto Brasileiro de Minera\u00e7\u00e3o (IBRAM) o problema central est\u00e1 na extens\u00e3o das compet\u00eancias atribu\u00eddas ao Conselho; crit\u00e9rios de atua\u00e7\u00e3o, compet\u00eancias e prazos deveriam ser definidos na pr\u00f3pria lei, n\u00e3o deixados predominantemente para regulamenta\u00e7\u00e3o posterior \u2013 em maio, o instituto chegou a sustentar que o governo poderia passar a ter \u201ca palavra final\u201d sobre um conjunto amplo de investimentos e homologa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral e Minera\u00e7\u00e3o (ABPM) concentrou suas cr\u00edticas em outro ponto: a concentra\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es executivas no Conselho, na possibilidade de demora decis\u00f3ria e, sobretudo, na homologa\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as societ\u00e1rias envolvendo capital estrangeiro. Na v\u00e9spera da aprova\u00e7\u00e3o, a entidade defendia uma pol\u00edtica capaz de atrair capital e advertia contra o que considerava excesso de interven\u00e7\u00e3o estatal sobre produ\u00e7\u00e3o, comercializa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00f5es, depois de aprovada a lei, mudou o tom sem abandonar a cr\u00edtica \u2013 passou a firmar que a homologa\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as societ\u00e1rias envolvendo capital estrangeiro poderia significar, \u201cna pr\u00e1tica\u201d, poder de veto, reiterando a aus\u00eancia de crit\u00e9rios objetivos e prazos claros. Em audi\u00eancia no Senado, a cr\u00edtica apareceu tamb\u00e9m em uma formula\u00e7\u00e3o mais ampla: representantes do setor defenderam rapidez nas decis\u00f5es, incentivos ao investimento privado e um \u201ccontrole estatal equilibrado\u201d. A consultora do CEBRI, Rafaela Guedes questionou mecanismos que poderiam criar barreiras \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o e defendeu o que chamou de \u201cincentivo condicionado a contrapartidas\u201d. J\u00e1 a Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias de Minas Gerais (FIEMG) manifestou preocupa\u00e7\u00e3o com seguran\u00e7a jur\u00eddica e previsibilidade regulat\u00f3ria, embora reconhecendo o potencial da pol\u00edtica para ampliar a competitividade e a agrega\u00e7\u00e3o de valor dos recursos minerais brasileiros. O representante da ABPM, por sua vez, criticou a atribui\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es executivas ao Conselho e comparou o risco de morosidade \u00e0 experi\u00eancia de processos submetidos ao Conselho de Defesa Nacional.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-3.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/03\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>As cr\u00edticas convergem, portanto, para alguns pontos: a concentra\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias no CIMCE, a possibilidade de interfer\u00eancia sobre mudan\u00e7as de controle e opera\u00e7\u00f5es envolvendo capital estrangeiro, a aus\u00eancia de crit\u00e9rios e prazos suficientemente definidos e o risco de demora ou inseguran\u00e7a nas decis\u00f5es. O que est\u00e1 em disputa n\u00e3o \u00e9 necessariamente a cria\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica p\u00fablica para minerais cr\u00edticos. As pr\u00f3prias entidades empresariais, como o IBRAM, reconhecem a necessidade de financiamento, incentivos, pesquisa, processamento e agrega\u00e7\u00e3o de valor. A controv\u00e9rsia aparece, sobretudo quando a pol\u00edtica passa a alcan\u00e7ar decis\u00f5es sobre propriedade, controle e participa\u00e7\u00e3o estrangeira e o papel do Estado.<\/p>\n<p>Para entender o alcance dessa mudan\u00e7a, \u00e9 preciso voltar \u00e0s reformas que reorganizaram a minera\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses em desenvolvimento a partir das d\u00e9cadas de 1980 e 1990 \u2013 reformas que produziram, em boa medida, o arranjo institucional que os cr\u00edticos do CIMCE hoje tentam preservar. A agenda associada ao Consenso de Washington combinou privatiza\u00e7\u00e3o, liberaliza\u00e7\u00e3o e abertura ao investimento estrangeiro, acompanhadas pela redu\u00e7\u00e3o dos controles sobre a atua\u00e7\u00e3o do capital externo. No setor mineral, as institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais passaram a recomendar reformas destinadas a diminuir o controle estatal sobre as opera\u00e7\u00f5es e a criar condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis \u00e0 entrada de empresas estrangeiras. \u00c9 precisamente esse controle reduzido \u2013 sobre opera\u00e7\u00f5es, propriedade e participa\u00e7\u00e3o estrangeiras \u2013 que a homologa\u00e7\u00e3o prevista para o CIMCE volta a colocar em jogo, o que ajuda a explicar por que a oposi\u00e7\u00e3o da ABPM e do IBRAM se concentra menos na pol\u00edtica de minerais cr\u00edticos em si e mais nesse ponto.<\/p>\n<p>Esse processo n\u00e3o significou apenas a liberaliza\u00e7\u00e3o de um setor econ\u00f4mico. Ele alterou a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o entre Estado, capital e recursos minerais. A expans\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o privada e estrangeira veio acompanhada de mudan\u00e7as nos regimes de propriedade, nas regras de concess\u00e3o e nas condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o. Na Am\u00e9rica Latina, esse movimento alcan\u00e7ou pa\u00edses como Brasil, Chile, M\u00e9xico, Argentina e Venezuela, em processos marcados por reformas legais, privatiza\u00e7\u00f5es e abertura ao investimento estrangeiro \u2013 processos que, como mostram Haselip e Hilson<sup>i<\/sup> em diferentes casos, nem sempre se traduziram em ganho equivalente para as economias nacionais. A expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o mineral e das exporta\u00e7\u00f5es n\u00e3o implica automaticamente a forma\u00e7\u00e3o de capacidades industriais e tecnol\u00f3gicas no territ\u00f3rio; ao contr\u00e1rio, reproduz-se, com frequ\u00eancia o padr\u00e3o hist\u00f3rico da depend\u00eancia, no qual o peso dos minerais nas exporta\u00e7\u00f5es n\u00e3o vem acompanhado de industrializa\u00e7\u00e3o ou transfer\u00eancia tecnol\u00f3gica correspondente.<\/p>\n<p>As reformas tamb\u00e9m tiveram uma dimens\u00e3o institucional: ocorreram em contextos nos quais grandes empresas multinacionais frequentemente negociavam com governos que dispunham de menor capacidade financeira, t\u00e9cnica e informacional, reproduzindo, na defini\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de acesso e uso dos recursos minerais, a l\u00f3gica centro-periferia que caracteriza essas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a ocorre em um contexto internacional marcado pela reorganiza\u00e7\u00e3o das cadeias de minerais cr\u00edticos e pela busca de alternativas \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de etapas estrat\u00e9gicas da produ\u00e7\u00e3o na China. Sob lideran\u00e7a dos Estados Unidos, vem sendo articulada uma estrat\u00e9gia de diversifica\u00e7\u00e3o dessas cadeias, que combina financiamento p\u00fablico, participa\u00e7\u00e3o empresarial, acordos de fornecimento, desenvolvimento de capacidade de processamento e coopera\u00e7\u00e3o com pa\u00edses detentores de recursos minerais. As reservas brasileiras ocupam posi\u00e7\u00e3o relevante nesse processo, tanto pela disponibilidade de minerais considerados cr\u00edticos quanto pelo potencial de ampliar a produ\u00e7\u00e3o e a agrega\u00e7\u00e3o de valor no pa\u00eds. A aquisi\u00e7\u00e3o da Serra Verde pela americana USA Rare Earth, acompanhada de financiamento e participa\u00e7\u00e3o do governo dos Estados Unidos na empresa, \u00e9 uma express\u00e3o concreta dessa aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio que a quest\u00e3o da soberania mineral ganha outra dimens\u00e3o. O problema n\u00e3o \u00e9 escolher entre aproxima\u00e7\u00e3o ou afastamento dessas iniciativas, mas definir em que condi\u00e7\u00f5es a participa\u00e7\u00e3o do Brasil nessa reorganiza\u00e7\u00e3o das cadeias poder\u00e1 contribuir para uma estrat\u00e9gia pr\u00f3pria de industrializa\u00e7\u00e3o e desenvolvimento.<\/p>\n<p>A atribui\u00e7\u00e3o dada ao CIMCE responde exatamente a essa pergunta. A PNMCE n\u00e3o abandona a mobiliza\u00e7\u00e3o de capital privado e estrangeiro \u2013 ao contr\u00e1rio, cria instrumentos para financiar projetos, reduzir riscos e estimular a forma\u00e7\u00e3o de cadeias produtivas e tecnol\u00f3gicas. Mas, ao mesmo tempo, introduz uma capacidade estatal de examinar determinadas opera\u00e7\u00f5es envolvendo propriedade, controle e participa\u00e7\u00e3o estrangeira em ativos minerais considerados estrat\u00e9gicos. \u00c9 por meio dessa capacidade que soberania e interesse nacional deixam de ser apenas princ\u00edpios e passam a operar como crit\u00e9rios de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 simplesmente substituir uma pol\u00edtica de atra\u00e7\u00e3o de investimentos por uma pol\u00edtica de controle. \u00c9 a introdu\u00e7\u00e3o de uma nova esfera de decis\u00e3o estatal: determinadas opera\u00e7\u00f5es que envolvem ativos minerais estrat\u00e9gicos deixam de ser tratadas exclusivamente como decis\u00f5es empresariais e passam a poder ser apreciadas \u00e0 luz de interesses definidos pelo Estado. No caso dos minerais cr\u00edticos, essa mudan\u00e7a ocorre em meio \u00e0 articula\u00e7\u00e3o, sob a coordena\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, de empresas mineradoras, instrumentos estatais de financiamento, acordos de fornecimento, pol\u00edtica industrial e diplomacia para reorganizar as cadeias de suprimento e reduzir a depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China. Essa articula\u00e7\u00e3o j\u00e1 alcan\u00e7a o Brasil, envolvendo empresas que operam como parte dessa estrat\u00e9gia estatal, al\u00e9m de governos subnacionais e entidades do setor mineral \u2014 atores cujas posi\u00e7\u00f5es combinam interesses econ\u00f4micos pr\u00f3prios e, no caso dos governos, tamb\u00e9m as disputas do processo eleitoral. \u00c9 nesse quadro que as reservas brasileiras ganham import\u00e2ncia estrat\u00e9gica, e que a disputa sobre a entrada, a propriedade e o controle do capital estrangeiro assume uma dimens\u00e3o que ultrapassa os interesses imediatos das empresas.<\/p>\n<h3><strong>Estados Unidos: estrat\u00e9gia de minerais cr\u00edticos e coordena\u00e7\u00e3o estatal do capital<\/strong><\/h3>\n<p>A reorganiza\u00e7\u00e3o das cadeias de minerais cr\u00edticos n\u00e3o pode ser compreendida apenas como resultado de decis\u00f5es empresariais em busca de novas oportunidades de investimento. Nos Estados Unidos, a resposta \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do processamento de minerais estrat\u00e9gicos na China envolve uma transforma\u00e7\u00e3o mais ampla na pol\u00edtica de investimento: o Estado passa a mobilizar financiamento p\u00fablico, participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria, contratos de fornecimento, pol\u00edtica industrial, acordos internacionais e mecanismos de controle sobre investimentos, combinando esses instrumentos para influenciar a localiza\u00e7\u00e3o, a propriedade, o controle e a dire\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do capital.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o indica que o Estado norte-americano atua sobre o capital de maneira distinta daquela pressuposta pela ordem liberal, fundada na separa\u00e7\u00e3o entre Estado e mercado. O Estado deixa de se apresentar apenas como regulador externo da atividade empresarial ou como provedor de condi\u00e7\u00f5es gerais para o investimento. Passa tamb\u00e9m a assumir riscos, orientar investimentos, participar da propriedade e coordenar empresas em fun\u00e7\u00e3o de objetivos definidos como estrat\u00e9gicos. Essa \u00e9 a mesma l\u00f3gica que discuto em an\u00e1lise anterior sobre a pol\u00edtica de investimentos de Trump 2.0: o investimento \u00e9 mobilizado explicitamente como instrumento de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, articulado \u00e0 reindustrializa\u00e7\u00e3o, \u00e0 seguran\u00e7a nacional e \u00e0 competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>O caso da MP Materials \u00e9 particularmente ilustrativo. A empresa, respons\u00e1vel pela opera\u00e7\u00e3o de Mountain Pass, ocupa uma posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica na produ\u00e7\u00e3o americana de terras raras. Em julho de 2025, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos firmou um acordo pelo qual o governo americano se comprometeu a investir US$ 400 milh\u00f5es na empresa, adquirir participa\u00e7\u00e3o de at\u00e9 15% e estabelecer compromissos de compra de longo prazo e garantias de pre\u00e7o. O caso mostra que essas tr\u00eas dimens\u00f5es \u2013 propriedade, demanda e pre\u00e7o \u2013 passaram a ser tratadas como parte de uma mesma interven\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como instrumentos isolados de apoio a uma empresa privada.<\/p>\n<p>Mais importante, essa interven\u00e7\u00e3o integra uma estrat\u00e9gia mais ampla de constru\u00e7\u00e3o de cadeias de suprimento de minerais menos dependentes da China, que alcan\u00e7a tamb\u00e9m outros minerais estrat\u00e9gicos. A pol\u00edtica americana procura articular oferta, demanda, financiamento e capacidade produtiva para tornar economicamente vi\u00e1veis cadeias alternativas \u00e0s estruturas de fornecimento dominadas pela China. Como observa a discuss\u00e3o recente sobre a pol\u00edtica de apoio \u00e0s empresas minerais americanas, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas aumentar a produ\u00e7\u00e3o, mas construir condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas para que essas cadeias possam se sustentar no longo prazo.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica ajuda a compreender por que a pol\u00edtica americana n\u00e3o se limita \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva dentro de seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio. Se o objetivo \u00e9 reduzir a depend\u00eancia da China, \u00e9 preciso alcan\u00e7ar tamb\u00e9m ativos, fornecedores e etapas produtivas fora dos Estados Unidos \u2013 o que exige os mesmos instrumentos j\u00e1 discutidos, agora aplicados al\u00e9m das fronteiras americanas: financiamento, participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria, garantia de demanda e contratos de fornecimento.<\/p>\n<p>O caso da Serra Verde permite observar essa l\u00f3gica diretamente no Brasil. Em setembro de 2026, a americana USA Rare Earth concluiu a aquisi\u00e7\u00e3o de 100% da SVRE Holdings, controladora da Serra Verde, em uma opera\u00e7\u00e3o avaliada em US$ 2,8 bilh\u00f5es. A empresa brasileira, que opera a mina Pela Ema, em Goi\u00e1s, passou a integrar a plataforma da USA Rare Earth, cuja estrat\u00e9gia \u00e9 construir uma cadeia integrada de terras raras e \u00edm\u00e3s permanentes fora da China \u2013 da minera\u00e7\u00e3o ao processamento, \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de metais e ligas, at\u00e9 os \u00edm\u00e3s finais.<\/p>\n<p>O projeto Carina, da Aclara, revela outra dimens\u00e3o dessa estrat\u00e9gia. Com apoio da DFC, o projeto prev\u00ea a produ\u00e7\u00e3o de carbonato misto de terras raras no Brasil. Esse produto intermedi\u00e1rio ser\u00e1 posteriormente enviado para um futuro centro de processamento na Louisiana, onde dever\u00e1 ser separado em \u00f3xidos de terras raras e convertido em metais e ligas. A pr\u00f3pria DFC apresenta o projeto como parte da constru\u00e7\u00e3o de uma cadeia de suprimento no Hemisf\u00e9rio Ocidental destinada a reduzir a depend\u00eancia dos Estados Unidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s terras raras extra\u00eddas e processadas na China.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode, portanto, ser reduzida \u00e0 entrada de capital estrangeiro em uma empresa brasileira: o financiamento reduz riscos; a aquisi\u00e7\u00e3o assegura a propriedade do ativo; os contratos de fornecimento garantem a demanda; e a integra\u00e7\u00e3o com etapas posteriores de processamento e fabrica\u00e7\u00e3o define onde ser\u00e3o constru\u00eddas capacidades tecnol\u00f3gicas e onde ser\u00e1 apropriada parte do valor gerado pela cadeia. O ativo brasileiro passa, assim, a integrar uma cadeia cuja organiza\u00e7\u00e3o responde a uma estrat\u00e9gia definida em escala internacional.<\/p>\n<p>Os casos revelam, por caminhos diferentes, uma mesma transforma\u00e7\u00e3o: o Estado pode participar da propriedade, financiar empresas, assegurar mercados futuros, estruturar cadeias ou condicionar mudan\u00e7as de controle. N\u00e3o se trata de uma substitui\u00e7\u00e3o do Estado pelo mercado, mas de uma configura\u00e7\u00e3o na qual instrumentos p\u00fablicos passam a coordenar diretamente a atua\u00e7\u00e3o do capital em setores considerados estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 especialmente importante no caso dos minerais cr\u00edticos porque a disputa n\u00e3o se resume ao acesso \u00e0s reservas: envolve tamb\u00e9m quem det\u00e9m a propriedade dos ativos, onde se localizam as etapas de processamento, quais tecnologias ser\u00e3o desenvolvidas e quem ocupar\u00e1 as posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas nas cadeias de suprimento. A seguran\u00e7a do fornecimento passa, assim, pela capacidade de influenciar n\u00e3o apenas os fluxos de investimento, mas a propriedade, o controle e a organiza\u00e7\u00e3o dessas cadeias.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o norte-americana interessa ao debate brasileiro justamente por essa raz\u00e3o: os EUA s\u00e3o simultaneamente Estado regulador, fonte de capital, sede de grandes corpora\u00e7\u00f5es, provedor de financiamento e comprador estrat\u00e9gico, o que permite \u00e0 pol\u00edtica de investimento e \u00e0 pol\u00edtica industrial convergirem para reorganizar a localiza\u00e7\u00e3o e o controle de capacidades produtivas consideradas estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p>Essa proje\u00e7\u00e3o de poder n\u00e3o constitui um modelo a ser simplesmente reproduzido pelo Brasil. Ela evidencia, antes, o grau de interven\u00e7\u00e3o que Estados com capacidade financeira, tecnol\u00f3gica e regulat\u00f3ria est\u00e3o mobilizando para disputar posi\u00e7\u00f5es nas cadeias de minerais cr\u00edticos \u2014 e ajuda a situar o papel que a cria\u00e7\u00e3o do CIMCE pretende conferir ao Estado brasileiro.<\/p>\n<h3><strong>Investment screening: quando propriedade e controle se tornam quest\u00e3o de interesse nacional<\/strong><\/h3>\n<p>\u00c9 justamente a mudan\u00e7a na esfera da decis\u00e3o que permite compreender o significado do investment screening. O mecanismo previsto para o CIMCE n\u00e3o corresponde a uma autoriza\u00e7\u00e3o estatal para todo e qualquer investimento mineral: trata-se de uma forma de triagem destinada a identificar opera\u00e7\u00f5es que, por envolverem mudan\u00e7a de controle societ\u00e1rio, participa\u00e7\u00e3o estrangeira relevante, informa\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas estrat\u00e9gicas, contratos internacionais ou outros ativos definidos pela legisla\u00e7\u00e3o, podem produzir efeitos que ultrapassam os interesses imediatos das empresas envolvidas. O screening retira, assim, determinadas opera\u00e7\u00f5es da esfera exclusivamente privada e as submete \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o estatal. Uma aquisi\u00e7\u00e3o continua sendo uma transa\u00e7\u00e3o entre comprador e vendedor, mas, quando envolve ativos, tecnologias, infraestruturas ou capacidades considerados estrat\u00e9gicos, a propriedade e o controle resultantes da opera\u00e7\u00e3o passam a constituir tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de interesse nacional.<\/p>\n<p>O investment screening tornou-se uma ferramenta amplamente utilizada pelos Estados para examinar investimentos estrangeiros em setores considerados estrat\u00e9gicos. O World Investment Repor 2026 (UNCTAD) identifica a expans\u00e3o desses mecanismos, particularmente entre pa\u00edses desenvolvidos, como parte de uma tend\u00eancia de fortalecimento do escrut\u00ednio estatal sobre investimentos relacionados \u00e0 seguran\u00e7a nacional, tecnologias estrat\u00e9gicas, infraestrutura e recursos cr\u00edticos. Estados Unidos, Canad\u00e1 e Austr\u00e1lia disp\u00f5em de regimes consolidados nesse sentido.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, o CFIUS pode examinar determinadas opera\u00e7\u00f5es envolvendo capital estrangeiro, inclusive algumas que n\u00e3o resultam em aquisi\u00e7\u00e3o de controle, quando envolvem ativos, tecnologias, infraestrutura, dados ou outras dimens\u00f5es relevantes para a seguran\u00e7a nacional. O mecanismo pode autorizar uma opera\u00e7\u00e3o, negociar medidas de mitiga\u00e7\u00e3o ou, em determinadas circunst\u00e2ncias, impedir sua realiza\u00e7\u00e3o ou determinar sua revers\u00e3o. A FIRRMA, aprovada em 2018, ampliou seu alcance para al\u00e9m das aquisi\u00e7\u00f5es tradicionais de controle.<\/p>\n<p>No Canad\u00e1, o Investment Canada Act combina mecanismos de seguran\u00e7a nacional com a avalia\u00e7\u00e3o do chamado benef\u00edcio l\u00edquido de determinados investimentos, considerando efeitos sobre emprego, atividade econ\u00f4mica, processamento de recursos, participa\u00e7\u00e3o canadense, desenvolvimento tecnol\u00f3gico e competitividade.<\/p>\n<p>Na Austr\u00e1lia, o regime administrado pelo FIRB permite examinar determinados investimentos segundo crit\u00e9rios de interesse nacional e seguran\u00e7a nacional, podendo impor condi\u00e7\u00f5es, impedir opera\u00e7\u00f5es e, em determinadas circunst\u00e2ncias, determinar seu desinvestimento.<\/p>\n<p>Os instrumentos e o papel do Estado em cada regime s\u00e3o diferentes, mas a compara\u00e7\u00e3o \u00e9 reveladora. Estados Unidos, Canad\u00e1 e Austr\u00e1lia s\u00e3o simultaneamente receptores de investimento, pa\u00edses de origem de grandes empresas mineradoras e centros de capital e financiamento para a minera\u00e7\u00e3o internacional. Suas empresas internacionalizam o capital enquanto seus Estados preservam, em seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios, instrumentos para examinar investimentos estrangeiros considerados estrat\u00e9gicos. Para o debate brasileiro, essa combina\u00e7\u00e3o \u00e9 particularmente relevante: os pa\u00edses de origem de parte importante do capital que investe na minera\u00e7\u00e3o internacional tamb\u00e9m preservam mecanismos para decidir sobre a entrada e o controle de capital estrangeiro em seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>O investimento estrangeiro direto n\u00e3o se reduz \u00e0 entrada de um fluxo financeiro: envolve aquisi\u00e7\u00e3o de propriedade, controle e direitos sobre ativos e atividades econ\u00f4micas localizados em determinado territ\u00f3rio e, por isso, relaciona-se diretamente \u00e0 soberania do Estado sobre esse territ\u00f3rio. A regula\u00e7\u00e3o do investimento estrangeiro \u00e9, nesse sentido, tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de soberania: ao estabelecer as condi\u00e7\u00f5es de entrada, participa\u00e7\u00e3o, propriedade e controle do capital, o Estado define o espa\u00e7o dentro do qual esses direitos podem ser adquiridos e exercidos. Quanto mais amplas s\u00e3o as garantias conferidas ao capital, menor tende a ser o espa\u00e7o regulat\u00f3rio dispon\u00edvel aos Estados para condicionar sua entrada, sua atua\u00e7\u00e3o e seus efeitos.<\/p>\n<p>Essa dimens\u00e3o assume particular import\u00e2ncia no caso dos minerais cr\u00edticos. O Brasil possui reservas estrat\u00e9gicas e precisa decidir em que condi\u00e7\u00f5es o capital estrangeiro poder\u00e1 participar de sua explora\u00e7\u00e3o e controle. A pergunta n\u00e3o pode ser apenas como atrair investimentos, mas em que condi\u00e7\u00f5es eles entram, quem controla os ativos e que efeitos produzem sobre as capacidades produtivas e tecnol\u00f3gicas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o revela, portanto, uma quest\u00e3o importante para o Brasil. Os Estados que sediam grandes empresas mineradoras e centros de capital e financiamento preservam instrumentos para examinar investimentos estrangeiros estrat\u00e9gicos. Para o Brasil, a cria\u00e7\u00e3o do CIMCE representa a constru\u00e7\u00e3o de uma capacidade pr\u00f3pria de aprecia\u00e7\u00e3o estatal sobre capitais estrangeiros que buscam adquirir ou controlar ativos localizados em seu territ\u00f3rio. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 reproduzir os regimes existentes, mas reconhecer que a capacidade de regular a propriedade e o controle do capital estrangeiro constitui uma dimens\u00e3o da soberania sobre os recursos estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>O caso da aquisi\u00e7\u00e3o da U.S. Steel pela japonesa Nippon Steel torna essa quest\u00e3o especialmente vis\u00edvel. A opera\u00e7\u00e3o foi submetida ao CFIUS e, depois de um processo que envolveu inicialmente a possibilidade de bloqueio, acabou autorizada sob condi\u00e7\u00f5es que preservaram instrumentos especiais de interven\u00e7\u00e3o do governo americano, entre eles uma golden share. A ordem presidencial preserva expressamente a autoridade do presidente para intervir posteriormente na opera\u00e7\u00e3o: \u201cReservo minha autoridade para emitir novas determina\u00e7\u00f5es relativas aos compradores ou \u00e0 U.S. Steel que, a meu ju\u00edzo, sejam necess\u00e1rias para proteger a seguran\u00e7a nacional dos Estados Unidos.\u201d Trata-se de uma a\u00e7\u00e3o que confere ao Estado direitos que n\u00e3o correspondem necessariamente \u00e0 sua participa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica no capital, permitindo interven\u00e7\u00e3o em determinadas decis\u00f5es societ\u00e1rias, mudan\u00e7as de controle ou transfer\u00eancia de ativos.<\/p>\n<p>O caso mostra que o screening n\u00e3o precisa operar apenas como uma escolha bin\u00e1ria entre autorizar e bloquear uma aquisi\u00e7\u00e3o: pode tamb\u00e9m estabelecer condi\u00e7\u00f5es para a opera\u00e7\u00e3o e preservar direitos especiais do Estado sobre a governan\u00e7a futura de uma empresa considerada estrat\u00e9gica. \u00c9 precisamente essa esfera de decis\u00e3o que o CIMCE introduz no ordenamento brasileiro.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que se coloca, portanto, n\u00e3o \u00e9 simplesmente se o Brasil deve atrair ou restringir o capital estrangeiro. \u00c9 se o Estado brasileiro ter\u00e1 capacidade para decidir sobre as condi\u00e7\u00f5es de propriedade, controle e participa\u00e7\u00e3o desse capital quando estiverem em jogo ativos minerais estrat\u00e9gicos \u2014 e para articular essa capacidade aos instrumentos de industrializa\u00e7\u00e3o, desenvolvimento tecnol\u00f3gico e agrega\u00e7\u00e3o de valor previstos pela PNMCE<\/p>\n<h3><strong>Cadeias de minerais cr\u00edticos: quem controla o valor<\/strong><\/h3>\n<p>Essa disputa n\u00e3o se d\u00e1 apenas entre empresas privadas. A fronteira entre capital privado e estrat\u00e9gia estatal torna-se menos n\u00edtida quando governos financiam projetos, assumem riscos, garantem demanda futura e utilizam instrumentos de pol\u00edtica econ\u00f4mica para assegurar posi\u00e7\u00f5es nas cadeias minerais. O investimento passa, assim, a ser tamb\u00e9m um instrumento de pol\u00edtica econ\u00f4mica e geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Os contratos de offtake s\u00e3o um exemplo dessa articula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o acordos de fornecimento de longo prazo pelos quais uma empresa produtora se compromete antecipadamente a vender parte ou a totalidade de sua produ\u00e7\u00e3o futura a um comprador determinado. Eles podem reduzir o risco comercial e facilitar o financiamento de um projeto, mas tamb\u00e9m asseguram ao comprador acesso previs\u00edvel \u00e0 produ\u00e7\u00e3o futura, vinculando-a a uma cadeia de suprimentos por per\u00edodo prolongado. O offtake, por si s\u00f3, n\u00e3o transfere a propriedade da reserva ou da mina. Mas, combinado com financiamento e participa\u00e7\u00e3o empresarial, pode garantir o acesso de longo prazo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de um recurso estrat\u00e9gico e integr\u00e1-la a uma cadeia cuja coordena\u00e7\u00e3o ocorre, em parte, fora do territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p>\u00c9 essa combina\u00e7\u00e3o que precisa ser observada: financiamento p\u00fablico, aquisi\u00e7\u00e3o ou participa\u00e7\u00e3o empresarial, contratos de fornecimento e integra\u00e7\u00e3o produtiva podem funcionar conjuntamente na constru\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas nas cadeias minerais. Os casos da Serra Verde e da Aclara tornam essa din\u00e2mica concreta: envolvem decis\u00f5es que ultrapassam a explora\u00e7\u00e3o das reservas, alcan\u00e7ando financiamento, propriedade, localiza\u00e7\u00e3o das etapas de processamento e acesso aos mercados.<\/p>\n<p>O ponto central, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a presen\u00e7a de capital estrangeiro na minera\u00e7\u00e3o brasileira \u2014 ela j\u00e1 \u00e9 uma caracter\u00edstica estrutural do setor mineral. A quest\u00e3o \u00e9 como essas empresas passam a controlar as novas cadeias de minerais cr\u00edticos e quais efeitos isso produz sobre a posi\u00e7\u00e3o do Brasil na divis\u00e3o internacional das atividades minerais, industriais e tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>A atual corrida pelos minerais cr\u00edticos recoloca, nesse contexto, o problema da chamada \u201cvoca\u00e7\u00e3o colonial\u201d. A express\u00e3o n\u00e3o deve ser entendida como uma caracter\u00edstica natural ou inevit\u00e1vel do pa\u00eds, mas como uma possibilidade hist\u00f3rica de inser\u00e7\u00e3o internacional: possuir recursos estrat\u00e9gicos, ampliar sua explora\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, permanecer subordinado nas etapas de maior valor agregado das cadeias constru\u00eddas a partir desses recursos. A captura das reservas, nesse sentido, n\u00e3o equivale \u00e0 captura do valor: um pa\u00eds pode possuir a jazida, aumentar a produ\u00e7\u00e3o e exportar mais e, ainda assim, permanecer subordinado na cadeia, enquanto equipamentos, tecnologia, processamento, propriedade intelectual, mercados estrat\u00e9gicos e posi\u00e7\u00f5es de comando permanecem no exterior.<\/p>\n<p>O problema, portanto, n\u00e3o est\u00e1 simplesmente em atrair ou rejeitar capital estrangeiro, mas em como esses investimentos participam da disputa pelas novas cadeias de minerais cr\u00edticos. Enquanto o Brasil procura criar condi\u00e7\u00f5es para explorar suas reservas, Estados Unidos e seus aliados utilizam financiamento, pol\u00edtica industrial, aquisi\u00e7\u00e3o de empresas, contratos de fornecimento e desenvolvimento de capacidade de processamento para consolidar posi\u00e7\u00f5es nessas mesmas cadeias, ampliando capacidades estrat\u00e9gicas que tamb\u00e9m podem se converter, em \u00faltima inst\u00e2ncia, em proje\u00e7\u00e3o de poder pol\u00edtico e militar. Possuir a reserva n\u00e3o significa controlar a cadeia constru\u00edda a partir dela. \u00c9 por isso que a discuss\u00e3o sobre minerais cr\u00edticos ultrapassa a pol\u00edtica mineral em sentido estrito: envolve propriedade, capital, territ\u00f3rio, tecnologia, capacidade de decis\u00e3o e soberania.<\/p>\n<h3><strong>Soberania al\u00e9m do subsolo<\/strong><\/h3>\n<p>O CIMCE introduz uma mudan\u00e7a importante no ordenamento brasileiro ao reconhecer que determinadas opera\u00e7\u00f5es envolvendo minerais cr\u00edticos e estrat\u00e9gicos n\u00e3o podem ser compreendidas exclusivamente no registro das decis\u00f5es privadas. O caso da Serra Verde evidencia uma dimens\u00e3o mais ampla da disputa em torno dos minerais cr\u00edticos: para os Estados Unidos, a constru\u00e7\u00e3o de cadeias de suprimento de terras raras menos dependentes da China integra uma estrat\u00e9gia de competi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica com o pa\u00eds asi\u00e1tico. \u00c9 nesse contexto que a propriedade e a localiza\u00e7\u00e3o de ativos minerais deixam de ser quest\u00f5es exclusivamente empresariais e passam a adquirir significado estrat\u00e9gico na disputa entre Estados. A posi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos como pot\u00eancia econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica permite ao Estado projetar essa disputa para al\u00e9m de seu territ\u00f3rio, alcan\u00e7ando recursos e capacidades produtivas localizados em outros pa\u00edses. A propriedade privada dos ativos n\u00e3o elimina, portanto, as rela\u00e7\u00f5es de poder que estruturam sua inser\u00e7\u00e3o na economia pol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica permite compreender de outra maneira a rela\u00e7\u00e3o entre Estado e capital na economia pol\u00edtica internacional. A internacionaliza\u00e7\u00e3o do capital \u00e9 tamb\u00e9m um processo pol\u00edtico, sustentado e organizado por Estados que criam as condi\u00e7\u00f5es institucionais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas para sua expans\u00e3o e opera\u00e7\u00e3o em diferentes territ\u00f3rios. No caso dos Estados Unidos, sua posi\u00e7\u00e3o como pot\u00eancia permite projetar sua pol\u00edtica econ\u00f4mica e seus interesses estrat\u00e9gicos para al\u00e9m de suas fronteiras e incidir sobre a organiza\u00e7\u00e3o internacional da produ\u00e7\u00e3o. A disputa pelas cadeias de minerais cr\u00edticos evidencia, assim, que a concorr\u00eancia econ\u00f4mica internacional \u00e9 tamb\u00e9m uma disputa pela organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e pelo controle de recursos e capacidades estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa articula\u00e7\u00e3o entre Estado, capital e poder internacional que devem ser situados os desafios do Brasil. O problema n\u00e3o se reduz \u00e0 presen\u00e7a de capital estrangeiro na explora\u00e7\u00e3o dos recursos minerais, mas \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de propriedade e poder que se estabelecem quando esses recursos s\u00e3o incorporados a cadeias produtivas organizadas em escala internacional. O investment screening, embora importante, n\u00e3o esgota essa quest\u00e3o: examinar quem poder\u00e1 controlar determinados ativos \u00e9 apenas uma dimens\u00e3o do problema mais amplo das condi\u00e7\u00f5es sob as quais o capital se apropria dos recursos minerais e participa da organiza\u00e7\u00e3o das cadeias produtivas.<\/p>\n<p>A PNMCE combina instrumentos destinados a reduzir riscos, mobilizar investimentos e promover a industrializa\u00e7\u00e3o com mecanismos de aprecia\u00e7\u00e3o estatal sobre propriedade, controle e participa\u00e7\u00e3o estrangeira. Essa combina\u00e7\u00e3o abre uma possibilidade que vai al\u00e9m de uma pol\u00edtica de atra\u00e7\u00e3o de investimentos: utilizar a capacidade estatal n\u00e3o apenas para viabilizar a explora\u00e7\u00e3o dos recursos minerais, mas para disputar as condi\u00e7\u00f5es sob as quais essa explora\u00e7\u00e3o se integra \u00e0s cadeias globais. Para isso, o Estado brasileiro precisa ter capacidade de decis\u00e3o sobre a propriedade, o controle e os efeitos desses investimentos.<\/p>\n<p>A soberania sobre minerais cr\u00edticos envolve, portanto, capital, territ\u00f3rio e desenvolvimento. N\u00e3o se trata apenas de possuir recursos no subsolo, mas de construir capacidade institucional para decidir sobre sua explora\u00e7\u00e3o e sobre as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e tecnol\u00f3gicas produzidas a partir deles. A soberania n\u00e3o est\u00e1 apenas no subsolo: est\u00e1 tamb\u00e9m na capacidade de decidir quem controla os ativos, quais etapas das cadeias ser\u00e3o desenvolvidas no pa\u00eds e como os recursos minerais poder\u00e3o contribuir para ampliar as capacidades produtivas e tecnol\u00f3gicas nacionais.<\/p>\n<p>Tudo isso depender\u00e1 da pol\u00edtica do governo e das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a dentro e fora dele. As elei\u00e7\u00f5es de outubro ser\u00e3o decisivas para definir o sentido que esse novo marco poder\u00e1 assumir: se ser\u00e1 o ponto de partida para uma pol\u00edtica de industrializa\u00e7\u00e3o e soberania sobre os minerais cr\u00edticos ou se seus instrumentos permanecer\u00e3o esvaziados, enquanto essas riquezas forem incorporadas a estrat\u00e9gias definidas em outros centros de poder.<\/p>\n<h3><strong>Notas<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>i HASELIP, James, HILSON, Gavin. Winners and losers from industry reforms in the developing world: experiences from the electricity and mining sectors.<em> Resources Policy<\/em> 30 (2005) 87\u2013100. https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.resourpol.2004.10.001<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Terras raras: um passo pequeno demais appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/deputados-representam-contra-plinio-valerio-no-conselho-de-etica-do-senado\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Plinio-Valerio-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Deputados representam contra Pl\u00ednio Val\u00e9rio no Con...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/reino-unido-proibe-acesso-de-menores-de-16-anos-a-redes-sociais\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Reino Unido proibe acesso de menores de 16 anos a ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2026\/06\/caprichoso-conquista-titulo-historico-parintins-disputa-decidida-apenas-ponto.html\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/caprichoso-conquista-titulo-historico-parintins-disputa-decidida-apenas-ponto.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Caprichoso conquista t\u00edtulo hist\u00f3rico em Parintins...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/geral\/2025\/07\/conab-emite-alerta-para-novo-golpe-no-rs-que-mira-populacao-atingida-pela-enchente\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Conab emite alerta para novo golpe no RS que mira ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio \u00e0 cobi\u00e7a dos EUA, Congresso aprova lei que estabelece soberania formal sobre minerais estrat\u00e9gicos. Mas faltam instrumentos para efetiv\u00e1-la e ela ser\u00e1 nula num eventual governo de direita. Ainda assim, entidades empresariais se queixam<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/terras-raras-um-passo-pequeno-demais\/\">Terras raras: um passo pequeno demais<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":104780,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[5511,6007,9,17,3523,10615,54917,3132,4036,553],"tags":[],"class_list":["post-104779","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-capa","category-crise-brasileira","category-eua","category-governo-lula","category-mineracao","category-minerais-criticos","category-politica-nacional-de-minerais-criticos-e-estrategicos","category-soberania-nacional","category-terras-raras","category-transicao-energetica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104779","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=104779"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104779\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/104780"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=104779"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=104779"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=104779"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}