{"id":106020,"date":"2026-09-25T16:28:26","date_gmt":"2026-09-25T19:28:26","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/tecnica-e-tradicao-os-que-criam-e-os-que-conservam\/"},"modified":"2026-09-25T16:28:26","modified_gmt":"2026-09-25T19:28:26","slug":"tecnica-e-tradicao-os-que-criam-e-os-que-conservam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/tecnica-e-tradicao-os-que-criam-e-os-que-conservam\/","title":{"rendered":"T\u00e9cnica e tradi\u00e7\u00e3o: Os que criam e os que conservam"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1039\" height=\"642\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/5023837312609094777.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/5023837312609094777.jpg 1039w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/5023837312609094777-300x185.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/09\/5023837312609094777-768x475.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1039px) 100vw, 1039px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Um texto de <em>La Storia e le Idee<\/em> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Lucas Scatolini<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 livros que n\u00e3o convencem completamente, mas que \u00e9 preciso ler porque fazem refletir.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o caso de <em>The Shock Of The Old<\/em>, o ensaio publicado em 2011 pelo historiador brit\u00e2nico de ci\u00eancia e tecnologia David Edgerton.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/14--25.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/14--25.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O objetivo de Edgerton \u00e9 desmontar o mito que associa a tecnologia apenas ao futuro e \u00e0 novidade. A narrativa can\u00f4nica de sua hist\u00f3ria, aquela que a reduz a uma sequ\u00eancia de triunfos e datas ic\u00f4nicas \u2014 o voo dos Wright em 1903, a energia nuclear em 1945, a internet em 1965 \u2014 \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cconto de fadas para crian\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>No mundo real, por\u00e9m, as tecnologias que consideramos velhas \u2014 carv\u00e3o, trens, papel, cimento \u2014 n\u00e3o apenas persistiram, como tamb\u00e9m cresceram em termos absolutos ao longo do s\u00e9culo XX mais do que jamais haviam crescido antes.<\/p>\n<p>A modernidade n\u00e3o \u00e9, portanto, a supera\u00e7\u00e3o do velho, mas o novo que se acumula sobre estruturas que t\u00eam d\u00e9cadas, quando n\u00e3o s\u00e9culos, de exist\u00eancia.<\/p>\n<h3><strong>O preservativo e a bomba at\u00f4mica<\/strong><\/h3>\n<p>Para compreender o peso da tecnologia na hist\u00f3ria, precisamos parar de olhar exclusivamente para o alto, para os c\u00e9us cortados pelos jatos, ou para o futuro, para as promessas da intelig\u00eancia artificial. Precisamos aprender a olhar para onde a vida realmente acontece. Para isso, David Edgerton nos lan\u00e7a uma provoca\u00e7\u00e3o: o preservativo \u00e9 historicamente mais significativo do que o avi\u00e3o?<\/p>\n<p>Se medirmos a relev\u00e2ncia em termos de visibilidade cultural, o jato vence com folga: \u00e9 espetacular, est\u00e1 presente nos notici\u00e1rios, encarna o progresso. Mas, se o crit\u00e9rio de avalia\u00e7\u00e3o passa a ser o impacto real sobre a vida humana, a demografia, a estrutura das fam\u00edlias e a sa\u00fade global, o modesto preservativo salta para o primeiro plano. O problema \u00e9 que nossa hierarquia da import\u00e2ncia \u00e9 distorcida por um preconceito ne\u00f3filo que confunde a inven\u00e7\u00e3o com o uso real.<\/p>\n<p>Essa distor\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 alimentada pelos modelos econ\u00f4micos dominantes, que canonizaram a ideia das \u201cGeneral-Purpose Technologies\u201d (GPT): vapor, eletricidade e hoje a inform\u00e1tica (ICT). Esses esquemas sugerem que poucas tecnologias-chave conduzem \u00e9pocas inteiras, assumindo implicitamente que n\u00e3o existiam alternativas v\u00e1lidas ao seu dom\u00ednio. E, no entanto, poder\u00edamos perguntar: por que n\u00e3o incluir o torno ou a qu\u00edmica sint\u00e9tica entre essas tecnologias universais? A verdade \u00e9 que o conceito de \u201csignific\u00e2ncia\u201d \u00e9 frequentemente uma constru\u00e7\u00e3o cultural baseada no prest\u00edgio, n\u00e3o na produtividade mensur\u00e1vel.<\/p>\n<p>Para sair desse beco sem sa\u00edda, devemos recorrer ao conceito econ\u00f4mico de contrafactual: o que teria acontecido se determinada tecnologia n\u00e3o tivesse existido? O historiador Robert Fogel aplicou esse m\u00e9todo \u00e0s ferrovias americanas do s\u00e9culo XIX, demonstrando que, em compara\u00e7\u00e3o com uma alternativa baseada em canais e carro\u00e7as puxadas por cavalos, as ferrovias aumentaram o PIB dos Estados Unidos em 1890 em menos de 5%. Em outras palavras, sem trens, os Estados Unidos teriam alcan\u00e7ado o mesmo n\u00edvel de desenvolvimento apenas com alguns anos de atraso. Isso nos ensina que a import\u00e2ncia de uma tecnologia n\u00e3o reside em sua onipresen\u00e7a, mas na margem de vantagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 melhor alternativa, frequentemente uma tecnologia \u201cde reserva\u201d que permanece invis\u00edvel at\u00e9 se tornar necess\u00e1ria ou mais conveniente.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-21.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-21.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Essa miopia torna-se tr\u00e1gica quando se analisa a irracionalidade militar. Durante a Segunda Guerra Mundial, Sir Arthur \u201cButcher\u201d Harris sustentou que os bombardeios em massa sobre as cidades alem\u00e3s eram o melhor meio de vencer, mas o posterior <em>Strategic Bombing Survey<\/em> revelou que tais ataques tiveram um impacto insignificante sobre a produ\u00e7\u00e3o b\u00e9lica inimiga em compara\u00e7\u00e3o com os bombardeios de precis\u00e3o contra os transportes e as refinarias.<\/p>\n<p>Ainda mais impressionante \u00e9 o caso da bomba at\u00f4mica. O programa at\u00f4mico americano custou cerca de 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares da \u00e9poca, uma quantia que, se convertida em armas convencionais (tanques ou artilharia), talvez tivesse encurtado a guerra de maneira mais eficaz e poupado vidas humanas. A ideia de que a bomba tenha \u201csalvado um milh\u00e3o de soldados\u201d \u00e9 um mito do p\u00f3s-guerra constru\u00eddo para justificar um gasto imenso com uma arma que, em termos de danos reais por d\u00f3lar gasto, n\u00e3o era superior a um grande ataque convencional. At\u00e9 mesmo o foguete alem\u00e3o V-2, celebrado como prod\u00edgio tecnol\u00f3gico, foi um fracasso racional: custou mais vidas humanas em sua produ\u00e7\u00e3o (pelo menos 10.000 trabalhadores escravizados) do que destruiu em seu emprego b\u00e9lico (cerca de 5.000).<\/p>\n<p>Para justificar investimentos estatais t\u00e3o antiecon\u00f4micos, recorreu-se frequentemente \u00e0 narrativa do \u201cspin-off\u201d, a ideia de que as grandes aventuras tecnol\u00f3gicas produzem benef\u00edcios civis imprevistos. O caso mais emblem\u00e1tico \u00e9 o do Teflon: associado no imagin\u00e1rio coletivo \u00e0 NASA, foi na realidade inventado pela DuPont em 1938, muito antes da corrida espacial. Projetos guiados pela ideologia do progresso, como o avi\u00e3o supers\u00f4nico Concorde ou os reatores nucleares brit\u00e2nicos Magnox e AGR, revelaram-se fracassos comerciais colossais, sustentados por Estados que preferiram o prest\u00edgio \u00e0 racionalidade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Por fim, devemos reconhecer a for\u00e7a das \u201cpequenas\u201d tecnologias, capazes de produzir efeitos gigantescos e frequentemente tr\u00e1gicos. Vimos o triunfo do DDT e da cloroquina contra a mal\u00e1ria, mas a confian\u00e7a cega nesses \u201cmilagres\u201d levou a negligenciar os sistemas de vigil\u00e2ncia, favorecendo resist\u00eancias que hoje nos obrigam a recuperar o \u201cvelho arsenal\u201d de redes e drenagens. E, enquanto tememos as grandes epidemias, ignoramos que, no Sul global, o principal assassino tecnol\u00f3gico \u00e9 o ve\u00edculo motorizado: no Qu\u00eania, os acidentes rodovi\u00e1rios s\u00e3o a terceira causa de morte, superando muitas doen\u00e7as hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Avaliar a tecnologia significa, portanto, despoj\u00e1-la da aura de novidade e observ\u00e1-la em sua capacidade crua de alterar a vida e a morte, lembrando que, muitas vezes, o impacto real n\u00e3o viaja em foguetes para a Lua, mas se esconde nas dobras do cotidiano.<\/p>\n<h3><strong>Cavalos e Fuscas<\/strong><\/h3>\n<p>Se levant\u00e1ssemos os olhos para o c\u00e9u do Egito dos anos 1920, poder\u00edamos avistar um avi\u00e3o da Imperial Airways sobrevoando uma lenta caravana de camelos no deserto. Se hoje baixarmos os olhos para as costas de Bangladesh, veremos milhares de trabalhadores desmontando com as pr\u00f3prias m\u00e3os gigantescos colossos de a\u00e7o oce\u00e2nicos nas praias de Chittagong. Essas imagens n\u00e3o s\u00e3o acidentes da hist\u00f3ria, mas sua norma: o tempo tecnol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 uma marcha triunfal rumo ao futuro, mas um emaranhado heterog\u00eaneo no qual o \u201cvelho\u201d n\u00e3o apenas sobrevive, mas frequentemente prospera.<\/p>\n<p>Fomos educados pelos museus de ci\u00eancia para uma vis\u00e3o distorcida.<\/p>\n<p>Nas galerias de Londres ou Paris, as linhas do tempo no ch\u00e3o celebram as \u201cprimeiras vezes\u201d: o primeiro motor a vapor, o primeiro computador. No entanto, durante d\u00e9cadas, os visitantes do London Science Museum passaram ao lado de um enorme motor a vapor mar\u00edtimo que todos confundiam com uma pe\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial; acontece que ele havia sido constru\u00eddo em 1928 para um barco pesqueiro e permanecera em uso por quase meio s\u00e9culo. Os museus celebram o nascimento das m\u00e1quinas, mas escondem sua longu\u00edssima e obstinada vida real.<\/p>\n<p>O mito do progresso cronol\u00f3gico nos leva a acreditar que uma tecnologia se difunde porque \u00e9 \u201cnova\u201d. A realidade \u00e9 mais venal: a difus\u00e3o de uma inven\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende do tempo, mas da renda. Se os europeus tiveram televis\u00e3o ou m\u00e1quina de lavar d\u00e9cadas depois dos americanos, n\u00e3o foi porque fossem \u201cmentalmente atrasados\u201d, mas simplesmente porque eram mais pobres; uma vez alcan\u00e7ado o mesmo n\u00edvel de riqueza, adotaram as mesmas m\u00e1quinas. A tecnologia \u00e9 quase sempre uma fun\u00e7\u00e3o da carteira, n\u00e3o do calend\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tomemos o s\u00edmbolo por excel\u00eancia do atraso: o cavalo. Se tiv\u00e9ssemos de datar a era da tra\u00e7\u00e3o animal com base em seu uso m\u00e1ximo, dever\u00edamos situ\u00e1-la no s\u00e9culo XX, n\u00e3o na Idade M\u00e9dia. A metr\u00f3pole de 1900 era uma cidade dominada pelos cavalos mais do que jamais havia sido antes, pois o desenvolvimento econ\u00f4mico e a urbaniza\u00e7\u00e3o exigiam milhares de carruagens e bondes para ligar as esta\u00e7\u00f5es ferrovi\u00e1rias \u00e0s casas. Nas zonas rurais americanas, o pico de cavalos e mulas foi alcan\u00e7ado em 1915, com 21 milh\u00f5es de animais, justamente enquanto as f\u00e1bricas de Detroit j\u00e1 produziam autom\u00f3veis em ritmo acelerado.<\/p>\n<p>Essa depend\u00eancia do m\u00fasculo e do feno ficou evidente durante os grandes conflitos mundiais. A Segunda Guerra Mundial \u00e9 frequentemente retratada como uma guerra de tanques e avi\u00f5es, mas foi, em termos num\u00e9ricos, a maior guerra de cavalos da hist\u00f3ria. O ex\u00e9rcito alem\u00e3o que invadiu a URSS em 1941 dispunha de muito mais cavalos do que Napole\u00e3o em 1812. Cada divis\u00e3o de infantaria da Wehrmacht necessitava de cerca de 5.000 animais para se movimentar; sem eles, a \u201cguerra-rel\u00e2mpago\u201d teria sido um lento atolamento na lama. E, quando o sistema entra em colapso, o velho retorna com for\u00e7a: na Cuba p\u00f3s-sovi\u00e9tica dos anos 1990, a falta de pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o e combust\u00edvel levou o governo a substituir 40.000 tratores por parelhas de bois, reconstruindo do zero toda uma infraestrutura t\u00e9cnica para a cria\u00e7\u00e3o de animais de tra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a ind\u00fastria \u201cmoderna\u201d est\u00e1 cheia de fantasmas operacionais. No Lancashire brit\u00e2nico, cora\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o do algod\u00e3o, as m\u00e1quinas de fia\u00e7\u00e3o conhecidas como \u201cmule\u201d, inventadas no s\u00e9culo XIX, permaneceram em funcionamento at\u00e9 o fim dos anos 1950. Enquanto o resto do mundo adotava an\u00e9is de fia\u00e7\u00e3o mais modernos, os propriet\u00e1rios ingleses preferiram n\u00e3o investir, espremendo as velhas m\u00e1quinas at\u00e9 que o Estado teve de intervir, em 1959, com campanhas de sucateamento para destruir fisicamente milh\u00f5es de fusos que tinham setenta ou oitenta anos de vida.<\/p>\n<p>Hoje, essa persist\u00eancia manifesta-se no que poder\u00edamos chamar de \u201ctecnologia da pobreza\u201d das megal\u00f3poles do Sul global. As favelas de Lagos ou Mumbai n\u00e3o s\u00e3o feitas de materiais tradicionais, mas de materiais banais e revolucion\u00e1rios em sua simplicidade: a chapa met\u00e1lica ondulada (os \u201ctin roofs\u201d) e o fibrocimento (o Eternit). Esses materiais permitiram uma urbaniza\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria rapid\u00edssima e espont\u00e2nea, fora dos padr\u00f5es da modernidade de Le Corbusier, criando um mundo de \u201ccidades de metal\u201d onde a reciclagem \u00e9 a norma.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que nascem as \u201ctecnologias crioulas\u201d: inven\u00e7\u00f5es ocidentais que, uma vez mortas ou obsoletas em sua p\u00e1tria, migram e renascem em outros lugares com uma vitalidade inesperada. Pensemos na motocicleta Royal Enfield Bullet: um modelo de 1955 que continua a ser produzido na \u00cdndia ainda hoje, quase id\u00eantico a si mesmo. Ou no autom\u00f3vel Hindustan Ambassador, baseado no Morris Oxford dos anos 1950, que dominou as estradas indianas durante meio s\u00e9culo. At\u00e9 mesmo o ic\u00f4nico Fusca Volkswagen continuou saindo das linhas de montagem no M\u00e9xico at\u00e9 2003, muito tempo depois de ter se tornado um objeto de cole\u00e7\u00e3o na Europa.<\/p>\n<h3><strong>Os Bits e o Cimento<\/strong><\/h3>\n<p>A narrativa dominante, frequentemente alimentada pelos gurus da \u201cnova economia\u201d nos anos 1990, descreve-nos um mundo que estaria progressivamente se \u201cdesmaterializando\u201d gra\u00e7as \u00e0 inform\u00e1tica e aos servi\u00e7os. No entanto, os dados contam uma hist\u00f3ria obstinadamente diferente: a modernidade n\u00e3o abandonou o ferro e o cimento em favor dos bits \u2013 acess\u00f3rios de encaixe utilizados em parafusadeiras e furadeiras para apertar ou soltar parafusos, aplicados instala\u00e7\u00e3o de drywall, estruturas met\u00e1licas, fixa\u00e7\u00e3o de telhados e montagem de m\u00f3veis de canteiro de obras \u2013 mas simplesmente aprendeu a consumir quantidades sem precedentes deles, escondendo a produ\u00e7\u00e3o real sob um v\u00e9u de ret\u00f3rica futurista.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XX foi, materialmente falando, o s\u00e9culo do a\u00e7o, do cimento, do papel e do carv\u00e3o. A produ\u00e7\u00e3o mundial de a\u00e7o, por exemplo, triplicou entre 1950 e 1970. Aquilo que hoje chamamos de economia de servi\u00e7os \u00e9, na realidade, sustentado por uma velha economia de mat\u00e9rias-primas pesadas, cujo volume est\u00e1 em constante aumento: a tonelagem da frota mercante mundial passou de 85 milh\u00f5es de toneladas em 1950 para nada menos que 553 milh\u00f5es em 2000.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX n\u00e3o se limitou aos metais, mas aplicou a l\u00f3gica da linha de montagem at\u00e9 mesmo \u00e0 biologia. O exemplo mais brutal \u00e9 a industrializa\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de aves. A partir dos anos 1930, o frango foi transformado em um objeto industrial: a integra\u00e7\u00e3o de vitamina D \u00e0 dieta (para permitir a vida em ambientes fechados), a ilumina\u00e7\u00e3o el\u00e9trica constante e o uso maci\u00e7o de antibi\u00f3ticos como promotores de crescimento reduziram pela metade o tempo necess\u00e1rio para levar um exemplar \u00e0 maturidade. No fim do s\u00e9culo XX, o n\u00famero de frangos abatidos para consumo de carne a cada ano passou de 6 bilh\u00f5es (em 1960) para 45 bilh\u00f5es. \u00c9 uma \u201cprodu\u00e7\u00e3o em massa\u201d biol\u00f3gica que derrubou os pre\u00e7os da carne muito mais rapidamente do que ocorreu em setores menos automatiz\u00e1veis, como o bovino.<\/p>\n<p>Estamos acostumados a pensar na produ\u00e7\u00e3o moderna como uma linha de montagem infinita que produz produtos id\u00eanticos (o modelo fordista). No entanto, a realidade industrial sempre foi mais fragmentada. Ainda em 1969, nos Estados Unidos, nada menos que 75% da produ\u00e7\u00e3o industrial era realizada em lotes (<em>batch production<\/em>), e n\u00e3o em linhas de montagem cont\u00ednuas.<\/p>\n<p>Um dos maiores erros da hist\u00f3ria econ\u00f4mica tamb\u00e9m foi ignorar o papel do reprodu\u00e7\u00e3o familiar como unidade produtiva. Embora o trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o apare\u00e7a nos c\u00e1lculos do PIB porque n\u00e3o \u00e9 remunerado, estudos baseados no uso do tempo indicam que ele representa uma parcela vari\u00e1vel entre 30% e mais de 100% do PIB convencionalmente medido.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o de tecnologias como a m\u00e1quina de lavar, o aspirador de p\u00f3 ou o fog\u00e3o a g\u00e1s n\u00e3o presenteou as donas de casa com \u201ctempo livre\u201d, como prometia a publicidade, mas transformou seu papel de \u201csupervisoras de empregados dom\u00e9sticos\u201d em \u201coperadoras de m\u00e1quinas\u201d. A produtividade do trabalho dom\u00e9stico aumentou vertiginosamente, levando n\u00e3o a menos esfor\u00e7o, mas a uma produ\u00e7\u00e3o interna mais intensa: roupas mais limpas, refei\u00e7\u00f5es mais complexas e padr\u00f5es de higiene mais elevados. Nesse sentido, a casa moderna foi um dos locais industriais mais significativos do s\u00e9culo, equipada com \u201cbens dur\u00e1veis\u201d que s\u00e3o, para todos os efeitos, instrumentos de produ\u00e7\u00e3o em massa.<\/p>\n<p>Em conclus\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o global ainda \u00e9 um processo f\u00edsico alimentado por materiais pesados e transportado por navios carregados de cont\u00eaineres (uma \u201cbanal\u201d inova\u00e7\u00e3o dos anos 1950 que transformou o com\u00e9rcio mundial). Os maiores empregadores de nosso tempo, como o Walmart, n\u00e3o s\u00e3o empresas de software, mas administradores de imensas cadeias de distribui\u00e7\u00e3o de objetos materiais produzidos em massa, frequentemente em na\u00e7\u00f5es que basearam seu crescimento na imita\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas \u201cvelhas\u201d, em vez da constante inven\u00e7\u00e3o do novo.<\/p>\n<h3><strong>Jogar fora ou reparar?<\/strong><\/h3>\n<p>Se a hist\u00f3ria da tecnologia fosse um drama teatral, nossa cultura atribuiria o papel de protagonista absoluto ao inovador, o g\u00eanio que patenteia o \u201cnovo\u201d, deixando na sombra, nos bastidores, uma multid\u00e3o incont\u00e1vel de figurantes: os profissionais da manuten\u00e7\u00e3o. E, no entanto, \u00e9 somente atrav\u00e9s do universo da manuten\u00e7\u00e3o e do reparo que o mundo material continua funcionando.<\/p>\n<p>Existe uma profunda desvaloriza\u00e7\u00e3o cultural da manuten\u00e7\u00e3o em favor da inova\u00e7\u00e3o. A inova\u00e7\u00e3o est\u00e1 associada ao otimismo, ao futuro e \u00e0 criatividade; a manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 percebida como uma atividade banal, repetitiva e, em certos aspectos, irritante. Essa distor\u00e7\u00e3o influencia at\u00e9 mesmo a percep\u00e7\u00e3o profissional: nos Estados Unidos e na Gr\u00e3-Bretanha, os engenheiros frequentemente rejeitam a associa\u00e7\u00e3o com o \u201ctrapo engordurado\u201d e a chave inglesa, preferindo apresentar-se como designers ou pesquisadores.<\/p>\n<p>No entanto, a realidade dos dados inverte essa narrativa. Um estudo realizado com engenheiros suecos em 1980 revelou que nada menos que 72% deles n\u00e3o inventavam nada, mas passavam a vida supervisionando e mantendo infraestruturas e m\u00e1quinas existentes. At\u00e9 mesmo o termo \u201cterotecnologia\u201d, cunhado nos anos 1960 para enobrecer a engenharia da manuten\u00e7\u00e3o, testemunha o esfor\u00e7o quase desesperado de conferir dignidade cient\u00edfica a um trabalho considerado subsidi\u00e1rio. O fato \u00e9 que, enquanto os inventores est\u00e3o concentrados em poucos lugares, os profissionais da manuten\u00e7\u00e3o est\u00e3o em toda parte onde h\u00e1 uso: s\u00e3o a forma mais difundida de compet\u00eancia t\u00e9cnica do planeta.<\/p>\n<p>Um objeto tecnol\u00f3gico n\u00e3o \u201cexiste\u201d historicamente apenas no momento de sua inven\u00e7\u00e3o, mas durante todo o tempo em que \u00e9 mantido vivo. A manuten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um acess\u00f3rio, mas a condi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica da m\u00e1quina. Paradoxalmente, os custos de manuten\u00e7\u00e3o ao longo de todo o ciclo de vida de um avi\u00e3o ou de um computador frequentemente superam o pre\u00e7o de aquisi\u00e7\u00e3o inicial. Para um PC moderno, estima-se que o custo de aquisi\u00e7\u00e3o represente apenas 10% do total; os 90% restantes desaparecem em atualiza\u00e7\u00f5es, reparos e suporte t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>A tecnologia \u00e9, em ess\u00eancia, uma entidade que exige vigil\u00e2ncia eterna. Como no c\u00e9lebre \u201cmachado do av\u00f4\u201d, ao qual foram trocados tanto o cabo quanto a l\u00e2mina, mas que continua sendo \u201co mesmo machado\u201d, a identidade de uma m\u00e1quina \u00e9 um processo de cont\u00ednua reconstru\u00e7\u00e3o. Os navios de guerra ou bombardeiros como o B-52, em servi\u00e7o desde os anos 1950 e previstos para permanecer at\u00e9 2040, n\u00e3o s\u00e3o objetos est\u00e1ticos, mas configura\u00e7\u00f5es fluidas que sobrevivem gra\u00e7as \u00e0 constante substitui\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as, lubrifica\u00e7\u00e3o e trabalho manual. Nessa perspectiva, o reparo n\u00e3o \u00e9 um retorno ao passado, mas a \u00fanica maneira de permitir que a tecnologia habite o presente.<\/p>\n<p>Aqui emerge uma diferen\u00e7a sociol\u00f3gica entre as na\u00e7\u00f5es ricas e as pobres. No mundo opulento do Norte global, a manuten\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica quase desapareceu em favor de uma cultura do descart\u00e1vel. Reparar hoje uma torradeira el\u00e9trica custa mais do que comprar uma nova, pois o tempo de trabalho de um t\u00e9cnico tem um pre\u00e7o superior ao pr\u00f3prio objeto. As m\u00e1quinas modernas funcionam durante toda a sua vida sem jamais serem lubrificadas, para ent\u00e3o serem jogadas fora ao primeiro defeito.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, nos pa\u00edses pobres, onde o capital \u00e9 escasso e os bens importados s\u00e3o preciosos, a manuten\u00e7\u00e3o torna-se uma forma de g\u00eanio coletivo. Em Gana, a \u00e1rea de Suame Magazine, em Kumasi, tornou-se lend\u00e1ria: um enorme centro a c\u00e9u aberto onde 40.000 \u201cfitters\u201d (reparadores) mant\u00eam vivos ve\u00edculos que no Ocidente seriam sucateados h\u00e1 d\u00e9cadas. Esses artes\u00e3os n\u00e3o se limitam a reparar; praticam uma \u201ctropicaliza\u00e7\u00e3o\u201d dos ve\u00edculos, transformando os ve\u00edculos originais por meio de uma intera\u00e7\u00e3o constante entre oficina e estrada. Criam juntas a partir de pneus velhos e substituem fus\u00edveis por fios de cobre, alcan\u00e7ando um \u201cestado de equil\u00edbrio\u201d no qual a m\u00e1quina parece poder funcionar indefinidamente e talvez nos ensinando que o futuro estar\u00e1 na capacidade de n\u00e3o deixar as coisas morrerem.<\/p>\n<h3><strong>Autarquia e Nacionalismo<\/strong><\/h3>\n<p>Existe uma forma de chauvinismo profundamente arraigada no discurso p\u00fablico: o mito nacionalista da inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa narrativa nos acostumou a medir o sucesso de uma na\u00e7\u00e3o com base no n\u00famero de patentes registradas ou no volume de investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&amp;D). No entanto, David Edgerton demonstra que a equa\u00e7\u00e3o \u201cmais inven\u00e7\u00e3o igual a mais crescimento\u201d \u00e9 historicamente falsa.<\/p>\n<p>O pressuposto convencional sugere que as na\u00e7\u00f5es precisam inventar para n\u00e3o decair. Mas os dados do s\u00e9culo XX contam uma hist\u00f3ria de compartilhamento e imita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de isolamento criativo. Tomemos o caso do chamado \u201cultrapassamento\u201d italiano dos anos 1980: a It\u00e1lia ultrapassou o Reino Unido em termos de produ\u00e7\u00e3o por habitante, apesar de gastar uma fra\u00e7\u00e3o m\u00ednima em P&amp;D em compara\u00e7\u00e3o com os brit\u00e2nicos. Enquanto os cientistas italianos lamentavam a falta de inova\u00e7\u00e3o local, o pa\u00eds prosperava imitando, importando e utilizando tecnologias nascidas em outros lugares.<\/p>\n<p>Da mesma forma, a Espanha viveu d\u00e9cadas de crescimento espetacular apesar de ser definida como um \u201csistema tecnol\u00f3gico que progride sem inovar\u201d. Tamb\u00e9m o milagre japon\u00eas e a recente ascens\u00e3o chinesa n\u00e3o s\u00e3o filhos de uma s\u00fabita explos\u00e3o de inven\u00e7\u00f5es radicais, mas de uma maci\u00e7a opera\u00e7\u00e3o de converg\u00eancia tecnol\u00f3gica: esses pa\u00edses recorreram a um conjunto global de conhecimentos, demonstrando que o uso inteligente das m\u00e1quinas alheias \u00e9 economicamente mais rent\u00e1vel do que a obsess\u00e3o pelo \u201cfeito em casa\u201d. Ao contr\u00e1rio, na\u00e7\u00f5es como a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que nos anos 1970 ostentava a maior for\u00e7a de trabalho do mundo empregada em P&amp;D, fracassaram em traduzir essa primazia inventiva em bem-estar material, permanecendo presas a um atraso tecnol\u00f3gico cr\u00f4nico em rela\u00e7\u00e3o ao Ocidente.<\/p>\n<p>Se a inova\u00e7\u00e3o \u00e9 globalizada, a pol\u00edtica frequentemente permaneceu obstinadamente nacionalista. Ao longo do s\u00e9culo XX, muitos Estados procuraram \u201cnacionalizar\u201d a tecnologia para fins de prest\u00edgio ou autossufici\u00eancia militar, caindo na armadilha da autarquia. George Orwell observou perspicazmente, em 1944, que, ao contr\u00e1rio das promessas dos futuristas que viam no avi\u00e3o e no r\u00e1dio instrumentos de fraternidade universal, essas tecnologias eram usadas para refor\u00e7ar as fronteiras e alimentar novos despotismos nacionais.<\/p>\n<p>Os projetos aut\u00e1rquicos mais ambiciosos, como a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo a partir do carv\u00e3o (hidrogena\u00e7\u00e3o) na Alemanha nazista ou na \u00c1frica do Sul do apartheid, s\u00e3o exemplos evidentes dessa irracionalidade. Eram tecnologias criadas n\u00e3o por efici\u00eancia econ\u00f4mica \u2014 o petr\u00f3leo sint\u00e9tico n\u00e3o podia competir com o natural \u2014, mas para isolar a na\u00e7\u00e3o do mercado mundial. Paradoxalmente, at\u00e9 mesmo esses esfor\u00e7os de isolamento estavam impregnados de transnacionalismo: as patentes para a hidrogena\u00e7\u00e3o eram controladas por um cartel que inclu\u00eda a alem\u00e3 IG Farben, a americana Standard Oil e a anglo-holandesa Shell.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que as conex\u00f5es tecnol\u00f3gicas entre os povos quase nunca seguem as fronteiras dos Estados. Edgerton cita o exemplo esclarecedor de Aliano, uma pobre aldeia da Basilicata em 1935: em pleno regime fascista e aut\u00e1rquico, os instrumentos agr\u00edcolas dos camponeses, tesouras, machados, l\u00e2minas, n\u00e3o vinham de Roma ou Turim, mas eram enviados por parentes emigrados para Pittsburgh e Nova York. Eles estavam mais conectados tecnologicamente aos Estados Unidos do que ao restante da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo a tecnologia militar mais \u201cnacional\u201d frequentemente foi fruto de interc\u00e2mbios subterr\u00e2neos ou autorizados. Nos c\u00e9us da Coreia, os MiG-15 sovi\u00e9ticos voavam gra\u00e7as a motores a jato brit\u00e2nicos (o Rolls-Royce Nene), cujos projetos haviam sido transferidos com autoriza\u00e7\u00e3o oficial em 1946. E o programa at\u00f4mico sovi\u00e9tico foi uma quase c\u00f3pia da bomba de plut\u00f4nio americana, possibilitada por espionagem e colabora\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Em ess\u00eancia, a na\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a unidade de medida correta para compreender o progresso material. As empresas multinacionais, os fluxos migrat\u00f3rios e a capacidade de imita\u00e7\u00e3o pesam muito mais do que a bandeira fincada no primeiro prot\u00f3tipo. O sucesso econ\u00f4mico no s\u00e9culo XX n\u00e3o pertenceu \u00e0queles que inventaram mais, mas \u00e0queles que souberam tirar melhor proveito dessas descobertas.<\/p>\n<h3><strong>Lama e Wunderwaffen<\/strong><\/h3>\n<p>Se entrarmos em um museu de ci\u00eancia, a hist\u00f3ria da guerra nos parecer\u00e1 uma sequ\u00eancia ordenada de \u201carmas milagrosas\u201d: o radar que rasga as trevas, o jato que supera o som, a bomba at\u00f4mica que p\u00f5e fim a tudo.<\/p>\n<p>No entanto, se deslocarmos o olhar dos prot\u00f3tipos reluzentes para a realidade crua do front, descobriremos que o s\u00e9culo XX n\u00e3o foi o s\u00e9culo do futuro radiante, mas o da produ\u00e7\u00e3o em massa de tecnologias velhas, robustas e letais.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o can\u00f4nica entre uma Primeira Guerra Mundial dos \u201cqu\u00edmicos\u201d (pelos gases) e uma Segunda dos \u201cf\u00edsicos\u201d (pelo \u00e1tomo e pelo radar) \u00e9 uma ilus\u00e3o de \u00f3tica. A verdade \u00e9 que o massacre foi perpetrado por instrumentos que tamb\u00e9m poderiam ter sido compreendidos pelos generais do final do s\u00e9culo XIX. Na Grande Guerra, quem matou n\u00e3o foram tanto as novidades, mas a artilharia pesada e os fuzis: dos 10 milh\u00f5es de mortos, 5 milh\u00f5es ca\u00edram sob o fogo dos canh\u00f5es e 3 milh\u00f5es sob o das armas leves. At\u00e9 mesmo a \u201crevolu\u00e7\u00e3o nos assuntos militares\u201d, que hoje associamos aos computadores, j\u00e1 estava conclu\u00edda em 1917, n\u00e3o gra\u00e7as a chips eletr\u00f4nicos, mas por meio da coordena\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de mapas, comunica\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas e observa\u00e7\u00e3o a\u00e9rea para dirigir o fogo de velhos canh\u00f5es de maneira cient\u00edfica.<\/p>\n<p>O mito da primazia cient\u00edfica cai miseravelmente diante da log\u00edstica. Estamos acostumados a pensar na Segunda Guerra Mundial como um desfile de divis\u00f5es blindadas, mas, para a Wehrmacht alem\u00e3, o motor da conquista n\u00e3o foram os tanques, mas os cavalos. No Oriente, a impressionante conquista da Mal\u00e1sia pelos japoneses em 1941 ocorreu com uma \u201cblitzkrieg de bicicleta\u201d: as tropas imperiais requisitaram milhares de bicicletas da popula\u00e7\u00e3o local, deslocando-se pelas estradas muito mais rapidamente do que a log\u00edstica motorizada brit\u00e2nica poderia prever.<\/p>\n<p>As guerras do s\u00e9culo XX foram vencidas n\u00e3o pela arma mais avan\u00e7ada, mas pela capacidade industrial de padronizar o velho. O fuzil Lee-Enfield, por exemplo, permaneceu como eixo central do ex\u00e9rcito brit\u00e2nico e indiano desde o in\u00edcio do s\u00e9culo at\u00e9 o final dos anos 1950. Mas o verdadeiro soberano do campo de batalha p\u00f3s-guerra foi o Kalashnikov (AK-47): uma arma projetada em 1947, simples, rudimentar e produzida em cerca de 100 milh\u00f5es de exemplares. \u00c9 essa \u201cbaixa tecnologia\u201d que matou muito mais do que jamais fizeram os bombardeiros estrat\u00e9gicos ou os m\u00edsseis intercontinentais.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria hist\u00f3rica, contudo, realiza uma remo\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do uso do tradicional. Celebramos os computadores de Alan Turing em Bletchley Park, mas esquecemos que a maioria das mensagens militares sovi\u00e9ticas ainda viajava em papel transportado por mensageiros. Analisamos o conflito no Vietn\u00e3 como o \u00e1pice do poder tecnol\u00f3gico americano, que utilizou o dobro da quantidade de muni\u00e7\u00f5es da Segunda Guerra Mundial para saturar a selva de fogo, mas o resultado foi a derrota do colosso tecnol\u00f3gico diante de uma economia pobre. Nesse conflito, as bicicletas da trilha Ho Chi Minh derrotaram os B-52. Enquanto os Estados Unidos gastavam bilh\u00f5es em sensores e desfolhantes como o Agente Laranja, os vietnamitas venciam transportando suprimentos sobre quadros de bicicletas refor\u00e7ados, demonstrando que a superioridade t\u00e9cnica \u00e9 um \u201ctigre de papel\u201d se n\u00e3o souber habitar a lama da realidade.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da guerra nos ensina que o progresso b\u00e9lico n\u00e3o \u00e9 uma linha reta rumo ao futuro, mas uma acumula\u00e7\u00e3o de instrumentos. As trincheiras, o arame farpado e os sacos de areia convivem com os drones.<\/p>\n<h3><strong>A Banalidade da Morte<\/strong><\/h3>\n<p>O processo civilizat\u00f3rio foi frequentemente descrito como o progressivo afastamento da viol\u00eancia da esfera p\u00fablica, mas o s\u00e9culo XX n\u00e3o reduziu a matan\u00e7a, tornou-a invis\u00edvel, deslocando a execu\u00e7\u00e3o do criminoso ou o abate do gado para tr\u00e1s das paredes de estruturas fechadas e especializadas. David Edgerton nos convida a observar uma \u201chist\u00f3ria de tirar a vida\u201d que n\u00e3o segue o raio luminoso da alta tecnologia, mas se esconde na sombra de instrumentos antigos, processos industriais med\u00edocres e inova\u00e7\u00f5es inesperadas.<\/p>\n<p>A morte industrial n\u00e3o nasceu nos totalitarismos do s\u00e9culo XX. As ra\u00edzes t\u00e9cnicas desse fen\u00f4meno est\u00e3o fincadas no capitalismo americano do final do s\u00e9culo XIX. Os matadouros de Chicago, descritos por Upton Sinclair em <em>The Jungle<\/em>, n\u00e3o eram apenas locais de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, mas os precursores de um modelo organizacional baseado na \u201cdiscri\u00e7\u00e3o\u201d e na efici\u00eancia mec\u00e2nica. Ali, pela primeira vez, aplicou-se a l\u00f3gica da linha de montagem, ou melhor, de \u201cdesmontagem\u201d, na qual a gravidade e os transportadores a\u00e9reos conduziam a transforma\u00e7\u00e3o do ser vivo em mat\u00e9ria inerte em ritmos vertiginosos.<\/p>\n<p>Essa tecnologia de abate, que em Chicago ou no complexo de Fray Bentos, no Uruguai, permitia abater milh\u00f5es de cabe\u00e7as de gado por ano com o uso brutal de martelos e facas, forneceu o modelo log\u00edstico para a morte em massa de seres humanos. Embora Auschwitz-Birkenau seja frequentemente citado como a \u201cf\u00e1brica da morte\u201d por excel\u00eancia, Edgerton desmistifica sua natureza puramente \u201chi-tech\u201d. As estruturas de exterm\u00ednio nazistas n\u00e3o eram instala\u00e7\u00f5es fluidas e automatizadas; eram frequentemente locais prec\u00e1rios, onde os fornos cremat\u00f3rios quebravam e era necess\u00e1rio recorrer a m\u00e9todos antigos, como valas comuns ou fogueiras ao ar livre. O paradoxo \u00e9 que a capacidade de matar dois milh\u00f5es de pessoas em um ano, um n\u00famero que assombra por sua escala, j\u00e1 era tecnicamente poss\u00edvel no in\u00edcio do s\u00e9culo utilizando os m\u00e9todos dos matadouros de Chicago, baseados simplesmente na for\u00e7a de trabalho e em instrumentos primordiais como o machado de l\u00e2mina longa.<\/p>\n<p>Nossa fixa\u00e7\u00e3o pela arma at\u00f4mica ou pelos m\u00edsseis nos impede de ver quais foram os verdadeiros instrumentos da destrui\u00e7\u00e3o humana. A esmagadora maioria dos massacres do s\u00e9culo XX foi perpetrada com tecnologias velhas e de baixo custo.<\/p>\n<p>No caso do genoc\u00eddio ruand\u00eas de 1994, em apenas cem dias, centenas de milhares de pessoas foram mortas a uma velocidade que rivaliza com a do sistema nazista, mas sem c\u00e2maras de g\u00e1s ou trens blindados. O principal instrumento n\u00e3o foi o computador ou o sensor a laser, mas o fac\u00e3o: uma tecnologia agr\u00edcola antiqu\u00edssima que o governo hutu transformou em m\u00e1quina de exterm\u00ednio, importando um milh\u00e3o de unidades em 1993, uma para cada tr\u00eas homens do pa\u00eds. Essa \u201cinova\u00e7\u00e3o no uso\u201d de um objeto banal demonstra que a efic\u00e1cia do massacre depende menos da complexidade cient\u00edfica do que da capilaridade e da gest\u00e3o pol\u00edtica do trabalho manual do carrasco.<\/p>\n<p>Mesmo no cora\u00e7\u00e3o do Estado de direito, a tecnologia da pena de morte desafia a ideia de um progresso moral paralelo ao progresso t\u00e9cnico. As democracias ocidentais mantiveram durante muito tempo instrumentos mec\u00e2nicos e medievais de execu\u00e7\u00e3o: a Gr\u00e3-Bretanha utilizou a forca at\u00e9 meados dos anos 1960, a Espanha, o garrote, e a Fran\u00e7a, a guilhotina, o ic\u00f4nico res\u00edduo da Revolu\u00e7\u00e3o que viveu um pico macabro de utiliza\u00e7\u00e3o justamente sob o regime nazista (que encomendou vinte exemplares para suas pris\u00f5es).<\/p>\n<p>O caso dos Estados Unidos \u00e9 emblem\u00e1tico de uma frenesi inovadora que esconde uma continuidade obstinada. Da passagem da cadeira el\u00e9trica (final do s\u00e9culo XIX) para a c\u00e2mara de g\u00e1s (1924), at\u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o da inje\u00e7\u00e3o letal em 1982, o objetivo n\u00e3o foi reduzir a viol\u00eancia, mas minimizar a deforma\u00e7\u00e3o visual do cad\u00e1ver e o trauma do pessoal. E, no entanto, as antigas m\u00e1quinas de gaseifica\u00e7\u00e3o ou cadeiras el\u00e9tricas permaneceram em servi\u00e7o durante d\u00e9cadas, frequentemente porque eram mais f\u00e1ceis de manter ou por pregui\u00e7a burocr\u00e1tica, at\u00e9 que o desgaste as tornou impratic\u00e1veis. A recente difus\u00e3o da inje\u00e7\u00e3o letal n\u00e3o sinaliza um salto \u00e9tico, mas a ado\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo \u201climpo\u201d e burocratizado que permite ao Estado continuar matando sem romper a barreira do vis\u00edvel.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na hist\u00f3ria tecnol\u00f3gica da viol\u00eancia o velho nunca morre completamente, e a verdadeira modernidade n\u00e3o reside na novidade do instrumento, mas na assustadora capacidade de utilizar instrumentos do passado para fins que o passado jamais teria imaginado.<\/p>\n<h3><strong>Inven\u00e7\u00f5es e Fracassos<\/strong><\/h3>\n<p>Estamos acostumados a imaginar o inventor como um semideus beijado pela inspira\u00e7\u00e3o, um Prometeu moderno que rasga o v\u00e9u do amanh\u00e3. A hist\u00f3ria da tecnologia \u00e9 um relato de triunfos: lembramos do jato, do computador, do mapeamento do DNA porque venceram.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 uma hist\u00f3ria manipulada, escrita com o benef\u00edcio do retrospecto. Se realmente quisermos compreender o engenho humano, precisamos descer \u00e0s criptas empoeiradas dos escrit\u00f3rios de patentes onde est\u00e3o enterrados in\u00fameros fracassos.<\/p>\n<p>A esmagadora maioria das patentes, de fato, jamais foi utilizada, n\u00e3o gerou um centavo e revelou-se um beco sem sa\u00edda econ\u00f4mico. Cerca de 90% das patentes desaparecem antes do t\u00e9rmino legal da prote\u00e7\u00e3o porque ningu\u00e9m est\u00e1 disposto a pagar para mant\u00ea-las vivas.<\/p>\n<p>E, no entanto, nossa cultura sofre de um cr\u00f4nico \u201cboosterismo\u201d tecnol\u00f3gico que confunde novidade com import\u00e2ncia. Tratamos a inven\u00e7\u00e3o como se fosse um destino manifesto, esquecendo que viver em uma \u00e9poca inventiva exige, paradoxalmente, a capacidade de rejeitar a maior parte das novidades oferecidas.<\/p>\n<p>Essa amn\u00e9sia hist\u00f3rica nos impede de ver que a inven\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma marcha triunfal, mas um processo de acumula\u00e7\u00e3o desordenada no qual o \u201cnovo\u201d frequentemente n\u00e3o \u00e9 nem um pouco melhor do que o \u201cvelho\u201d e no qual a inova\u00e7\u00e3o mais fren\u00e9tica n\u00e3o ocorre necessariamente nos setores hi-tech, mas naqueles que consideramos obsoletos. \u00c9 a ironia do \u201cefeito navio \u00e0 vela\u201d: a ind\u00fastria dos veleiros produziu seus maiores avan\u00e7os t\u00e9cnicos justamente quando estava amea\u00e7ada pelo vapor.<\/p>\n<p>Outro pilar de nosso imagin\u00e1rio \u00e9 o grande laborat\u00f3rio de Pesquisa e Desenvolvimento empresarial ou estatal. Imaginamos esses lugares como as \u00fanicas forjas da mudan\u00e7a global. Certamente foram importantes, mas sua centralidade foi exagerada. Muitas das inven\u00e7\u00f5es mais radicais nasceram no uso cotidiano, sob o controle de usu\u00e1rios que adaptavam as m\u00e1quinas \u00e0s pr\u00f3prias necessidades, longe dos jalecos brancos.<\/p>\n<p>Os dados sobre os gastos em P&amp;D no final do s\u00e9culo XX oferecem um delicioso contraponto aos profetas da \u201cnova economia\u201d: no topo da lista dos maiores investidores mundiais n\u00e3o estavam a Microsoft ou gigantes do software, mas a General Motors e a Ford.<\/p>\n<p>Frequentemente, inova\u00e7\u00f5es organizacionais e comerciais, que n\u00e3o t\u00eam nada de \u201ccient\u00edfico\u201d no sentido acad\u00eamico do termo, tiveram um impacto incr\u00edvel. Enquanto o mundo celebrava a desmaterializa\u00e7\u00e3o digital e a inform\u00e1tica, Ingvar Kamprad, o fundador da IKEA, acumulava uma riqueza que, segundo algumas estimativas, superava a de Bill Gates, vendendo a coisa mais material e antiga do mundo: m\u00f3veis de madeira. A inven\u00e7\u00e3o de Kamprad n\u00e3o foi uma descoberta de laborat\u00f3rio, mas a padroniza\u00e7\u00e3o no design <em>flat-pack<\/em> e na transforma\u00e7\u00e3o dos consumidores em trabalhadores n\u00e3o remunerados, que montam seus pr\u00f3prios m\u00f3veis em casa. A IKEA vendeu 28 milh\u00f5es de estantes Billy: essa \u00e9 uma massa material que transformou a paisagem dom\u00e9stica planet\u00e1ria, \u00e9 uma vit\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o em massa aplicada ao cotidiano banal, transportada por navios carregados de cont\u00eaineres, outra \u201ccaixa\u201d banal que domina o com\u00e9rcio mundial.<\/p>\n<p>Em uma velha piada sovi\u00e9tica, o inventor que prop\u00f5e uma m\u00e1quina para fazer casas de bot\u00e3o ouve o ministro responder: \u00abCamarada, n\u00e3o precisamos disso, voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea que estamos na era do Sputnik?\u00bb. Assim, frequentemente investimos bilh\u00f5es em setores \u201cde prest\u00edgio\u201d, como o aeroespacial ou o nuclear, que muitas vezes produziram apenas fracassos comerciais, enquanto a verdadeira transforma\u00e7\u00e3o do mundo material acontecia em outros lugares.<\/p>\n<h3><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Como antecipei no in\u00edcio, a vis\u00e3o de David Edgerton n\u00e3o me convenceu plenamente. Alguns de seus exemplos s\u00e3o, na minha opini\u00e3o, \u201cfor\u00e7ados\u201d para faz\u00ea-los coincidir com sua narrativa que, por sua vez, carece de uma vis\u00e3o sist\u00eamica completamente coerente.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, quando, na conclus\u00e3o, ele diz que \u00e9 preciso parar de falar de \u201ctecnologia\u201d e come\u00e7ar a falar de \u201ccoisas\u201d, porque o termo \u201ctecnologia\u201d tornou-se um fetiche ideol\u00f3gico usado para evocar uma for\u00e7a hist\u00f3rica independente que nos arrasta rumo a um amanh\u00e3 inevit\u00e1vel, toca em aspectos ligados \u00e0s nossas dificuldades cotidianas.<\/p>\n<p>Aceitamos passivamente a desindustrializa\u00e7\u00e3o de nossas sociedades porque nos venderam um futuro de \u201csetor terci\u00e1rio avan\u00e7ado\u201d que, na pr\u00e1tica, est\u00e1 se transformando, para muitos, em trabalhos antigos e cansativos, como o gar\u00e7om em um restaurante tur\u00edstico ou o entregador de pizzas, porque nem todos os 60 milh\u00f5es de italianos podem ser programadores de intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>A ret\u00f3rica futurista tende a subestimar o passado e superestimar o presente, ignorando que a mudan\u00e7a estrutural no mundo rico n\u00e3o foi mais r\u00e1pida nas \u00faltimas d\u00e9cadas do que em meados do s\u00e9culo XX, e Edgerton ressalta que a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apenas crescimento, mas tamb\u00e9m pode ser decl\u00ednio e regress\u00e3o.<\/p>\n<p>Repensar a hist\u00f3ria da tecnologia significa, portanto, repensar a hist\u00f3ria do mundo. Quando colocamos no centro a tecnologia que realmente importa, aquela difundida, persistente e cotidiana, descobrimos que o mundo n\u00e3o se tornou uma \u201caldeia global\u201d imaterial, mas continua sendo um lugar definido por fronteiras, na\u00e7\u00f5es, guerras reais e uma obstinada acumula\u00e7\u00e3o de objetos materiais nos quais a maioria das pessoas utiliza ferramentas que n\u00e3o possui.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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O g\u00eanio que patenteia o \u201cnovo\u201d tem mais valor que a engenharia da manuten\u00e7\u00e3o? Livro polemiza: o futuro n\u00e3o \u00e9 a elimina\u00e7\u00e3o do velho; e o compartilhamento e a imita\u00e7\u00e3o superam o \u201cisolamento criativo\u201d<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/tecnica-e-tradicao-os-que-criam-e-os-que-conservam\/\">T\u00e9cnica e tradi\u00e7\u00e3o: Os que criam e os que conservam<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":106021,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[83336,4466,83337,83338,1942,56629,83339,83340,23524,1482,35,5493,15905,2387,83341],"tags":[],"class_list":["post-106020","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-chauvinismo","category-desenvolvimento-economico","category-evolucao","category-historia-da-tecnologia","category-inovacao","category-passado","category-pequenas-tecnologias","category-producao-moderna","category-produtividade","category-sul-global","category-tecnologia","category-tecnologia-em-disputa","category-tempo","category-urbanizacao","category-velho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/106020","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=106020"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/106020\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/106021"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=106020"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=106020"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=106020"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}