{"id":108226,"date":"2026-10-08T17:55:50","date_gmt":"2026-10-08T20:55:50","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-entender-a-fundo-as-desigualdades-globais\/"},"modified":"2026-10-08T17:55:50","modified_gmt":"2026-10-08T20:55:50","slug":"para-entender-a-fundo-as-desigualdades-globais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-entender-a-fundo-as-desigualdades-globais\/","title":{"rendered":"Para entender a fundo as desigualdades globais"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"942\" height=\"571\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Captura-de-tela-de-2026-10-08-19-57-03.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Captura-de-tela-de-2026-10-08-19-57-03.png 942w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/Captura-de-tela-de-2026-10-08-19-57-03-300x182.png 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/Captura-de-tela-de-2026-10-08-19-57-03-768x466.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 942px) 100vw, 942px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Quase metade da popula\u00e7\u00e3o mundial vive na pobreza. Em contrapartida, a riqueza dos bilion\u00e1rios aumentou 81% desde 2020. Os bilion\u00e1rios t\u00eam ainda, 4.000 vezes mais probabilidade de ocupar cargos pol\u00edticos do que pessoas comuns. No Brasil, o 1% mais rico j\u00e1 <u>concentra 24,3%<\/u> de toda a renda do pa\u00eds, segundo dados da Oxfam. A desigualdade, ampliada como nunca sob o capitalismo tardio, \u00e9 um tema t\u00e3o relevante quanto negligenciado pelas m\u00eddias comerciais. Mas como examin\u00e1-la, em detalhes?<\/p>\n<p>Uma iniciativa lan\u00e7ada h\u00e1 poucas semanas d\u00e1 pistas importantes. O site<em> Our World in Data<\/em> (OWID) \u2013 que foi a principal refer\u00eancia no acompanhamento das consequ\u00eancias da covid-19 \u2013 tornou p\u00fablica, na internet, a ferramenta<em> Desigualdades Econ\u00f4micas.<\/em> Talvez o t\u00edtulo seja modesto. A partir do site criado por OWID, \u00e9 poss\u00edvel acessar, de modo interativo, tanto estat\u00edsticas globais antes pouco vis\u00edveis quanto um conjunto de estudos sobre elas.<\/p>\n<p>Os textos revelam: os primeiros estudos sobre desigualdade, em um contexto de industrializa\u00e7\u00e3o, urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada e transforma\u00e7\u00e3o profunda nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, focaram na rela\u00e7\u00e3o capital x trabalho. Examinavam que fatia da renda dos pa\u00edses destinava-se aos capitalistas e a que quinh\u00e3o era destinado aos trabalhadores. Tais estudos renda foram de grande relev\u00e2ncia \u00e0 \u00e9poca. A partir dessa base inicial, surgiram ao longo do s\u00e9culo XX outras an\u00e1lises que procuravam compreender como a renda total \u00e9 dividida entre os indiv\u00edduos ou fam\u00edlias e complementavam os trabalhos iniciais com informa\u00e7\u00f5es mais detalhadas sobre a desigualdade entre as popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esta busca abriu espa\u00e7o para medidas estat\u00edsticas como o<u> coeficiente de Gini<\/u>. Ele varia de 0 a 1. Quanto mais perto o coeficiente calculado sobre uma determinada realidade estiver de 0, mais pr\u00f3ximo da igualdade perfeita; quanto mais pr\u00f3ximo de 1, maior a concentra\u00e7\u00e3o de renda. Foram criadas tamb\u00e9m as <u>Curvas de Lorenz<\/u>, gr\u00e1ficos que comparam a distribui\u00e7\u00e3o real da renda com uma distribui\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica perfeitamente igualit\u00e1ria. Surgiu a t\u00e9cnica de dividir as popula\u00e7\u00f5es em <em>decis<\/em> e <em>centis<\/em> \u2014 para examinar como a renda total flui para cada fatia de 1\/10 ou 1\/100 de uma determinada sociedade. E cresceu, tamb\u00e9m, a preocupa\u00e7\u00e3o com os efeitos da desigualdade na economia.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Prancheta-4-8.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Prancheta-4-8.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A busca por melhorias na mensura\u00e7\u00e3o da desigualdade segue at\u00e9 hoje. O avan\u00e7o na coleta e cruzamento de dados em escala global ampliou o debate sobre o assunto. Fontes e metodologias foram concentradas em plataformas de acesso p\u00fablico. Fundada pelo economista e historiador <u>Max Roser<\/u> e mantida em parceria com pesquisadores da Universidade de Oxford, a plataforma<u> Our World in Data (OWID)<\/u> busca ampliar estes estudos. As ferramentas rec\u00e9m-lan\u00e7adas baseiam-se em tr\u00eas fontes principais: a Plataforma de Pobreza e Desigualdade do Banco Mundial, o Estudo de Renda de Luxemburgo e a Base de Dados Mundial sobre Desigualdade.<\/p>\n<p>Ao organizar e popularizar os dados da<u> Plataforma sobre Pobreza e Desigualdade (PIP) do Banco Mundial<\/u> \u2014 que abrangem quase todos os pa\u00edses do mundo, a OWID joga luz sobre a desigualdade interna de cada pa\u00edses. Ao faz\u00ea-lo, permite tamb\u00e9m algumas compara\u00e7\u00f5es internacionais. O gr\u00e1fico abaixo permite compreender a l\u00f3gica. A cada pa\u00eds s\u00e3o associados dados mostrando quanto o decil superior (os 10% mais ricos) tem renda superior ao inferior. Acompanhe: apesar de os ricos dos Estados Unidos terem rendas mais altas que seus pares na Alemanha, o cen\u00e1rio se inverte na base. Uma pessoa entre as 10% mais pobres da popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3 vive um pouco melhor do que sua equivalente estadunidense.<\/p>\n<p>A dist\u00e2ncia fica ainda mais evidente quando o comparativo envolve pa\u00edses de baixa renda: em Angola e Madagascar, mesmo quem est\u00e1 no topo da distribui\u00e7\u00e3o de renda vive com valores muito baixos se comparado aos padr\u00f5es de na\u00e7\u00f5es com mais renda, a ponto de o \u201crico\u201d desses pa\u00edses ser considerado, pelos par\u00e2metros internacionais, pobre. Os pa\u00edses listados a seguir s\u00e3o apenas um exemplo. A interatividade da ferramenta presente na plataforma permite incluir ou excluir da lista dezenas de pa\u00edses, o que torna as compara\u00e7\u00f5es particularmente interessantes.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1094\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-10-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/image-10-1500x1094.png 1500w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/image-10-300x219.png 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/image-10-768x560.png 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-10-3.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Raz\u00e3o entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres \u2013 Fonte: Plataforma de Pobreza e Desigualdade do Banco Mundial (2026), via Our World in Data. Licenciado sob CC BY, autor Joe Hasell.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>PARA ENTENDER O GR\u00c1FICO<\/strong>: No Brasil, quem est\u00e1 na faixa dos 10% mais pobres vive, segundo o Banco Mundial, com US$ 161 por m\u00eas, enquanto quem est\u00e1 entre os 10% mais ricos tem uma renda de US$ 1.626 \u2014 uma diferen\u00e7a de 10 vezes. Embora o Vietn\u00e3 e Madagascar apresentem a mesma diferen\u00e7a de renda entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres, a renda dos mais pobres do segundo pa\u00eds \u00e9 mais de cinco vezes menor que a dos mais pobres do primeiro. Al\u00e9m disso, a renda do decil mais pobre no Brasil \u00e9 menor do que a do mesmo grupo no Vietn\u00e3.<\/p>\n<h3><strong>Por que n\u00e3o compreendemos como o mundo \u00e9 desigual<\/strong><\/h3>\n<p>Os artigo da nova plataforma do OWID levantam um segundo ponto importante: pessoas de pa\u00edses ricos desconhecem que a maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial vive com uma renda muito baixa; logo, subestimam qu\u00e3o desigual o mundo realmente \u00e9. Os dados do Banco Mundial, estimaram para 2026 uma renda mediana global de U$ 290 por m\u00eas. Metade da popula\u00e7\u00e3o mundial vive com menos do que esse valor.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de dados que permitam a an\u00e1lise da desigualdade para al\u00e9m de nossas experi\u00eancias individuais e que permitam pensar na desigualdade econ\u00f4mica em termos globais serve para demonstrar que o problema da desigualdade \u00e9 bem maior, complexo e cercado de fatores que a maioria n\u00e3o imagina. Um deles, sustenta a OWID, s\u00e3o as escolhas institucionais e pol\u00edticas.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1365\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-11.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/image-11-1500x1365.png 1500w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/image-11-300x273.png 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/image-11-768x699.png 768w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/image-11-1536x1398.png 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-11.png 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Renda ou consumo mensal por decil (do mais pobre ao mais rico) em quatro pa\u00edses (d\u00f3lares ajustados pela infla\u00e7\u00e3o e custo de vida). Fonte \u2013 Plataforma de Pobreza e Desigualdade do Banco Mundial (2026), via Our World in Data. Licenciado sob CC BY, autor Joe Hasell.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>PARA ENTENDER O GR\u00c1FICO<\/strong>: Em todos os pa\u00edses retratados, a renda no topo cresce mais r\u00e1pido que na base. Nos EUA, o distanciamento entre o decil mais rico e os demais se acentua sobretudo na \u00faltima d\u00e9cada, com o topo disparando enquanto a base permanece quase estagnada desde 1963. No Brasil, a linha dos mais ricos oscila bruscamente entre 1981 e 1994 e sofre uma queda vis\u00edvel no in\u00edcio dos anos 2020, antes de retomar a trajet\u00f3ria de alta. Na B\u00e9lgica, a dist\u00e2ncia entre os decis \u00e9 a menor entre os quatro pa\u00edses: o crescimento \u00e9 mais uniforme e gradual. J\u00e1 na China, o padr\u00e3o \u00e9 o mais extremo: partindo de uma base extremamente baixa at\u00e9 os anos 1990, a renda do decil mais rico cresce de forma quase exponencial a partir dos anos 2000, abrindo um grande espa\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o aos decis mais pobres.<\/p>\n<p>A OWID ainda aponta que existem limita\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 comparabilidade dos pontos de dados entre os pa\u00edses ao longo dos anos. A combina\u00e7\u00e3o de dados de renda e de consumo, que est\u00e3o relacionados, mas n\u00e3o s\u00e3o iguais, pode atrapalhar estimativas. Quem ganha mais, geralmente tem o consumo menor do que a renda; j\u00e1 quem ganha menos pode, em grande parte das vezes, ter o consumo maior que a renda, o que leva \u00e0 busca por empr\u00e9stimos ou \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de suas economias. Isso faz com que a desigualdade seja maior quando baseada em renda ao inv\u00e9s de dados de consumo.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90.png 728w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/02\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Outra limita\u00e7\u00e3o dos dados do Banco Mundial \u00e9 a dificuldade para captar a renda dos mais ricos. O grupo abrange os menos propensos a participar das pesquisas, problema denominado de \u201cricos ocultos\u201d. Quando participam, costumam subdeclarar sua renda. A parcela mais pobre tamb\u00e9m pode ser omitida, pois vive sem endere\u00e7o fixo ou em \u00e1reas que os pesquisadores n\u00e3o conseguem acessar. Segundo o artigo, em 2026, aproximadamente 30 pa\u00edses n\u00e3o possu\u00edam dados de pesquisa da d\u00e9cada anterior. O Banco Mundial precisa estimar os dados faltantes para calcular m\u00e9dias regionais ou globais, o que torna essas estimativas menos precisas.<\/p>\n<h3><strong>O poder da comparabilidade de renda<\/strong><\/h3>\n<p>A segunda fonte empregada pela plataforma do OWID \u00e9 Banco de Dados de Estudos de Renda de Luxemburgo (LIS). Possui esse nome por conta do pa\u00eds onde a base de dados \u00e9 sediada. Abrange 5 d\u00e9cadas de dados de renda, coletados em 52 pa\u00edses da Europa, Am\u00e9rica do Norte, Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica, \u00c1sia e Austral\u00e1sia. O LIS objetiva priorizar a comparabilidade entre os pa\u00edses atrav\u00e9s da harmoniza\u00e7\u00e3o de dados dos domic\u00edlios individuais, mapeando-os em um conjunto comum de defini\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O LIS emprega um mecanismo conhecido como \u201cequival\u00eancia\u201d, t\u00e9cnica estat\u00edstica utilizada para tornar as rendas compar\u00e1veis entre fam\u00edlias de tamanhos ou composi\u00e7\u00f5es et\u00e1rias diferentes. Faz-se um ajuste levando em considera\u00e7\u00e3o que, nas fam\u00edlias, seus membros podem compartilhar gastos, o que traz resultados diferentes para os estudos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso \u2013 e muito importante \u2013. o LIS tamb\u00e9m trabalha para captar a renda antes e depois dos impostos e benef\u00edcios produzidos pelas pol\u00edticas p\u00fablicas. Isso permite estudar os efeitos da a\u00e7\u00e3o estatal sobre os rendimentos . Segundo estudo publicado pelo Social Science Research Council (SSRC), com base em dados do LIS, a l\u00f3gica por tr\u00e1s dessa an\u00e1lise \u00e9 comparar, para as mesmas fam\u00edlias, dois indicadores de desigualdade: o Gini da renda de mercado (o que a fam\u00edlia ganha antes de qualquer interven\u00e7\u00e3o do Estado) e o Gini da renda dispon\u00edvel (o que sobra ap\u00f3s pagar impostos e obter benef\u00edcios, como aposentadorias e seguro-desemprego). Os pesquisadores explicam que \u00e9 comum, nesse campo de estudo, considerar a diferen\u00e7a entre esses dois indicadores para medir o quanto cada governo redistribui.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, essa redistribui\u00e7\u00e3o acontece por alguns canais principais: impostos diretos sobre a renda, que retiram (ou deveriam retirar) uma fatia maior de quem ganha mais; e transfer\u00eancias do Estado, como aposentadorias, seguro-desemprego e benef\u00edcios assistenciais, que somam renda a quem tem menos. Um <u>levantamento do pr\u00f3prio LIS<\/u> mostra o quanto esses mecanismos pesam de pa\u00eds para pa\u00eds: em na\u00e7\u00f5es como Finl\u00e2ndia, Alemanha, Pol\u00f4nia e Su\u00e9cia, a combina\u00e7\u00e3o de impostos e transfer\u00eancias provocou a redu\u00e7\u00e3o do Gini nos anos 2000, tornando a renda mais igualit\u00e1ria, em 0,20 ponto ou mais.<\/p>\n<p>Para o OWID, a desvantagem do LIS est\u00e1 em abranger menos pa\u00edses do que o estudo do Banco Mundial. No entanto, \u00e9 capaz de oferecer maior confian\u00e7a nas compara\u00e7\u00f5es que faz.<\/p>\n<h3><strong>A subestimada renda dos mais ricos<\/strong><\/h3>\n<p>O trabalho do OWID chama aten\u00e7\u00e3o para um vi\u00e9s presente em todas as pesquisas sobre desigualdade: o fen\u00f4meno dos \u201cricos ocultos\u201d, subestima a verdadeira riqueza acumulada pelo topo da pir\u00e2mide. Por m\u00faltiplos motivos, quem tem renda muito alta tende a escond\u00ea-la. Na tentativa de abordar melhor essa quest\u00e3o, pesquisadores desenvolveram uma abordagem diferente, baseada em fontes como registros fiscais e contas nacionais.<\/p>\n<p>Essa abordagem \u00e9 a utilizada pelos pesquisadores do <u>Banco de Dados Mundial da<\/u> <u>Desigualdade<\/u> (WID), e traz vantagens para o rastreamento de rendas mais altas. No entanto, inclui componentes que as pessoas normalmente n\u00e3o consideram parte de sua renda. Uma desvantagem da metodologia do OWID \u00e9 a falta de dados subjacentes em diversos pa\u00edses e per\u00edodos, o que dificulta a precis\u00e3o das estimativas e pode levar a suposi\u00e7\u00f5es ousada demais. Essas estimativas s\u00e3o documentadas em <u>artigos<\/u> <u>detalhados e em notas t\u00e9cnicas<\/u>.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, apesar das limita\u00e7\u00f5es, o conjunto de dados WID \u00e9 importante para a no\u00e7\u00e3o de quanto rendas mais altas s\u00e3o subestimadas e do caminho que a desigualdade percorreu a longo prazo em alguns pa\u00edses.<\/p>\n<p>Leia mais sobre a <u>metodologia do WID<\/u>.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1027\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-12.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/image-12-1500x1027.png 1500w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/image-12-300x205.png 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/image-12-768x526.png 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-12.png 1521w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Fatia da renda do 1% mais rico (antes de impostos) \u2013 Fonte: World Inequality Database (WID.world) (2026), via Our World in Data. Licenciado sob CC BY. Onde n\u00e3o h\u00e1 dados de 2024, foi usado o valor mais pr\u00f3ximo dispon\u00edvel entre 2019 e 2023.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>PARA ENTENDER O GR\u00c1FICO<\/strong>: O mapa mostra a fatia da renda nacional total que fica concentrada nas m\u00e3os do 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds, medida antes do pagamento de impostos (mas j\u00e1 descontadas as aposentadorias p\u00fablicas e privadas). Quanto mais escuro o vermelho, maior a concentra\u00e7\u00e3o de renda no topo.<\/p>\n<h3><strong>O que a an\u00e1lise da OWID nos diz, afinal<\/strong><\/h3>\n<p>As m\u00e9tricas do trabalho rec\u00e9m-lan\u00e7ado ajudam a entender melhor muitos aspectos sobre a desigualdade. No entanto, nenhuma consegue, sozinha, explicar a desigualdade econ\u00f4mica no mundo \u2013 este fen\u00f4meno cada vez mais exacerbado e desestruturador. A sensibilidade do coeficiente de Gini para analisar a renda nas extremidades da pir\u00e2mide, abordada pelo estudo, exemplifica isso.<\/p>\n<p>Os dados tamb\u00e9m refor\u00e7am que a desigualdade n\u00e3o \u00e9 mera consequ\u00eancia do crescimento econ\u00f4mico e que as tend\u00eancias mais consolidadas n\u00e3o s\u00e3o regras fixas. A desigualdade \u00e9 resultado de escolhas institucionais, fiscais e pol\u00edticas feitas (ou n\u00e3o) por cada pa\u00eds. Tamb\u00e9m fica clara a necessidade de compreender as limita\u00e7\u00f5es que cercam as metodologias, os dados, nem sempre estar\u00e3o dispon\u00edveis para os pesquisadores.<\/p>\n<p>Mesmo com limita\u00e7\u00f5es, os dados trazidos n\u00e3o devem ser descredibilizados. A OWID realiza um trabalho amplo e robusto para medir a desigualdade mundial, o compilado de dados trazidos \u00e9 ambicioso. No entanto, a tarefa continua sendo um grande desafio t\u00e9cnico e pol\u00edtico para ser realizada com precis\u00e3o.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>CARVALHO, Andr\u00e9 Roncaglia de; SOUZA, Luciana Rosa de. <strong>A evolu\u00e7\u00e3o conceitual da desigualdade e da pobreza no pensamento econ\u00f4mico<\/strong>. Revista de Economia Pol\u00edtica, S\u00e3o Paulo, v. 41, n. 2, abr.\/jun. 2021. DOI: https:\/\/doi.org\/10.1590\/0101-31572021-3142. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.scielo.br\/j\/rep\/a\/WryMCyMCHPCkT3WdS39dySv\/?lang=pt. Acesso em: 25 ago. 2026.<\/p>\n<p>OUR WORLD IN DATA. <strong>Threshold income or consumption per month for each decile<\/strong>. [S. l.], 2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ourworldindata.org\/. Acesso em: 25 ago. 2026.<\/p>\n<p><strong>OXFAM BRASIL.<\/strong> <em>Resistindo ao Dom\u00ednio dos Ricos: Defendendo a Liberdade Contra o Poder dos Bilion\u00e1rios.<\/em> Oxfam Internacional, 2026. Dispon\u00edvel em: <u>https:\/\/www.oxfam.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1768514534760Davos_2026_BR.pdf<\/u>. Acesso em: 8 set. 2026.<\/p>\n<p>SOCIAL SCIENCE RESEARCH COUNCIL. <strong>Income Inequality in Rich Countries: Examining Changes in Economic Disparities<\/strong>. Items, [S. l.], 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/items.ssrc.org\/what-is-inequality\/income-inequality-in-rich-countries-examining-changes-in-economic-disparities\/. Acesso em: 25 ago. 2026.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Para entender a fundo as desigualdades globais appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/petrobras-vai-escoar-mais-gas-do-pre-sal-para-baixar-preco-a-industria\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/A-presidente-da-Petrobras-Magda-Chambriard-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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