{"id":108455,"date":"2026-10-09T17:38:30","date_gmt":"2026-10-09T20:38:30","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/memorias-do-jornalismo-quando-o-partido-ja-nao-basta\/"},"modified":"2026-10-09T17:38:30","modified_gmt":"2026-10-09T20:38:30","slug":"memorias-do-jornalismo-quando-o-partido-ja-nao-basta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/memorias-do-jornalismo-quando-o-partido-ja-nao-basta\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias do Jornalismo: Quando o partido j\u00e1 n\u00e3o basta"},"content":{"rendered":"<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"448\" height=\"396\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/photo_5064798097883467434_x.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/photo_5064798097883467434_x.jpg 448w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/photo_5064798097883467434_x-300x265.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px\"><\/figure>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O texto a seguir comp\u00f5e a s\u00e9rie\u00a0<em>Passageiro da Hist\u00f3ria<\/em>, mem\u00f3rias de Carlos Azevedo.<br \/>Leia tamb\u00e9m:<strong><br \/>Carlos Azevedo,<em>\u00a0Passageiro da Hist\u00f3ria<\/em><br \/>[1] O dia em que J\u00e2nio Quadros renunciou<br \/>[2] Mem\u00f3rias do Jornalismo: A Semana da Legalidade<\/strong><br \/><strong>[3] Um pa\u00eds polarizado e um rep\u00f3rter brincando com fogo<\/strong><br \/><strong>[4] Mem\u00f3rias do Jornalismo: Em 1964, vendo o golpe acontecer<\/strong><br \/><strong>[5] Mem\u00f3rias do Jornalismo: Revista ousada em tempo obscuro<\/strong><br \/><strong>[6] Mem\u00f3rias do Jornalismo: A ditadura arreganha os dentes<\/strong><br \/><strong>[7] Mem\u00f3rias do Jornalismo: Clandestinidade e \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><br \/><strong>[8] Mem\u00f3rias do Jornalismo: Em pauta, a revolu\u00e7\u00e3o brasileira<\/strong><br \/><strong>[9] Mem\u00f3rias do Jornalismo: Sete anos no esconderijo<\/strong><\/p>\n<p>Em 16 de dezembro de 1976 aconteceu a sanguin\u00e1ria Chacina da Lapa. Com a queda do Comit\u00ea Central o partido ficou provisoriamente sem dire\u00e7\u00e3o. Minha \u00fanica liga\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria era com Aldo Arantes, que havia sido preso. Estava sendo barbaramente torturado, mas n\u00e3o disse uma palavra sobre mim.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Eu estava completamente isolado. A orienta\u00e7\u00e3o era: n\u00e3o procure o partido. O partido te procura. At\u00e9 que isso acontecesse se passaram dois anos.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/15-8.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/15-8.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em 1975 n\u00f3s hav\u00edamos nos mudado para uma velha casa na Vila Industrial. Tinha algumas vantagens: uma entrada para carro pelos fundos do quintal. Ficava em frente a um pequeno clube que cobrava mensalidades modestas e tinha uma boa piscina onde as crian\u00e7as se divertiam. Ficava a um quarteir\u00e3o da casa onde moravam a m\u00e3e e a tia de Maria Lucia. E a menos de 800 metros da esta\u00e7\u00e3o de trem.<\/p>\n<p>Embora preocupado, decidi que n\u00e3o \u00edamos mudar. E tratei de manter todas as atividades que me cabiam antes. At\u00e9 trabalhava ainda mais. Mantive a leitura de jornais, an\u00e1lise de conjuntura e produ\u00e7\u00e3o de pautas e mat\u00e9rias para <em>Movimento.<\/em>\u00a0<\/p>\n<p>Comprei um r\u00e1dio potente e um gravador para captar o programa de r\u00e1dio transmitido toda noite pelo partido pela R\u00e1dio Tirana, da Alb\u00e2nia. Eram falas sobre a conjuntura internacional e do Brasil. E mat\u00e9rias do jornal <em>A Classe Oper\u00e1ria, <\/em>da dire\u00e7\u00e3o do PCdoB, produzidas por Jo\u00e3o Amazonas e Renato Rabelo, que estavam exilados em Paris. Gravava, copiava a grava\u00e7\u00e3o em finas folhas de papel de seda (10 c\u00f3pias) e enviava para v\u00e1rios endere\u00e7os.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, durante aquele per\u00edodo escrevi dois livros. Um sobre a pol\u00edtica etnocida da ditadura contra os ind\u00edgenas, que enviado para o Exterior, foi traduzido em diversas l\u00ednguas. E serviu de prova contra a ditadura no Tribunal de Bertrand Russel. O outro livro tratava da estrutura agr\u00e1ria do Brasil, que avaliei erradamente como semifeudal. A parte desse livro que trazia dados estat\u00edsticos sobre a propriedade da terra foi publicada em <em>Movimento.<\/em><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso fazia caminhadas di\u00e1rias, boas para a sa\u00fade f\u00edsica e tamb\u00e9m muito \u00fateis para ir pensando nos materiais que produzia.<\/p>\n<p>Nessa altura t\u00ednhamos uma kombi. Fazia parte de um projeto nosso de produzir e comercializar plantas ornamentais, que fracassou. A kombi ficou e a usamos em passeios e viagens. Em algum momento em 1978 viajamos Maria Lucia, Ana (9 anos), eu e a cachorra Bolinha pelo litoral Sul. Retirado o banco do meio, instalamos um tablado com colchonete que serviria de cama para n\u00f3s tr\u00eas. Por baixo ia um fog\u00e3o a g\u00e1s, panelas e alimentos. Bolinha dormiria no banco da frente.<\/p>\n<p>Viajamos com muita calma de Campinas a Canan\u00e9ia, de balsa passamos para Ilha Comprida, uma praia de 70 quil\u00f4metros. Ali descobri que esquecera de trazer \u00e1gua suficiente. Viajamos por algumas horas pela praia e s\u00f3 fomos encontrar \u00e1gua ao entardecer.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Dormimos dentro da kombi. Dia seguinte, deparamos um pescador chegando do mar. Vinha aborrecido porque s\u00f3 capturara duas pescadas amarelas. Quisemos comprar, ele n\u00e3o aceitou vender, nos deu.\u00a0 Maria Lucia fez com elas uma gostosa salada do peixe com batata e cebola. Fiz uma batida de cacha\u00e7a com lim\u00e3o. Passamos horas brincando nas ondas de \u00e1guas cristalinas, Bolinha inclusive, mas sem descuidar de Ana. Se a menina ia mais fundo um pouco a cachorra j\u00e1 corria para perto dela.<\/p>\n<p>Maria Lucia queria tomar um banho de \u00e1gua doce. Viajamos para Peruibe, tomamos banho num hotelzinho e jantamos na praia. Na manh\u00e3 seguinte fomos ao Guaru, que ent\u00e3o era um recanto selvagem. Na margem do rio havia um rancho de pescadores. Atravessamos o rio e caminhamos pela praia. Lembro-me em determinado momento que uma grande cobra verde desceu pelo barranco bem na nossa frente e entrou no mar. Paramos no caminho e Maria Lucia fez um almo\u00e7o com camar\u00e3o. Na manh\u00e3 seguinte come\u00e7amos a voltar. Paramos num posto para abastecer. O frentista veio limpar o para-brisa. Bolinha, que fazia a seguran\u00e7a, latiu furiosa. \u201cCalma, ele s\u00f3 est\u00e1 limpando o vidro\u201d.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Rog\u00e9rio n\u00e3o p\u00f4de viajar porque estava trabalhando e namorando. Luciano, 13 anos, n\u00e3o quis vir, ficou cuidando dos v\u00e1rios gatos da casa, vendo TV horas sem fim, tomando Toddy com leite e p\u00e3o, seu alimento preferido. Ele sempre iria gostar de ficar em casa.\u00a0<\/p>\n<p>A ditadura, em crise econ\u00f4mica e perdendo sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, fazia concess\u00f5es. Havia press\u00e3o dos exilados, dos presos pol\u00edticos e aos poucos a campanha pela anistia ganhou apoio na sociedade. Em vez da anistia ampla, geral e irrestrita o regime fabricou uma anistia que antes de qualquer aspecto, livrava a cara dos torturadores e assassinos, e foi dando aos peda\u00e7os anistia para os opositores pol\u00edticos. Ainda assim, foi um avan\u00e7o: os presos deixaram os pres\u00eddios e os exilados puderam voltar ao pa\u00eds. No Brasil n\u00e3o acontecem mudan\u00e7as transformadoras. Acossada, a oligarquia recua soltando peda\u00e7os de concess\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>A ditadura ainda iria se arrastar por seis anos, negociando seu recuo, com concess\u00f5es \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o democratizante, mantendo no essencial o entulho autorit\u00e1rio. Mais que isso, visto em perspectiva se constata o prevalecimento da oligarquia empedernida que at\u00e9 os dias de hoje (2026) maneja os cord\u00f5es do poder. Por vezes a tend\u00eancia popular chega ao governo, mas nunca consegue tomar o poder.<\/p>\n<p>O partido marcou um contato com Maria Lucia no Rio de Janeiro. Ela foi com a Ana, ficaram no Hotel Guanabara, bem no centro. O contato era para combinar o meu reencontro com o partido. Ela aproveitou e levou a filha de 9 anos para conhecer o monumento do Cristo Redentor.\u00a0<\/p>\n<p>Fui ao encontro de um camarada. Mas havia outro querendo falar comigo. O que estava acontecendo? O partido estava dividido. Ap\u00f3s a queda da Lapa uma parte se reorganizou sob a dire\u00e7\u00e3o do oper\u00e1rio e antigo militante\u00a0 ferrovi\u00e1rio Jos\u00e9 Duarte, com sede em S\u00e3o Paulo. Ele assumiu que era a dire\u00e7\u00e3o existente, portanto, no comando da organiza\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, Jo\u00e3o Amazonas, Arruda C\u00e2mara e Renato Rabelo, desde Paris e Tirana, lembravam que eram os membros do Comit\u00ea Central em liberdade e, portanto, eram a dire\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Fui procurado por representantes das duas tend\u00eancias e manifestei minha defini\u00e7\u00e3o pelo que me parecia a continuidade da dire\u00e7\u00e3o leg\u00edtima. O partido mergulhou na luta interna.\u00a0<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 1979, mesmo antes da anistia, decidi voltar \u00e0 vida legal. Me encontrei com os ex-companheiros de <em>Realidade,<\/em> Narciso Kalili e Jos\u00e9 Carlos Mar\u00e3o, este na \u00e9poca casado com minha irm\u00e3 Yara. O casal fez um churrasco para nos receber. Meus pais haviam se separado anos antes, mas estavam presentes junto com v\u00e1rios amigos.<\/p>\n<p>Por algum tempo continuei colaborando com <em>Movimento. <\/em>Para ganhar algum dinheiro tamb\u00e9m fui colaborar com Narciso Kalili, que estava lan\u00e7ando <em>Do\u00e7ura<\/em>, uma interessante revista de servi\u00e7os distribu\u00edda gratuitamente nas caixas dos supermercados <em>P\u00e3o de A\u00e7\u00facar.<\/em><\/p>\n<p>Com a anistia, os dirigentes do PCdoB estavam de volta \u00e0 legalidade. A dire\u00e7\u00e3o continuava a publicar <em>A Classe Oper\u00e1ria<\/em>. E decidiu produzir tamb\u00e9m um jornal legal, mensal, que seria distribu\u00eddo nas bancas de jornais e vendido a um pre\u00e7o irris\u00f3rio.\u00a0<\/p>\n<p>Coube a Rog\u00e9rio Lustosa, querido camarada j\u00e1 falecido, a dire\u00e7\u00e3o do jornal. Destacados para a equipe, Bernardo Joffily e sua companheira Ol\u00edvia Rangel, que estavam voltando de anos de trabalho na R\u00e1dio Tirana, da Alb\u00e2nia. Eu era o quarto.\u00a0<\/p>\n<p>Antes de tudo tive de enfrentar um triste rompimento. Fui comunicar a Raimundo Pereira que n\u00e3o podia mais continuar colaborando como <em>Movimento<\/em> porque o partido me chamara para fazer seu jornal. E ainda tinha que ficar na <em>Do\u00e7ura<\/em>, de onde tirava meu sustento e da fam\u00edlia. Fui para esse encontro acabrunhado, mas Raimundo, como sempre, foi nobre. Declarou lamentar, mas entender. Afinal eu devia disciplina ao partido.\u00a0<\/p>\n<p>Fomos criar o jornal que veio se chamar <em>Tribuna da Luta Oper\u00e1ria. <\/em>Mensal, tamanho grande, oito p\u00e1ginas. Texto bem popular etc. Mas como fazer? Dinheiro? N\u00e3o tem. Sede? N\u00e3o tem. \u201cVirem-se!\u201d Enfim, com recursos minguados o n\u00famero zero veio a p\u00fablico em novembro de 1979. Contou com a bela capa de cabe\u00e7as de oper\u00e1rios desenhada por nada menos que o companheiro Elifas Andreato a meu pedido.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo eu trouxe a fam\u00edlia de Campinas para S\u00e3o Paulo. Maria Lucia tirou os inquilinos do apartamento de sua tia em Vila Monumento, no Ipiranga, e trouxe as duas velhinhas de volta. Com um agravante, elas estavam mais alquebradas. E eu, insens\u00edvel ao problema, n\u00e3o sei por que, podendo alugar uma casa perto delas, decidi ir morar no Butant\u00e3, do outro lado da cidade. Minha desculpa \u00e9 que era perto do campus da USP, os meninos poderiam ir estudar ali. Nenhum dos dois estudou l\u00e1.<\/p>\n<p>Quanto ao filho mais velho, Rog\u00e9rio, com 24 anos, casou-se com uma sul-africana de origem indiana. Por influ\u00eancia dela vendeu o apartamento que comprara no Largo do Par\u00e1, centro de Campinas, e foram morar em Bolonha, It\u00e1lia, a pretexto de cursar a faculdade de medicina.<\/p>\n<p>Na <em>Tribuna<\/em> a gente fazia de tudo. O jornal estava sendo impresso numa gr\u00e1fica perto do aeroporto de Congonhas. Um bando de jovens militantes me procurou para que eu os ajudasse e pegar o jornal. N\u00e3o sabiam dirigir. Queriam que eu dirigisse uma kombi, mas era a kombi mais quebrada, batida, enferrujada, que eu j\u00e1 vira. Ela andava meio torta. E l\u00e1 fomos n\u00f3s. Na volta, carregada, eu vim bem devagar, atrapalhando o tr\u00e2nsito, esperando que a pol\u00edcia n\u00e3o nos parasse. E a turminha se divertindo.<\/p>\n<p>Ultimamente o que estava me empolgando era o trabalho de editor e rep\u00f3rter na revista <em>Do\u00e7ura.<\/em> Aos poucos fui aderindo \u00e0 vida boemia de meus colegas de reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Meu hist\u00f3rico de milit\u00e2ncia foi a maior parte do tempo sozinho, cumprindo as tarefas de propaganda. Fui ficando incomodado com os ru\u00eddos, a agressividade das partes naquele processo de divis\u00e3o e luta interna que est\u00e1vamos vivendo. E o lado do jornalismo bo\u00eamio me atraindo. Em abril de 1980, a greve dos metal\u00fargicos do ABC, sem receber apoio de outras tend\u00eancias pol\u00edticas, foi derrotada. Sensa\u00e7\u00e3o de que as coisas n\u00e3o avan\u00e7avam. Desanimei. E deixei o partido.\u00a0<\/p>\n<p>Meu argumento era que minha fam\u00edlia havia passado por grandes vicissitudes durante anos e agora eu queria cuidar melhor dela. Na verdade, estava deixando em segundo plano o compromisso com a luta, com o povo em abstrato, e voltando-me para buscar o sucesso individual, a satisfa\u00e7\u00e3o pessoal que eu havia sufocado por mais de uma d\u00e9cada de milit\u00e2ncia pol\u00edtica. N\u00e3o estava passando para o outro lado, nunca passaria, continuava vivenciando a cr\u00edtica socialista da sociedade, mas procurava outras formas de manifestar buscando um trabalho que tamb\u00e9m me desse prazer. A volta ao grande jornalismo. Mal comparando, um arremedo de Augusto Matraga?<\/p>\n<p>Dona Julinha, m\u00e3e de Maria Lucia e doce criatura, faleceu em dezembro de 1980. Esta continuou cuidando da tia Maria Jos\u00e9, que sofria com uma doen\u00e7a que hoje chamamos de Alzheimer. E diabetes, que lhe custou cirurgias nas pernas. Iria falecer onze anos depois, em 1991, Maria Lucia ao seu lado, no Hospital dos Servidores.<\/p>\n<p>Narciso Kali tinha um lado g\u00eanio que era saber realizar uma publica\u00e7\u00e3o bem-sucedida. Mas acho que ele logo se cansava. Deve ter se cansado de <em>Do\u00e7ura.<\/em> O movimento de cr\u00edtica \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher estava surgindo. Ele me mandou a Belo Horizonte fazer reportagem sobre um engenheiro que assassinou a mulher a tiros, a sangue frio. Contei a hist\u00f3ria em detalhes. Ele fez uma capa explosiva. Uma bala de revolver est\u00e1 a caminho da cabe\u00e7a de uma mulher, como havia acontecido. E manchetou: <em>Os maridos assassinos de Minas Gerais!<\/em><\/p>\n<p>O <em>P\u00e3o de A\u00e7\u00facar<\/em> impediu a circula\u00e7\u00e3o da revista em Minas. E demitiu Narciso. Eu tamb\u00e9m me demiti.\u00a0<\/p>\n<p>Narciso foi trabalhar no departamento de jornalismo da TV Globo de S\u00e3o Paulo, ao lado dos antigos companheiros de <em>Realidade,<\/em> Woile Guimar\u00e3es, Lu\u00eds Fernando Mercadante e Eurico Andrade.<\/p>\n<p>Troquei meu carro, levei a fam\u00edlia de f\u00e9rias para Peru\u00edbe. Na volta, em janeiro de 1982, estava sem dinheiro. Os amigos na TV Globo se movimentaram: Woile Guimar\u00e3es e os outros se juntaram a Humberto Pereira e Gabriel Romeiro, diretores do programa de TV <em>Globo Rural. <\/em>\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Estava de novo na estrada, viajando por todo o pa\u00eds e deixando com Maria Lucia a responsabilidade de cuidar da casa, de dois filhos adolescentes. Eu n\u00e3o sabia nada de televis\u00e3o. Mas aos 42 anos tinha hist\u00f3ria. E sede de rodar pelo mundo.<\/p>\n<p>A ditadura militar chegava ao fim, a campanha das <em>Diretas J\u00e1<\/em> tomava conta das ruas, o movimento popular em ascens\u00e3o. O general ditador Jo\u00e3o Figueiredo, doente e desanimado, nem queria mais governar. Havia anima\u00e7\u00e3o e se renovavam as esperan\u00e7as pela democracia e por uma vida melhor. Viajando pelo interior tive quase nenhuma participa\u00e7\u00e3o nesse movimento. Mas no dia 25 de janeiro de 1985 eu e Maria Lucia est\u00e1vamos no grande com\u00edcio da Pra\u00e7a da S\u00e9. Naquela manh\u00e3 eu havia embarcado num avi\u00e3o da <em>Vasp<\/em> em Campo Grande, Mato Grosso do sul, para participar do com\u00edcio.<\/p>\n<p>Trabalhava para o programa de TV, Globo Rural, da TV Globo. A equipe era competente e procuramos fazer um bom jornalismo, dando voz aos agricultores e \u00e0s boas pr\u00e1ticas agr\u00edcolas. Acabamos por produzir uma reportagem que obteve grande repercuss\u00e3o e ficou na hist\u00f3ria do programa. A reportagem sobre uma boiada transportada por boiadeiros a p\u00e9, cruzando praticamente todo o Mato Grosso do Sul, saindo de Corumb\u00e1, na fronteira com a Bol\u00edvia indo at\u00e9 a divisa com S\u00e3o Paulo. Produzimos uma s\u00e9rie de sete mat\u00e9rias de 10 a 15 minutos cada.\u00a0<\/p>\n<p>Indo ao ar por sete domingos cont\u00ednuos, virou quase que uma novela seguida com entusiasmo por um p\u00fablico recorde no hor\u00e1rio das 9 horas. Um resumo dela foi ao ar no Globo Rep\u00f3rter com dura\u00e7\u00e3o de 40 minutos. Durante alguns anos quando a Globo fazia pesquisa sobre qual reportagem o publico queria ver de novo a Boiada era citada em primeiro lugar.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Demorei tr\u00eas meses envolvido nesse trabalho, desde encontrar um fazendeiro que concordasse em deixar filmar a viagem de uma boiada de sua propriedade, at\u00e9 trabalhar como rep\u00f3rter e dirigir uma equipe de tr\u00eas profissionais \u2013 cameramen, dois auxiliares, de som e luz \u2013 nas condi\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis pelo pantanal do Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>Era janeiro, o Pantanal come\u00e7ava a encher de \u00e1gua vinda das chuvas nos rios de cabeceira. Calor, muito calor. Como acompanhar a caminhada de cerca de 1.200 bois pelo <em>brejo<\/em>, como dizem os pantaneiros?<\/p>\n<p>Deixei o Globo Rural em 1984 por erros que cometi. Envolvido por pessoa intrigante e ambiciosa por poder, me indispus com Humberto Pereira, o Editor-Chefe. Por arrog\u00e2ncia, fui injusto com ele e fiquei sem condi\u00e7\u00f5es de continuar.\u00a0<\/p>\n<p>Em 1985 uma conjun\u00e7\u00e3o de acasos me levou a assumir no meio a campanha de TV de Fernando Henrique Cardoso a prefeito de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Em seguida fui trabalhar na TV Cultura, levado pelos meus amigos e irm\u00e3os Raul Bastos e Mauro Bastos, este, chefe de reportagem no jornalismo da emissora.<\/p>\n<p>Ali dirigi o document\u00e1rio <em>Quarenta Anos da UNE. <\/em>Mas n\u00e3o fiquei muito tempo. Fui chamado pela amiga Ivone Cirilo, chefe da assessoria de comunica\u00e7\u00e3o da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do governo Orestes Quercia, cujo secret\u00e1rio era Chopin Tavares Lima. E a ajudei a montar a equipe de imprensa da secretaria.\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Mem\u00f3rias do Jornalismo: Quando o partido j\u00e1 n\u00e3o basta appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/campo-clima-e-democracia-o-que-a-3a-cndrss-nos-ensina\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Campo, clima e democracia: o que a 3\u00aa CNDRSS nos e...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/gas-do-povo-amplia-cobertura-e-ja-atende-15-milhoes-de-lares\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">G\u00e1s do Povo amplia cobertura e j\u00e1 atende 15 milh\u00f5e...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/qual-a-cotacao-do-dolar-hoje-17-de-abril\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/dolares-Marcello-Casal-Jr-Agencia-Brasil-2-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Qual a cota\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar hoje, 17 de abril?<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mst-preve-dobrar-numero-de-familias-acampadas-no-brasil-e-a-luta-que-vai-fazer-a-reforma-agraria\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">MST prev\u00ea dobrar n\u00famero de fam\u00edlias acampadas no B...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de sete anos de vida clandestina, e do cansa\u00e7o com os rachas internos na esquerda, surge uma brecha. Como manter a postura e a cr\u00edtica socialistas, atuando no que o jornalismo tinha de instigante, desbravador e bo\u00eamio? A TV apresenta um caminho \u2013 e uma boiada faz sucesso\u2026<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/memoria-do-jornalismo-quando-partido-nao-basta\/\">Mem\u00f3rias do Jornalismo: Quando o partido j\u00e1 n\u00e3o basta<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":108456,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[84149,79974,4753,1284,461,5488,84150,11809,72290,692],"tags":[],"class_list":["post-108455","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-a-classe-operaria","category-carlos-azevedo","category-chacina-da-lapa","category-ditadura","category-historia","category-historia-e-memoria","category-memorias-do-jornalismo","category-movimento","category-opositores-politicos","category-pcdob"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/108455","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=108455"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/108455\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/108456"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=108455"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=108455"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=108455"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}