{"id":109336,"date":"2026-10-16T18:17:43","date_gmt":"2026-10-16T21:17:43","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/vaterland-entre-a-barbarie-e-a-cultura-sacrificada\/"},"modified":"2026-10-16T18:17:43","modified_gmt":"2026-10-16T21:17:43","slug":"vaterland-entre-a-barbarie-e-a-cultura-sacrificada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/vaterland-entre-a-barbarie-e-a-cultura-sacrificada\/","title":{"rendered":"Vaterland: Entre a barb\u00e1rie e a cultura sacrificada"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"479\" src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/49d80b15-ec22-460d-b4b4-b18d746d7924.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/49d80b15-ec22-460d-b4b4-b18d746d7924.jpg 640w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/49d80b15-ec22-460d-b4b4-b18d746d7924-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Pouco ap\u00f3s receber a not\u00edcia do suic\u00eddio de seu filho, um homem idoso e um tanto pat\u00e9tico l\u00ea, diante de sua primog\u00eanita \u2013 e, portanto, irm\u00e3 do rapaz que tirou a pr\u00f3pria vida \u2013, um discurso sobre a Alemanha, a cultura e a civiliza\u00e7\u00e3o. Esse homem \u00e9 Thomas Mann [interpretado no filme por Hanns Zischler]<em>. <\/em>Trata-se de uma hist\u00f3ria de retorno. Mann volta \u00e0 Alemanha ap\u00f3s seu longo ex\u00edlio nos Estados Unidos para receber dois pr\u00eamios liter\u00e1rios: o Pr\u00eamio Goethe, um na Alemanha Ocidental e outro na Alemanha Oriental. Mas a terra p\u00e1tria \u00e9 \u00e1rida, em muitos sentidos. Erika Mann [Sandra H\u00fcller], que acompanha e assiste ao pai durante a viagem, tem a fun\u00e7\u00e3o \u2013 de uma perspectiva, \u00e0 primeira vista, feminista \u2013 de fazer valer a m\u00e1xima de que ningu\u00e9m \u00e9 her\u00f3i diante do pr\u00f3prio camareiro. Mann \u00e9 retratado como um homem ego\u00edsta, vaidoso, frio e descompassado em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio tempo. Sua mala, diz a filha, tem mais trajes do que a de Marlene Dietrich.<\/p>\n<p>O filme que rendeu o pr\u00eamio de melhor diretor em Cannes (2026) a Pawlikowski (e cujo roteiro foi escrito com Hendrik Handloegten, diretor da excelente s\u00e9rie <em>Babylon Berlin)<\/em> come\u00e7a com uma conversa telef\u00f4nica entre Erika e Klaus Mann [August Diehl], o filho desejado sexualmente pelo pai e, ao mesmo tempo, por ele detestado, o escritor frustrado, o homossexual reprimido. Erika implora por sua presen\u00e7a na viagem, mas ele jura que nunca retornar\u00e1 \u00e0 Alemanha. Enquanto o pai faz seu <em>tour<\/em> pela terra natal, de Frankfurt a Weimar, Klaus se suicida em Cannes, a mesma cidade que, d\u00e9cadas depois, premiaria o filme sobre essa mesma viagem.<\/p>\n<p>Em ambos os lados da Alemanha dividida, os discursos de Mann soam alien\u00edgenas. Nas plateias e <em>soir\u00e9es<\/em> do lado ocidental: nazistas (ou ex-nazistas, para aqueles que acreditam nessa possibilidade). A certa altura, Erika se pergunta: onde estavam h\u00e1 cinco anos essas pessoas que hoje elogiam a obra de Mann? O tapa na cara que ela d\u00e1 em Gustaf Gr\u00fcndgens [Joachim Meyerhoff], seu ex-marido, um dos atores e diretores mais famosos da Alemanha, \u00e9 um dos pontos altos do filme. Objeto do romance de Klaus Mann, <em>Mephisto, <\/em>Gr\u00fcndgens tenta justificar sua liga\u00e7\u00e3o com o nazismo como um ato de \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o\u201d, ossos do of\u00edcio de ator. A terra dos teutos, aparentemente, foi um pa\u00eds de grandes atores. Na mesma festa, os descendentes de Wagner, Wieland Wagner [Enno Trebs] e Wolfgang Wagner [Theo Trebs] interpelam Mann para que se pronuncie a favor da reabertura do Festival de \u00d3pera de Bayreuth. O teatro de Wagner, dizem, est\u00e1 ocupado por refugiados. Para convencer o escritor, dizem que ele era o maior admirador da m\u00fasica do compositor em toda a Alemanha. O maior, diz Mann, depois de Adolf Hitler. O teatro deve ser fechado, emenda ele, e sua m\u00e3e levada a julgamento por seu apoio ao nazismo.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/14--17.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/14--17.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A fotografia em preto e branco confere um toque vintage ao filme e refor\u00e7a a impress\u00e3o de que Thomas Mann \u00e9 um homem do passado. Ainda assim, o lado oriental \u00e9 mais cinza do que o ocidental. O escritor est\u00e1 ali para ser recrutado como pe\u00e7a de propaganda. Pai e filha s\u00e3o recebidos com hospitalidade autorit\u00e1ria. Generais querendo discutir \u201cdiamat\u201d, den\u00fancias de pris\u00f5es e torturas de opositores, somados a banquetes oficiais acompanhados de coros de jovens, d\u00e3o a impress\u00e3o de que a Alemanha socialista era mais fascista do que a pr\u00f3pria Alemanha nazista \u2013 o primeiro e mais evidente tra\u00e7o conservador do filme. Num momento em que a Alternativa para a Alemanha (AfD) \u00e9 o partido neofascista mais influente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e a Alemanha est\u00e1 na soleira dos mesmos tempos sombrios, o filme insiste numa equipara\u00e7\u00e3o entre os \u201cextremos\u201d. Sua pol\u00edtica \u00e9 a mesma da chamada opini\u00e3o p\u00fablica alem\u00e3 contempor\u00e2nea, que circula na m\u00eddia conservadora e v\u00ea como perigo equivalente \u00e0 ascens\u00e3o da AfD o aumento (menos significativo, em termos de governo) do partido Die Linke.<\/p>\n<p>Como em todos os filmes pretensamente pol\u00edticos atualmente, o enredo se reduz a um drama familiar. Erika repreende o pai por sua frieza e insiste que a viagem \u00e9 um erro, um ato de vaidade decorrente da velhice. Mais do que isso. A viagem seria um sintoma da megalomania de Mann, que n\u00e3o compreende que, de fato, ningu\u00e9m lhe d\u00e1 ouvidos. A montagem do filme nos incita a simpatizar com a sua perspectiva e o papel de Erika \u00e9 brutalmente enriquecido pela atua\u00e7\u00e3o de Sandra H\u00fcller. Numa das primeiras noites na Alemanha, ao escutar um bando de b\u00eabados, embaixo da janela do quarto de hotel, cantando a can\u00e7\u00e3o \u201c<em>In einem Polenst\u00e4dtchen<\/em>\u201d, ela grita: \u201cCalem a boca, seus fascistas imundos! Assassinos!\u201d. O \u00edmpeto e a revolta de seu grito s\u00e3o o que falta hoje \u00e0 pol\u00edtica alem\u00e3. Aqui a <em>Muttersprache <\/em>se vinga da <em>Vaterland <\/em>\u2013 e n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o protesto vem de uma mulher.<\/p>\n<p>Mas a pretensa abordagem feminista torna opaca outra mensagem subjacente. O filme tem o m\u00e9rito de mostrar como a Alemanha procurou, ao longo de sua hist\u00f3ria, apropriar-se de seus maiores pensadores, convertendo-os em emblemas de uma tradi\u00e7\u00e3o nacional, com a not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o de Karl Marx, expatriado de seu pr\u00f3prio pa\u00eds e, em certo sentido, ainda hoje <em>persona non grata<\/em>. Como observou Theodor W. Adorno em \u201cSobre a pergunta: o que \u00e9 ser alem\u00e3o?\u201d, o selo \u201c<em>made in Germany\u201d<\/em>, aplicado a figuras que v\u00e3o de Immanuel Kant a Beethoven e Goethe, contradiz justamente o conte\u00fado de suas obras que, mirando a universalidade, s\u00e3o irredut\u00edveis a qualquer apropria\u00e7\u00e3o nacionalista. O mesmo poderia ser dito de Thomas Mann; ao contr\u00e1rio de Marx, ao menos na superf\u00edcie, uma <em>persona troppo grata<\/em>. Por\u00e9m, de todas as ambiguidades contidas na vida e obra de Thomas Mann, como o apoio \u00e0 Primeira Guerra Mundial, e os dois livros associados a ela \u2013<em> Reflex\u00f5es de um homem apol\u00edtico <\/em>(1918) e, posteriormente, o livro de revis\u00e3o dessa posi\u00e7\u00e3o, a obra-prima <em>A Montanha M\u00e1gica <\/em>(1924), Pawlikowski opta por retratar o escritor como um homem envelhecido e um escritor vaidoso, pai ausente e implac\u00e1vel, inconsciente da impot\u00eancia da cultura diante da barb\u00e1rie. Muito mais interessante seria mostrar como as posi\u00e7\u00f5es de Mann antes da Primeira Guerra (que se veem por todos os lados hoje), seu desprezo pela democracia e sua defesa do povo [<em>Volk<\/em>] alem\u00e3o foram um equ\u00edvoco, reconhecido pelo pr\u00f3prio autor, e que, com a ascens\u00e3o de Hitler, se tornou uma das vozes antifascistas mais importantes do mundo. Mas Pawlikowski opta por utilizar a perspectiva feminista sobre o autor (que n\u00e3o deixa de ser interessante) para sacrificar a cultura. O movimento \u00e9 perverso: a verdade aqui, supondo que tudo o que se retratou sobre Mann seja verdadeiro, funciona como ideologia. Num momento como o que vivemos hoje, um filme sobre Thomas Mann n\u00e3o pode deixar de ser tamb\u00e9m um filme sobre o destino da Europa e do resto do globo. Na Alemanha atual, mesmo as pessoas mais progressistas associam indiscriminadamente a cultura erudita alem\u00e3 ao conservadorismo, pois deixaram de questionar o r\u00f3tulo nacional atribu\u00eddo a essas obras. Para ser progressista \u00e9 preciso ser anti-alem\u00e3o e, para ser anti-alem\u00e3o, \u00e9 preciso renegar aquilo que se transformou em seu \u201cpatrim\u00f4nio cultural\u201d.\u00a0 A esquerda deixou esse legado aos herdeiros de Hitler, ainda que as obras dos autores supramencionados estejam a servi\u00e7o de outra causa.<\/p>\n<p>Numa cena em que Thomas Mann concede uma entrevista assim que chega \u00e0 Alemanha, um jornalista pergunta onde \u00e9 o seu lar; Mann \u00e9 condenado por ter abandonado o seu pa\u00eds durante o nazismo. O homem que um dia disse \u201cOnde eu estou, est\u00e1 a Alemanha\u201d responde que mora nos Estados Unidos, mas que a quest\u00e3o a respeito de seu lar [<em>Heimat<\/em>] \u00e9 mais complicada. Esse talvez seja o \u00fanico momento em que o filme \u00e9 fiel ao legado de Mann. Susan Sontag, sua admiradora ferrenha, escreveu certa vez que ser um cidad\u00e3o da literatura \u00e9 possuir uma cidadania internacional (e, mais do que isso, internacionalista). Esta foi negada a Mann pelo filme de Pawlikowski, que o reduziu a pe\u00e7a de museu da chamada cultura cl\u00e1ssica e do patriarcado. Mas se a cultura n\u00e3o protege contra a barb\u00e1rie, tampouco seu sacrif\u00edcio serve a uma pol\u00edtica de esquerda. Se a Europa permanece, como escreveu Aim\u00e9 C\u00e9saire, indefens\u00e1vel, \u00e9 tamb\u00e9m entre seus dissidentes que devemos buscar nossos aliados.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Critica a apropria\u00e7\u00e3o nacionalista da cultura, mas o aproxima do reacionarismo e do patriarcado. E sua cr\u00edtica ao nazismo? A esquerda pode esquecer um legado art\u00edstico que serve \u00e0 luta contra o autoritarismo?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/vaterland-entre-a-barbarie-e-a-cultura-sacrificada\/\">&lt;i&gt;Vaterland&lt;\/i&gt;: Entre a barb\u00e1rie e a cultura sacrificada<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":109337,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[463,6119,1247,84544,6392,5499,84545,14255,15714,84546,84547],"tags":[],"class_list":["post-109336","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alemanha","category-alemanha-nazista","category-filme","category-klaus-mann","category-nacionalismo","category-poeticas","category-primeiraa-guerra","category-sexualidade","category-suicidio","category-thomas-mann","category-vaterland"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109336","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=109336"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109336\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/109337"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=109336"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=109336"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=109336"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}