{"id":109343,"date":"2026-10-16T18:35:54","date_gmt":"2026-10-16T21:35:54","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-que-falta-para-tornar-a-virada-possivel\/"},"modified":"2026-10-16T18:35:54","modified_gmt":"2026-10-16T21:35:54","slug":"o-que-falta-para-tornar-a-virada-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-que-falta-para-tornar-a-virada-possivel\/","title":{"rendered":"O que falta para tornar a virada poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"663\" src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/e3e89653-a6af-4642-91f7-64e2c02d9d49-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/e3e89653-a6af-4642-91f7-64e2c02d9d49-1.jpg 1200w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/e3e89653-a6af-4642-91f7-64e2c02d9d49-1-300x166.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/e3e89653-a6af-4642-91f7-64e2c02d9d49-1-768x424.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/e3e89653-a6af-4642-91f7-64e2c02d9d49-1-700x387.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2026\/10\/e3e89653-a6af-4642-91f7-64e2c02d9d49-1-219x121.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\"><figcaption> Foto: Taba Benedicto\/ Estad\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Fl\u00e1vio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos v\u00e1lidos; Lula, com 45,16%. A dist\u00e2ncia de aproximadamente 2,22 milh\u00f5es de votos \u00e9 suficientemente pequena para manter a disputa aberta e suficientemente concreta para exigir uma mudan\u00e7a de rumo. Outros 33,47 milh\u00f5es de eleitores n\u00e3o compareceram \u00e0s urnas. N\u00e3o constituem uma reserva autom\u00e1tica de nenhuma candidatura, mas lembram que o resultado ainda pode mudar. A quest\u00e3o decisiva, entretanto, ultrapassa a aritm\u00e9tica: Lula conseguir\u00e1 apresentar uma raz\u00e3o para o futuro que seja mais forte do que o desejo de encerrar seu ciclo?<\/p>\n<p>O Datafolha realizado em 2 e 3 de outubro oferecia uma fotografia anterior \u00e0 vota\u00e7\u00e3o: na simula\u00e7\u00e3o de segundo turno, Lula tinha 47%, contra 46% de Fl\u00e1vio, em empate t\u00e9cnico. Esse levantamento n\u00e3o descreve a disputa depois das urnas e tampouco pode ser comparado diretamente ao resultado de primeiro turno, que envolvia outros candidatos e outra base de c\u00e1lculo. Sua contribui\u00e7\u00e3o mais interessante est\u00e1 nos recortes sociais: eles permitem questionar explica\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis sobre quem deseja mudan\u00e7a e por qu\u00ea.<\/p>\n<p>Uma dessas explica\u00e7\u00f5es \u00e9 a de que a esquerda envelheceu e perdeu os jovens. Suas principais lideran\u00e7as nacionais, de fato, carregam a experi\u00eancia da ditadura, das lutas sindicais e da redemocratiza\u00e7\u00e3o. Lula \u00e9 a express\u00e3o mais evidente dessa longevidade. Mas a idade das lideran\u00e7as n\u00e3o determina a idade de seus eleitores. A pesquisa da v\u00e9spera mostrava precisamente o contr\u00e1rio da hip\u00f3tese de abandono juvenil: o presidente tinha vantagem entre os mais jovens, assim como entre os mais velhos. O problema geracional \u00e9 mais complexo do que uma oposi\u00e7\u00e3o entre juventude conservadora e velhice progressista.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/1-18.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/1-18.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Na simula\u00e7\u00e3o direta, Lula registrava 52% contra 40% entre os eleitores de 16 a 24 anos e 51% contra 42% entre aqueles com 60 anos ou mais. Fl\u00e1vio liderava entre 25 e 34 anos, por 51% a 41%, e aparecia numericamente \u00e0 frente entre 35 e 44 anos, por 50% a 42%, neste caso no limite do empate t\u00e9cnico. Entre 45 e 59 anos, havia praticamente igualdade: 47% a 46% para Lula. A curva era aproximadamente um U: o presidente mais forte nos extremos, o advers\u00e1rio no miolo da vida adulta. Esse desenho localiza uma dificuldade; n\u00e3o explica sozinho sua origem.<\/p>\n<p>A idade precisa ser relacionada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais. Em entrevista \u00e0 BBC News Brasil, publicada pela Folha em janeiro de 2025, Andr\u00e9 Singer chamava aten\u00e7\u00e3o para a queda do apoio ao governo na passagem da renda familiar de at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos para a faixa de dois a cinco. Sua interpreta\u00e7\u00e3o relacionava a insatisfa\u00e7\u00e3o ao custo de vida e \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o do trabalho: plataformas, informalidade e formas prec\u00e1rias de empreendedorismo enfraqueciam a experi\u00eancia coletiva que havia dado origem ao PT. Essa hip\u00f3tese ajuda a formular a pergunta correta: que expectativas de seguran\u00e7a e ascens\u00e3o foram frustradas na vida de parte desses trabalhadores?\u2060<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m mudou a rela\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria. Para quem n\u00e3o viveu politicamente a ditadura, a democracia \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o de partida, mesmo quando amea\u00e7ada. Direitos que precisaram ser conquistados por uma gera\u00e7\u00e3o podem aparecer \u00e0 seguinte como obriga\u00e7\u00f5es elementares do Estado. Isso n\u00e3o significa desprezar elei\u00e7\u00f5es livres, sa\u00fade ou educa\u00e7\u00e3o; significa exigir que funcionem e que permitam avan\u00e7ar. A defesa da Constitui\u00e7\u00e3o perde pot\u00eancia quando se resume \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o institucional e deixa de expressar suas promessas de igualdade, desenvolvimento e bem-estar. Uma conquista hist\u00f3rica n\u00e3o pode transformar-se em justificativa para baixar as expectativas de quem veio depois.<\/p>\n<p>Os primeiros governos Lula ficaram associados \u00e0 experi\u00eancia concreta de ascens\u00e3o: entre 2003 e 2009, quase 30 milh\u00f5es de pessoas ingressaram no estrato de renda ent\u00e3o chamado de classe m\u00e9dia. Essa classifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o eliminava vulnerabilidades nem convertia trabalhadores em propriet\u00e1rios, mas registrava uma mudan\u00e7a material importante. Em 2022, segundo o Diretor da FGV Social, passados 7 anos desde a crise econ\u00f4mica de 2015-2016, a situa\u00e7\u00e3o desse extrato da popula\u00e7\u00e3o era sofrida e havia uma nova gera\u00e7\u00e3o da classe C que n\u00e3o viveu uma escassez, o que faz com que ela se ressinta mais. No terceiro mandato, a melhora tamb\u00e9m aparece nos indicadores: segundo a Tend\u00eancias Consultoria, em 2024 as classes A, B e C voltaram a reunir mais da metade dos domic\u00edlios brasileiros \u2014 50,1%, marca que n\u00e3o era alcan\u00e7ada desde 2015. Esse retorno, por\u00e9m, pode carregar um significado psicol\u00f3gico diferente. Para quem perdeu posi\u00e7\u00e3o nos ciclos de recess\u00e3o e estagna\u00e7\u00e3o, recuperar renda e capacidade de consumo pode ser vivido como restitui\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es que j\u00e1 considerava um direito conquistado, e n\u00e3o como chegada a um novo patamar de vida. Recuperar o que se perdeu importa, mas n\u00e3o necessariamente desperta a mesma percep\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o que experimentar uma conquista pela primeira vez. Essa mem\u00f3ria ajuda a entender a for\u00e7a do lulismo e tamb\u00e9m o tamanho da cobran\u00e7a que recai sobre ele: quem simbolizou a possibilidade de melhorar de vida passa a ser julgado pela capacidade de reabrir esse caminho.<\/p>\n<p>O paradoxo j\u00e1 havia sido percebido em 2014. Uma an\u00e1lise de dirigentes do Datafolha descrevia os \u201cfilhos da inclus\u00e3o\u201d como um eleitorado mais escolarizado e exigente, cujas transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o encontravam correspond\u00eancia suficiente nas institui\u00e7\u00f5es e nos servi\u00e7os. A inclus\u00e3o n\u00e3o produz gratid\u00e3o eleitoral permanente. Produz cidad\u00e3os com novas necessidades, capacidade de compara\u00e7\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o para cobrar. Parte da frustra\u00e7\u00e3o pode nascer justamente do sucesso anterior: depois de entrar na universidade, consumir mais ou melhorar a moradia, \u00e9 razo\u00e1vel esperar trabalho compat\u00edvel, servi\u00e7os melhores e uma vida menos insegura.<\/p>\n<p>Ocorre que a trajet\u00f3ria posterior interrompeu muitas dessas expectativas. Uma parcela dos adultos de hoje conheceu, na inf\u00e2ncia ou na juventude, a promessa de ascens\u00e3o e chegou \u00e0 maturidade sob condi\u00e7\u00f5es muito menos favor\u00e1veis. Diploma, esfor\u00e7o e jornadas extensas deixaram de parecer suficientes para construir patrim\u00f4nio ou obter estabilidade. N\u00e3o se trata de atribuir uma consci\u00eancia \u00fanica a milh\u00f5es de pessoas, mas de reconhecer que a lembran\u00e7a das conquistas passadas n\u00e3o garante ao PT eterna gratid\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>A direita radical encontrou espa\u00e7o nessa dist\u00e2ncia entre promessa e experi\u00eancia. Sua narrativa oferece respons\u00e1veis identific\u00e1veis: impostos, burocracia, corrup\u00e7\u00e3o, esquerda, judici\u00e1rio politizado e com privil\u00e9gios, bem como um \u201cEstado burocr\u00e1tico\u201d apresentado como obst\u00e1culo \u00e0 prosperidade. Alguns desses problemas s\u00e3o reais; a opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica consiste em reuni-los numa explica\u00e7\u00e3o que promete libertar o indiv\u00edduo eliminando controles e prote\u00e7\u00f5es coletivas. O trabalhador submetido a rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas desiguais \u00e9 convidado a acreditar que vencer\u00e1 sozinho se o poder p\u00fablico deixar de atrapalh\u00e1-lo. Uma esquerda que responda apenas com a celebra\u00e7\u00e3o de seu passado deixa sem resposta a inseguran\u00e7a que torna essa promessa atraente.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/08\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A economia de 2026 cont\u00e9m essa contradi\u00e7\u00e3o. A reportagem da Folha publicada na v\u00e9spera da elei\u00e7\u00e3o descreveu avan\u00e7os no emprego e na renda convivendo com d\u00edvidas elevadas. Em agosto, 82% das fam\u00edlias tinham compromissos financeiros a vencer; 29,9% estavam inadimplentes. S\u00e3o conceitos diferentes: ter uma presta\u00e7\u00e3o n\u00e3o equivale a n\u00e3o conseguir pag\u00e1-la. Ainda assim, o quadro mostra por que um mercado de trabalho melhor n\u00e3o se traduz automaticamente em tranquilidade dom\u00e9stica. Uma parte da renda que aumenta j\u00e1 chega comprometida com obriga\u00e7\u00f5es anteriores.\u2060<\/p>\n<p>Para quem enfrenta cr\u00e9dito caro, aluguel e presta\u00e7\u00f5es, a prosperidade se mede pelo que sobra e pelo que se consegue planejar. Um indicador nacional favor\u00e1vel n\u00e3o paga uma d\u00edvida individual. <strong>Isso n\u00e3o invalida os resultados do governo, mas nos obriga a compreender seus limites<\/strong>. Fl\u00e1vio explorou o endividamento e o custo de vida enquanto Lula destacou os recordes de emprego e renda. Assim a oposi\u00e7\u00e3o conseguiu dar express\u00e3o pol\u00edtica a contradi\u00e7\u00f5es reais, apresentando-as como esgotamento do governo. Combat\u00ea-la exige enfrentar essas contradi\u00e7\u00f5es, sem tratar a insatisfa\u00e7\u00e3o como simples erro de percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O desgaste institucional acrescentou outra camada ao mal-estar. No Datafolha de setembro, 48% afirmavam n\u00e3o confiar no STF, contra 43% em mar\u00e7o, recorde da s\u00e9rie iniciada em 2012. Outros 14% confiavam muito e 35%, um pouco. A desconfian\u00e7a atingia 69% entre os que declaravam voto em Fl\u00e1vio e 22% entre os de Lula. A pesquisa mostra a associa\u00e7\u00e3o entre polariza\u00e7\u00e3o e credibilidade da Corte, sem demonstrar qual fen\u00f4meno causou o outro. Defender a democracia, nesse contexto, exige tamb\u00e9m defender transpar\u00eancia, apura\u00e7\u00e3o de suspeitas e preven\u00e7\u00e3o de conflitos de interesses. Por\u00e9m, ao mesmo tempo que Lula defendeu a investiga\u00e7\u00e3o de todos ministros envolvidos, fez quest\u00e3o de deixar claro que n\u00e3o \u00e9 Delegado de Pol\u00edcia, nem Juiz. Seu aliado pol\u00edtico, Flavio Dino pediu vista do processo na famigerada sess\u00e3o que decidiria a abertura ou n\u00e3o de inqu\u00e9rito contra Alexandre de Moraes. Defendeu genericamente mudan\u00e7as na nomea\u00e7\u00e3o de ministros da Corte, mas n\u00e3o apresentou uma proposta concreta de reforma pol\u00edtica ou do Judici\u00e1rio. Essa postura vacilante contribuiu com a desconfian\u00e7a do eleitor \u201cindependente\u201d, que pendeu para aquele que fazia ataques mais veementes \u00e0 corte e a ministros espec\u00edficos.<\/p>\n<p>\u2060As bets aprofundam o encontro entre inseguran\u00e7a econ\u00f4mica e descren\u00e7a. Sua trajet\u00f3ria atravessa tr\u00eas governos: a autoriza\u00e7\u00e3o das apostas esportivas de quota fixa foi aprovada pelo Congresso e sancionada por Temer em 2018; Bolsonaro encerrou o mandato sem concluir a regulamenta\u00e7\u00e3o; Lula sancionou a Lei 14.790\/2023, estruturando controles e incluindo tamb\u00e9m jogos online de quota fixa. \u00c9 impreciso atribuir a Lula a origem de todo o mercado, assim como seria incorreto desconsiderar sua responsabilidade por consolidar o espa\u00e7o legal da atividade. Fiscaliza\u00e7\u00e3o e arrecada\u00e7\u00e3o foram combinadas com a aceita\u00e7\u00e3o de um neg\u00f3cio cujos custos sociais j\u00e1 exigiam aten\u00e7\u00e3o.\u2060<\/p>\n<p>A promessa de dinheiro r\u00e1pido encontra terreno f\u00e9rtil onde o trabalho parece incapaz de atender aos anseios materiais. Para parte dos apostadores, as perdas levam \u00e0 tentativa de recupera\u00e7\u00e3o, a novas d\u00edvidas e ao sofrimento que passa a atingir a fam\u00edlia. Acesso permanente pelo celular e ciclos r\u00e1pidos dos cassinos online aumentam a exposi\u00e7\u00e3o, que causa endividamento, vergonha e associa\u00e7\u00e3o com ansiedade e depress\u00e3o, que podem anteceder ou acompanhar a depend\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio supor que todo apostador tenha um transtorno para reconhecer o problema: a explora\u00e7\u00e3o comercial da esperan\u00e7a pode agravar justamente a sensa\u00e7\u00e3o de fracasso da qual promete oferecer uma sa\u00edda. Dessa maneira, as bets, na conjuntura, ajudaram a aumentar o mal-estar econ\u00f4mico, com aumento do endividamento e desviando recursos de setores que poderiam ajudar no crescimento da economia.<\/p>\n<p>\u2060Em que pese a calcifica\u00e7\u00e3o do perfil ideol\u00f3gico do eleitorado, como bem demonstrado por Felime Nunes e Thomas Traumann no seu livro \u201cA Biografia do Abismo\u201d, a for\u00e7a eleitoral do candidato n\u00e3o demonstra que todos os seus votantes compartilhem integralmente o projeto bolsonarista. \u00c9 plaus\u00edvel, portanto, que o que tenha decidido o resultado do primeiro turno tenha sido um voto de puni\u00e7\u00e3o daqueles eleitores independentes, que em 2022 acreditaram que com a volta de Lula, regressar\u00edamos a uma nova era de bonan\u00e7a e mobilidade social acelerada, como foi nos seus primeiros governos. Assim, seria um equ\u00edvoco pol\u00edtico presumir que toda insatisfa\u00e7\u00e3o pertence definitivamente \u00e0 extrema-direita, bem como imaginar que ela se desfar\u00e1 apenas porque se relembrem os riscos do advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>No entanto, o desejo pela mudan\u00e7a com Fl\u00e1vio cont\u00e9m contradi\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel: representa, na verdade, o retorno de uma fam\u00edlia que j\u00e1 governou o pa\u00eds e tem um projeto claro de desmonte democr\u00e1tico. Jo\u00e3o Moreira Salles re\u00fane, na Piau\u00ed de outubro deste ano, declara\u00e7\u00f5es em que o candidato promete honrar o legado do pai e lhe reservar espa\u00e7o num eventual governo. N\u00e3o \u00e9 preciso presumir que Jair controlar\u00e1 cada decis\u00e3o do filho para reconhecer o conte\u00fado restaurador dessa candidatura. O desejo de sair do presente n\u00e3o informa, por si s\u00f3, a dire\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2060O mesmo texto de Salles oferece uma cr\u00edtica que o campo progressista deveria levar a s\u00e9rio. Ap\u00f3s expor os riscos do bolsonarismo, ele reconhece conquistas de Lula, mas aponta a aus\u00eancia de um projeto de futuro. A for\u00e7a desse diagn\u00f3stico est\u00e1 em recusar a falsa escolha entre fazer autocr\u00edtica e defender a democracia. \u00c9 poss\u00edvel considerar a candidatura de Fl\u00e1vio perigosa e, ao mesmo tempo, julgar insuficiente o horizonte oferecido pelo terceiro mandato. A segunda avalia\u00e7\u00e3o ajuda a explicar por que a primeira, isoladamente, j\u00e1 n\u00e3o convence como antes.\u2060<\/p>\n<p>Lula n\u00e3o precisa de um quarto mandato para assegurar seu lugar na hist\u00f3ria. Sua biografia j\u00e1 est\u00e1 inscrita na experi\u00eancia pol\u00edtica brasileira. O que precisa justificar \u00e9 a utilidade de mais quatro anos para quem n\u00e3o deseja apenas recordar o que viveu ou conhecer o que aconteceu antes de nascer. Uma elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria funcionar como cerim\u00f4nia de coroa\u00e7\u00e3o. A mem\u00f3ria de um governo s\u00f3 se transforma em promessa convincente quando permite imaginar o pr\u00f3ximo passo. <strong>A pergunta central deixou de ser quanto o Brasil deve a Lula: passou a ser que pa\u00eds ele ainda se disp\u00f5e a ajudar a construir.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que cabe desejar o retorno do \u201cLula do Velho Testamento\u201d: menos acomodado \u00e0 administra\u00e7\u00e3o dos limites, mais disposto a explicitar os conflitos que os produzem. N\u00e3o se trata de abandonar negocia\u00e7\u00e3o ou garantias democr\u00e1ticas. Trata-se de dizer quem ganha e quem perde com escolhas econ\u00f4micas apresentadas como inevit\u00e1veis. A pol\u00edtica recupera sentido quando torna esses conflitos intelig\u00edveis e assume compromissos sobre como enfrent\u00e1-los.<\/p>\n<p>\u2060A luta de classes, nessa perspectiva, tem express\u00f5es bastante concretas: tempo de trabalho, custo do cr\u00e9dito, tributa\u00e7\u00e3o do consumo, prote\u00e7\u00e3o patrimonial e distribui\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento. Nesse sentido, \u00e9 pedag\u00f3gico quando Salles relatou o contraste entre a indigna\u00e7\u00e3o empresarial com benef\u00edcios sociais e a observa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Andr\u00e9 Esteves (BTG Pactual) sobre subs\u00eddios recebidos pelo pr\u00f3prio mercado financeiro. Um projeto de desenvolvimento nacional precisa distinguir a remunera\u00e7\u00e3o do investimento produtivo da prote\u00e7\u00e3o de ganhos que pouco contribuem para ampliar emprego, capacidade tecnol\u00f3gica e bem-estar.<\/p>\n<p>\u2060H\u00e1 espa\u00e7o social para essa discuss\u00e3o, mas n\u00e3o uma f\u00f3rmula ret\u00f3rica infal\u00edvel. Na Quaest de julho de 2025, 63% apoiavam aumentar impostos dos mais ricos para reduzir os dos mais pobres; ao mesmo tempo, 53% rejeitavam o discurso de \u201cricos contra pobres\u201d por associ\u00e1-lo \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o dos conflitos. A pesquisa tamb\u00e9m registrou oscila\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel a Lula ap\u00f3s o tarifa\u00e7o de Trump, sem isolar suas causas. O recado \u00e9 mais exigente do que a defesa de elevar o tom: <strong>propostas distributivas podem obter apoio mesmo entre pessoas que recusam a linguagem escolhida para apresent\u00e1-las.<\/strong> O confronto, portanto, precisa ter objeto, finalidade e resultado compreens\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>Um projeto de futuro <\/strong>deve dar unidade a essa disputa. Reindustrializa\u00e7\u00e3o, produtividade, ci\u00eancia, intelig\u00eancia artificial, soberania digital, transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, infraestrutura, amplia\u00e7\u00e3o massiva da malha metroferrovi\u00e1ria e do Programa Minha Casa Minha Vida n\u00e3o podem aparecer como uma lista de an\u00fancios. Precisam responder a uma pergunta comum: <strong>como o pa\u00eds produzir\u00e1 mais riqueza, dominar\u00e1 tecnologias e converter\u00e1 esses ganhos em melhores condi\u00e7\u00f5es de vida?<\/strong> A Constitui\u00e7\u00e3o j\u00e1 associa a ordem econ\u00f4mica \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho, \u00e0 soberania nacional e \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das desigualdades. Transformar esses objetivos em dire\u00e7\u00e3o efetiva do Estado seria uma maneira de ligar a defesa democr\u00e1tica \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o material que parte da sociedade reclama.<\/p>\n<p>Isso exige tamb\u00e9m disputar a reforma das institui\u00e7\u00f5es. Defender sua independ\u00eancia n\u00e3o significa consider\u00e1-las imunes a aperfei\u00e7oamento ou indiferentes aos interesses que representam. Transpar\u00eancia, controle do poder econ\u00f4mico, responsabiliza\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o social pertencem a uma agenda democr\u00e1tica. A alternativa \u00e0 captura autorit\u00e1ria n\u00e3o pode ser a preserva\u00e7\u00e3o de todos os arranjos existentes. O campo progressista precisa demonstrar que h\u00e1 mudan\u00e7as institucionais capazes de ampliar direitos e outras capazes de concentrar poder, embora ambas possam ser apresentadas ao p\u00fablico com o mesmo vocabul\u00e1rio de renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro turno tornou essa distin\u00e7\u00e3o mais urgente. O PL ter\u00e1 28 das 81 cadeiras do Senado. A Folha identificou ao menos 49 senadores favor\u00e1veis ao impeachment de ministros do STF, ainda que com ressalvas, cinco abaixo dos 54 necess\u00e1rios \u00e0 condena\u00e7\u00e3o. Esse conjunto n\u00e3o constitui uma bancada homog\u00eanea nem assegura votos em processos concretos. Ainda assim, mostra que a possibilidade de afastamentos deixou de ser apenas uma palavra de ordem distante. Sua execu\u00e7\u00e3o dependeria de alian\u00e7as, da condu\u00e7\u00e3o do Senado e das circunst\u00e2ncias de cada caso, num ambiente de press\u00e3o sobre a Corte.<\/p>\n<p>\u2060A renova\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria do Supremo amplia o alcance da elei\u00e7\u00e3o. \u00c0 vaga deixada por Barroso somam-se as aposentadorias compuls\u00f3rias de Fux, em 2028, e C\u00e1rmen L\u00facia, em 2029. Gilmar Mendes alcan\u00e7a a idade-limite em 30 de dezembro de 2030, o que deixa incerteza sobre o momento de sua substitui\u00e7\u00e3o. A Folha apontou a possibilidade de quatro indica\u00e7\u00f5es. Cada nome depende de aprova\u00e7\u00e3o do Senado e a nomea\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante fidelidade futura. Mas a autonomia formal n\u00e3o dispensa o exame das condutas: o comportamento dos atuais indicados por Bolsonaro fornece raz\u00f5es concretas para levar a s\u00e9rio o risco de alinhamento pol\u00edtico.<\/p>\n<p>\u2060No caso de Andr\u00e9 Mendon\u00e7a, a divulga\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio sobre Vorcaro e Moraes no in\u00edcio de setembro colocou o colega sob forte press\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras do 7 de Setembro, em plena campanha. Reinaldo Azevedo interpretou a atua\u00e7\u00e3o como interven\u00e7\u00e3o orientada pelo calend\u00e1rio eleitoral; Igor Gielow, na Folha, tamb\u00e9m identificou benef\u00edcio pol\u00edtico para Fl\u00e1vio no momento da divulga\u00e7\u00e3o. Considero o epis\u00f3dio um ind\u00edcio relevante de converg\u00eancia com o projeto bolsonarista. Isso n\u00e3o transforma inten\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria em fato judicialmente provado nem dispensa apura\u00e7\u00e3o das suspeitas contra Moraes. Obriga, por\u00e9m, a examinar a atua\u00e7\u00e3o de quem investiga com o mesmo rigor aplicado a quem \u00e9 investigado.<\/p>\n<p>\u2060Nunes Marques oferece outro exemplo. Segundo a reportagem da Folha de 5 de outubro, ele pretende julgar a revis\u00e3o criminal de Bolsonaro depois do segundo turno, independentemente do vencedor, e avalia libert\u00e1-lo por liminar. A mat\u00e9ria ressalva que levar o caso ao plen\u00e1rio \u00e9 o cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel. Fl\u00e1vio conta com uma decis\u00e3o favor\u00e1vel para subir a rampa acompanhado do pai; a PGR, por sua vez, pediu a rejei\u00e7\u00e3o da revis\u00e3o. H\u00e1, portanto, uma inten\u00e7\u00e3o clara do ministro e uma expectativa pol\u00edtica explicitada pela fam\u00edlia. Somadas ao hist\u00f3rico de Mendon\u00e7a, v\u00ea-se uma clara converg\u00eancia pol\u00edtica de setores do STF alinhados com o projeto bolsonarista de poder, deixando, portanto, de ser preocupa\u00e7\u00e3o meramente abstrata.<\/p>\n<p>\u2060A hip\u00f3tese formulada por Reinaldo Azevedo \u00e9 a de que novas indica\u00e7\u00f5es, somadas a Mendon\u00e7a e Nunes Marques, poderiam produzir maioria alinhada no Supremo; eventuais impeachments ampliariam essa possibilidade. Trata-se de um alerta importante no sentido de que uma transforma\u00e7\u00e3o profunda no regime pol\u00edtico pode ocorrer com um alinhamento entre Executivo, Congresso e STF por meio de uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as altamente favor\u00e1vel para a extrema-direita. A presen\u00e7a formal das institui\u00e7\u00f5es, por si s\u00f3, n\u00e3o assegura que continuem funcionando como limites rec\u00edprocos ao poder.<\/p>\n<p>\u2060As declara\u00e7\u00f5es de Fl\u00e1vio d\u00e3o subst\u00e2ncia a essa preocupa\u00e7\u00e3o. Em entrevista \u00e0 Folha em junho de 2025, ele afirmou que o candidato apoiado pelo pai deveria garantir seu indulto e enfrentar eventual resist\u00eancia do Supremo, chegando a mencionar o \u201cuso da for\u00e7a\u201d. O problema ultrapassa a influ\u00eancia pessoal de Jair sobre o filho. Est\u00e1 no compromisso de subordinar o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es \u00e0 repara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica reivindicada por uma fam\u00edlia e por seu grupo.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o internacional tamb\u00e9m precisa entrar nessa avalia\u00e7\u00e3o. O tarifa\u00e7o de Trump, associado \u00e0 press\u00e3o em favor de Bolsonaro, j\u00e1 mostrou que interesses familiares podem buscar apoio externo com custos para o pa\u00eds. Nesse sentido, a interfer\u00eancia estrangeira se d\u00e1 por meio de um grupo pol\u00edtico radicado em solo nacional, como uma esp\u00e9cie de \u201cquinta coluna\u201d. Uma alian\u00e7a pol\u00edtica transnacional \u00e9 capaz, assim, de interferir e ditar os rumos pol\u00edticos do Brasil a partir de um centro nevr\u00e1lgico em Washington. Um projeto democr\u00e1tico brasileiro precisa afirmar sua capacidade de decidir soberanamente os pr\u00f3prios rumos, negociar internacionalmente e proteger a sua popula\u00e7\u00e3o de interesses estrangeiros capitaneados por uma pot\u00eancia estrangeira.<\/p>\n<p>A tarefa do campo progressista \u00e9, portanto, mostrar que seguran\u00e7a econ\u00f4mica e liberdade pol\u00edtica podem avan\u00e7ar juntas. Quando a defesa institucional parece pedir resigna\u00e7\u00e3o diante do sofrimento, ela se enfraquece. A supera\u00e7\u00e3o desse impasse requer um programa capaz de dar uma base material ao conceito abstrato de democracia.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a aprova\u00e7\u00e3o e o in\u00edcio da execu\u00e7\u00e3o de um plano nacional de desenvolvimento s\u00e3o o maior legado estrutural poss\u00edvel de um Lula 4. A Constitui\u00e7\u00e3o j\u00e1 prev\u00ea planejamento estatal e planos nacionais. Falta transformar princ\u00edpios abstratos em compromisso concreto de longo prazo, com metas produtivas e sociais, financiamento e responsabilidades. O plano deveria organizar a transforma\u00e7\u00e3o industrial e tecnol\u00f3gica, a transi\u00e7\u00e3o ambiental e a amplia\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos em torno de ganhos de produtividade distribu\u00eddos socialmente.<\/p>\n<p>Do ponto de vista jur\u00eddico-institucional, isso exigiria uma agenda articulada de reformas monet\u00e1rias, cambiais, fiscais e tribut\u00e1rias, com altera\u00e7\u00f5es constitucionais e legais espec\u00edficas, sendo, portanto, dispens\u00e1vel uma nova Constituinte. Cr\u00e9dito de longo prazo, controle eficiente da conta de capitais, prote\u00e7\u00e3o do investimento p\u00fablico e tributa\u00e7\u00e3o mais progressiva precisariam funcionar de modo coordenado, possibilitando, inclusive, com o aumento da produtividade, uma redu\u00e7\u00e3o estrutural da taxa b\u00e1sica de juros da economia. Superar as amarras neoliberais significa, nessa perspectiva, criar um arcabou\u00e7o normativo-econ\u00f4mico condizente com objetivos democr\u00e1ticos de desenvolvimento.<\/p>\n<p>O debate sobre o Real ajuda a precisar essa diferen\u00e7a. O fim da hiperinfla\u00e7\u00e3o foi uma conquista social duradoura, particularmente para quem n\u00e3o conseguia proteger sua renda. Mas os instrumentos usados para sustentar a estabilidade tiveram custos. Uma reportagem hist\u00f3rica da Ag\u00eancia Brasil examinou o peso dos juros elevados sobre a d\u00edvida p\u00fablica, situa\u00e7\u00e3o que permanece id\u00eantica at\u00e9 os dias atuais, reduzindo, por isso, a margem or\u00e7ament\u00e1ria para realiza\u00e7\u00e3o de investimentos p\u00fablicos, o que reduziu sobremaneira a competitividade nacional. Vencemos a hiperinfla\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o asseguramos uma trajet\u00f3ria continuada de prosperidade. Estabilidade monet\u00e1ria e eleva\u00e7\u00e3o da produtividade precisam integrar o mesmo projeto.<\/p>\n<p>Um presidente n\u00e3o realiza sozinho essa transforma\u00e7\u00e3o. Reformas duradouras dependem de maioria parlamentar, coordena\u00e7\u00e3o federativa, capacidade administrativa e sustenta\u00e7\u00e3o social. Precisam envolver trabalhadores, universidades, organiza\u00e7\u00f5es civis e setores produtivos interessados em ampliar a capacidade do pa\u00eds. O consenso necess\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 unanimidade nem suspens\u00e3o dos conflitos: \u00e9 um acordo suficientemente amplo sobre objetivos, instrumentos e responsabilidades. Sem um movimento nacional, o plano corre o risco de tornar-se uma declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es. Sem metas, or\u00e7amento, transpar\u00eancia e avalia\u00e7\u00e3o, a mobiliza\u00e7\u00e3o pode perder tra\u00e7\u00e3o e engajamento. Governo e a base social que o elegeu t\u00eam fun\u00e7\u00f5es distintas, mas precisam atuar de maneira complementar.<\/p>\n<p>A possibilidade eleitoral continua aberta. Os mais de 33 milh\u00f5es de ausentes e os votos atribu\u00eddos a outras candidaturas permitem mudan\u00e7as relevantes, sem assegurar sua dire\u00e7\u00e3o. Nenhum desses grupos pertence previamente a Lula. Reconhecer esse espa\u00e7o n\u00e3o autoriza minimizar o resultado de Fl\u00e1vio, mas impede tratar a derrota do primeiro turno como senten\u00e7a definitiva. O desafio de Lula \u00e9 apresentar uma perspectiva de futuro convincente at\u00e9 o dia da vota\u00e7\u00e3o. A exist\u00eancia de projeto de pa\u00eds consistente importa tanto para conquistar o governo quanto para disputar democraticamente a sociedade caso se esteja fora dele.<\/p>\n<p><strong>Mesmo que a virada nas urnas n\u00e3o venha, essa formula\u00e7\u00e3o pode transformar uma derrota eleitoral no in\u00edcio de uma vit\u00f3ria pol\u00edtica futura. <\/strong>Um bloco democr\u00e1tico e soberano, unido por um projeto de desenvolvimento nacional e social, teria condi\u00e7\u00f5es de organizar uma oposi\u00e7\u00e3o coesa durante os quatro anos seguintes. A vit\u00f3ria do projeto bolsonarista implicar\u00e1 necessariamente em um projeto antipopular, com a subordina\u00e7\u00e3o dos interesses nacionais aos do centro pol\u00edtico da extrema-direita mundial estabelecido em Washington e ao de setores da burguesia brasileira que defendem um ajuste fiscal agressivo com alta capacidade de enfraquecimento das redes de seguran\u00e7a social e econ\u00f4mica, capaz de frustrar a expectativa de prosperidade que o elegeu. Mas o desgaste de um eventual governo Fl\u00e1vio n\u00e3o seria autom\u00e1tico: a oposi\u00e7\u00e3o precisaria demonstrar a correla\u00e7\u00e3o entre seus atos e consequ\u00eancias e oferecer alternativas, sem esperar passivamente pelo fracasso advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Essa frente n\u00e3o precisa ficar restrita \u00e0 esquerda. Pode reunir centro e setores democr\u00e1ticos da direita, desde que tamb\u00e9m eles se disponham a discutir novos marcos econ\u00f4micos. Uma alian\u00e7a que exige dos progressistas a revis\u00e3o de suas posi\u00e7\u00f5es, mas declara intoc\u00e1veis as escolhas econ\u00f4micas dos parceiros, nasce desequilibrada. Amplitude democr\u00e1tica precisa comportar negocia\u00e7\u00e3o rec\u00edproca e compromissos p\u00fablicos. Defender institui\u00e7\u00f5es \u00e9 um ponto de encontro indispens\u00e1vel; construir um pa\u00eds capaz de oferecer trabalho, seguran\u00e7a e perspectiva de mobilidade social \u00e9 o passo necess\u00e1rio para dar dura\u00e7\u00e3o social a esse encontro.<\/p>\n<p>Uma virada \u00e9 poss\u00edvel, portanto, em dois sentidos. O eleitoral permanece incerto. O pol\u00edtico come\u00e7a quando a defesa de Lula deixa de se limitar ao que seus feitos do passado representam e passa a organizar o que o pa\u00eds pretende realizar. O candidato de 80 anos ainda pode disputar a ideia de futuro contra uma candidatura de restaura\u00e7\u00e3o. Para isso, precisa vincular democracia, soberania e transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica a um compromisso que ultrapasse sua pr\u00f3pria biografia. Ganhar mais uma elei\u00e7\u00e3o seria decisivo; deixar uma for\u00e7a social organizada e um projeto nacional capaz de atravessar governos seria um legado mais duradouro. \u00c9 essa possibilidade que torna a disputa relevante para al\u00e9m de seu resultado imediato.\u2060<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post O que falta para tornar a virada poss\u00edvel appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eua-anunciam-sancoes-contra-brasileiros-e-empresas-por-suposta-ligacao-com-pcc\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/p20260624dt-2094-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">EUA anunciam san\u00e7\u00f5es contra brasileiros e empresas...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/cultura\/2026\/09\/exposicao-fotografica-em-porto-alegre-da-visibilidade-as-mulheres-60\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Exposi\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica em Porto Alegre d\u00e1 visibilid...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-peso-do-acaso-na-sociedade-do-desempenho\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/162839-768x695-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">O peso do acaso na sociedade do desempenho\u00a0<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sp-a-periferia-que-engula-o-lixao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/e114e033-fbe0-453e-ae64-559d5a5c597b-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">SP: \u201cA periferia que engula o lix\u00e3o!\u201d<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Risco de retrocesso pol\u00edtico e civilizat\u00f3rio levou multid\u00f5es \u00e0s ruas. Mas convencer as maiorias exige de Lula um projeto de futuro. Um compromisso que ligue a defesa da democracia com a transforma\u00e7\u00e3o material que a sociedade reclama <\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/estadoemdisputa\/oque-falta-para-tornar-a-virada-possivel\/\">O que falta para tornar a virada poss\u00edvel<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":109344,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[5511,1014,388,603,536,696,3606,5509,423,84552,112,7663,1059,3132,260,71887],"tags":[],"class_list":["post-109343","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-capa","category-classe-trabalhadora","category-congresso-nacional","category-datafolha","category-democracia","category-eleicoes","category-endividamento","category-estado-em-disputa","category-extrema-direita","category-futuro-do-pais","category-lula","category-pesquisas","category-pt","category-soberania-nacional","category-stf","category-virada"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109343","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=109343"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109343\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/109344"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=109343"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=109343"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=109343"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}