{"id":110839,"date":"2026-10-24T11:54:44","date_gmt":"2026-10-24T14:54:44","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/um-trem-chamado-paulo-gustavo\/"},"modified":"2026-10-24T11:54:44","modified_gmt":"2026-10-24T14:54:44","slug":"um-trem-chamado-paulo-gustavo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/um-trem-chamado-paulo-gustavo\/","title":{"rendered":"Um trem chamado Paulo Gustavo"},"content":{"rendered":"<figure><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Era o final do ano de vestibular, uma \u00e9poca dif\u00edcil, de muitas indecis\u00f5es e de provas mil. Estava no fim da medonha d\u00e9cada de 1990, per\u00edodo de novo impulso do neoliberalismo no Brasil, marcado por arrochos e privatiza\u00e7\u00f5es. Meu pai estava passando por um desemprego pesado, o que me tirou do Col\u00e9gio Salesiano de Santa Rosa, espa\u00e7o que adorava e que frequentava desde o in\u00edcio da adolesc\u00eancia. Assim, de uma hora para outra, fui parar na escola p\u00fablica em Niter\u00f3i, o que, no fim das contas, foi maravilhoso. Nesse processo aprendi na marra a ser uma pessoa, e n\u00e3o um filho da medonha classe m\u00e9dia do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Em meio a essa mudan\u00e7a brusca, sa\u00ed daquele universo do col\u00e9gio particular, de roupas de marca, videogames e viagens para Cabo Frio ou para o sul da Bahia, e fui estudar no Liceu de Niter\u00f3i, um col\u00e9gio estadual. Tamb\u00e9m passei a frequentar a Igreja Batista do Fonseca, na Alameda S\u00e3o Boaventura. O Fonseca \u00e9 a terra dos meus pais, lugar que os adolescentes \u201criquinhos\u201d chamavam de <em>Bronx<\/em>. Sim, \u201cNiter\u00f3i \u00e9 um ovo\u201d, mas aquela mudan\u00e7a me levou a outros circuitos. Agora, eu ia \u00e0s casas dos irm\u00e3os da igreja no <em>Bronx<\/em> e aprendia a tocar instrumentos numa igreja na entrada da boca do \u201cBuraco do Juca\u201d. Meu pai sempre lembra disso, afinal, seu filho tinha voltado a frequentar os locais de onde havia sa\u00eddo por causa do trabalho. Mas, permitam-me, o ponto \u00e9 outro.<\/p>\n<p>No terceiro ano do Ensino M\u00e9dio, quando voltava de um refor\u00e7o escolar, um grupo de amigos da minha antiga turma do Salesianos me chamou para uma despedida do Ensino M\u00e9dio, uma noite cultural que aconteceria no teatro do col\u00e9gio. Um deles, Roberto Jorge, avisou \u201cPy, a \u2018Banda Tal\u2019 vai tocar!\u201d. Respondi logo: \u201cDemorou!\u201d, o que, na linguagem niteroiense, significa \u201cj\u00e1 estou dentro!\u201d. Chegou o dia. Coloquei minha melhor roupa (at\u00e9 cal\u00e7a!), mama tascou o bendito gel no meu cabelo, e Carol brigou comigo por causa da bermuda que eu tinha separado. Afinal, eu n\u00e3o podia fazer feio ao rever meu antigo pessoal. Fui andando para o col\u00e9gio, ansioso. Quando cheguei, o lugar j\u00e1 estava lotado. Sentei-me numa das pontas, no meio do audit\u00f3rio.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Prancheta--32.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Prancheta--32.png 680w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A \u00faltima atra\u00e7\u00e3o prevista seria a \u201cBanda Tal\u201d. Enquanto isso, sucediam-se apresenta\u00e7\u00f5es, cantos, dan\u00e7as e coros. Tudo lindo. At\u00e9 que o apresentador chamou uma dupla que faria uma esquete. Os dois estavam com roupas improvisadas. Um deles era Paulo, algu\u00e9m que treinava v\u00f4lei comigo. A cada indica\u00e7\u00e3o do parceiro, ele imitava os trejeitos das nossas m\u00e3es, falando alto e r\u00e1pido. Reproduzia como elas gritavam na entrada do col\u00e9gio quando iam nos buscar, como torciam nos jogos. E, assim, frase a frase, eu n\u00e3o sabia o que fazer. Na verdade, ningu\u00e9m na plateia conseguia parar de rir. R\u00edamos de boca aberta, de olhos arregalados, sem conseguir desviar o olhar do que acontecia no palco. A barriga j\u00e1 n\u00e3o aguentava a dor das gargalhadas. Logo, eu estava chorando de rir. Li-te-ral-men-te!<\/p>\n<p>N\u00e3o era apenas eu. A plateia inteira estava entregue \u00e0 catarse do riso, afinal, ele estava imitando a \u201ctia D\u00e9a\u201d, sua linda e carism\u00e1tica m\u00e3e. Ela, que no fundo, era tamb\u00e9m a minha m\u00e3e. Era um esbo\u00e7o da minha fam\u00edlia. As cenas, o esc\u00e2ndalo que faz\u00edamos, os jogos, o bico, as amea\u00e7as de bater, o ci\u00fame, o humor, os dramas. Aquela performance sempre foi tudo nosso, nossa gente, nosso amor. A apresenta\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o boa que voltaram algumas vezes. A dupla voltou depois que terminou a esquete programada e, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a apresenta\u00e7\u00e3o ficou melhor. Era impressionante. A verdade \u00e9 que nunca ri tanto quanto naquela noite. Olhava para os lados e via meus amigos pedindo que eles voltassem. Tanto que a \u201cBanda Tal\u201d foi engolida, e a \u00faltima atra\u00e7\u00e3o da noite acabou sendo ele, o Paulo Gustavo.<\/p>\n<p>Na \u00faltima volta, depois de assistir pela terceira vez \u00e0s suas piadas e brincadeiras, olhei novamente para a plateia, e ela, completamente tomada pelo riso. Foi quando parei de rir e comecei a apreciar o simples dado de estar vivendo aquilo. N\u00e3o sei se voc\u00eas, leitores, j\u00e1 passaram por isso: a certeza de estar diante de algo grande, maior do que n\u00f3s mesmos. Vibrei quando ele, mesmo com aquelas roupas improvisadas, levou o pr\u00eamio do festival. Mas, era mais do que isso. Ao sair do audit\u00f3rio, passei por Roberto Jorge e Fernando, ambos com os olhos brilhando, e perguntei o que tinha acabado de acontecer. Roberto, meu amigo poeta, sorrindo e balan\u00e7ando a cabe\u00e7a, disse: \u201cFoi um trem chamado Paulo Gustavo\u201d. Eles me chamaram para ir a um bar e nem me toquei. Estava a\u00e9reo, tentando codificar a experi\u00eancia. Tanto que, at\u00e9 hoje, quando vejo os filmes dele, volto a esta dimens\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu tenho uma tese sobre o que vivi naquela noite. Defendo que n\u00e3o era puramente \u201chumano\u201d. Foi algo de outra dimens\u00e3o, um universo epif\u00e2nico tal como foi assistir um show de Tom Z\u00e9 no Circo Voador, de ouvir Milton Schwantes pregar numa igreja da Baixada Fluminense, de ver Mujica discursar na UERJ, de ouvir Teresa Cristina cantar Cartola no Rival ou de ver e ouvir C\u00e1ssia Eller cantar Nirvana no Rock in Rio (seis vezes melhor que o original). Aqui, no fundo, creio que estava em outra dimens\u00e3o. Talvez por isso, h\u00e1 coisas que s\u00f3 foram captadas pelos m\u00edsticos \u2013 os especialistas dos entre-mundos. Como j\u00e1 indiquei, alguns deles v\u00e3o chamar isso de uma \u201cepifania\u201d \u2013 que \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o do divino na Terra. Gosto de uma defini\u00e7\u00e3o da teologia medieval (aquela avessa \u00e0 cultura do dinheiro e \u201cjaula de a\u00e7o\u201d) segundo a qual se trata de uma aproxima\u00e7\u00e3o do universo \u00e0 Terra, ou, ent\u00e3o, de um olhar do c\u00e9u sobre a humanidade.<\/p>\n<p>Uma monstruosidade diante do finito. Sim, o que aconteceu no teatro foi algo estrondoso, luminoso. N\u00e3o foi (apenas) uma apresenta\u00e7\u00e3o de comediante no palco: foi o olhar do infinito sobre a nossa limita\u00e7\u00e3o. A interpreta\u00e7\u00e3o do Paulo foi t\u00e3o especial porque expandia muito de n\u00f3s mesmos. Aquilo parecia um ritual de n\u00f3s mesmos, um momento em que o tempo parava. Infelizmente, s\u00f3 consigo escrever sobre mais de cinco anos depois de seu encantamento, pr\u00f3ximo \u00e0 data de seu anivers\u00e1rio (em 30 de outubro). \u00c9 que s\u00f3 consegui agora me organizar para faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, n\u00e3o posso mentir. Estamos em um momento delicado, o Paulo morreu em 4 de maio de 2021, em decorr\u00eancia da Covid-19, tornando-se uma das v\u00edtimas da trag\u00e9dia da pandemia no Brasil. Esse hecatombe foi agravado pela omiss\u00e3o do governo de Jair Bolsonaro na aquisi\u00e7\u00e3o de vacinas. E, neste per\u00edodo eleitoral, quando seu filho Fl\u00e1vio se apresenta como candidato, buscando aprofundar pautas ultraliberais de seu pai (como o corte e a conten\u00e7\u00e3o de gastos p\u00fablicos, as privatiza\u00e7\u00f5es, o rigor em rela\u00e7\u00e3o aos programas de transfer\u00eancia de renda, como o Bolsa Fam\u00edlia, e o arrocho fiscal), al\u00e9m de pautas de teor fascista, como a restri\u00e7\u00e3o \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es de sindicatos e entidades estudantis nas universidades, a descredibiliza\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es do STF, a defesa do exterm\u00ednio de integrantes de fac\u00e7\u00f5es criminosas, da castra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica e do trabalho for\u00e7ado nas pris\u00f5es, sinto-me compelido escrever sobre isso.<\/p>\n<p>Lembro dessa dor ligada a falta que faz. \u00c9 triste lembrar que nos tiraram Paulo Gustavo. O Paulo nos lembrava com maestria, como uma m\u00e3e pode ser o centro da vida, uma entidade linda, bondosa, contradit\u00f3ria e engra\u00e7ada. O que tr\u00e1s \u00e0 tristeza pela perda da Carolina, Fernando, Roberto, Juliana e Willian pela Covid. E, confesso que essa dor est\u00e1 dentro de mim e se tornou uma nervura aberta quando percebo que Jo\u00e3o n\u00e3o vai conhecer o tio Paulo, que lhe deu uma cal\u00e7a de seu anivers\u00e1rio.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-1.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/media\/2025\/08\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Anos depois, seu talento conquistou o Brasil. Mas a omiss\u00e3o de um governo nos privou de sua arte. A pandemia poderia ter sido diferente? A elei\u00e7\u00e3o vai absolver quem riu da morte?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/um-trem-chamado-paulo-gustavo\/\">Um trem chamado Paulo Gustavo<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":110840,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[20459,6007,696,5488,20683,2956,4684,126,260],"tags":[],"class_list":["post-110839","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-covid","category-crise-brasileira","category-eleicoes","category-historia-e-memoria","category-memorias","category-neoliberalismo","category-paulo-gustavo","category-saude","category-stf"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110839","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=110839"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110839\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/110840"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=110839"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=110839"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=110839"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}