{"id":111550,"date":"2026-10-29T15:10:35","date_gmt":"2026-10-29T18:10:35","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/solidao-premium-como-redes-sociais-e-consumo-transformam-estar-so-em-desejo\/"},"modified":"2026-10-29T15:10:35","modified_gmt":"2026-10-29T18:10:35","slug":"solidao-premium-como-redes-sociais-e-consumo-transformam-estar-so-em-desejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/solidao-premium-como-redes-sociais-e-consumo-transformam-estar-so-em-desejo\/","title":{"rendered":"Solid\u00e3o \u201cpremium\u201d: como redes sociais e consumo transformam estar s\u00f3 em desejo"},"content":{"rendered":"<p>No Pauta P\u00fablica desta semana, Andrea Dip recebe Lucas Liedke e Andr\u00e9 Alves, psicanalistas, pesquisadores e fundadores da Float Vibes, instituto de estudos culturais e pesquisa comportamental. Apresentadores do podcast Vibes em An\u00e1lise, eles discutem como as redes sociais transformam a no\u00e7\u00e3o de coletividade e de individualidade e como as empresas por tr\u00e1s dessas plataformas se beneficiam da solid\u00e3o. Para Lucas, o consumidor solit\u00e1rio tende a ser mais rent\u00e1vel para o mercado.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo um relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, uma em cada seis pessoas no mundo se sente sozinha, com impactos significativos na sa\u00fade e no bem-estar. Para os entrevistados, as redes sociais prometem conex\u00e3o e pertencimento, mas tamb\u00e9m podem intensificar o avan\u00e7o da solid\u00e3o entre as pessoas e transformar em espet\u00e1culo. \u201cQuem filma a solid\u00e3o [\u2026] no limite tamb\u00e9m est\u00e1 colocando a c\u00e2mera como testemunha, ou a suposta audi\u00eancia como testemunha\u2026 um artif\u00edcio para n\u00e3o estar exatamente sozinho\u201d, resume Andr\u00e9 Alves. Para Lucas Liedke, este \u00e9 exatamente o ponto de aten\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que as plataformas lucram com essa din\u00e2mica. \u201cO imagin\u00e1rio divertido e hipersocial das m\u00eddias sociais pode ser opressor\u201d.<\/p>\n<p>As redes sociais n\u00e3o s\u00f3 contribuem para este fen\u00f4meno como podem transform\u00e1-lo em uma esp\u00e9cie de espet\u00e1culo.\u00a0<\/p>\n<p>Leia os principais pontos da conversa e ou\u00e7a o podcast completo abaixo.<\/p>\n<div>\n<div data-init=\"0\" data-id=\"268826\" data-playing=\"0\">\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<h2>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span>EP 239<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\tA solid\u00e3o \u201cpremium\u201d \u2013 com Vibes em An\u00e1lise\t\t\t\t\t\t\t<\/h2>\n<div>\n<p>\n\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t<span>23 de outubro de 2026<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\u00b7<br \/>\n\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\tPsicanalistas do Vibes em An\u00e1lise falam sobre o aumento da solid\u00e3o e como as redes transformaram a ideia de coletividade<\/p>\n<div data-init=\"0\" data-id=\"268826\" data-playing=\"0\">\n<p>\t\t\t\t\t\t<audio src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/EP-239-A-solidao-premium-com-Vibes-em-Analise.mp3\" preload=\"none\"><\/audio><\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>0:00<\/span><\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>-:\u2013<\/span><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i>15<br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i>15<\/p>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><\/p>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>Veja mais epis\u00f3dios desta s\u00e9rie<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><strong>Voc\u00eas escreveram esse texto, Solid\u00e3o Premium, que \u00e9 uma an\u00e1lise sobre muitos temas que se entrela\u00e7am. Ent\u00e3o pra come\u00e7ar, o que \u00e9 a solid\u00e3o premium?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lucas Liedke:<\/strong> A discuss\u00e3o sobre solid\u00e3o vem acontecendo enquanto sintoma global h\u00e1 algum tempo. Com certeza com mais for\u00e7a h\u00e1 uns cinco anos, a partir da pandemia, do trabalho remoto, do isolamento social. Alguns fen\u00f4menos que j\u00e1 eram uma realidade, mas que foram ganhando expans\u00e3o, se tornando uma necessidade e n\u00f3s sabemos que muitas pessoas nunca conseguiram voltar ao que era antes.<\/p>\n<p>No Jap\u00e3o tem esse fen\u00f4meno do hikikomori, que s\u00e3o os indiv\u00edduos que n\u00e3o saem de casa, de forma alguma, e ficam nesse confinamento extremo. Na China, a gente viu o lan\u00e7amento de um aplicativo, que tem um nome bastante macabro, que \u00e9 Voc\u00ea Est\u00e1 Morto?, onde as pessoas s\u00e3o convidadas a fazer um check-in a cada dois dias para mostrar para as outras que elas ainda est\u00e3o vivas.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a gente come\u00e7ou a perceber um movimento tamb\u00e9m de influenciadores de solid\u00e3o. Pessoas que afirmam ter um um orgulho de n\u00e3o ter uma fam\u00edlia pr\u00f3xima, de n\u00e3o ter muitos amigos, de passar um s\u00e1bado \u00e0 noite sozinho em casa, assistindo o que quiser no streaming, comendo o que quiser no delivery, sem ter que negociar os seus gostos, as suas escolhas com ningu\u00e9m. E isso \u00e9 um contraste curioso para as redes sociais, que sempre foi um lugar mais de expor o quanto voc\u00ea \u00e9 soci\u00e1vel, o quanto voc\u00ea se diverte, as suas conex\u00f5es, enquanto uma esp\u00e9cie de capital social. Essa contradi\u00e7\u00e3o foi o que nos levou a escrever esse texto \u201cSolid\u00e3o Premium\u201d.<\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Alves:<\/strong> Tem o famoso relat\u00f3rio da OMS de 2025 sobre como uma em cada seis pessoas no mundo se sente afetada pela solid\u00e3o. Sob \u00e0 luz da psican\u00e1lise \u2013 que \u00e9 o campo de onde a gente parte \u2013 a defini\u00e7\u00e3o da solid\u00e3o parte de uma esp\u00e9cie de d\u00e9ficit relacional. \u201cEu n\u00e3o tenho quantitativamente e ou qualitativamente rela\u00e7\u00f5es suficientes na minha vida\u201d. Claro que nunca a gente tem a sufici\u00eancia na psican\u00e1lise, a gente est\u00e1 sempre trabalhando exatamente com aus\u00eancias e faltas, mas no caso da epidemia de solid\u00e3o, \u00e9 algo que diz sobre faltar demais, sobre eu n\u00e3o ter rela\u00e7\u00f5es profundas o suficiente, e\/ou pessoas o suficiente na minha vida com quem eu possa trocar e que considerem a minha dor como algo importante.<\/p>\n<p>A Solid\u00e3o Premium, da qual a gente tem falado e esse texto que o Lucas escreveu, parte da ideia de que, no estado atual desse movimento, a gente tem observado muitos criadores de conte\u00fado, e n\u00e3o s\u00f3, mas tamb\u00e9m outras \u00e1reas da cultura e da vida de uma forma geral, promovendo uma esp\u00e9cie de estetiza\u00e7\u00e3o da solid\u00e3o. Um <em>rebranding<\/em> da solid\u00e3o: a solid\u00e3o passando a ser algo ou um estado n\u00e3o s\u00f3 dif\u00edcil, vergonhoso, culposo, negativo, mas tamb\u00e9m como um estado aspiracional, algo que eu quero ter na minha vida, pertencer, e acho que d\u00e1 para a gente falar, inclusive, um pouco sobre como o consumo afeta essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Lucas Liedke:<\/strong> Porque essa solid\u00e3o espetacularizada, o quanto ela \u00e9 uma escolha? Ou o quanto que \u00e9 tentar se contentar com o que tem, ou com o que n\u00e3o tem. Porque talvez o que a gente tenha perdido, muitos de n\u00f3s, n\u00e3o seja s\u00f3 a proximidade com os outros, mas a capacidade e o desejo de se relacionar. Ent\u00e3o, nesse espet\u00e1culo tem algo meio contradit\u00f3rio, que \u00e9 voc\u00ea pode estar disposto a n\u00e3o ter mais o valor das rela\u00e7\u00f5es interpessoais, mas, ao mesmo tempo, tem um gozo em possuir uma audi\u00eancia e agradar uma audi\u00eancia, que est\u00e1 validando ali a sua vida solit\u00e1ria, mas que est\u00e1 cheia de prazeres e que custa caro. Como o Andr\u00e9 falou, ela \u00e9 aspiracional. Tem uma ostenta\u00e7\u00e3o, tem um luxo de um certo consumo de que \u00e9: \u201ceu estou sozinho, mas eu sou feliz aqui no meu castelo\u201d.<\/p>\n<div>\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;6ae3818502104&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6ae3818502104\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><\/p>\n<p>\t\t<\/button><figcaption>Lucas Liedke e Andr\u00e9 Alves, psicanalistas, pesquisadores e fundadores da Float Vibes, instituto de estudos culturais e pesquisa comportamental<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p><strong>Sobre essa ideia da solid\u00e3o performada;<\/strong> <strong><\/strong><strong>de que solid\u00e3o estamos falando, quando uma pessoa monta um esquema para se filmar curtindo estar sozinha, para depois apresentar para as pessoas e esperar delas curtidas e coment\u00e1rios? De que tipo de solid\u00e3o estamos falando quando pensamos nessa solid\u00e3o perform\u00e1tica para o outro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Alves:<\/strong> Eu vou trazer tr\u00eas autores para pensarmos a solid\u00e3o. O Winnicott, psicanalista brit\u00e2nico, tem um texto muito importante, do final dos anos 50, em que ele fala sobre a capacidade de estar s\u00f3, sobre como a solid\u00e3o ou a solitude \u00e9 um estado conquistado. A crian\u00e7a aprende a estar s\u00f3. Primeiro com os cuidadores observando a crian\u00e7a brincar sozinha, e depois a crian\u00e7a vai integrando essa capacidade de estar feliz em sua pr\u00f3pria companhia, ou satisfeita minimamente na sua pr\u00f3pria companhia.<\/p>\n<p>Vamos guardar essa informa\u00e7\u00e3o. Tem uma outra autora que \u00e9 pouco falada quando se discute solid\u00e3o \u2013 pelo menos nas minhas andan\u00e7as por a\u00ed \u2013 que \u00e9 a Melanie Klein. J\u00e1 no final de sua obra, tem um texto em que ela descreve a solid\u00e3o muito ligada a uma nostalgia de um estado perfeito de compreens\u00e3o total, que nunca existiu mas \u00e9 a fantasia da rela\u00e7\u00e3o sem palavras com o objeto prim\u00e1rio. A fantasia de que h\u00e1 um outro que me entende completamente, totalmente e me suporta integralmente.<\/p>\n<p>Eu trouxe esses dois autores porque os dois est\u00e3o falando, de alguma forma, desse ambiente perfeito. E a gente n\u00e3o anda muito bom de desidealizar as coisas. Pelo contr\u00e1rio, a gente anda muito bom de ideais saturados. \u00c9 o que o consumo especialmente nos promove ou nos promete, n\u00e9. \u00c9 exatamente o ambiente perfeito. A casa que ela tem \u00e9 maravilhosa a ponto de voc\u00ea n\u00e3o querer sair mais dela. Ela faz total sentido, ela reflete todos os seus gostos, n\u00e9. Esse ambiente de conveni\u00eancia m\u00e1xima como se fosse um ambiente perfeito. Que a gente sabe, n\u00e3o existe, mas ao mesmo tempo parece que o consumo tem ficado especialmente bom em nos convencer do contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>E a\u00ed entra a viralidade e o conte\u00fado promovendo essa repeti\u00e7\u00e3o em <em>loop<\/em>. Eu falei que eram tr\u00eas autores, e acho que tem um terceiro autor importante tamb\u00e9m da psican\u00e1lise brit\u00e2nica, que \u00e9 o Christopher Bollas, que tem uma grande obra tamb\u00e9m no s\u00e9culo XXI, de como o que a gente busca no consumo \u00e9 o que o beb\u00ea geralmente busca na m\u00e3e. N\u00e3o s\u00f3 um objeto, mas uma experi\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso que o consumo nos promete. \u201cUse isso, tenha isso, viva isso, e voc\u00ea sair\u00e1 dessa muito melhor, transformado, muito mais aspiracional, inclusive\u201d. \u00c9 como se a conveni\u00eancia entrasse tamb\u00e9m como uma suplanta\u00e7\u00e3o da car\u00eancia e de uma constante presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Por que a gente tem visto tantos <em>creators<\/em> ou criadores de conte\u00fado falando sobre solid\u00e3o? Exatamente para remontar esse ambiente perfeito e idealizado, colocar nos objetos e nessa casa perfeita cheia de coisas incr\u00edveis a ideia de experi\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o ou de preserva\u00e7\u00e3o, e tr\u00eas, uma fala constante e ininterrupta sobre solid\u00e3o exatamente para n\u00e3o ter que experimentar a solid\u00e3o. Porque quem filma a solid\u00e3o ou transforma a solid\u00e3o em espet\u00e1culo \u2013 como o Lucas estava dizendo \u2013 tamb\u00e9m est\u00e1 colocando a c\u00e2mera como testemunha, ou a suposta audi\u00eancia como testemunha como tamb\u00e9m um artif\u00edcio para n\u00e3o estar exatamente sozinho.<\/p>\n<p><strong>Lucas Liedke:<\/strong> Existem dados cient\u00edficos de como o sentimento de solid\u00e3o atua como um fator de risco para a nossa sa\u00fade, tanto quanto ser sedent\u00e1rio, quanto obesidade, ou tabagismo. Tem at\u00e9 essa ideia de que a solid\u00e3o \u00e9 considerada t\u00e3o prejudicial \u00e0 sa\u00fade quanto fumar 15 cigarros por dia. Mas a solid\u00e3o \u00e9 bem subjetiva, voc\u00ea pode estar cercado de muita gente, ainda assim se sentir s\u00f3, ou o contr\u00e1rio. Ent\u00e3o, \u00e9 claro que n\u00e3o \u00e9 tanto sobre estar sozinho apenas por op\u00e7\u00e3o, mas ter a op\u00e7\u00e3o de sair do isolamento quando voc\u00ea quer ou precisa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vale a gente problematizar um pouco que o imagin\u00e1rio divertido e hipersocial das m\u00eddias sociais pode ser opressor. Mas a gente tamb\u00e9m pode demonizar uma vida solit\u00e1ria, assim como romantizar um sentimento de solid\u00e3o. A gente enxerga que s\u00e3o dois becos sem sa\u00edda porque tem um empuxo muito do nosso tempo hoje do hiper indiv\u00edduo de um grande projeto de se auto-otimizar. E a\u00ed as rela\u00e7\u00f5es nem sempre ajudam nisso, porque voc\u00ea tem que abrir m\u00e3o de alguma coisa. Precisa se adaptar, quebrar sua rotina, sacrificar alguma coisa. E a\u00ed o outro produz um tipo de diferen\u00e7a, ou de atrito, ou de imprevisibilidade nos seus planos. E a\u00ed quem entrega essa vida \u201csocial\u201d sem fric\u00e7\u00e3o \u00e9 a economia da companhia artificial. A intelig\u00eancia artificial enquanto essa solu\u00e7\u00e3o para um problema que foi criado pelas pr\u00f3prias tecnologias.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o podemos deixar de lado como essa solid\u00e3o serve ao capitalismo neoliberal, a individualiza\u00e7\u00e3o extrema. Por um lado, a libido tem que estar totalmente investida no trabalho, porque estamos sendo esmagados o tempo inteiro por demandas e n\u00e3o tem mais separa\u00e7\u00e3o do trabalho para casa, nem fisicamente, nem na nossa cabe\u00e7a. E a\u00ed quais os impactos dessa ideia que os v\u00ednculos interpessoais podem oferecer risco para o grande projeto de auto-otimiza\u00e7\u00e3o do super indiv\u00edduo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lucas Liedke:<\/strong> Tem um tratado do jornalista Derek Thompson que ele chama de s\u00e9culo antissocial. Ele fala por esse vi\u00e9s mais do consumo, de a quem que interessa a gente ficar mais e mais sozinhos. Porque mesmo os aplicativos de relacionamento s\u00e3o projetados de forma que voc\u00ea continue l\u00e1. Eles n\u00e3o querem perder esses clientes e consumidores.\u00a0<\/p>\n<p>O consumidor solit\u00e1rio tende a ser mais rent\u00e1vel para o mercado. S\u00e3o as por\u00e7\u00f5es menores e mais caras, \u00e9 mais embalagem, tem mais transa\u00e7\u00f5es individuais. A gente tem hoje uma an\u00e1lise de dados tamb\u00e9m, de algoritmo, que funciona de um jeito muito menos gen\u00e9rico, \u2013 como era a vis\u00e3o demogr\u00e1fica do consumidor \u2013 hoje, \u00e9 muito singular, muito espec\u00edfico. E a gente vai sendo suprido com muita conveni\u00eancia, como se isso desse conta da complexidade do nosso afeto e das nossas car\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Alves:<\/strong> O Bumble lan\u00e7ou esse ano o concierge de IA. Voc\u00ea n\u00e3o precisa mais conversar com 10, 50, 100 pessoas at\u00e9 achar uma pessoa que seria \u201cperfeita\u201d. Porque a gente sabe que o trabalho relacional come\u00e7a exatamente depois do encontro, e n\u00e3o necessariamente no encontro perfeito, do objeto perfeito que vai satisfazer todas as suas necessidades. E a\u00ed o concierge de IA, na verdade, filtra quem s\u00e3o as tr\u00eas pessoas perfeitas. Depois, os concierges de IA v\u00e3o conversar entre si para encontrar a sua probabilidade perfeita.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 um sintoma social, da media\u00e7\u00e3o relacional e tamb\u00e9m da comunica\u00e7\u00e3o ass\u00edncrona, de uma quantidade muito grande de ansiedades sociais, da evita\u00e7\u00e3o do conflito e principalmente \u2013 do que a gente no Instituto Float Vibes, que eu e o Lucas temos \u2013 chamamos de era das intimidades sint\u00e9ticas. A gente fica acostumado demais n\u00e3o com as rela\u00e7\u00f5es, mas com aquilo que \u00e9 \u201csabor-rela\u00e7\u00e3o\u201d, que me d\u00e1 o simulacro de rela\u00e7\u00e3o o simulacro de comunidade, pegando um termo do Zygmunt Bauman.<\/p>\n<p>Outra coisa que eu acho interessante pensar, bem fisheriano, \u00e9 como essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 um golpe de mestre do capitalismo tardio. Primeiro, ele degrada a coletividade e depois nos vende ela de volta, s\u00f3 que com mensalidades, com grupos, com clubes. E a\u00ed n\u00f3s vamos tentando reintegrar a nossa necessidade de fazer pontes e de pertencer atrav\u00e9s de servi\u00e7os pagos. S\u00f3 que, junto com isso, h\u00e1 uma tese em curso que ganha for\u00e7a \u2013 especialmente no final dos anos 80 e nos anos 90 \u2013, de que o sucesso \u00e9 uma quest\u00e3o de disciplina e especialmente de dedica\u00e7\u00e3o. Thompson, citado por Lucas, escreveu bastante sobre como o trabalho suplanta a aus\u00eancia de religiosidade e espiritualidade desse per\u00edodo, consequentemente, o trabalho vira um sistema de devo\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Porque se o sujeito contempor\u00e2neo, do hiper desempenho, acredita que o sucesso \u00e9 uma quest\u00e3o de disciplina, as rela\u00e7\u00f5es v\u00e3o se transformando em distra\u00e7\u00f5es. A rela\u00e7\u00e3o tem um risco especialmente para os homens, como temos acompanhado em alguns estudos que temos feito e publicado. As rela\u00e7\u00f5es v\u00e3o sendo encaradas n\u00e3o mais como algo que voc\u00ea tem que fazer para pertencer ao meio social, mas sim, algo que voc\u00ea pode evitar para continuar comprometido com o seu projeto de sucesso e ascens\u00e3o.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/chile-e-equador-vao-as-urnas-com-medo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/photo_4951854193304079187_y-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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