{"id":12128,"date":"2025-02-01T15:50:16","date_gmt":"2025-02-01T18:50:16","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/a-peleja-dos-bilionarios-contra-a-ameaca-chinesa\/"},"modified":"2025-02-01T15:50:16","modified_gmt":"2025-02-01T18:50:16","slug":"a-peleja-dos-bilionarios-contra-a-ameaca-chinesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-peleja-dos-bilionarios-contra-a-ameaca-chinesa\/","title":{"rendered":"A peleja dos bilion\u00e1rios contra a \u201camea\u00e7a\u201d chinesa"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/site-outras-palavras.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/site-outras-palavras.jpg 960w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/site-outras-palavras-300x169.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/site-outras-palavras-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\"><figcaption><em><em>Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Elon Musk na posse de Trump. <\/em><\/em><br \/><em><em>Tamb\u00e9m participaram Sundai Pichar (Google), Sam Altman (OpenAI) e Tim Cook (Apple)<\/em>. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Tica Moreno e Luiz Zarref*<\/em><br \/><em>De Outras Palavras<\/em><\/p>\n<p>A presen\u00e7a dos bilion\u00e1rios que controlam as principais estruturas de dados do capitalismo financeiro ocidental na primeira fileira da posse de Donald Trump foi a sequ\u00eancia de uma aparentemente bem orquestrada movimenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica. A agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica promovida por Elon Musk (Tesla e X) durante a campanha eleitoral e sua posterior presen\u00e7a articuladora na prepara\u00e7\u00e3o do novo governo somam-se ao manifesto declamado por Mark Zuckerberg (Meta) no in\u00edcio do ano. Um ao lado do outro, com Jeff Bezos (Amazon), Sundar Pichai e Sergey Brin (ambos Alphabet\/Google), produziram uma fotografia que repercutiu nas redes globais e motivou diferentes an\u00e1lises. Ainda estavam presentes Sam Altman (OpenAI) e Tim Cook (Apple).<\/p>\n<p>H\u00e1 uma vertente que interpreta esse acontecimento como o apoio de um setor empresarial \u00e0s promessas de Trump sobre diminui\u00e7\u00e3o de regula\u00e7\u00f5es e corte de impostos, no que poderia ser encarado como uma tentativa de recuperar o moribundo neoliberalismo (n\u00e3o global, mas no ventre da besta). Nessa linha tamb\u00e9m est\u00e1 o entendimento que as regula\u00e7\u00f5es europeias que se avizinham devem ser combatidas pelo governo estadunidense como quest\u00e3o nacional. Outra explica\u00e7\u00e3o baseia-se na coes\u00e3o destes homens com o governo Trump pelo interesse de uma nova fase da explora\u00e7\u00e3o espacial ou na cria\u00e7\u00e3o de cidades \u201cinteligentes\u201d totalmente privatizadas, apresentada como uma utopia da ultra burguesia.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda a leitura, mais presente na esquerda brasileira, que localiza essa alian\u00e7a nos marcos do fascismo, como um fen\u00f4meno crescente no ocidente diante da crise do capitalismo. Ao manipular as massas e esconder o avan\u00e7o da barb\u00e1rie, ajudam a eleger governos alinhados ao bloco fascista e assim ganham f\u00f4lego nos estertores de seu dom\u00ednio global.<\/p>\n<p>Essas abordagens s\u00e3o importantes e cont\u00eam fragmentos da totalidade desse quadrante hist\u00f3rico, por\u00e9m nossa avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o alcan\u00e7am seu n\u00facleo. A novidade da unidade finalmente expl\u00edcita das corpora\u00e7\u00f5es dos dados representada na fotografia deve, primeiro, ser compreendida junto a outros pilares de sustenta\u00e7\u00e3o de Trump \u00e0 frente do Imp\u00e9rio: o complexo b\u00e9lico-militar e as corpora\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo e g\u00e1s. Mas, para al\u00e9m disso, precisamos desenvolver uma leitura mais precisa sobre qual a base material dessa nova fra\u00e7\u00e3o da burguesia \u2013 os bilion\u00e1rios das Big Techs \u2013 e porque ela possui tanto poder. Somente assim podemos analisar o que ocorre no teatro propositalmente encenado e repercutido com toda a pot\u00eancia pelas redes sociais criadas e geridas pelos mesmos.<\/p>\n<p>Precisamos compreender que seu poder n\u00e3o est\u00e1 apenas na quantidade de dinheiro que possuem \u2013 o qual est\u00e1, inclusive, compreendido quase completamente em capital fict\u00edcio. Tampouco est\u00e1 nessa incr\u00edvel capacidade de manipula\u00e7\u00e3o, que \u00e9 real e n\u00e3o deve ser desprezada. Ali\u00e1s, essas duas express\u00f5es tang\u00edveis deste poder s\u00e3o resultado justamente de uma raz\u00e3o objetiva: o controle da produ\u00e7\u00e3o, extra\u00e7\u00e3o e processamento de dados.<\/p>\n<p>\u00c9 determinante e urgente entendermos que estamos em meio a uma nova revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Os meios de produ\u00e7\u00e3o mobilizados pela revolu\u00e7\u00e3o da agricultura, pecu\u00e1ria e metalurgia, assim como aqueles da revolu\u00e7\u00e3o industrial, ainda est\u00e3o presentes na base da sociedade mundial. Por\u00e9m, a atual din\u00e2mica do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas encontra-se em pleno processo de subsun\u00e7\u00e3o formal destes a uma nova s\u00edntese, que tem centralidade no capital financeiro que, por sua vez, depende da digitaliza\u00e7\u00e3o e datafica\u00e7\u00e3o da maior quantidade poss\u00edvel de elementos da realidade objetiva e subjetiva, na busca de capacidade crescente de extra\u00e7\u00e3o, armazenamento e processamento desses dados como capital. A infraestrutura de dados e, portanto, sua propriedade, \u00e9 determinante nesse processo.<\/p>\n<p>O simbolismo dessa nova revolu\u00e7\u00e3o nos confunde porque o que vemos \u00e9 apenas a imag\u00e9tica reproduzida em celulares e computadores. Mas suas imensas f\u00e1bricas existem fisicamente. S\u00e3o datacenters que, para funcionar 24 horas por dia, consomem quantidades crescentes de energia e \u00e1gua \u2013 apenas Google e Microsoft, por exemplo, consomem mais energia do que 100 pa\u00edses juntos e, individualmente, mais que pa\u00edses como Gana e Tun\u00edsia. S\u00e3o dezenas de milhares de quil\u00f4metros de cabos submarinos, outra centena de milhares de antenas e um crescente n\u00famero de sat\u00e9lites, com especial destaque para o sistema Starlink. S\u00e3o milhares de trabalhadoras e trabalhadores espalhados pelo Sul Global encarando jornadas super extensas e com baix\u00edssima remunera\u00e7\u00e3o \u2013 em \u201cfazendas de cliques\u201d, em escrit\u00f3rios ou mesmo em suas pr\u00f3prias casas \u2013 para treinar a chamada intelig\u00eancia artificial, rotulando termos e imagens, por exemplo.<\/p>\n<p>Os dados s\u00e3o a mat\u00e9ria-prima base para esse novo desenvolvimento tecnol\u00f3gico nessa fase do capitalismo financeiro. Esse n\u00e3o \u00e9 um mero detalhe. A hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 a hist\u00f3ria da luta de classes, ensinamento b\u00e1sico para qualquer militante. A luta de classes, que \u00e9 a batalha promovida a partir das contradi\u00e7\u00f5es entre as classes sociais e o dom\u00ednio sobre os meios de produ\u00e7\u00e3o de determinado per\u00edodo hist\u00f3rico, est\u00e1 no centro dessas contradi\u00e7\u00f5es. A cada revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica a din\u00e2mica geopol\u00edtica do mundo \u2013 ou de partes do mundo, se pensarmos antes das grandes navega\u00e7\u00f5es \u2013 se alterou, surgindo novas pot\u00eancias e erodindo imp\u00e9rios passados. Isso significa mudan\u00e7as de bordas territoriais, mas, fundamentalmente, nas formas sociais que organizam o mundo, em suas dimens\u00f5es materiais e simb\u00f3licas.<\/p>\n<p>Portanto, seguindo esse pensamento, os dados (como mat\u00e9ria-prima fundamental) e os fatores de produ\u00e7\u00e3o para sua extra\u00e7\u00e3o e processamento est\u00e3o no centro da disputa geopol\u00edtica do presente e futuro. As for\u00e7as sociais que controlarem os est\u00e1gios iniciais dessa nova revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica definir\u00e3o a din\u00e2mica do mundo e essa \u00e9 uma das batalhas centrais dos nossos tempos.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o nos cabe exercitar futurologia, \u00e9 dif\u00edcil saber se este dom\u00ednio sobre os dados \u00e9 mais um passo da subsun\u00e7\u00e3o formal ou se j\u00e1 adentramos na subsun\u00e7\u00e3o real dos meios de produ\u00e7\u00e3o existentes \u00e0 essa nova fase do capitalismo. Entretanto, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel compreender que aquilo que conhecemos como mundo est\u00e1 sendo rapidamente processado e cada vez mais transformado por essa sofistica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica t\u00e3o ou mais significativa quanto \u00e0 m\u00e1quina \u00e0 vapor.<\/p>\n<p>Aproveitando o paralelo, devemos evitar o fetichismo, quando a coisa produzida por n\u00f3s, seres humanos, assume um poder fantasmag\u00f3rico, tornando-se mais poderoso que seu criador e passando a determinar toda sua vida. Fato \u00e9 que as tecnologias dessas grandes corpora\u00e7\u00f5es e seus sistemas algor\u00edtmicos v\u00e3o penetrando em cada aspecto da vida e s\u00e3o naturalizadas como as \u00fanicas possibilidades. Avan\u00e7am e operam onde n\u00e3o esbarram com regula\u00e7\u00f5es e, quando chegam a incomodar, j\u00e1 existe um grau de depend\u00eancia das infraestruturas, modelos e aplica\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas espec\u00edficas que sua revers\u00e3o parece ser imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>O ponto determinante para as for\u00e7as revolucion\u00e1rias est\u00e1, portanto, em entender como uma nova burguesia surge ao controlar esses novos meios de produ\u00e7\u00e3o \u2013 e qual a vis\u00e3o de mundo que essa nova burguesia buscar\u00e1 impor para seguir acumulando a partir do roubo da natureza e da explora\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva e reprodutiva das massas exploradas.<\/p>\n<p>Entendendo que os bilion\u00e1rios da fotografia det\u00eam os meios de produ\u00e7\u00e3o mais extraordin\u00e1rios que a humanidade j\u00e1 produziu para simular diferentes cen\u00e1rios, podemos assumir que eles sabem bem o que est\u00e3o fazendo, inclusive ao performar suas exposi\u00e7\u00f5es e cada um de seus gestos. Eles aderem e passam a ser (entusiasticamente) um dos sustent\u00e1culos do bloco trumpista porque veem nele as condi\u00e7\u00f5es objetivas para enfrentar as batalhas que est\u00e3o no horizonte imediato e que ter\u00e3o papel decisivo nos rumos dessa nova era do desenvolvimento humano. Em nosso entendimento como autores desse artigo, o principal enfrentamento se d\u00e1 contra a planifica\u00e7\u00e3o socialista sobre a esfera digital do capitalismo financeiro, proposta pela China sob lideran\u00e7a do Partido Comunista.<\/p>\n<p>Explicaremos a seguir o porqu\u00ea desta conclus\u00e3o, mas fundamentalmente estamos baseados na compreens\u00e3o que esse hist\u00f3rico passo do Partido Comunista Chin\u00eas (PCCh) \u2013 e a rea\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio \u2013 deve ser situado no singular momento em que, pela primeira vez, o Sul Global, enquanto conjunto com seus blocos pol\u00edticos, como o BRICS e na\u00e7\u00f5es como a China, emergem como pot\u00eancias econ\u00f4micas e tecnol\u00f3gicas colocando o desindustrializado Estados Unidos em alerta. \u00c9 precisamente essa conjuntura in\u00e9dita que caracteriza o que se entende como Hiperimperialismo. Aqui, os tr\u00eas setores que sustentam Trump e hoje est\u00e3o sob seu comando \u2013 armas, petr\u00f3leo e tecnologia \u2013 s\u00e3o estrat\u00e9gicos na disputa enfrentada pelo decadente e perigoso imperialismo liderado pelos EUA. Eles n\u00e3o est\u00e3o se movendo a partir de espontane\u00edsmos. H\u00e1 t\u00e1tica e objetivo: aniquilar as possibilidades de supera\u00e7\u00e3o de seu projeto pol\u00edtico nesse momento de transi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas.<\/p>\n<p><strong>China, novas qualidades das for\u00e7as produtivas e o Sul Global<\/strong><\/p>\n<p>A superioridade hist\u00f3rica do socialismo sobre o capitalismo \u00e9 composta por muitas dimens\u00f5es. Uma das principais \u00e9 que o socialismo \u00e9 o modo de produ\u00e7\u00e3o em que o car\u00e1ter revolucion\u00e1rio do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas n\u00e3o \u00e9 sequestrado pela burguesia. Ao manter o controle dos meios de produ\u00e7\u00e3o, a burguesia controla n\u00e3o apenas a mais valia, mas tamb\u00e9m toda a possibilidade de desenvolvimento da humanidade. Por vezes, impede esse progresso, tentando bloquear para que tudo que n\u00e3o esteja sob seus dom\u00ednios flores\u00e7a e d\u00ea semente. Outras tantas, impede o desenvolvimento cient\u00edfico, como bem identificou Marx quando descobriu que a Economia Pol\u00edtica estava rodando em falso num atoleiro, pois n\u00e3o podia dizer aquilo que estava \u00f3bvio: a teoria do Valor.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias socialistas compreenderam que assumir o Estado deveria servir para extinguir gradualmente esse controle da burguesia sobre o seguir da marcha da hist\u00f3ria. O caminho do Partido Comunista Chin\u00eas \u00e9 talvez o mais pol\u00eamico desses quase 200 anos de intentos iniciados com a Comuna de Paris. Usando uma paleta de cores apenas prim\u00e1rias, \u00e9 poss\u00edvel desenh\u00e1-lo como um modo de produ\u00e7\u00e3o onde o Partido Comunista planifica uma economia socialista de mercado, direcionando o desenvolvimento em setores estrat\u00e9gicos com estruturas estatais enquanto estimula as leis econ\u00f4micas de mercado cl\u00e1ssicas em setores perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Os resultados dessa via chinesa s\u00e3o realmente \u00e9picos. Eliminaram a pobreza extrema em uma sociedade de 1,4 bilh\u00f5es de habitantes, cujas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e topogr\u00e1ficas n\u00e3o s\u00e3o exatamente as mais favor\u00e1veis do mundo. Mesmo com um atraso de duas d\u00e9cadas em rela\u00e7\u00e3o ao Jap\u00e3o, Alemanha e Fran\u00e7a, em menos de 20 anos constru\u00edram 45 mil quil\u00f4metros de trens de alta velocidade, representando \u2154 de toda a malha ferrovi\u00e1ria deste tipo no mundo. Dominam as tecnologias mais avan\u00e7adas em energia solar e produ\u00e7\u00e3o de motores el\u00e9tricos para ve\u00edculos individuais ou coletivos.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 bem sabido pelo PCCh \u2013 n\u00e3o \u00e9 obra do acaso ou mesmo n\u00e3o \u00e9 visto com surpresa por seus quadros. Ao contr\u00e1rio, eles j\u00e1 conclu\u00edram que fizeram bem o dever de casa de \u201ccorrer atr\u00e1s\u201d. Hoje a China \u00e9 a oficina do mundo n\u00e3o pelo valor de troca de sua for\u00e7a de trabalho, e sim por todo o sistema industrial de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o que desenvolveu. Mas ainda se encontra nos marcos das revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Diante da acelerada conflagra\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica imposta pela decad\u00eancia hiperimperialista, o PCCh busca desenvolver duas linhas simult\u00e2neas. Externamente, desenvolve a inovadora teoria da Comunidade Global de Futuro Compartilhado. Internamente, compreende que essa extraordin\u00e1ria capacidade desenvolvida pela China j\u00e1 permite \u201ctocar\u201d as membranas do futuro, dar os s\u00f3lidos passos para uma nova revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. A isso o presidente chin\u00eas Xi Jinping, como n\u00facleo do PCCh, tem reiteradamente chamado a na\u00e7\u00e3o a empreender todos os esfor\u00e7os para desenvolver as Novas Qualidades das For\u00e7as Produtivas.<\/p>\n<p>Os dados foram definidos, na China, como um novo fator de produ\u00e7\u00e3o, junto com terra, trabalho, capital e tecnologia. Com essa vis\u00e3o, h\u00e1 um impulso para diferentes \u00e1reas do conhecimento, principalmente biologia, novas energias, manufatura e informa\u00e7\u00e3o. Aqui assumem papel central as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas com base em Big Data e para o desenvolvimento de modelos de intelig\u00eancia artificial nos diferentes setores da economia e da sociedade, passando pela agricultura, energia, planejamento urbano e at\u00e9 o cuidado de idosos.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o \u00e9 uma tecnologia homog\u00eanea e universal, deve ser compreendida em seus modelos espec\u00edficos direcionados a esferas distintas da vida (um modelo de tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de texto \u00e9 diferente de um modelo de reconhecimento facial, ou de dire\u00e7\u00e3o automatizada, ou de aplica\u00e7\u00e3o militar, que por sua vez tamb\u00e9m \u00e9 diferente de um modelo de monitoramento de lavoura). Em todo o mundo, a intelig\u00eancia artificial \u00e9 foco da expans\u00e3o da fronteira da inova\u00e7\u00e3o e \u00e9 aplicada a processos produtivos espec\u00edficos. Na China, a elabora\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de impulsionar as novas qualidades das for\u00e7as produtivas, revolucionando cada setor com inova\u00e7\u00e3o incluindo infraestruturas de dados e a constru\u00e7\u00e3o de modelos de IA, \u00e9 entendido como um componente fundamental da moderniza\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Como a China entende que os dados s\u00e3o mat\u00e9ria prima que viabiliza a nova qualidade das for\u00e7as produtivas, uma consistente regulamenta\u00e7\u00e3o do uso destes \u00e9 incontorn\u00e1vel para o modelo chin\u00eas.<\/p>\n<p>Aqui, portanto, reside o n\u00facleo da raz\u00e3o da unidade dos bilion\u00e1rios das <em>bigtechs<\/em> gringas. Eles sabem o potencial dessa nova revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e, at\u00e9 aqui, eles ainda possuem o controle sobre seus meios de produ\u00e7\u00e3o. Mas o socialismo, na sua forma mais avan\u00e7ada para esse tempo hist\u00f3rico \u2013 o socialismo com caracter\u00edsticas chinesas \u2013 tem todo o potencial n\u00e3o apenas de ultrapass\u00e1-los tecnologicamente, mas tamb\u00e9m na forma de socializa\u00e7\u00e3o dessa conquista humana. Essa \u00e9 a batalha que coloca Amazon, Google, Meta, SpaceX e Tesla \u2013 e outros menos midi\u00e1ticos \u2013 no mesmo balaio.<\/p>\n<p>Queremos trazer apenas tr\u00eas exemplos de como essa mudan\u00e7a hist\u00f3rica tem sido travada diante de nossos olhos.<\/p>\n<p>O primeiro e provavelmente mais conhecido \u00e9 o da Huawei. Empresa privada chinesa que cresceu gra\u00e7as a todo o ecossistema industrial existente hoje no pa\u00eds, foi fortemente combatida pelo imp\u00e9rio, tendo como raz\u00e3o aparente o desenvolvimento de forma muito eficiente e barata da tecnologia 5G (uma das infraestruturas b\u00e1sicas para a nova revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica). Engana-se, por\u00e9m, quem pensa que o objetivo das san\u00e7\u00f5es \u00e0 Huawei era diminuir seus lucros, restringindo a venda de equipamentos ou mesmo a participa\u00e7\u00e3o em licita\u00e7\u00f5es do sinal 5G. O n\u00facleo das a\u00e7\u00f5es imperialistas \u2013 operadas como san\u00e7\u00f5es de exporta\u00e7\u00e3o em 2019 \u2013 estava na sabotagem do desenvolvimento tecnol\u00f3gico da empresa, impedindo que a mesma acessasse as gera\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas de semicondutores. Passados 5 anos, a Huawei j\u00e1 possui celulares com chips de 7nm e computadores com chips de 5nm.<\/p>\n<p>Com outros lan\u00e7amentos e avan\u00e7os recentes, a China demonstra capacidade de supera\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica de \u201ccorrer atr\u00e1s, imitar e avan\u00e7ar na aplica\u00e7\u00e3o das tecnologias\u201d. Inova desde as pesquisas b\u00e1sicas para os seus pr\u00f3prios grandes modelos de linguagem (LLM) \u2013 de novo, com a pr\u00f3pria Huawei em um novo front de competi\u00e7\u00e3o, desta vez contra os chips voltados para IA da NVIDIA \u2013 e sistemas de intelig\u00eancia artificial generativa, como o Deepseek3, de c\u00f3digo aberto e de surpreendente efici\u00eancia, que hoje desafia o dom\u00ednio do ChatGPT \u2013 este, produto da OpenIA, tamb\u00e9m apoiadora de Trump, que por sua vez anunciou impulso a Stargate, bilion\u00e1ria infraestrutura de dados para IA da OpenIA. Enquanto esse artigo estava sendo escrito, o fen\u00f4meno do Deepseek escalou para um terremoto que impactou justamente as bigtechs ocidentais, sendo exemplo que ainda existem muitas fragilidades na hegemonia delas.<\/p>\n<p>Outro exemplo, completamente invisibilizado pelo ocidente, \u00e9 o da regula\u00e7\u00e3o dos dados, entendendo estes como meio de produ\u00e7\u00e3o <em>elementar<\/em> da nova revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. H\u00e1 uma s\u00e9rie de regulamenta\u00e7\u00f5es inovadoras nesse \u00e2mbito, que v\u00e3o al\u00e9m do ide\u00e1rio liberal da privacidade e passam, por exemplo, pelo registro dos objetivos dos algoritmos e por uma s\u00e9rie de requisitos de seguran\u00e7a de dados que devem ser seguidos pelas empresas. Esse \u00e9 o ponto central, ali\u00e1s, que faz com que Facebook e Google e outras corpora\u00e7\u00f5es ocidentais n\u00e3o tenham opera\u00e7\u00f5es na China, j\u00e1 que n\u00e3o aceitaram seguir a legisla\u00e7\u00e3o chinesa sobre o tratamento de dados produzidos e coletados no pa\u00eds. H\u00e1 casos em que as empresas chinesas, como a Didi (similar a Uber), receberam multas bilion\u00e1rias por n\u00e3o cumprir a legisla\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a e privacidade dos dados no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O processo chin\u00eas de produ\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas \u2013 um dos pontos de desconhecimento do ocidente sobre o pa\u00eds \u2013 est\u00e1 a todo vapor no caso das pol\u00edticas de dados. A partir das diretrizes e regula\u00e7\u00f5es do governo central, os governos locais em parceria com empresas (estatais ou privadas) s\u00e3o convocados a desenvolver experi\u00eancias piloto que podem se tornar modelo nacional caso sejam exitosas. No caso da pol\u00edtica de dados, desde 2021 est\u00e3o em vigor experi\u00eancias com m\u00e9todos e horizontes distintos entre si. Shanghai, por exemplo, tem desenvolvido o modelo de uma Bolsa de Valores de Dados (Shanghai Data Exchange), um ecossistema de dados com protocolos, auditoria e comercializa\u00e7\u00e3o de pacotes de dados, que devem ter transpar\u00eancia de sua origem e defini\u00e7\u00e3o dos fins para os quais podem ser usados, em um processo regulado\/controlado de capitaliza\u00e7\u00e3o. Ali n\u00e3o podem ser transacionados, por exemplo, dados sens\u00edveis, como os de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Experi\u00eancias com distintas vis\u00f5es est\u00e3o sendo desenvolvidas em outros 14 polos, com diferentes modelos sobre como regular a extra\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de dados e, concomitantemente, o acesso e comercializa\u00e7\u00e3o dos mesmos. Duas caracter\u00edsticas ilustram a perspectiva do socialismo com caracter\u00edsticas chinesas nesse processo: as empresas estatais s\u00e3o as principais agentes nessas experimenta\u00e7\u00f5es e a monetiza\u00e7\u00e3o dos dados est\u00e1 majoritariamente vinculada \u00e0 sua transforma\u00e7\u00e3o e uso como bens p\u00fablicos do Estado.<\/p>\n<p>O terceiro exemplo \u00e9 o desenvolvimento da Nuvem de M\u00e1quinas Agr\u00edcolas da Sinomach, que \u00e9 a maior empresa estatal de m\u00e1quinas da China. Esse \u00e9 um sistema p\u00fablico de digitaliza\u00e7\u00e3o da agricultura, com o qual o pa\u00eds espera dar passos estruturais para uma nova fase da agricultura, especialmente em tempos de press\u00f5es pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e beliger\u00e2ncia imperialista.<\/p>\n<p>Apesar de ser uma plataforma com menos de um ano de opera\u00e7\u00e3o, a empresa lan\u00e7ou seu primeiro projeto internacional \u2013 e o primeiro da China nessa \u00e1rea na Am\u00e9rica Latina \u2013 em parceria com o Centro Brasil-China para a Agricultura Familiar. Em conjunto com o desenvolvimento da plataforma para a realidade da agricultura familiar e agroecossistemas brasileiros, foram estabelecidos novos par\u00e2metros de soberania digital, ou seja, a defini\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de que os dados sobre o territ\u00f3rio e a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola s\u00e3o de propriedade das institui\u00e7\u00f5es brasileiras envolvidas na parceria e por elas ser\u00e3o processados.<\/p>\n<p>Ainda que nos primeiros passos de constru\u00e7\u00e3o no Brasil, essa plataforma \u00e9, na China, de partida e potencialmente, distinta do que conhecemos como a agricultura 4.0 das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais. Nos marcos da soberania nacional, em um pa\u00eds cuja agricultura \u00e9 de base camponesa, essa plataforma digital pode ter papel central no controle da produ\u00e7\u00e3o interna, garantia de seguran\u00e7a e soberania alimentar, para projetar novos zoneamentos de produ\u00e7\u00e3o no contexto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata da ades\u00e3o a um modelo pronto, mas de uma possibilidade hist\u00f3rica de avan\u00e7ar como sujeitos da produ\u00e7\u00e3o dessa tecnologia em nossos territ\u00f3rios, como parte do desafio colocado para a urgente mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura camponesa \u2013 que reduz a penosidade do trabalho, aumenta a produtividade e libera tempo para a vida \u2013 e para a massifica\u00e7\u00e3o da agroecologia no Brasil. Deve ser premente que esse tipo de tecnologia para o campo ir\u00e1 coexistir com diversas formas de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, seguindo o princ\u00edpio de autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos e comunidades tradicionais sobre seus territ\u00f3rios e modos de vida.<\/p>\n<p>Deixamos esse como \u00faltimo exemplo por possibilitar uma aproxima\u00e7\u00e3o entre nossa realidade brasileira e o conceito de Comunidade Global de Futuro Compartilhado, que guia a diplomacia chinesa ao longo dos \u00faltimos 10 anos. Em sua base est\u00e1 a concep\u00e7\u00e3o de que a humanidade alcan\u00e7ou um n\u00edvel in\u00e9dito de desenvolvimento da hist\u00f3ria como Hist\u00f3ria Mundial, cujos avan\u00e7os tendem a ser crescentemente compartilhados em todo o mundo.<\/p>\n<p>Esse conceito deve ser tensionado e aprimorado, pois possui muitas contradi\u00e7\u00f5es. Por exemplo, a ideia de ganha-ganha \u00e9 mais avan\u00e7ada que a din\u00e2mica colonialista ou imperialista, por\u00e9m \u00e9 insuficiente ao n\u00e3o dialogar com os limites das forma\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-hist\u00f3ricas de cada pa\u00eds. A China \u00e9 uma pot\u00eancia mundial que, liderada pelo PCCh, segue a determina\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria original \u201cServir ao Povo\u201d, mas isso n\u00e3o \u00e9 o mesmo para nossos pa\u00edses. \u201cGanhar\u201d no Sul Global, em geral, \u00e9 um ganho para as elites locais, que controlam historicamente os Estados \u2013 agentes exclusivos da diplomacia institucional chinesa. Assim como o \u201cganhar\u201d para empresas chinesas que sejam orientadas pelo lucro tende a entrar em choque com os interesses dos povos nos territ\u00f3rios em que se instalam, especialmente aqueles ligados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de <em>commodities<\/em>.<\/p>\n<p>Essas contradi\u00e7\u00f5es devem ser explicitadas, tensionadas e superadas. N\u00e3o podemos, como for\u00e7as de esquerda, ser anti-dial\u00e9ticos e \u201ccongelar\u201d nossas elabora\u00e7\u00f5es no est\u00e1gio da nega\u00e7\u00e3o. Essa plataforma institucional de car\u00e1ter internacionalista, em di\u00e1logo com processos nacionais emancipat\u00f3rios e regionais revolucion\u00e1rios, como a ALBA, pode produzir a mais avan\u00e7ada elabora\u00e7\u00e3o dos nossos tempos.<\/p>\n<p>As for\u00e7as do bloco imperialista, por sua vez, buscam bloquear esse desenvolvimento comum coletivo, insistindo na desestabiliza\u00e7\u00e3o da soberania dos pa\u00edses, estimulando guerras e impedindo acordos globais sobre a crise ecol\u00f3gica. E, no que tange a esse artigo, buscam essencialmente controlar de forma privada as bases da nova revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, para seguir seu dom\u00ednio como modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Por isso resgatamos Gramsci para entender por que, de fato, essa frente unida imperialista deve ser designada como fascista. O l\u00edder socialista italiano entendeu o fascismo como uma forma hist\u00f3rica produzida pelas elites do capitalismo perif\u00e9rico europeu, que fracassaram em tentar alcan\u00e7ar o desenvolvimento capitalista mais avan\u00e7ado \u00e0 \u00e9poca (Inglaterra e EUA). Buscando um paralelo did\u00e1tico, \u00e9 evidente para o Vale do Sil\u00edcio que seus l\u00edderes podem ser superados tecnol\u00f3gica e politicamente pelo Sul Global e, por isso, necessitam recrudescer sua pol\u00edtica \u2013 antes minimamente velada \u2013 e apostar na beliger\u00e2ncia para mudar as tend\u00eancias do movimento da hist\u00f3ria. Soma-se a isso a incapacidade do capitalismo financeiro em sustentar seu pr\u00f3prio modelo de enriquecimento e crescimento diante das brutais contradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, sociais e ambientais que sua din\u00e2mica gera, impondo a necessidade de governos fascistas para garantir sua tentativa de reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A rebeli\u00e3o dos dados e a soberania digital popular<\/strong><\/p>\n<p>Cabe pontuar o lugar que atualmente ocupamos nessa din\u00e2mica. N\u00e3o apenas nosso cotidiano e comunica\u00e7\u00e3o hoje acontecem nas plataformas dos EUA (Facebook, Instagram, Gmail), gerando a cada segundo enormes quantidades de dados para essas empresas. Tamb\u00e9m n\u00e3o possu\u00edmos as infraestruturas de armazenamento de dados e capacidade computacional para seu processamento, al\u00e9m de contratarmos as \u201cnuvens\u201d da Amazon, Microsoft e Google. Os dados das pessoas que interagem com o Estado brasileiro, seja via aplicativos e portais como o \u201cSouGov\u201d, pelos e-mails institucionais de 79% das universidades p\u00fablicas ou mesmo em processos do poder judici\u00e1rio, s\u00e3o entregues para alimentar os data centers e grandes modelos de linguagem de corpora\u00e7\u00f5es dos EUA.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 decisivo n\u00e3o cairmos no fetichismo, como dissemos anteriormente. A brutal e c\u00f4mica descri\u00e7\u00e3o de Lulu Massa sobre o ser humano ser uma f\u00e1brica de produzir merda no in\u00edcio do cl\u00e1ssico <em>A Classe Trabalhadora vai ao Para\u00edso<\/em> \u00e9 a ilustra\u00e7\u00e3o do poder da aliena\u00e7\u00e3o produzida sobre os trabalhadores na din\u00e2mica fabril do capitalismo industrial. O poder e escala de aliena\u00e7\u00e3o sem d\u00favidas aumentaram no atual est\u00e1gio do capitalismo de dados, uma vez que a separa\u00e7\u00e3o da massa trabalhadora dos meios de produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neos \u00e9 ainda maior.<\/p>\n<p>Mas tenhamos a certeza de que os dados, seus mecanismos de extra\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o, os algoritmos, todos s\u00e3o meios de produ\u00e7\u00e3o que elevaram ineditamente a composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital, por\u00e9m ainda assim s\u00e3o totalmente dependentes das for\u00e7as de trabalho e da natureza. Somos n\u00f3s, seres humanos, que devemos governar esse desenvolvimento \u2013 e essa \u00e9 uma das tarefas centrais das organiza\u00e7\u00f5es que batalham pela transforma\u00e7\u00e3o socialista da sociedade. A China est\u00e1 desenhando um caminho. Qual caminho n\u00f3s, organiza\u00e7\u00f5es populares do Brasil, produziremos?<\/p>\n<p>Nosso palpite \u00e9 que necessitamos de uma certa <em>rebeli\u00e3o dos dados<\/em>, organizada pelos movimentos e coletivos que produzem a materialidade da vida em nosso pa\u00eds. Devemos retomar o controle dos dados \u2013 que foi tomado silenciosamente \u2013 que s\u00e3o produzidos a partir de nossos territ\u00f3rios, de nossas formas de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Precisamos entender, primeiramente, que esse n\u00e3o \u00e9 um assunto t\u00e9cnico, de especialistas ou exclusivo de grupos ligados diretamente ao mundo digital. Tudo que \u00e9 s\u00f3lido e tudo que se desmancha no ar hoje progressivamente ser\u00e1 pass\u00edvel de ser processado digitalmente, portanto todas nossas organiza\u00e7\u00f5es devem gradualmente aumentar a capacidade cr\u00edtica de compreens\u00e3o desse novo est\u00e1gio do capitalismo.<\/p>\n<p>Conjuntamente ao entendimento do metabolismo do capital nessa quadra da hist\u00f3ria, devemos aprofundar nosso entendimento coletivo sobre a forma antag\u00f4nica mais avan\u00e7ada, que \u00e9 a experi\u00eancia chinesa. As organiza\u00e7\u00f5es populares t\u00eam, hoje, seus mecanismos para realizar o interc\u00e2mbio com setores chineses que est\u00e3o ativamente realizando esse debate. Mas \u00e9 decisivo pressionar o governo brasileiro para que estreite sua coopera\u00e7\u00e3o com a China nessa \u00e1rea e com uma perspectiva popular.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos falando aqui de uma agenda estranha ao governo. Ela esteve no centro da visita do presidente Xi Jinping no \u00faltimo novembro. Tamb\u00e9m para a presid\u00eancia brasileira do BRICS a Intelig\u00eancia Artificial est\u00e1 colocada como um dos temas centrais. Colocar a perspectiva popular nessa constru\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica deve ser uma agenda pol\u00edtica urgente em 2025, uma vez que as bigtechs do imp\u00e9rio est\u00e3o soando os tambores da guerra e agir\u00e3o igualmente r\u00e1pido para consolidar seu dom\u00ednio sobre o Brasil \u2013 incluindo franco suporte aos setores fascistas nacionais.<\/p>\n<p>Por fim, o avan\u00e7o das for\u00e7as populares brasileiras sobre essa pauta deve considerar tamb\u00e9m o muito que j\u00e1 foi constru\u00eddo pelos grupos que h\u00e1 anos vem travando essa luta. Por exemplo, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem imperialista do colonialismo digital, a proposta da soberania digital ganha ades\u00e3o no Brasil e envolve, como patamar m\u00ednimo, a propriedade e o controle sobre os dados, a localiza\u00e7\u00e3o e propriedade das infraestruturas de armazenamento e processamento de dados em territ\u00f3rio nacional, o investimento em forma\u00e7\u00e3o e em capacidade computacional. \u00c9 preciso ter aten\u00e7\u00e3o para as armadilhas de propostas que incorporam um desses pontos de forma isolada, na conhecida e recorrente pr\u00e1tica de automaquiagem (verde, lil\u00e1s) das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais. \u00c9 o caso da Microsoft e da Oracle que, agora, oferecem \u201cnuvens soberanas\u201d, em que a localiza\u00e7\u00e3o dos dados pode at\u00e9 ficar no pa\u00eds, mas estes continuam sendo transferidos internacionalmente.<\/p>\n<p>Uma agenda popular para a soberania digital significa, portanto, retomar o controle sobre os dados e sobre os territ\u00f3rios em que os dados s\u00e3o produzidos. Ao mesmo tempo, lutar pelo investimento p\u00fablico para que as organiza\u00e7\u00f5es populares e a classe trabalhadora n\u00e3o sejam apenas usu\u00e1rias das tecnologias, mas ativas no processo de produ\u00e7\u00e3o dos modelos. \u00c9 fundamental a conquista de estruturas p\u00fablicas que aprofundem o conhecimento dos par\u00e2metros dos sistemas algor\u00edtmicos, mas que tamb\u00e9m garantam \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es a possibilidade de negar, alterar e criar novos modelos que respondam \u00e0s necessidades e \u00e0s diversidades de concep\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que podem orientar nosso papel como sujeitos das inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para processos aut\u00e1rquicos, puramente nacionais. Por\u00e9m, o povo brasileiro tem condi\u00e7\u00f5es de dar uma forte contribui\u00e7\u00e3o \u2013 a partir da Am\u00e9rica Latina e de nossos esfor\u00e7os de integra\u00e7\u00e3o regional popular \u2013 \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade global que coordene esses novos meios de produ\u00e7\u00e3o, retomando sua soberania digital ao reverter a entrega dos nossos dados \u00e0s transnacionais imperialistas e consolidando essa constru\u00e7\u00e3o conjunta como Sul Global. O bloco imperialista j\u00e1 deu seus an\u00fancios. N\u00e3o h\u00e1 por que nos assustarmos se nos desafiarmos a construir o plano de como vamos super\u00e1-los.<\/p>\n<p><em>*MORENO, T.; ZARREF, L. Bilion\u00e1rios da tecnologia se unem contra soberania digital do Sul Global. Revista Estudos do Sul Global, v. 5, n. 1. Mar\/2025. No Prelo.<\/em><\/p>\n<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/02\/01\/a-peleja-dos-bilionarios-contra-a-ameaca-chinesa\/\">A peleja dos bilion\u00e1rios contra a \u201camea\u00e7a\u201d chinesa<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/escola-de-governo-e-desenvolvimento-maria-da-conceicao-tavares-abre-inscricoes\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Escola de Governo e Desenvolvimento Maria da Conce...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/em-entrevista-lula-destaca-educacao-critica-guerra-e-projeta-4o-mandato\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Captura-de-tela-2026-04-01-121135-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Em entrevista, Lula destaca educa\u00e7\u00e3o, critica guer...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pt-no-senado-define-novo-lider-e-prioridades-de-2025-em-primeira-reuniao-do-ano\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">PT no Senado define novo l\u00edder e prioridades de 20...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-a-esquerda-transformou-kerala-no-estado-mais-desenvolvido-da-india\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/party_workers-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Como a esquerda transformou Kerala no estado mais ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Elon Musk na posse de Trump. 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