{"id":12693,"date":"2025-02-05T19:18:02","date_gmt":"2025-02-05T22:18:02","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/"},"modified":"2025-02-05T19:18:02","modified_gmt":"2025-02-05T22:18:02","slug":"migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00f5es: entre o cinismo e a necessidade do capital"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"970\" height=\"543\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/4981080367712808926.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/4981080367712808926.jpg 970w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/4981080367712808926-300x168.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/4981080367712808926-768x430.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 970px) 100vw, 970px\"><\/figure>\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o da economia, com o consequente processo de financeiriza\u00e7\u00e3o e as repercuss\u00f5es sobre o mercado de trabalho, contribui para conferir a este um papel relevante, tanto \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o em si quanto \u00e0 prote\u00e7\u00e3o social.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A reforma do Estado passou a ser uma exig\u00eancia da crise capitalista desencadeada nos pa\u00edses desenvolvidos e praticamente expandida a todo o mundo a partir da metade dos anos 70, do s\u00e9culo passado. A dificuldade do grande capital em manter as taxas de lucro do per\u00edodo keynesiano, com elevadas rentabilidade e produtividade, acirrou a concorr\u00eancia, o que levou a exigir desregulamenta\u00e7\u00e3o e liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados com vistas a possibilitar a livre circula\u00e7\u00e3o, notadamente de bens, servi\u00e7os e capital.\u00a0<\/p>\n<p>Esse processo se fundamentou numa luta ideol\u00f3gica com o prop\u00f3sito de restringir or\u00e7amentos e gastos dos Estados visando equilibrar as contas p\u00fablicas e mesmo gerar super\u00e1vits fiscais, cujo alvo predileto passou a ser a elimina\u00e7\u00e3o de direitos sociais, desestruturando simultaneamente o aparato de prote\u00e7\u00e3o social. Reformas nos sistemas de previd\u00eancia e de sa\u00fade foram implementadas nos pa\u00edses desenvolvidos e disseminadas \u00e0s demais na\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, a estrutura\u00e7\u00e3o dos fundos de pens\u00e3o constituiu-se em instrumento essencial para acentuar a globaliza\u00e7\u00e3o financeira.\u00a0<\/p>\n<p><a><\/a><a><\/a> \u00a0\u00a0\u00a0Ressalte-se que uma caracter\u00edstica da esfera financeira concerne \u00e0 expressiva autonomia que exerce face \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e, principalmente, por condicionar a capacidade de interven\u00e7\u00e3o das autoridades monet\u00e1rias. Grandes investidores passaram a dominar tal processo a ponto de decidirem sobre quais agentes econ\u00f4micos, pa\u00edses e tipos de transa\u00e7\u00f5es seriam atrativos segundo seus interesses de rentabilidade financeira. Enfim, isso significou uma forte submiss\u00e3o dos pa\u00edses menos desenvolvidos que, sob a \u00e9gide neoliberal sustentada pelo FMI e pelo Banco Mundial, sofreram forte e r\u00e1pida desregulamenta\u00e7\u00e3o dos seus mercados financeiros. Suas fr\u00e1geis economias foram fortemente atingidas, submetidas a crises, as quais, no caso de propaga\u00e7\u00e3o, como a do final do s\u00e9culo passado, chegaram a assumir uma dimens\u00e3o de risco sist\u00eamico<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>. Isto foi evidente a partir do efeito cont\u00e1gio da crise asi\u00e1tica e russa, que se estendeu \u00e0 Am\u00e9rica Latina, sendo respons\u00e1vel, inclusive, pelo fim da indexa\u00e7\u00e3o do real ao d\u00f3lar, uma \u00e2ncora cambial artificialmente valorizada, pois decretada pelo governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, como estrat\u00e9gia de \u201csustenta\u00e7\u00e3o\u201d do Plano Real.<\/p>\n<p>Assim, a inevit\u00e1vel desvaloriza\u00e7\u00e3o dessa moeda alertou o FMI a \u201cintervir\u201d, dado o temor de que a situa\u00e7\u00e3o brasileira, em raz\u00e3o do porte de sua economia, se entendesse para o restante da Regi\u00e3o. Como de praxe, esta institui\u00e7\u00e3o, funcionando como \u201cbombeiro\u201d visando paliar crises monet\u00e1rias e de balan\u00e7o de pagamentos, concedeu, com outras institui\u00e7\u00f5es multilaterais, um empr\u00e9stimo vultoso de bilh\u00f5es de d\u00f3lares, todavia condicionado \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas monet\u00e1rio-fiscais ortodoxas e privatiza\u00e7\u00f5es, como regra geral de submiss\u00e3o dos pa\u00edses. Foram ent\u00e3o adotadas a Lei de Responsabilidade Fiscal (famosa LRF, que visa meta de equil\u00edbrio fiscal e rigor na manuten\u00e7\u00e3o de super\u00e1vits prim\u00e1rios), bandas de infla\u00e7\u00e3o e taxa de c\u00e2mbio flutuante, o chamado trip\u00e9 macroecon\u00f4mico. Ora, sob r\u00edgida observ\u00e2ncia do Banco Central, \u201cautoproclamado\u201d independente, passou-se a exercer controle rigoroso na aplica\u00e7\u00e3o das referidas pol\u00edticas por meio da pr\u00e1tica de taxas de juros reais que chegam a patamares exorbitantes, como na atual conjuntura brasileira. O crescimento da economia, t\u00e3o reclamado pelos economistas heterodoxos, desenvolvimentistas, \u00e9 ent\u00e3o comprometido, e a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas progressistas de alcance social (em especial de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o) torna-se invi\u00e1vel. Vale salientar que a l\u00f3gica imanente da acumula\u00e7\u00e3o financeira n\u00e3o deixa de fora nem mesmo pa\u00edses desenvolvidos, como a grande depress\u00e3o provocada pelo <em>subprime<\/em> americano de 2008, que afetou praticamente todas as economias nacionais.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui discorremos sobre o processo de globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e financeira gra\u00e7as \u00e0 flexibiliza\u00e7\u00e3o e desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados de bens, servi\u00e7os, commodities (notadamente produtos agr\u00edcolas, mat\u00e9rias-primas e minerais) e capitais. Certamente, h\u00e1 implica\u00e7\u00f5es da financeiriza\u00e7\u00e3o sobre os trabalhadores, uma vez que a tend\u00eancia \u00e0 desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados, concomitante \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o de novas tecnologias, induzem \u00e0 desregulamenta\u00e7\u00e3o e flexibiliza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho por meio do\u00a0aumento da rotatividade da m\u00e3o-de-obra, da subcontrata\u00e7\u00e3o (travestida de pejotiza\u00e7\u00e3o, no caso brasileiro) e terceiriza\u00e7\u00e3o. Isso tudo representa, inclusive, novas formas de intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a>, pelas vias das mais-valias absoluta e relativa.<\/p>\n<p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, vale considerar que h\u00e1 uma invers\u00e3o de prioridades no sentido da esfera financeira (cujos recursos s\u00e3o atra\u00eddos pelas elevadas taxas de juros das aplica\u00e7\u00f5es) em detrimento de investimentos na esfera produtiva. Ora, se a taxa de investimentos na economia real n\u00e3o cresce, compromete-se a gera\u00e7\u00e3o de empregos e at\u00e9 mesmo provoca-se a supress\u00e3o de postos de trabalho em geral, com repercuss\u00e3o especialmente na ind\u00fastria e em certos ramos dos servi\u00e7os que empregam tecnologias modernas. Como consequ\u00eancia, t\u00eam-se aumentos do desemprego e da exclus\u00e3o, simultaneamente ao incremento de ocupa\u00e7\u00f5es em atividades relativas \u00e0 economia informal.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Pelo visto, todo esse processo permite conferir ao mercado de trabalho um papel relevante, como condicionante, tanto para a globaliza\u00e7\u00e3o em si quanto para a prote\u00e7\u00e3o social. De fato, ele apresenta caracter\u00edsticas peculiares, pois enquanto os outros mercados (de mat\u00e9rias-primas, componentes, bens de capital, tecnologia, produtos, servi\u00e7os e capital) tendem a se liberar em escala planet\u00e1ria, num movimento intenso de cobertura global, sempre \u00e0 busca de redu\u00e7\u00e3o dos custos de produ\u00e7\u00e3o, a liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho visa promover uma maior mobilidade da for\u00e7a de trabalho internamente, ou seja, sem transcender os limites dos Estados-Na\u00e7\u00f5es<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Este mercado n\u00e3o se globaliza plenamente em raz\u00e3o da problem\u00e1tica do emprego, cuja alega\u00e7\u00e3o concerne a implica\u00e7\u00f5es negativas sobre mercado de trabalho (e socialmente) dos pa\u00edses centrais, o que demanda medidas rigorosas de prote\u00e7\u00e3o interna em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cconcorr\u00eancia externa\u201d inerente \u00e0s press\u00f5es dos fluxos migrat\u00f3rios. Ora, impede-se a livre mobilidade da for\u00e7a de trabalho internacionalmente, por\u00e9m, se aplicam, intranacionalmente, as determina\u00e7\u00f5es imanentes da necessidade de expans\u00e3o do capital no rumo da globaliza\u00e7\u00e3o. \u00a0Neste sentido, a for\u00e7a de trabalho n\u00e3o seria \u201cexclu\u00edda\u201d da l\u00f3gica inerente ao processo de globaliza\u00e7\u00e3o pelo fato da restri\u00e7\u00e3o de mobilidade que lhe \u00e9 imposta, ao contr\u00e1rio, ela passa a constituir fator basilar.<\/p>\n<p>Em efeito, isto se verifica pelo menos em rela\u00e7\u00e3o a quatro aspectos. Em primeiro lugar, a intensifica\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia capitalista exige cada vez mais a redu\u00e7\u00e3o dos custos do trabalho que \u00e9 viabilizada por meio de um processo de desregulamenta\u00e7\u00e3o que visa eliminar os entraves \u00e0 mobilidade interna (em n\u00edveis nacionais) da for\u00e7a de trabalho. Em segundo, esta mesma concorr\u00eancia se beneficia de tal processo e procura aliviar o peso social \u2013 e o risco do aprofundamento da crise do emprego \u2013 do desemprego (formal) estrutural provocado pelo progresso t\u00e9cnico pela via compensat\u00f3ria da absor\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3o-de-obra que se acumula num mercado de trabalho em n\u00edtida tend\u00eancia de precariedade. Em terceiro, essa se traduz em elimina\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas e sociais, reduzindo os custos direto e indireto (dos encargos sociais) do trabalho. Em quarto, atinge a luta sindical, enfraquecendo-a como decorr\u00eancia da pr\u00f3pria degrada\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, restringindo, portanto, a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o e, consequentemente, o poder de press\u00e3o do trabalho sobre o capital<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Verifica-se, assim, que a mesma l\u00f3gica que desemprega, reduzindo o \u201cemprego caro\u201d, como resultado da exacerba\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia e do progresso t\u00e9cnico, procura compensar o desemprego pela absor\u00e7\u00e3o do \u201cemprego barato\u201d, pelas vias antes citadas. Dessa forma, o processo de globaliza\u00e7\u00e3o se intensifica, pois setores produtivos intensivos em m\u00e3o-de-obra se internacionalizam. Empresas e grandes companhias buscam (imigram) mercados de trabalho abundantes, desregulados e prec\u00e1rios (com baixos sal\u00e1rios e informais) em pa\u00edses cujos estados foram \u201cenxugados\u201d em termos de regula\u00e7\u00e3o e controle, mas ampliados, expandidos no que diz respeito a pol\u00edticas generosas de concess\u00e3o de ben\u00e9ficos fiscais a empresas, de infraestrutura e vantagens de toda ordem visando atrair capitais. Com isso, tamb\u00e9m investimentos diretos estrangeiros se concentram em fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es (principalmente beneficiadas com privatiza\u00e7\u00f5es de estatais a pre\u00e7os muito abaixo do praticado pelo mercado) que chegam at\u00e9 a promover aumentos do PIB com redu\u00e7\u00e3o de empregos, como ocorreu no Brasil logo ap\u00f3s a abertura econ\u00f4mica e a desregulamenta\u00e7\u00e3o realizadas pelo governo Collor de Mello.<\/p>\n<p>Portanto, na trama que envolve a globaliza\u00e7\u00e3o, a exacerba\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as em escala mundial, a relativa autonomia dos Estados-Na\u00e7\u00f5es e a manuten\u00e7\u00e3o dos direitos, servi\u00e7os e benef\u00edcios sociais, o mercado de trabalho assume grande relev\u00e2ncia. Em efeito, a busca pela conquista de mercados globais em raz\u00e3o da concorr\u00eancia intercapitalista exige a elimina\u00e7\u00e3o de regulamentos e direitos com vistas a baratear a for\u00e7a de trabalho e conferir-lhe m\u00e1xima mobilidade, mas circunscrito aos \u00e2mbitos nacionais. Esse controle, impondo obst\u00e1culos \u00e0 migra\u00e7\u00e3o internacional de trabalhadores, mant\u00e9m excedentes de m\u00e3o de obra \u201cnacionais\u201d (outrora denominados ex\u00e9rcitos de reserva) nas economias perif\u00e9ricas para atender \u00e0s necessidades de expans\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de riqueza e capital dos pa\u00edses centrais. Isso se d\u00e1 por meio das vantagens usufru\u00eddas pelas empresas transnacionais que se instalam nestes pa\u00edses com a redu\u00e7\u00e3o de seus custos com folha de pagamentos e o envio de lucros para esses pa\u00edses. Por outro lado, em virtude do Estado Nacional se constituir uma inst\u00e2ncia normativa e organizacional, ele assume papel central na regula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de classe e, por meio da prerrogativa do seu poder de monop\u00f3lio da viol\u00eancia, garante um m\u00ednimo de ordem e coes\u00e3o social<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote5sym\"><sup>5<\/sup><\/a>, necess\u00e1rio para o referido processo de expans\u00e3o capitalista.\u00a0<\/p>\n<p>Vale agora uma breve digress\u00e3o sobre as medidas adotadas pelo governo atual dos Estados Unidos no que concerne \u00e0 extradi\u00e7\u00e3o de imigrantes ilegais. Ora, todos aqueles que vivem nas Am\u00e9ricas, se n\u00e3o s\u00e3o descendentes dos povos origin\u00e1rios, s\u00e3o imigrantes ou descendentes de imigrantes. Certamente, o chamado \u201cdescobrimento\u201d das Am\u00e9ricas representou uma primeira grande globaliza\u00e7\u00e3o, intercontinental, da fase mercantilista, cujas na\u00e7\u00f5es invasoras detinham o poder da for\u00e7a militar e tecnol\u00f3gica que os permitiram se apropriarem do Continente, submeter e dizimar seus povos e extrair e explorar suas riquezas.<\/p>\n<p>Desta primeira grande globaliza\u00e7\u00e3o \u00e0 atual, chega a ser um contrassenso assistir descendentes de imigrantes (como o pr\u00f3prio presidente Donald Trump) expulsando imigrantes para seus pa\u00edses de origem, da Am\u00e9rica. Agora sob a alega\u00e7\u00e3o de que a recente imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 prejudicial, Trump relega o fato de que os EUA, notadamente sua economia, tenham sido edificados pelos imigrantes. Ignora a import\u00e2ncia que a m\u00e3o de obra imigrante em processo de expuls\u00e3o exerce para sua economia, ao se submeter a empregos prec\u00e1rios, informais, sem prote\u00e7\u00e3o social e de baixos sal\u00e1rios. Desconhece que os americanos recusam tais empregos, pelas condi\u00e7\u00f5es acima, e porque estes est\u00e3o circunscritos em atividades consideradas \u201cn\u00e3o dignas\u201d, da base da pir\u00e2mide ocupacional, geralmente manuais e de baixa qualifica\u00e7\u00e3o, como bab\u00e1s (<em>baby sitter<\/em>) e trabalhos dom\u00e9sticos, cuidadores de pessoas idosas, limpeza, restaurantes (cozinhas e gar\u00e7ons, p. ex.), atividades extrativas (nas lavouras), constru\u00e7\u00e3o civil (pedreiros, eletricistas, marceneiros etc.) e outras mais, muitas insalubres.<\/p>\n<p>Na verdade, por outro lado, pratica imigra\u00e7\u00e3o seletiva, \u201croubando\u201d c\u00e9rebros \u2013 a maioria jovens egressos das universidades p\u00fablicas dos seus pa\u00edses de origem, que arcaram com o \u201ccusto\u201d de sua forma\u00e7\u00e3o \u2013, como sempre fizeram e fazem os pa\u00edses desenvolvidos. Pessoas com diploma acad\u00eamico (graduados, mestres e doutores) especialmente jovens (de prefer\u00eancia rec\u00e9m-casados), eles querem, facilitam a imigra\u00e7\u00e3o e at\u00e9 oferecem incentivos e vantagens. Ali\u00e1s, com isso enfrentam o problema demogr\u00e1fico (invers\u00e3o da pir\u00e2mide et\u00e1ria, com o processo de envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o) que afeta a escassez de for\u00e7a de trabalho, jovem e saud\u00e1vel, em diferentes profiss\u00f5es e campos da produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os. A atra\u00e7\u00e3o deste segmento populacional apresenta ainda a vantagem dos jovens imigrantes constitu\u00edrem fam\u00edlias cujos filhos, nascidos nos pa\u00edses de destino, j\u00e1 serem naturalmente seus cidad\u00e3os, ou seja, n\u00e3o imigrantes, al\u00e9m do fato deles e de seus pais demandarem pouco os servi\u00e7os de sa\u00fade, de pens\u00f5es, aposentadorias, assist\u00eancia social e outros, n\u00e3o pressionando, assim, seus custos.<\/p>\n<p>Essa \u201cdepend\u00eancia\u201d dos pa\u00edses ricos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o lhes confere, na atual configura\u00e7\u00e3o internacional, algumas estrat\u00e9gias e medidas. Isso ocorre porque a grande maioria, se n\u00e3o quase todos, toma precau\u00e7\u00f5es para impedir a entrada em massa de estrangeiros. Muros s\u00e3o constru\u00eddos em todos os lugares, at\u00e9 mesmo dentro dos pa\u00edses, principalmente para separar os ricos dos pobres. No entanto, \u00e9 importante destacar que todos os chamados pa\u00edses do primeiro mundo carecem, em graus variados, de trabalhadores. Por sua vez, s\u00e3o as na\u00e7\u00f5es pobres que as necessitam para escaparem do subdesenvolvimento e reduzirem as desigualdades sociais, mas que est\u00e3o perdendo jovens saud\u00e1veis e \u201cc\u00e9rebros\u201d para as na\u00e7\u00f5es ricas. Elas s\u00e3o penalizadas especialmente em rela\u00e7\u00e3o aos altos investimentos em educa\u00e7\u00e3o, porque muito se gastou para form\u00e1-los, para dar-lhes uma profiss\u00e3o, o que afeta ainda mais os recursos p\u00fablicos, muitas vezes insuficientes para atender aos imperativos das pol\u00edticas educacionais.<\/p>\n<p>Usando da met\u00e1fora, pode-se considerar que as pol\u00edticas migrat\u00f3rias dos pa\u00edses desenvolvidos atuam como uma grande peneira, que deixa passar uma for\u00e7a de trabalho adequada para garantir-lhes altas taxas de produtividade necess\u00e1rias para enfrentar a concorr\u00eancia capitalista e o crescimento econ\u00f4mico, ao mesmo tempo que ret\u00eam e se livram do imigrante considerado, no sentido acima, n\u00e3o apto ao trabalho, em particular crian\u00e7as, pessoas idosas, sem estudos e com problemas de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Ora, como dito antes, a estrat\u00e9gia adotada para atender a esses prop\u00f3sitos compreende ainda a sele\u00e7\u00e3o de jovens saud\u00e1veis e fisicamente vigorosos, embora n\u00e3o devidamente letrados \u2013 viabilizada pela intermedia\u00e7\u00e3o de empresas internacionais locadoras de m\u00e3o de obra tempor\u00e1ria \u2013 para exercerem ocupa\u00e7\u00f5es em atividades bra\u00e7ais, exaustivas e insalubres, citadas anteriormente. Tais empresas arregimentam estes jovens nos pa\u00edses pobres, os alocam conforme contratos nos pa\u00edses ricos, sem direitos \u00e0 prote\u00e7\u00e3o trabalhista e social adequada, nem condi\u00e7\u00e3o de obterem t\u00edtulos de cidad\u00e3os. Findo os contratos, muitos sazonais, retornam, j\u00e1 com idades mais avan\u00e7adas, aos pa\u00edses de origem, permanecendo ainda nos cadastros de reserva de tais empresas a espera de novas demandas<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote6sym\"><sup>6<\/sup><\/a>. Portanto, o protecionismo relativo aos grandes interesses de empresas nacionais, transnacionais e governos encontra-se em conson\u00e2ncia com a globaliza\u00e7\u00e3o ao administrar a mobilidade da m\u00e3o de obra conforme suas conveni\u00eancias, expulsando trabalhadores, retendo outros e at\u00e9 promovendo a imigra\u00e7\u00e3o seletiva.<\/p>\n<p>Por tudo isso, \u00e9 importante e necess\u00e1rio esclarecer que a atitude dos pa\u00edses desenvolvidos referente \u00e0 quest\u00e3o imigrat\u00f3ria se fundamenta em mais uma bem elaborada <em>fake news<\/em>.<\/p>\n<hr>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<p>AGLIETTA, M. Lidando com o risco sist\u00eamico. In: <em>Economia e Sociedade<\/em>. Campinas: Unicamp, Instituto de Economia, n. 11, dez. 1998.<\/p>\n<p>CHESNAIS, F.\u00a0Mondialisation financi\u00e8re et vuln\u00e9rabilit\u00e9 syst\u00e9mique. In: CHESNAIS, F., (coord.), <em>La mondialisation financi\u00e8re. Gen\u00e8se, co\u00fbt et enjeux<\/em>. Paris: Syros, 1996.<\/p>\n<p>HIRATA, H. Reorganisation de la production et transformations du travail: une perspective Nord\/Sud. In: <em>F\u00f3rum Social Mundial 2001<\/em>. Porto Alegre, janeiro de 2001.<\/p>\n<p>HIRSCH, Joachim. La internacionalizaci\u00f3n del Estado. In: BRAGA, Elza M. F. (Org.). <em>Am\u00e9rica Latina: transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas<\/em>. Fortaleza: Editora UFC, 2003.<\/p>\n<p>SOUSA, F. J. Pires de. Prote\u00e7\u00e3o social e a crise do emprego. In: BRAGA, Elza M. F. (Org.). <em>Am\u00e9rica Latina: transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas<\/em>. Fortaleza: Editora UFC, 2003.<\/p>\n<p>SOUSA, F. J. Pires de. Globaliza\u00e7\u00e3o e Condicionantes da Prote\u00e7\u00e3o Social. In: CARLEIAL NETO, A. (Org.). <em>Projetos nacionais e conflitos na Am\u00e9rica Latina<\/em>. Fortaleza: Edi\u00e7\u00f5es UFC, 2006.<\/p>\n<p>SOUSSI, Sid A. Les flux des travailleurs migrants temporaires et le r\u00f4le ambivalent de L\u2019\u00c9tat\u00a0: impacts sur la pr\u00e9carisation du travail et la syndicalisation. In: Ulysse, Pierre-Joseph; Lesemann, Fr\u00e9d\u00e9ric; Sousa, F. J. Pires de. (coord.), Les travailleurs pauvres: pr\u00e9carisation du march\u00e9 du travail, \u00e9rosion des protections sociales et initiatives citoyennes, Presses de l\u2019Universit\u00e9 du Qu\u00e9bec, Canada, 2014.<\/p>\n<p>FERNANDO J. PIRES DE SOUSA<\/p>\n<p>Doutor em Economia pela Universit\u00e9 Paris XIII (2000) e P\u00f3s-doutor pela Universit\u00e9 de Montr\u00e9al-Canad\u00e1 (2010). Professor titular aposentado do Departamento de Teoria Econ\u00f4mica da Universidade Federal do Cear\u00e1. Leciona nas p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es em Avalia\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas P\u00fablicas (profissional e acad\u00eamico) e colabora como coorientador da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Coletiva. Participa da Coordena\u00e7\u00e3o do Programa de Extens\u00e3o Observat\u00f3rio de Pol\u00edticas P\u00fablicas (OPP\/UFC). Membro associado do GIREPS (Groupe interdisciplinaire de recherche sur l\u00b4emploi, la pauvret\u00e9 et la protection sociale) da Universit\u00e9 de Montr\u00e9al em parceria com outras universidades do Canad\u00e1. Atua nas \u00e1reas de Desenvolvimento, Pobreza, Pol\u00edticas P\u00fablicas e de Bem-Estar Social, especialmente nos \u00e2mbitos de estado e economia, mercado de trabalho, economia regional, prote\u00e7\u00e3o social, sa\u00fade p\u00fablica e economia da sa\u00fade.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote1anc\">1<\/a> Chesnais (1996); Aglietta (1998).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote2anc\">2<\/a> Hirata (2001).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote3anc\">3<\/a> Sousa (2003; 2005).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote4anc\">4<\/a> Sousa (2003; 2005).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote5anc\">5<\/a> Hirsch (2003)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/#sdfootnote6anc\">6<\/a> Para o caso canadense, ver Soussi (2014)<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/migracoes-entre-o-cinismo-e-a-necessidade-do-capital\/\">Migra\u00e7\u00f5es: entre o cinismo e a necessidade do capital<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/104-anos-de-ruth-de-souza-a-trajetoria-de-uma-pioneira-negra\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/lossy-page1-747px-ruth_de_souza_1968tif-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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