{"id":12701,"date":"2025-02-06T18:44:58","date_gmt":"2025-02-06T21:44:58","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/para-escapar-do-tecnofeudalismo\/"},"modified":"2025-02-06T18:44:58","modified_gmt":"2025-02-06T21:44:58","slug":"para-escapar-do-tecnofeudalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-escapar-do-tecnofeudalismo\/","title":{"rendered":"Para escapar do Tecnofeudalismo"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"438\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/cedric-durand-1024x438-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/cedric-durand-1024x438-1.jpg 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/cedric-durand-300x128.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/cedric-durand-768x328.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/cedric-durand.jpg 1170w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<p><strong>C\u00e9dric Durand<\/strong>, em entrevista a <strong>Diego Vel\u00e1squez<\/strong>, no <em><a href=\"https:\/\/nuso.org\/articulo\/315-desborde-reaccionario-del-capitalismo-la-hipotesis-tecnofeudal\/\">Nuso<\/a><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 algo de novo em ilustrar a maneira como os futuros punks e dist\u00f3picos, imaginados na segunda metade do s\u00e9culo XX, se estabeleceram como realidade? Provavelmente n\u00e3o. De qualquer forma, n\u00e3o \u00e9 a\u00ed que reside a originalidade do pensamento do economista franc\u00eas C\u00e9dric Durand. Parte de sua proposta foi elaborada em seu livro <em>Tecnofeudalismo. Cr\u00edtica da economia digital <\/em><a href=\"about:reader?url=https%3A%2F%2Fnuso.org%2Farticulo%2F315-desborde-reaccionario-del-capitalismo-la-hipotesis-tecnofeudal%2F#footnote-1\"><sup>1 <\/sup><\/a>. Durand baseia-se no estudo da din\u00e2mica de investimento das Big Techs, nas margens de lucro excessivas e nos m\u00e9todos de apropria\u00e7\u00e3o do conhecimento nas cadeias de valor globais, para propor a hip\u00f3tese de que uma transforma\u00e7\u00e3o qualitativa do capitalismo est\u00e1 ocorrendo, realizada pelos gigantes tecnol\u00f3gicos. A hip\u00f3tese de uma feudaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo, que ele desenvolve nesta entrevista, serve para detalhar esse repert\u00f3rio reacion\u00e1rio, mas tamb\u00e9m para propor novas formas de interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica e repensar o papel do Estado nesse campo.<\/p>\n<p><strong>Lendo seu livro, a primeira coisa que se torna evidente \u00e9 o paradoxo temporal em que nos encontramos. Ou seja, as discuss\u00f5es intelectuais tendem a caracterizar o tempo presente entre o aceleracionismo e a hipermoderniza\u00e7\u00e3o, mas voc\u00ea sustenta que devemos olhar para as tend\u00eancias feudalizantes da acumula\u00e7\u00e3o. Como chegamos a esse ponto?<\/strong><\/p>\n<p>Uma das grandes li\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX \u00e9 que a hist\u00f3ria n\u00e3o tem um significado determinado, nem no n\u00edvel teleol\u00f3gico nem nos seus ritmos. H\u00e1 o que o fil\u00f3sofo franc\u00eas Daniel Bensa\u00efd chamou de discord\u00e2ncia dos tempos <a href=\"about:reader?url=https%3A%2F%2Fnuso.org%2Farticulo%2F315-desborde-reaccionario-del-capitalismo-la-hipotesis-tecnofeudal%2F#footnote-2\"><sup>2 <\/sup><\/a>: diferentes temporalidades com diferentes l\u00f3gicas. Por outro lado, a segunda quest\u00e3o que \u00e9 importante mencionar \u00e9 que o que o capitalismo certamente produz \u00e9 uma maior socializa\u00e7\u00e3o objetiva do trabalho e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, as condi\u00e7\u00f5es para que a humanidade progrida em dire\u00e7\u00e3o a uma maior capacidade de controle de seu destino coletivo. Sim, o capitalismo produz isso. Mas o capitalismo tamb\u00e9m gera tend\u00eancias reacion\u00e1rias e ambas podem coexistir. De fato, h\u00e1 dimens\u00f5es de socializa\u00e7\u00e3o que s\u00e3o progressivas e, ao mesmo tempo, outras dimens\u00f5es que s\u00e3o mais reacion\u00e1rias.<\/p>\n<p>A tese que defendo no livro pretende romper com essa vis\u00e3o ir\u00f4nica que se difundiu nos anos 1990, como se fosse de direita, que dizia: \u201c<em>Voil\u00e0 <\/em>, caminhamos para um novo capitalismo: uma nova economia regenerada, com muita competi\u00e7\u00e3o, muita criatividade\u201d. Mas, no final das contas, o que temos s\u00e3o supermonop\u00f3lios hiperpredat\u00f3rios. Mas tamb\u00e9m era um discurso que se encontrava em certos setores da esquerda, especialmente na corrente aceleracionista, pr\u00f3xima de Toni Negri, que era muito otimista quanto \u00e0 ideia de que o <em>general intellect<\/em><em> <\/em>que emergiria de tudo isso seria a base de uma democracia radical que j\u00e1 estava ali. E isso tamb\u00e9m n\u00e3o aconteceu\u2026 essa \u00e9 a quest\u00e3o. De qualquer forma, n\u00e3o sou o primeiro a fazer essa analogia entre feudalismo e capitalismo, nem a apontar as tend\u00eancias feudais que existem dentro do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Se a crescente acumula\u00e7\u00e3o de poder por setores t\u00e9cnicos dentro da estrutura empresarial tamb\u00e9m foi trabalhada por John K. Galbraith na d\u00e9cada de 1960, em sua an\u00e1lise da forma\u00e7\u00e3o de uma tecnoestrutura empresarial, o que voc\u00ea descreve \u00e9 uma din\u00e2mica generalizada fora do circuito empresarial?<\/strong><\/p>\n<p>Absolutamente. Mas se formos espec\u00edficos sobre a quest\u00e3o do feudalismo, Karl Marx j\u00e1 retomou Charles Fourier e falou de feudalismo industrial para se referir \u00e0s grandes concentra\u00e7\u00f5es financeiras que eliminavam a concorr\u00eancia e organizavam os diferentes ramos da ind\u00fastria de uma maneira altamente monopolista. Em particular, Marx tinha em mente o desenvolvimento do cr\u00e9dito sob o regime de Napole\u00e3o III na Fran\u00e7a, com os irm\u00e3os [\u00c9mile e Isaac] Pereire. No campo da filosofia pol\u00edtica, temos J\u00fcrgen Habermas, que falou da refeudaliza\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica, ou seja, a falta de autonomia dos agentes impede a sustenta\u00e7\u00e3o de uma conversa p\u00fablica aut\u00eantica, que \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, onde emerge um processo deliberativo substancialmente rico. Segundo Habermas, esse afastamento levou \u00e0 aus\u00eancia de uma esfera p\u00fablica, \u00e0 sua atrofia, o que resultou na refeudaliza\u00e7\u00e3o <a href=\"about:reader?url=https%3A%2F%2Fnuso.org%2Farticulo%2F315-desborde-reaccionario-del-capitalismo-la-hipotesis-tecnofeudal%2F#footnote-3\"><sup>3 <\/sup><\/a>. Na d\u00e9cada de 1990, tamb\u00e9m foram realizados estudos sobre o recuo p\u00f3s-sovi\u00e9tico em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s formas feudais. Mais recentemente, no campo digital, tem-se trabalhado de forma semelhante \u00e0 de Habermas em refer\u00eancia \u00e0 exist\u00eancia de um feudalismo digital.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, h\u00e1 v\u00e1rias ideias que v\u00e3o nessa dire\u00e7\u00e3o. Penso que o que h\u00e1 de original no meu trabalho \u00e9 partir dessa abordagem, mas insistir na estrutura de custos e no tipo de estrat\u00e9gia econ\u00f4mica associada, bem como no que isso implica nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o poder\u00edamos dizer que no meu trabalho h\u00e1 um tratamento da economia pol\u00edtica <em>hardcore<\/em>, presente em particular a partir da segunda parte do livro, e isso \u00e9 algo \u00fanico em compara\u00e7\u00e3o com outros estudos, que tendem a ser bastante alusivos ou focados no campo da ci\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Qual seria a especificidade que esse \u00e2ngulo de an\u00e1lise proporciona?<\/strong><\/p>\n<p>Para ser mais preciso, o feudalismo n\u00e3o \u00e9 um retorno \u00e0s formas individualizadas de produ\u00e7\u00e3o. Afinal, o feudalismo certamente implica a depend\u00eancia de servos, mas tamb\u00e9m pressup\u00f5e a exist\u00eancia de camponeses aut\u00f4nomos e independentes, trabalhando com seus pr\u00f3prios meios de produ\u00e7\u00e3o, suas pr\u00f3prias ferramentas, etc. N\u00e3o \u00e9 disso que estou falando. No que me diz respeito, o que estou descrevendo aqui \u00e9 uma forma extrema de socializa\u00e7\u00e3o do trabalho, mas que assume uma caracter\u00edstica particular: a monopoliza\u00e7\u00e3o do que chamo de <em>gleba digital<\/em>. O paralelo com o sistema feudal surge quando vemos que a l\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 substitu\u00edda pela da preda\u00e7\u00e3o. E se nos tempos feudais isso estava estritamente ligado ao controle da terra, hoje se trata de monopolizar o conhecimento.<\/p>\n<p>Em termos gerais, isso inclui os dados, os algoritmos, a infraestrutura necess\u00e1ria para operar (incluindo elementos f\u00edsicos como data centers, cabos, etc.) e as habilidades necess\u00e1rias para organizar tudo isso. Ent\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de monopoliza\u00e7\u00e3o dessas ferramentas, que n\u00e3o s\u00e3o meios de produ\u00e7\u00e3o no sentido tradicional, mas meios de coordena\u00e7\u00e3o. E toda coordena\u00e7\u00e3o social, seja nas rela\u00e7\u00f5es privadas entre indiv\u00edduos, nas empresas produtivas ou mesmo nos Estados, depende do acesso a recursos extremamente concentrados.<\/p>\n<p>Sua concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 explicada por raz\u00f5es muito simples. Primeiro, a produ\u00e7\u00e3o desses recursos exige economias de escala extraordin\u00e1rias, que assumem duas formas. A primeira \u00e9 que as fontes originais de dados \u2013 ou seja, os primeiros pontos de coleta \u2013 s\u00e3o extremamente raras. J\u00e1 transformamos quase tudo no mundo que poderia ser transformado em dados, e agora obter novos dados significa principalmente encontrar dados de alta qualidade. Portanto, aqueles que conseguiram capturar esses pontos de acesso a dados posicionaram-se como um monop\u00f3lio que pode ser comparado, de forma tradicional, \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de terras. Em segundo lugar, h\u00e1 uma din\u00e2mica de custos inerente ao mundo da informa\u00e7\u00e3o. Isso significa que, uma vez criado um banco de dados, algoritmo ou servi\u00e7o digital, os custos operacionais diminuem continuamente. O custo marginal \u00e9 praticamente zero. E, claro, aqueles que est\u00e3o em primeiro lugar \u2013 os chamados hiperescaladores \u2013 podem se avan\u00e7ar extremamente r\u00e1pido.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o desses dois elementos \u2013 uma l\u00f3gica rentista associada \u00e0 terra e, ao mesmo tempo, uma l\u00f3gica industrial radicalizada \u2013 se conjuga nessas novas ferramentas, e isso gera uma tend\u00eancia \u00e0 monopoliza\u00e7\u00e3o extremamente forte. Essa monopoliza\u00e7\u00e3o extrema se traduz na exist\u00eancia de um pequeno grupo de agentes digitais que poder\u00edamos chamar de<em>knowledge agents<\/em> [<em>agentes do metaconhecimento<\/em><em>]<\/em>, que capturam diretamente a mais-valia e se tornam indispens\u00e1veis, e por meio dessa centraliza\u00e7\u00e3o adquirem, sem d\u00favida, um papel econ\u00f4mico muito importante, mas fundamentalmente pol\u00edtico. Por que um papel pol\u00edtico? Porque organizar conhecimento e coordena\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que vender meias; trata-se de algo vital que constitui uma comunidade.<\/p>\n<p><strong>Outro dos paradoxos que voc\u00ea aborda \u00e9 o fato de que essa acumula\u00e7\u00e3o monopolista da estrutura e do conhecimento digital contradiz fortemente as promessas feitas pelo Vale do Sil\u00edcio desde sua cria\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m os dois mitos fundamentais na articula\u00e7\u00e3o da narrativa neoliberal. Nesse sentido, o que o momento atual nos diz sobre as ideias que sustentam que o melhor meio de coordena\u00e7\u00e3o \u00e9 por meio do mercado e que a propriedade privada \u00e9 a melhor maneira de garantir a liberdade?<\/strong><\/p>\n<p>De fato, o momento em que a narrativa do Vale do Sil\u00edcio se tornou o discurso econ\u00f4mico dominante foi no final dos anos 1990 e in\u00edcio dos anos 2000. Antes disso, havia um discurso sobre a \u201cnova economia\u201d, mas era mais uma observa\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as em andamento do que uma doutrina econ\u00f4mica consolidada. No entanto, esse momento do final da d\u00e9cada de 1990 \u00e9 bastante paradoxal porque coincide com as primeiras grandes crises financeiras nos pa\u00edses do Sul. J\u00e1 tivemos a crise asi\u00e1tica na d\u00e9cada de 1980, a crise mexicana em 1994, a crise asi\u00e1tica novamente em 1997 e a crise russa em 1998. Tudo isso come\u00e7a a abalar seriamente o que deveria ser o grande e nov\u00edssimo projeto do neoliberalismo: a abertura completa dos mercados de capitais.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a transi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-socialista ocorria nos pa\u00edses do Leste Europeu, o que se revelou um fracasso monumental em termos de impacto socioecon\u00f4mico. Vale lembrar que a R\u00fassia, por exemplo, reduziu seu PIB pela metade nesse per\u00edodo. As vantagens aparentes da abertura do mercado geralmente se traduziam em uma esp\u00e9cie de selvageria brutal que empobrecia quase todo mundo. Portanto, a ideia de que simplesmente liberalizar e privatizar seria suficiente est\u00e1 come\u00e7ando a perder credibilidade.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que a narrativa do Vale do Sil\u00edcio \u00e9 apresentada como novidade. O que eles nos dizem \u00e9: \u201cOk, n\u00e3o se trata apenas de abrir o mercado, mas de criar condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a inova\u00e7\u00e3o. As novas empresas n\u00e3o s\u00e3o como as de antes\u201d. Assim, a regenera\u00e7\u00e3o do tecido produtivo das <em>startups<\/em>, que eventualmente se transformam em grandes empresas, fecharia o c\u00edrculo virtuoso de um processo muito schumpeteriano de destrui\u00e7\u00e3o criativa. \u00c9 justamente nesse ponto que se constr\u00f3i a doutrina do Vale do Sil\u00edcio, ou o que poder\u00edamos chamar de \u201cconsenso do Vale do Sil\u00edcio\u201d. Que \u00e9 basicamente o mesmo que o neoliberalismo, mas com uma adi\u00e7\u00e3o fundamental: o refor\u00e7o da propriedade intelectual para proteger os inovadores. A ideia \u00e9 simples: para que a inova\u00e7\u00e3o ocorra, \u00e9 preciso proteger a renda de quem a desenvolve. O que isto significa? Primeiro, fortalecer a renda associada \u00e0 propriedade intelectual. Em segundo lugar, reduzir os impostos sobre o capital, pois considera-se que isso recompensa fundamentalmente a inova\u00e7\u00e3o e o empreendedorismo. Ent\u00e3o temos como resultado uma hist\u00f3ria schumpeteriana, inovadora, que se sobrep\u00f5e ao discurso neoliberal cl\u00e1ssico e cuja melhor ilustra\u00e7\u00e3o s\u00e3o as <em>startup<\/em>, que \u00e9 algo extremamente <em>cool<\/em>. Voc\u00ea come\u00e7a com amigos, tem uma boa ideia e talvez fique muito rico ou at\u00e9 mesmo mude o mundo. \u00c9, em ess\u00eancia, o sonho.<\/p>\n<p><strong>Pura divers\u00e3o na garagem de casa\u2026<\/strong><\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que a maioria <em>das startups, <\/em>obviamente, fracassam. Existem pouqu\u00edssimas hist\u00f3rias de sucesso e, quando <em>startups <\/em>t\u00eam sucesso transformam-se em grandes e velhas empresas extremamente agressivas.<\/p>\n<p><strong>O termo \u201cinova\u00e7\u00e3o\u201d est\u00e1 constantemente presente em seus textos porque parece estar localizado no cerne da narrativa do Vale do Sil\u00edcio. Nesse sentido, correntes libert\u00e1rias parecem usar a tentativa de v\u00e1rios governos latino-americanos de ampliar a presen\u00e7a do Estado na economia para sugerir que o planejamento estatal n\u00e3o funciona e \u00e9 contr\u00e1rio a toda inova\u00e7\u00e3o. Algo semelhante \u00e0 queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, decisiva para consolidar a racionalidade do Consenso de Washington. \u00c9 poss\u00edvel pensar em inova\u00e7\u00e3o e planejamento de forma n\u00e3o excludente?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma \u00f3tima pergunta. Na verdade, \u00e9 muitas vezes o que se op\u00f5e \u00e0 ideia de planejamento. A resposta pode ser bem simples: o planejamento n\u00e3o \u00e9 exclusivo da URSS. Planejamento tamb\u00e9m \u00e9 China. Hoje em dia na China, h\u00e1 muito planejamento e, do ponto de vista da inova\u00e7\u00e3o, \u00e9 o lugar mais din\u00e2mico depois dos Estados Unidos. Ainda n\u00e3o est\u00e3o no limiar, mas\u2026<\/p>\n<p><strong>\u00c9, no entanto, um exemplo que pode causar receios ou obje\u00e7\u00f5es devido \u00e0 l\u00f3gica autorit\u00e1ria que existe no pa\u00eds\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Bom, esse \u00e9 outro problema que n\u00e3o tem nada a ver com inova\u00e7\u00e3o, mas com ditadura. Podemos pegar outro exemplo: a Coreia do Sul. Na \u00e9poca, era uma ditadura, mas a economia era profundamente planejada. Era uma ditadura pr\u00f3-capitalista. De fato, a Fran\u00e7a do p\u00f3s-guerra tamb\u00e9m teve um planejamento significativo. N\u00e3o era uma superdemocracia, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era uma ditadura. Outro exemplo: a social-democracia sueca.<\/p>\n<p>Quando falamos de planejamento, \u00e9 um conceito muito vago. Do que exatamente estamos falando? No fundo, estamos falando da socializa\u00e7\u00e3o do investimento e \u00e9 isso que \u00e9 decisivo. E a socializa\u00e7\u00e3o do investimento existe mesmo dentro do capitalismo, em graus variados. Em sua forma m\u00ednima, ele \u00e9 regulamentado para proibir certos tipos de investimento. No seu extremo, encontramos formas muito fortes de socializa\u00e7\u00e3o de investimentos, como na Fran\u00e7a do p\u00f3s-guerra ou na Coreia do Sul. Isso implicava alta tributa\u00e7\u00e3o sobre os lucros e, ao mesmo tempo, controle rigoroso do cr\u00e9dito, indicando quais tipos de projetos eram permitidos e quais n\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o formas muito avan\u00e7adas de planejamento, mas isso n\u00e3o significa que o mercado desapare\u00e7a completamente ou que a inova\u00e7\u00e3o dos produtores seja eliminada. O objetivo \u00e9 estabelecer setores priorit\u00e1rios para o desenvolvimento, mas a forma como os investimentos s\u00e3o feitos nesses setores fica a cargo dos produtores. Em outras palavras, o planejador pode dizer: \u201cConstruam uma linha de produ\u00e7\u00e3o para roupas esportivas de alta qualidade\u201d. Mas o tipo espec\u00edfico de t\u00eaxteis, as m\u00e1quinas utilizadas ou a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho s\u00e3o decis\u00f5es tomadas pelos produtores, que geralmente s\u00e3o empreendedores, embora tamb\u00e9m possam ser cooperativas ou empresas locais.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, a chave est\u00e1 aqui: a inova\u00e7\u00e3o efetivamente requer uma forma de indetermina\u00e7\u00e3o e \u00e9 necess\u00e1rio deixar espa\u00e7o para essa flexibilidade. Mas essa indetermina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de forma alguma incompat\u00edvel com formas de socializa\u00e7\u00e3o que definem a dire\u00e7\u00e3o onde se deve avan\u00e7ar. De fato, o planejamento de inova\u00e7\u00e3o existiu e continua existindo em uma escala muito ampla. No setor p\u00fablico, isso \u00e9 evidente. Tomemos o caso da Fran\u00e7a: os TGVs [trens de alta velocidade] s\u00e3o o resultado de grandes programas p\u00fablicos. H\u00e1 muitos exemplos assim, alguns bem-sucedidos, outros nem tanto, mas muitos deles funcionaram muito bem. Se tomarmos o caso dos Estados Unidos, como mostra o trabalho de Mariana Mazzucato <a href=\"about:reader?url=https%3A%2F%2Fnuso.org%2Farticulo%2F315-desborde-reaccionario-del-capitalismo-la-hipotesis-tecnofeudal%2F#footnote-4\"><sup>4 <\/sup><\/a>, toda a pesquisa fundamental por tr\u00e1s dos produtos tecnol\u00f3gicos do Vale do Sil\u00edcio foi financiada pelo Departamento de Defesa.<\/p>\n<p>Isso significa que houve uma dire\u00e7\u00e3o quando se decidiu trabalhar em mecanismos de geolocaliza\u00e7\u00e3o, ve\u00edculos aut\u00f4nomos e outros avan\u00e7os. Ent\u00e3o, o passo final para a implementa\u00e7\u00e3o foi dado pelos empreendedores. O que eu quero enfatizar \u00e9 que, claro, h\u00e1 g\u00eanio e criatividade humana, mas eles n\u00e3o est\u00e3o necessariamente ligados ao mercado. \u00c9 preciso haver espa\u00e7o para flexibilidade. O mercado, no campo dos bens de consumo, ajuda a selecionar o melhor modo de produ\u00e7\u00e3o, mas grande parte do esfor\u00e7o inovador ocorre fora do mercado, realizado por cientistas ou mesmo burocratas, em menor grau, que decidem em que dire\u00e7\u00e3o seguir. No caso dos EUA, fala-se at\u00e9 de um \u201cEstado desenvolvedor secreto\u201d, porque n\u00e3o existe apenas a DARPA (Ag\u00eancia de Projetos de Pesquisa Avan\u00e7ada de Defesa), mas tamb\u00e9m programas de sa\u00fade e outros projetos locais, embora alguns sejam redundantes entre si. Em resumo, para encerrar este t\u00f3pico sem entrar em muitos detalhes, \u00e9 verdade que inova\u00e7\u00e3o requer flexibilidade e indetermina\u00e7\u00e3o. Mas a ideia de que o mercado \u00e9 o \u00fanico impulsionador da inova\u00e7\u00e3o \u00e9 em grande parte falsa. Isso \u00e9 s\u00f3 na fase final de comercializa\u00e7\u00e3o, mas tudo isso \u00e9 apoiado por estruturas burocr\u00e1ticas que sustentam a inova\u00e7\u00e3o, mesmo em um pa\u00eds como os Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>Muitos podem dizer que a competi\u00e7\u00e3o \u00e9 a melhor maneira de evitar a concentra\u00e7\u00e3o de poder das Big Techs. O que voc\u00ea acha?<\/strong><\/p>\n<p>Com a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, parece que j\u00e1 n\u00e3o iremos mais nessa dire\u00e7\u00e3o, mas antes de ele chegar ao poder havia um argumento bastante forte, especialmente nos EUA sob a lideran\u00e7a da presidente da Comiss\u00e3o Federal de Com\u00e9rcio, Lina Khan <a href=\"about:reader?url=https%3A%2F%2Fnuso.org%2Farticulo%2F315-desborde-reaccionario-del-capitalismo-la-hipotesis-tecnofeudal%2F#footnote-5\"><sup>5 <\/sup><\/a>e, at\u00e9 certo ponto, na Europa, que assumiu uma postura muito dura contra <em>Big Techs<\/em>. \u00c9 bastante correto que os reguladores estejam preocupados com o impacto das Big Tech, dizendo: \u201ccuidado, isso \u00e9 perigoso para o futuro das nossas economias porque criar\u00e1 desigualdades extraordin\u00e1rias, mas tamb\u00e9m representa desafios pol\u00edticos porque seu poder amea\u00e7a a autonomia das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas \u201d<em>. <\/em>Esta an\u00e1lise \u00e9 completamente correta e necess\u00e1ria, temos raz\u00e3o em nos preocupar com isso.<\/p>\n<p>No entanto, a resposta que prop\u00f5e enfrent\u00e1-las por meio do desmantelamento das Big Techs<em> <\/em>e promovendo uma maior concorr\u00eancia, parece-me insuficiente, ou poder\u00edamos dizer, sub\u00f3tima. Claro, pode ser melhor ter muitas pequenas empresas privadas do que um grande monop\u00f3lio privado sobre o qual n\u00e3o temos controle. Mas o ideal seria ter um grande monop\u00f3lio sob controle p\u00fablico ou pelo menos fortemente regulamentado.<\/p>\n<p>Porque? Simplesmente porque existem l\u00f3gicas naturais de monop\u00f3lio que mencionei antes. Se uma empresa como o Google funciona t\u00e3o bem, \u00e9 justamente gra\u00e7as \u00e0 fertiliza\u00e7\u00e3o cruzada entre seus diferentes servi\u00e7os. O que acontece no Gmail influencia o que acontece no Google Maps, e vice-versa. Ent\u00e3o a grande quest\u00e3o \u00e9 como o Google ganha dinheiro\u2026 por meio de publicidade personalizada. Mas ele faz isso distribuindo an\u00fancios por todo o seu ecossistema de servi\u00e7os, mantendo os custos relativamente baixos. Se fragmentarmos esses servi\u00e7os, isso significaria ter v\u00e1rios provedores que teriam que buscar sua remunera\u00e7\u00e3o em cada um desses servi\u00e7os. O resultado? Mais comercializa\u00e7\u00e3o de cada servi\u00e7o. \u00c9 realmente desej\u00e1vel? Eu n\u00e3o acho. \u00c9 verdade que ao desmembrar o Google poder\u00edamos reduzir seu poder concentrado e isso seria positivo, claro. Mas, por outro lado, ter\u00edamos servi\u00e7os de menor qualidade e mais comercializados e isso, do meu ponto de vista, n\u00e3o seria um resultado positivo. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para impor algo assim a n\u00f3s mesmos. Acho isso importante. Talvez eu possa dar um exemplo para ilustrar isso melhor.<\/p>\n<p><strong>Sim, v\u00e1 em frente\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Agora na Europa, ao comprar um celular Android, voc\u00ea tem a possibilidade de escolher entre diferentes mecanismos de busca. Ao configurar seu dispositivo pela primeira vez, ele pergunta se voc\u00ea prefere Google, Bing ou outros, dependendo do pa\u00eds. Mas a quest\u00e3o importante \u00e9: como os mecanismos de busca entram nessa seleta lista? Por tr\u00e1s das op\u00e7\u00f5es que seu telefone oferece, h\u00e1 um sistema de leil\u00e3o: as empresas devem pagar e aquelas que oferecem mais dinheiro ficam nos quatro primeiros lugares que s\u00e3o mostrados em cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que os melhores mecanismos de busca, aqueles que mais respeitam a privacidade do usu\u00e1rio, s\u00e3o aqueles com menor capacidade de gerar receita. Portanto, eles t\u00eam menos chances de competir nesses leil\u00f5es. \u00c9 o que explica o buscador DuckDuckGo: eles dizem que n\u00e3o t\u00eam chance de ganhar o leil\u00e3o porque, justamente por exercerem uma pr\u00e1tica \u00e9tica, a renda que geram \u00e9 m\u00ednima. Isso n\u00e3o significa que eles n\u00e3o sejam \u00fateis para os usu\u00e1rios, mas eles n\u00e3o podem se financiar por meio de publicidade na mesma medida que os outros. Aqui fica evidente a clara contradi\u00e7\u00e3o entre valor de uso e valor de troca, uma vez que a mercantiliza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os digitais, associada \u00e0 sua extrema fragmenta\u00e7\u00e3o, acaba destruindo o valor de uso. Penso que esta \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o fundamental.<\/p>\n<p>Vamos agora dar um grande salto: acontece que o reino digital \u00e9, em ess\u00eancia, uma objetifica\u00e7\u00e3o do social. Em parte, mas \u00e9 basicamente isso. Retomando os termos de Fr\u00e9d\u00e9ric Lordon, poder\u00edamos chamar de \u201ctranscend\u00eancia imanente\u201d <a href=\"about:reader?url=https%3A%2F%2Fnuso.org%2Farticulo%2F315-desborde-reaccionario-del-capitalismo-la-hipotesis-tecnofeudal%2F#footnote-6\"><sup>6 <\/sup><\/a>. O que \u00e9 digital, realmente? N\u00e3o s\u00e3o seus dados ou os meus separadamente, mas a inter-rela\u00e7\u00e3o entre os nossos dados. E isso \u00e9 o social! Uma subst\u00e2ncia social. E aqueles que controlam essa subst\u00e2ncia social conseguem se apropriar da renda que ela gera. Agora, se fragmentarmos essa subst\u00e2ncia e colocarmos essas partes no mercado, estaremos agindo de forma absurda porque essas conex\u00f5es j\u00e1 existiam naturalmente. \u00c9 por isso que sou a favor de op\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e regulamenta\u00e7\u00f5es fortes.<\/p>\n<p>A\u00ed podemos entrar em outra discuss\u00e3o, por exemplo: at\u00e9 que ponto os dados devem ser acess\u00edveis e para quem? Acredito que deveriam ser acess\u00edveis, mas regulamentados. Algo semelhante acontece com os arquivos nacionais: \u00e9 poss\u00edvel acess\u00e1-lo se voc\u00ea faz uma solicita\u00e7\u00e3o a um Comiss\u00e3o e pode us\u00e1-los para pesquisa, projetos p\u00fablicos ou, inclusive, empresariais, sob licen\u00e7as espec\u00edficas. Construir dados como um bem comum n\u00e3o significa torn\u00e1-los irrestritamente dispon\u00edveis no mercado, mas sim trat\u00e1-los como um bem comum. Outra abordagem promove a discuss\u00e3o sobre a responsabilidade dos algoritmos. Algoritmos criam efeitos reais: de engarrafamentos \u00e0 depress\u00e3o entre os adolescentes, passando por diferentes formas de contamina\u00e7\u00e3o. Se formos capazes de demonstrar a rela\u00e7\u00e3o entre o uso do algoritmo e esses efeitos, a responsabilidade criminal deve recair sobre aqueles que os desenvolveram ou implementaram. Isso n\u00e3o significa que temos que entender como cada algoritmo funciona, mas sim responsabilizar legalmente aqueles que os implementam pelos resultados que geram. Um terceiro mecanismo seria o modelo <em>golden <\/em><em>share<\/em><em> <\/em><em>(a\u00e7\u00e3o de ouro)<\/em>, muito utilizado na China. Esse mecanismo implica que o Estado tenha poder de veto sobre os conselhos de administra\u00e7\u00e3o de determinadas empresas. Isso permite que as autoridades antecipem os movimentos de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, em vez de sempre correr atr\u00e1s deles tentando regulamentar depois que os efeitos j\u00e1 est\u00e3o presentes. Para a Am\u00e9rica Latina ou mesmo para pa\u00edses como a Fran\u00e7a, esse sistema n\u00e3o ser\u00e1 de grande utilidade, mas nos Estados Unidos \u00e9 um debate que pode ser muito importante. Por fim, outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 construir alternativas p\u00fablicas. Hoje, um mecanismo de busca p\u00fablico pode ser uma resposta vi\u00e1vel\u2026<\/p>\n<p><strong>Algo semelhante ao que o Brasil est\u00e1 fazendo atualmente com o Servi\u00e7o Federal de Processamento de Dados (SERPRO).<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. O que o Brasil est\u00e1 fazendo \u00e9 muito bom, mas mesmo para o Brasil, que \u00e9 um pa\u00eds grande e com recursos significativos, ser\u00e1 dif\u00edcil alcan\u00e7ar os mais avan\u00e7ados nesse campo. O que sustentamos \u00e9 que todos os pa\u00edses, exceto os Estados Unidos e, em menor grau, a China, hoje dependem do sistema digital. Portanto, todos esses pa\u00edses deveriam ter interesse em criar uma infraestrutura p\u00fablica global m\u00ednima no campo digital.<\/p>\n<p>Isso pode parecer ut\u00f3pico, mas acho necess\u00e1rio levantar a quest\u00e3o, mesmo que isso n\u00e3o pare\u00e7a vi\u00e1vel hoje. Seria algo como o que surgiu com a Uni\u00e3o Postal Universal: uma coordena\u00e7\u00e3o internacional no campo digital, sob os ausp\u00edcios da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU); e se isso n\u00e3o funcionar, pode ser por meio de uma organiza\u00e7\u00e3o paralela, que pode fornecer um conjunto de servi\u00e7os digitais b\u00e1sicos. Estamos falando de coisas como poder de computa\u00e7\u00e3o, sistemas de aloca\u00e7\u00e3o de endere\u00e7os, mecanismos de busca \u2014 servi\u00e7os que podem n\u00e3o ser extremamente sofisticados ou avan\u00e7ados, mas que oferecem uma forma de infraestrutura robusta, acess\u00edvel e relativamente neutra. Algo como uma estrutura acordada entre diferentes Estados em n\u00edvel internacional. Essa seria uma das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para seguir em frente.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960, houve muito debate sobre a ideia de <em>computer as public utility<\/em> [o computador como servi\u00e7o p\u00fablico] e acredito que precisamos reavivar essa discuss\u00e3o hoje, porque agora vemos como os monop\u00f3lios privados est\u00e3o cumprindo fun\u00e7\u00f5es que deveriam ser de utilidade p\u00fablica. E isso \u00e9 muito perigoso, por um conjunto de raz\u00f5es que poder\u00edamos detalhar, mas principalmente porque coloca em xeque a soberania dos Estados. Assim como o exemplo da Am\u00e9rica Latina \u00e9 \u00fatil, o da Su\u00ed\u00e7a, por exemplo, tamb\u00e9m o \u00e9. Eles percebem que dependem das Big Techs<em> <\/em>para servi\u00e7os essenciais e n\u00e3o gostam muito disso. Ningu\u00e9m quer estar nessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Parece que a resposta \u00e0s grandes empresas de tecnologia est\u00e1 focada na via legal, com as medidas antimonop\u00f3lio promovidas nos EUA e as tentativas de regulamenta\u00e7\u00e3o pela Uni\u00e3o Europeia, mas me pergunto que outras respostas pol\u00edticas podem ser formuladas, porque a uni\u00e3o interestatal parece ser o ideal, mas muito longe das reais possibilidades no momento\u2026<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que pode parecer ut\u00f3pico, mas quando vemos o Brasil tomando uma iniciativa\u2026 \u00c9 \u00f3timo que o Brasil fa\u00e7a isso. Mas o que o Brasil deveria fazer \u00e9 aproveitar essa iniciativa para propor a uni\u00e3o de outros pa\u00edses. Obviamente, n\u00e3o ser\u00e1 um acordo global com todos os pa\u00edses. Mas o que eu quero dizer \u00e9 que \u00e9 importante levantar a quest\u00e3o, o Brasil est\u00e1 considerando isso, na Europa alguns pa\u00edses est\u00e3o refletindo sobre isso, a Su\u00ed\u00e7a tamb\u00e9m est\u00e1 se fazendo a mesma pergunta.<\/p>\n<p>Em algum momento essas op\u00e7\u00f5es devem ser fortalecidas por meio da coopera\u00e7\u00e3o. Se os Estados perceberem que h\u00e1 uma amea\u00e7a existencial \u00e0 sua capacidade de autonomia pol\u00edtica, ou seja, que sua capacidade decis\u00f3ria e soberania est\u00e3o em jogo, em algum momento isso os far\u00e1 reagir. Ent\u00e3o, embora n\u00e3o esteja sendo implementado agora, \u00e9 uma quest\u00e3o t\u00e3o imediata e realista do ponto de vista da capacidade dos Estados de autonomia de a\u00e7\u00e3o que inevitavelmente ser\u00e1 pleiteado.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma quest\u00e3o que permanece latente e sem resposta: a desconex\u00e3o entre a amea\u00e7a aos Estados como entidades abstratas e a amea\u00e7a aos indiv\u00edduos em um n\u00edvel mais espec\u00edfico. Se as grandes empresas de tecnologia em sua forma atual s\u00e3o onipresentes em nossas vidas, apropriando-se de dados e conhecimento coletivo, como podemos politizar essa quest\u00e3o? Ou seja, como poder\u00edamos construir uma \u201cconsci\u00eancia de classe tecnol\u00f3gica\u201d para enfrentar esse tipo de explora\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, n\u00e3o existe uma solu\u00e7\u00e3o \u00fanica que valha a pena. De fato, muito tem sido tentado atrav\u00e9s de <em>software livre<\/em>, plataformas alternativas, etc. E n\u00e3o tem problema tentar. Mas, na realidade, a maioria desses dispositivos est\u00e1 associada \u00e0s Big Techs<em> <\/em>ou \u00e9 usada por elas. Por exemplo, grande parte dos projetos <em>de software <\/em>das Big Techs<em> <\/em>s\u00e3o lan\u00e7ados na forma de <em>software livre<\/em>, para o qual a comunidade de pesquisadores, engenheiros, etc. \u00e9 mobilizada. E, no final, como as empresas s\u00e3o donas das infraestruturas e servi\u00e7os complementares, elas acabam concentrando as solu\u00e7\u00f5es desenvolvidas pela comunidade <em>de software livre <\/em><em>em seus produtos comerciais<\/em>. Ou seja, eles se apropriam do trabalho realizado pela comunidade. Se tomarmos, por outro lado, os servi\u00e7os digitais desenvolvidos fora do radar das Big Techs, \u00e9 verdade que eles podem oferecer certas garantias em prote\u00e7\u00e3o de dados, mas invariavelmente tamb\u00e9m dependem de uma s\u00e9rie de servi\u00e7os produzidos pelas Big Techs. Existem pouqu\u00edssimos espa\u00e7os que s\u00e3o completamente aut\u00f4nomos dessas empresas. Porque? Porque s\u00e3o habilidades gerais. No pior dos casos, estamos falando de cabos e infraestrutura f\u00edsica b\u00e1sica, etc.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como voc\u00ea politiza isso no n\u00edvel individual? Acredito que h\u00e1 v\u00e1rias maneiras. Isso pode me desviar um pouco do assunto, mas acho que chegamos a um ponto de ruptura na digitaliza\u00e7\u00e3o do mundo. Percorremos um longo caminho, e at\u00e9 <em>as <\/em><em>Big Techs<\/em><em> <\/em>percebem que estamos atingindo certos limites. Ou seja, mesmo que as tecnologias continuem a ser implantadas, j\u00e1 sabemos o que elas podem fazer. Percebemos que elas de fato cumprem certas fun\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m n\u00e3o v\u00e3o mudar tudo. E, por outro lado, h\u00e1 um sentimento de que as Big Techs<em> <\/em>s\u00e3o muito invasivas: h\u00e1 problemas de sa\u00fade p\u00fablica, problemas ecol\u00f3gicos. Acredito que todos esses elementos nos levar\u00e3o a questionar qual \u00e9 realmente o lugar do mundo digital em nossas vidas, nos sistemas educacionais, nos tipos de intera\u00e7\u00e3o, etc. Acredito que essa ser\u00e1 uma das conversas principais. Quanto espa\u00e7o damos ao mundo digital? Quais tarefas atribu\u00edmos ao mundo digital e quais decidimos fazer de forma diferente?<\/p>\n<p>Por exemplo, poder\u00edamos criar espa\u00e7os livres de recursos digitais nas cidades, onde as pessoas ir\u00e3o interagir fora do mundo digital? Nos sistemas educacionais, definir\u00edamos que at\u00e9 certa idade n\u00e3o h\u00e1 acesso ao mundo digital porque entendemos que existe um mundo al\u00e9m da tela? Essas s\u00e3o as conversas que precisamos ter sobre o lugar do mundo digital. Na minha opini\u00e3o, elas s\u00e3o importantes, primeiro de uma perspectiva epistemol\u00f3gica, porque vemos que h\u00e1 um efeito de reifica\u00e7\u00e3o e empobrecimento das intera\u00e7\u00f5es devido \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de uma perspectiva ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Estamos percebendo que a implanta\u00e7\u00e3o de todas as solu\u00e7\u00f5es digitais poss\u00edveis \u00e9 tal que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sustent\u00e1-las a longo prazo. Teremos que decidir onde o uso do digital \u00e9 \u00fatil e onde n\u00e3o \u00e9, onde \u00e9 fr\u00edvolo e onde \u00e9 sup\u00e9rfluo, onde \u00e9 prejudicial e onde \u00e9 positivo. Ou seja, uma delibera\u00e7\u00e3o sobre os usos do mundo digital \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria. E n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o louco quanto parece. Durante a pandemia da covid-19 na Europa, houve um acordo entre a Comiss\u00e3o Europeia e a Netflix para reduzir o uso de banda larga para que houvesse o suficiente para permitir o teletrabalho. Isso mostra que em algum momento houve uma decis\u00e3o pol\u00edtica sobre o uso dos recursos digitais dispon\u00edveis. A Netflix concordou (ou foi for\u00e7ada a) se adaptar a essa necessidade. Esse tipo de reflex\u00e3o, na minha opini\u00e3o, deve ser multiplicado, tanto por quest\u00f5es de emancipa\u00e7\u00e3o, democracia e sa\u00fade, quanto por quest\u00f5es ecol\u00f3gicas. E essa conversa \u00e9 muito interessante porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sobre tecnologia, nem \u00e9 s\u00f3 sobre regular as Big Techs; tamb\u00e9m se trata de decidir qual papel queremos que o digital desempenhe em nossas vidas, independentemente das formas como as tecnologias s\u00e3o desenvolvidas ou implementadas.<\/p>\n<p><strong>Como diria Wendy Brown, trata-se de \u201crefazer o demos\u201d ou, mais precisamente, de uma forma de \u201creincorporar a economia\u201d, seguindo Karl Polanyi?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, exatamente. H\u00e1 algo que n\u00e3o mencionei, mas se entendermos que o digital \u00e9 uma forma de coordena\u00e7\u00e3o \u2013 uma coordena\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica, como Katharina Pistor menciona <a href=\"about:reader?url=https%3A%2F%2Fnuso.org%2Farticulo%2F315-desborde-reaccionario-del-capitalismo-la-hipotesis-tecnofeudal%2F#footnote-7\"><sup>7 <\/sup><\/a>\u2013 \u00e9 importante reconhecer que essa coordena\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, algor\u00edtmica, tamb\u00e9m tem efeitos de reifica\u00e7\u00e3o semelhantes aos da burocracia ou do mercado. Ent\u00e3o temos que decidir quando, onde e como vamos par\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>Nesse sentido, se temos a possibilidade de socializar as decis\u00f5es do Estado, em maior ou menor grau, como podemos traduzir essa participa\u00e7\u00e3o para a esfera privada quando se trata das Big Techs? Principalmente neste momento em que, como ele explica no livro, a concentra\u00e7\u00e3o de poder nessas empresas est\u00e1 no mito da propriedade privada.<\/strong><\/p>\n<p>O que eu gostaria \u00e9 que as Big Techs padronizadas<em> <\/em>fossem monop\u00f3lios p\u00fablicos.<\/p>\n<p><strong>Uma esp\u00e9cie de nacionaliza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Basicamente, estamos falando de infraestrutura geral, como servi\u00e7os postais ou trens. \u00c9 uma forma de coordena\u00e7\u00e3o social generalizada. O mecanismo de busca, hoje, \u00e9 como um servi\u00e7o b\u00e1sico. Google Maps, todo mundo precisa dele. Quero dizer, realmente existe uma l\u00f3gica de sistemas universais. Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o haja espa\u00e7o para iniciativas privadas, cooperativas ou similares, mas grandes coisas que s\u00e3o padronizadas devem ser gerenciadas sob controle p\u00fablico. Obviamente o problema \u00e9 que essas s\u00e3o empresas que est\u00e3o sediadas em um pa\u00eds, portanto, h\u00e1 uma l\u00f3gica que \u00e9 muito dif\u00edcil de gerenciar. Voc\u00ea n\u00e3o pode dizer: \u201cEstou nacionalizando o Google na Fran\u00e7a\u201d, isso n\u00e3o faz sentido algum. H\u00e1 uma dificuldade espec\u00edfica a\u00ed. Podemos imaginar, por exemplo \u2013 e esta tamb\u00e9m \u00e9 uma das solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis \u2013 que nas negocia\u00e7\u00f5es entre as Big Techs<em> <\/em>e sua autoriza\u00e7\u00e3o para operar em diferentes pa\u00edses sejam estabelecidas condi\u00e7\u00f5es nesse sentido. Ou seja, uma licen\u00e7a \u00e9 basicamente concedida ao Google, Amazon, etc., e nessa licen\u00e7a os Estados reservam certos direitos de supervis\u00e3o sobre certas quest\u00f5es. N\u00e3o se trata de nacionaliza\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 maneiras de conter isso de forma bastante significativa.<\/p>\n<p><strong>Parece que com a elei\u00e7\u00e3o de Trump o cen\u00e1rio \u00e9 bastante sombrio, principalmente se levarmos em conta que Elon Musk esteve muito presente na campanha pol\u00edtica e agora faz parte do governo Trump. Ser\u00e1 este um per\u00edodo de ouro de acumula\u00e7\u00e3o para as Big Techs?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, acho que ser\u00e1 assim. Os apoiadores de Trump vieram do lado das Big Techs mais agressivas, mais libert\u00e1rias, mais antirregulamenta\u00e7\u00e3o, etc. Ent\u00e3o, n\u00f3s realmente temos esse tipo de alian\u00e7a entre a extrema direita e vis\u00f5es muito libert\u00e1rias e tamb\u00e9m, poder\u00edamos dizer, com todo esse movimento transumanista, uma esp\u00e9cie de <em>hubris<\/em>, completamente delirante, em torno do solucionismo tecnol\u00f3gico, em torno de empreendedores como esses grandes cavalheiros. Ent\u00e3o aqui estamos realmente em um del\u00edrio absoluto que est\u00e1 dando um passo al\u00e9m. Obviamente, isso n\u00e3o vai de forma alguma seguir na dire\u00e7\u00e3o desejada e est\u00e1 claro que a vit\u00f3ria de Trump refor\u00e7a essas tend\u00eancias. N\u00e3o quero entrar em muitos detalhes porque n\u00e3o \u00e9 minha \u00e1rea. Mas acho que, de fato, existem, associadas ao di\u00e1logo digital, formas de politiza\u00e7\u00e3o que a extrema direita entendeu melhor do que n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Uma quest\u00e3o que esqueci, mas que acho importante antes de terminar, \u00e9 sobre a crise do sistema atual. Em seu livro, voc\u00ea menciona duas l\u00f3gicas que acabam provocando e acelerando a crise do modelo feudal: a l\u00f3gica rentista das elites, mas tamb\u00e9m o gasto ostentoso que elas fazem dessas rendas. Neste momento, quando falamos de tecnofeudalismo, quais s\u00e3o os sinais que podem nos alertar sobre um colapso do sistema?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, a tend\u00eancia geral n\u00e3o \u00e9 a de um capitalismo particularmente est\u00e1vel, que funcione bem, que cres\u00e7a de forma sustent\u00e1vel, etc. H\u00e1 um tipo de instabilidade persistente. Isso n\u00e3o significa que estamos na d\u00e9cada de 1930\u2026 \u00e9 algo ambivalente. Mas h\u00e1 tend\u00eancias de crise que s\u00e3o evidentes. Ent\u00e3o, uma das minhas hip\u00f3teses \u00e9 que o tipo de investimento que \u00e9 feito \u00e9 importante, mas sua l\u00f3gica principal n\u00e3o \u00e9 aumentar a produtividade. Em vez disso, sua l\u00f3gica \u00e9 amplamente orientada para a gera\u00e7\u00e3o de renda, ou seja, uma l\u00f3gica de depreda\u00e7\u00e3o. E a l\u00f3gica de depreda\u00e7\u00e3o \u00e9 um jogo de perde-perde. Isso leva a tens\u00f5es extremamente fortes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando falo de uma crise associada ao feudalismo, quero dizer que essa l\u00f3gica de depreda\u00e7\u00e3o pode gerar novos antagonismos que podem ir al\u00e9m dos cl\u00e1ssicos conflitos de classe. \u00c9 por isso que a quest\u00e3o dos Estados \u00e9 t\u00e3o importante. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel imaginar que uma parte do capital que n\u00e3o est\u00e1 diretamente ligada a tudo isso esteja em uma posi\u00e7\u00e3o subordinada, de tens\u00e3o. Novas crises podem surgir a\u00ed. Por outro lado, \u00e9 igualmente importante notar que, da minha perspectiva, o setor digital n\u00e3o cria muito valor. O setor digital, em ess\u00eancia, apropria-se de valor. Nesse sentido, minha abordagem continua bastante cl\u00e1ssica do ponto de vista marxista: a produ\u00e7\u00e3o de valor est\u00e1 ligada ao trabalho e ao trabalhador. Agora, a forma como a mais-valia \u00e9 distribu\u00edda \u00e9 um jogo entre capitalistas, no qual os gigantes tecnol\u00f3gicos ficam com grande parte dos benef\u00edcios. Em outras palavras, voc\u00ea pode ser explorado em uma pequena ou m\u00e9dia empresa que produz m\u00e1quinas de alta precis\u00e3o; nesse caso, seu empregador ficar\u00e1 com apenas uma pequena parte dos ganhos de capital que voc\u00ea gerar, pois ele ter\u00e1 que pagar por muitos servi\u00e7os digitais e outros benef\u00edcios para empresas maiores. Assim, parte desse valor excedente ser\u00e1 apropriado mais acima na cadeia. \u00c9 crucial entender isso. Portanto, h\u00e1 contradi\u00e7\u00f5es que est\u00e3o associadas tanto \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da mais-valia em si quanto \u00e0 sua forma de distribui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 nada antin\u00f4mico.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 quest\u00e3o da crise, o primeiro elemento \u00e9 que essa l\u00f3gica de depreda\u00e7\u00e3o leva a uma l\u00f3gica de estagna\u00e7\u00e3o, um jogo de perde-perde que exacerba as tens\u00f5es pol\u00edticas. Esse \u00e9 um primeiro elemento. O segundo elemento \u00e9 mais pol\u00edtico: h\u00e1 uma esp\u00e9cie de banalidade na ideia de as Big Techs<em> <\/em>assumirem a lideran\u00e7a pol\u00edtica da humanidade. Elas gostariam de fazer isso. No entanto, elas encontram resist\u00eancia, inclusive por parte dos Estados. Um exemplo disso foi quando o Facebook quis lan\u00e7ar sua Libra, seu projeto de moeda. Se essa moeda existisse, ela seria a mais usada no mundo. Agora imagine o poder pol\u00edtico que isso implicaria, mas os bancos centrais disseram n\u00e3o. O que quero deixar claro \u00e9 que os Estados ainda t\u00eam capacidade de decidir. Outro exemplo: os cabos submarinos, que hoje pertencem em sua maioria \u00e0s Big Techs, poderiam ser declarados infraestrutura cr\u00edtica para o funcionamento das sociedades. Os Estados poderiam decidir que sejam p\u00fablicos, como eram no passado. Existem maneiras mais ou menos sofisticadas de elaborar uma regulamenta\u00e7\u00e3o. Mais uma vez, o que aconteceu na China com as <em>golden shares <\/em>foi um caso em que o governo demitiu os l\u00edderes do setor e retomou o controle pol\u00edtico. Portanto, embora a tend\u00eancia ao tecnofeudalismo seja latente, isso n\u00e3o significa que ela se materializar\u00e1 plenamente. Os atores pol\u00edticos, pelo menos nos grandes Estados, ainda t\u00eam meios para retomar o controle.<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/para-escapar-do-tecnofeudalismo\/\">Para escapar do Tecnofeudalismo<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/panama-realiza-exercicios-militares-com-eua-proximo-ao-canal\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/minis-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Panam\u00e1 realiza exerc\u00edcios militares com EUA pr\u00f3xim...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/cultura\/2025\/12\/cinemateca-capitolio-apresenta-a-mostra-a-vinganca-dos-filmes-b\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Cinemateca Capit\u00f3lio apresenta a mostra \u2018A Vingan\u00e7...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-tribunal-penal-internacional-trump-e-as-big-techs\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">O tribunal penal internacional, Trump e as big tec...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dia-mundial-da-educacao-relembre-programas-sociais-do-governo-lula-voltados-a-educacao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/ensino-medio-mais-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Dia Mundial da Educa\u00e7\u00e3o: relembre programas sociai...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9dric Durand, em entrevista a Diego Vel\u00e1squez, no Nuso H\u00e1 algo de novo em ilustrar a maneira como os futuros punks e dist\u00f3picos, imaginados na segunda metade do s\u00e9culo XX, se estabeleceram como realidade? 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