{"id":12722,"date":"2025-02-09T16:23:21","date_gmt":"2025-02-09T19:23:21","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/emprestimos-da-china-aliviariam-as-restricoes-fiscais-do-brasil\/"},"modified":"2025-02-09T16:23:21","modified_gmt":"2025-02-09T19:23:21","slug":"emprestimos-da-china-aliviariam-as-restricoes-fiscais-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/emprestimos-da-china-aliviariam-as-restricoes-fiscais-do-brasil\/","title":{"rendered":"Empr\u00e9stimos da China aliviariam as restri\u00e7\u00f5es fiscais do Brasil?"},"content":{"rendered":"<p><span>O governo brasileiro, ao final do seu segundo ano, experimentou forte instabilidade financeira e cambial, em grande parte por causa da sua depend\u00eancia de credores privados internos e externos, que oferecem cr\u00e9dito em condi\u00e7\u00f5es onerosas de juros e prazos. Esses fluxos financeiros privados exibem, al\u00e9m disso, forte volatilidade, confirmada mais uma vez em fins de 2024. Os mercados se acalmaram em janeiro, mas persiste a vulnerabilidade do Estado brasileiro.<\/span><\/p>\n<p><span>O que poderia ser feito para blindar o setor p\u00fablico? Uma poss\u00edvel alternativa seria encontrar no exterior novas fontes mais atraentes de financiamento, por exemplo na China e, em menor medida, em pa\u00edses exportadores de petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio. S\u00e3o pa\u00edses com reservas oficiais excedentes, bem superiores \u00e0s suas necessidades precaucionais. O aporte dessas fontes de cr\u00e9dito externo poderia constituir, em tese, uma fonte mais favor\u00e1vel de financiamento para o Estado brasileiro, libertando-o em parte das condi\u00e7\u00f5es extorsivas do cr\u00e9dito de fontes dom\u00e9sticas caras, de curto prazo e inst\u00e1veis. Se o volume da nova capta\u00e7\u00e3o externa for expressivo, com prazos mais longos e juros mais baixos, haveria um impacto imediato sobre o quadro macroecon\u00f4mico, com revaloriza\u00e7\u00e3o cambial, menor press\u00e3o inflacion\u00e1ria e queda das taxas de juro internas.\u00a0<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-211411\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/china-2.webp\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"638\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/china-2.webp 1024w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/china-2-300x187.webp 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/china-2-768x479.webp 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/china-2-750x467.webp 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>20.11.2023 \u2013 Presidente da Rep\u00fablica, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, durante Jantar oferecido pelo Presidente Lula e pela Senhora<br \/>Janja Lula da Silva ao Presidente da Rep\u00fablica Popular<br \/>da China, Xi Jinping, no Pal\u00e1cio do Itamaraty. Bras\u00edlia \u2013 DF. <br \/>(Foto: Ricardo Stuckert \/ Pal\u00e1cio do Planalto)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>T\u00eam fundamento essas expectativas positivas? Intuitivamente, a resposta \u00e9 sim. Mais correto, contudo, \u00e9 dizer ela que ter\u00e1 fundamento somente se certas precondi\u00e7\u00f5es financeiras e macroecon\u00f4micas forem atendidas. Esse ponto nem sempre \u00e9 compreendido, e mesmo economistas n\u00e3o o levam na devida conta.<\/span><\/p>\n<p><span>Este artigo come\u00e7a por uma discuss\u00e3o das precondi\u00e7\u00f5es para que a eventual entrada de empr\u00e9stimos externos dessas novas fontes seja de fato proveitosa para o Estado brasileiro. Em seguida, discute um lado negativo dessa alternativa de financiamento que, dependendo da dimens\u00e3o da d\u00edvida externa l\u00edquida pr\u00e9-existente, pode levar a uma exposi\u00e7\u00e3o excessiva a risco cambial. Conclui-se que o endividamento no exterior, mesmo que de fontes mais atrativas, pode levar a uma nova forma de depend\u00eancia financeira. Ainda assim, argumenta-se que a tomada de empr\u00e9stimos externos oficiais, obedecidas certas precondi\u00e7\u00f5es, pode, sim, modificar para melhor o quadro macroecon\u00f4mico de curto prazo, sobretudo se ela for utilizada para substituir d\u00edvida interna por externa.<\/span><\/p>\n<h2><b>Substitui\u00e7\u00e3o de d\u00edvida interna por d\u00edvida externa<\/b><\/h2>\n<p><span>Quais s\u00e3o essas precondi\u00e7\u00f5es? Tento explicar sinteticamente, sem recorrer a equa\u00e7\u00f5es. Para simplificar, vou tratar apenas do impacto imediato sobre finan\u00e7as p\u00fablicas, balan\u00e7o de pagamentos e contas nacionais, sem considerar efeitos de segunda ordem. Para compreender esse primeiro impacto, \u00e9 necess\u00e1rio considerar a restri\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria do setor p\u00fablico, as contas nacionais, a d\u00edvida l\u00edquida externa do governo, bem como a estabilidade do financiamento interno e suas condi\u00e7\u00f5es de prazo e juros comparadas \u00e0s dos novos empr\u00e9stimos que a China ou outros pa\u00edses ofertariam ao Brasil.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Admita-se para come\u00e7ar que exista de fato, do lado da oferta, uma fonte de financiamento em grande escala, em condi\u00e7\u00f5es atraentes de custo e prazo. Podem ser bancos p\u00fablicos chineses, por exemplo, com <\/span><i><span>deep pocket<\/span><\/i><span>s. Admita-se, tamb\u00e9m, que esse financiamento venha livre, n\u00e3o atado a importa\u00e7\u00f5es. Sem essas precondi\u00e7\u00f5es iniciais, o impacto macroecon\u00f4mico seria pequeno.<\/span><\/p>\n<p><span>Que contrapartidas poderia o Brasil oferecer aos credores externos? No caso da China, poderia ser o compromisso de aderir formalmente \u00e0 Nova Rota da Seda, a grande e priorit\u00e1ria iniciativa internacional da China desde 2013. O governo Lula fez bem de n\u00e3o aderir de imediato, condicionando a entrada na Nova Rota a contrapartidas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>O Brasil poderia, tamb\u00e9m, comprometer-se a elevar a participa\u00e7\u00e3o da moeda chinesa, hoje da ordem de apenas 5%, nas reservas internacionais brasileiras. O yuan \u00e9 eleg\u00edvel para esse prop\u00f3sito, uma vez que integra, desde 2014, a pequena lista de moedas de liquidez internacional que comp\u00f5em a cesta do Direito Especial de Saque do FMI. Dado o porte das nossas reservas internacionais, a decis\u00e3o brasileira contribuiria de modo n\u00e3o desprez\u00edvel para o objetivo acalentado pela China de promover a gradual internacionaliza\u00e7\u00e3o da sua moeda.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Sendo realista, por\u00e9m, cabe supor que esses novos empr\u00e9stimos seriam denominados em moeda estrangeira, uma vez que ao credor externo dificilmente interessaria adquirir risco cambial em reais em grande escala, concedendo empr\u00e9stimos expressivos para um pa\u00eds que, como \u00e9 not\u00f3rio, carrega pr\u00eamios de risco apreci\u00e1veis nos mercados dom\u00e9stico e internacional. Esses pa\u00edses ou institui\u00e7\u00f5es estrangeiras s\u00f3 aceitar\u00e3o se expor ao risco Brasil se n\u00e3o houver, em adi\u00e7\u00e3o a isso, exposi\u00e7\u00e3o a risco cambial. Esses problemas, diga-se de passagem, s\u00e3o reconhecidos tamb\u00e9m pelas ag\u00eancias chinesas de classifica\u00e7\u00e3o de risco, embora elas sejam mais flex\u00edveis do que as ag\u00eancias tradicionais (Moody\u2019s, S&amp;P e Fitch).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Quais s\u00e3o as consequ\u00eancias desses empr\u00e9stimos do exterior? Primeira: <\/span><i><span>ceteris paribus<\/span><\/i><span> (tudo o mais constante), aumenta a d\u00edvida externa bruta e l\u00edquida do setor p\u00fablico na propor\u00e7\u00e3o do empr\u00e9stimo obtido. \u201cTudo o mais constante\u201d significa, entre outras coisas, que a entrada desses recursos externos n\u00e3o venha a se traduzir em aumento correspondente das reservas internacionais do pa\u00eds, que s\u00e3o um ativo externo do setor p\u00fablico. Se as reservas aumentam na propor\u00e7\u00e3o do aumento da d\u00edvida bruta do setor p\u00fablico, a d\u00edvida <\/span><i><span>l\u00edquida<\/span><\/i><span> p\u00fablica fica constante e n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o fiscal adicional para aumentar o d\u00e9ficit do governo ou reduzir a d\u00edvida interna. Ou seja, a capta\u00e7\u00e3o externa s\u00f3 aumenta o espa\u00e7o fiscal se as reservas internacionais n\u00e3o aumentarem <\/span><i><span>pro tanto<\/span><\/i><span>.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Aumentar o espa\u00e7o fiscal significa, neste contexto, abrir duas op\u00e7\u00f5es n\u00e3o mutuamente excludentes: a) a possibilidade de registrar um d\u00e9ficit nominal ou total mais elevado, aumentando o investimento p\u00fablico em infraestrutura (ou outras despesas priorit\u00e1rias); e b) a possibilidade de substituir d\u00edvida interna por externa, ampliando o poder de barganha do Estado em rela\u00e7\u00e3o aos atuais investidores de portf\u00f3lio, dom\u00e9sticos ou estrangeiros. Essa segunda op\u00e7\u00e3o parece ser a mais relevante nas atuais circunst\u00e2ncia brasileiras.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Outra precondi\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o diminua o resto da d\u00edvida externa do setor p\u00fablico. Caso isso viesse a ocorrer no mesmo montante, a d\u00edvida externa bruta do setor p\u00fablico permaneceria constante, mudando apenas a sua composi\u00e7\u00e3o. O aumento do cr\u00e9dito ao governo federal apenas diminuiria o acesso do resto do setor p\u00fablico a cr\u00e9dito internacional,\u00a0 sem outros efeitos sobre as finan\u00e7as p\u00fablicas e a economia.<\/span><\/p>\n<p><span>Uma precondi\u00e7\u00e3o adicional, essa menos intuitiva, relaciona-se ao balan\u00e7o de pagamento do pa\u00eds. A entrada de recursos externos implica, <\/span><i><span>ceteris paribus<\/span><\/i><span>, aumento do super\u00e1vit na conta de capitais e no saldo global do balan\u00e7o de pagamentos. Vamos admitir, para simplificar e tornar mais sint\u00e9tica a exposi\u00e7\u00e3o do argumento, que n\u00e3o se alterem nem as reservas e nem o cr\u00e9dito externo para o resto do setor p\u00fablico.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Pois bem, nem tudo o mais pode ficar constante. Ou aumenta o d\u00e9ficit em conta corrente ou ocorre maior sa\u00edda l\u00edquida de capitais do setor privado. Na primeira hip\u00f3tese, a entrada de cr\u00e9dito externo tem como contrapartida uma aumento da poupan\u00e7a externa, sem varia\u00e7\u00e3o da poupan\u00e7a interna. Na segunda hip\u00f3tese, o setor p\u00fablico diminui o espa\u00e7o do setor privado em termos de acesso a cr\u00e9dito externo; a poupan\u00e7a interna e a externa permanecem constantes, assim como o investimento agregado que, numa economia aberta, corresponde por defini\u00e7\u00e3o \u00e0 soma das duas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Uma das duas hip\u00f3teses (ou uma combina\u00e7\u00e3o delas) seria necess\u00e1ria, para aproveitar como planejado o acesso a novos empr\u00e9stimos externos oficiai. Isso porque s\u00f3 assim o saldo global do balan\u00e7o de pagamentos e as reservas n\u00e3o se modificariam. E s\u00f3 assim a entrada de cr\u00e9dito externo para o governo federal viabilizaria um aumento do d\u00e9ficit p\u00fablico global ou uma redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida interna, contribuindo para aumentar a margem de manobra do Estado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Se o aumento da d\u00edvida externa se traduz em diminui\u00e7\u00e3o da interna, como se pode pretender, isso melhora a composi\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica total em termos de condi\u00e7\u00f5es de juro e prazo. Aumenta, tamb\u00e9m, dada a volatilidade do financiamento interno, a estabilidade geral do financiamento ao setor p\u00fablico, uma vez que as fontes privadas de cr\u00e9dito interno (os investidores internos e externos que compram e vendem t\u00edtulos em reais) s\u00e3o altamente vol\u00e1teis e, portanto, pouco confi\u00e1veis. O governo ficaria ent\u00e3o\u00a0 mais independente dos mercados de capitais locais e ocidentais, sem ter que fazer um esfor\u00e7o adicional de ajustar suas contas.<\/span><\/p>\n<p><span>Note-se, a prop\u00f3sito, que uma dimens\u00e3o central da vulnerabilidade do Estado brasileiro \u00e9 a que resulta da liberaliza\u00e7\u00e3o prematura dos movimentos de entrada e sa\u00edda de capitais, algo que remonta aos governos Collor e FHC nos anos 1990. Naquela \u00e9poca, decidiu-se remover controles cambiais, concedendo grande liberdade aos detentores de capital para entrar e sair da economia brasileira quando assim desejassem. A turma da bufunfa, diga-se de passagem, agradeceu penhorada e premiou os economistas respons\u00e1veis por essa decis\u00e3o com generosos empregos ou contratos de consultoria depois. Seria interessante, por exemplo, tra\u00e7ar um quadro das carreiras dos economistas do Plano Real no mercado financeiro, depois da sua passagem pelo governo federal.<\/span><\/p>\n<p><span>Essa liberalidade trouxe, entretanto, efeitos problem\u00e1ticos que persistem at\u00e9 hoje. Como \u00e9 expressivo o estoque de passivos externos vol\u00e1teis ou de curto prazo, todo governo brasileiro vive, desde os anos 1990, sob a amea\u00e7a permanente dos impactos da sa\u00edda desses capitais, em certos per\u00edodos, ou de uma entrada excessiva de capitais de portf\u00f3lio, em outros. Uma sa\u00edda abrupta e de grande magnitude pode desestabilizar a economia como um todo, a exemplo do que aconteceu em dezembro de 2024. Uma entrada excessiva dificulta, por sua vez, o controle monet\u00e1rio interno e cria o risco de bolhas nos mercados financeiros locais<\/span><\/p>\n<h2><b>Risco cambial<\/b><\/h2>\n<p><span>Mas deixo isso de lado e volto \u00e0 quest\u00e3o da entrada de empr\u00e9stimos novos de fontes oficiais. Em princ\u00edpio, poder\u00edamos comemorar essa possibilidade. Mas n\u00e3o sem ressalvas, pois essa manobra aumentaria tamb\u00e9m a exposi\u00e7\u00e3o do Estado a varia\u00e7\u00f5es cambiais. S\u00f3 vale a pena seguir esse caminho, se a d\u00edvida externa pr\u00e9-existente \u00e9 pequena.<\/span><\/p>\n<p><span>No caso brasileiro atual, a d\u00edvida externa bruta \u00e9 de fato pequena, inferior \u00e0s reservas internacionais do pa\u00eds. Ou seja: o Estado brasileiro \u00e9 credor contra o resto do mundo. Por esse canal, ele ganha, portanto, com a deprecia\u00e7\u00e3o cambial, fato ali\u00e1s pouco comentado. Essa conclus\u00e3o vale mesmo se levarmos em conta a d\u00edvida p\u00fablica interna indexada \u00e0 taxa de c\u00e2mbio e os swaps cambiais do Banco Central.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Um crit\u00e9rio poss\u00edvel para dimensionar o volume m\u00e1ximo de novos empr\u00e9stimos externos que o Estado poderia absorver, sem se expor a risco cambial, seria limitar esse volume \u00e0 diferen\u00e7a entre as reservas e a d\u00edvida externa bruta do setor p\u00fablico pr\u00e9-existente, acrescida da d\u00edvida p\u00fablica interna indexada \u00e0 taxa cambial e dos swaps cambiais do Banco Central. Dentro desse limite, a exposi\u00e7\u00e3o l\u00edquida a risco cambial ficaria zerada ou negativa. Se a capta\u00e7\u00e3o for inferior a esse limite, a deprecia\u00e7\u00e3o do real continuaria a contribuir, por essa via,\u00a0 para uma diminui\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica como percentagem do PIB.<\/span><\/p>\n<p><span>Em grandes n\u00fameros, a posi\u00e7\u00e3o cambial l\u00edquida (definida como reservas internacionais mais o estoque de opera\u00e7\u00f5es de linha do Banco Central menos a posi\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o em swap cambial) era de US$ 230 bilh\u00f5es no final de 2024. Deduzida a d\u00edvida interna indexada a c\u00e2mbio, equivalente a cerca de US$ 50 bilh\u00f5es, a posi\u00e7\u00e3o credora externa do governo alcan\u00e7ava algo como US$ 180 bilh\u00f5es no final do ano passado. Portanto, os empr\u00e9stimos chineses e de outros pa\u00edses n\u00e3o poderiam superar US$ 180 bilh\u00f5es, se objetivo for zerar ou manter negativa a exposi\u00e7\u00e3o l\u00edquida a risco cambial, protegendo o governo do risco cambial.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Como funcionaria, em termos macroecon\u00f4micos, esse endividamento externo? Do ponto de vista do balan\u00e7o de pagamentos, como vimos, aumentaria o d\u00e9ficit em conta corrente ou mudaria a composi\u00e7\u00e3o da conta de capitais. O aumento do d\u00e9ficit externo corrente ou da sa\u00edda l\u00edquida de capitais privados resultariam em convers\u00e3o de reais em moeda estrangeira, com contra\u00e7\u00e3o equivalente da base monet\u00e1ria. Essa contra\u00e7\u00e3o seria neutralizada, por\u00e9m, pela receita cambial proporcionada pela entrada em montante equivalente do cr\u00e9dito externo ao governo. A capta\u00e7\u00e3o externa seria convertida de moeda estrangeira em reais e utilizada para resgatar d\u00edvida interna no mesmo montante, sem efeito sobre a base monet\u00e1ria e a liquidez da economia. N\u00e3o h\u00e1, assim, emiss\u00e3o l\u00edquida de moeda e nem necessidade de opera\u00e7\u00f5es de mercado aberto para \u201cesterilizar\u201d o impacto de opera\u00e7\u00f5es cambiais.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Em suma, o aumento da d\u00edvida externa l\u00edquida do setor p\u00fablico abre espa\u00e7o para um aumento do d\u00e9ficit nominal (via investimento em infraestrutura, por exemplo) ou uma diminui\u00e7\u00e3o da d\u00edvida interna em montante correspondente ao aumento do cr\u00e9dito internacional para o governo federal. Se o d\u00e9ficit nominal ficar constante, diminui a necessidade de recorrer a investidores em d\u00edvida interna, residentes ou n\u00e3o. Este segundo resultado \u00e9 que permitiria diminuir a depend\u00eancia do governo em rela\u00e7\u00e3o a cr\u00e9dito caro, curto e vol\u00e1til, obtido junto a fontes dom\u00e9sticas e investidores estrangeiros de portf\u00f3lio.<\/span><\/p>\n<p><span>Se os novos cr\u00e9ditos externos forem concedidos, como se pretende, em condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis de juro e prazo do que as condi\u00e7\u00f5es m\u00e9dias do estoque da d\u00edvida externa existente, melhora a estrutura da d\u00edvida, que fica mais barata e mais longa, com impacto favor\u00e1vel sobre o balan\u00e7o de pagamentos. Ao mesmo tempo \u2013 e mais importante \u2013\u00a0 admitindo-se que o governo n\u00e3o use (ou n\u00e3o use integralmente) o aporte de cr\u00e9dito externo para aumentar o seu d\u00e9ficit, a mudan\u00e7a na composi\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica, com substitui\u00e7\u00e3o da d\u00edvida interna por externa, traria tr\u00eas vantagens: a) diminuiria o custo m\u00e9dio da d\u00edvida (supondo-se, evidentemente, que a d\u00edvida nova com a China ou outros pa\u00edses tivesse custo inferior \u00e0 d\u00edvida interna); b) haveria alongamento da d\u00edvida (se os empr\u00e9stimo externos forem mais longos do que o prazo m\u00e9dio da d\u00edvida interna); e c) aumentaria a estabilidade do financiamento ao setor p\u00fablico (reduzindo a depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a investidores residentes e n\u00e3o-residentes que, aproveitando-se da conta de capitais aberta e da liquidez dos t\u00edtulos brasileiros, entram e saem do pa\u00eds com facilidade e rapidez). Pode-se presumir que o endividamento com a China ou outros pa\u00edses apesentaria, de fato, o potencial para trazer essas tr\u00eas vantagens. A substitui\u00e7\u00e3o de d\u00edvida interna por externa implicaria, por\u00e9m, um aumento da dolariza\u00e7\u00e3o do estoque da d\u00edvida p\u00fablica, hoje limitada.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>De imediato, a entrada de empr\u00e9stimos de novas fontes oficiais e a substitui\u00e7\u00e3o de d\u00edvida interna por externa provocariam valoriza\u00e7\u00e3o cambial, menor press\u00e3o sobre a infla\u00e7\u00e3o, diminui\u00e7\u00e3o das taxas de juro longas e espa\u00e7o para o Banco Central diminuir a taxa b\u00e1sica, com redu\u00e7\u00e3o do custo da d\u00edvida governamental.<\/span><\/p>\n<h2><b>Uma nova forma de depend\u00eancia<\/b><\/h2>\n<p><span>Ressalte-se que, para produzir esses efeitos imediatos, o governo brasileiro estaria em certo sentido trocando seis por meia d\u00fazia, isto \u00e9, depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Faria Lima e a Wall Street por depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China ou outros pa\u00edses. Essa nova depend\u00eancia seria menor e menos custosa, mas apareceria mesmo assim e n\u00e3o poderia ser desprezada.<\/span><\/p>\n<p><span>O recurso a financiamento externo, mesmo em condi\u00e7\u00f5es de prazo e custo atraentes, \u00e9 mais complicado do que parece \u00e0 primeira vista. Regra geral, n\u00e3o se deve depender demais de fontes estrangeiras. Os pa\u00edses n\u00e3o t\u00eam amigos e sim interesses, advertia De Gaulle. Melhor \u00e9 que o financiamento das contas p\u00fablicas e do investimento produtivo seja feito primordialmente com capitais e poupan\u00e7a nacionais. O capital se faz em casa, como recomendava Barbosa Lima Sobrinho.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Resta saber, de todo modo, se existe de fato disposi\u00e7\u00e3o de emprestar grandes somas ao governo brasileiro. Como mencionado acima, o pr\u00eamio de risco do Brasil nos mercados internacionais \u00e9 relativamente alto, uma vez que o pa\u00eds est\u00e1 sem <\/span><i><span>investment grade<\/span><\/i><span> h\u00e1 muitos anos. Os empr\u00e9stimos eventualmente concedidos n\u00e3o poderiam, evidentemente, serem computados como reservas dos pa\u00edses credores, pois seriam de longo prazo e n\u00e3o teriam a liquidez nem a seguran\u00e7a requeridas para que esses ativos financeiros pudessem ser lan\u00e7ados como reservas internacionais.<\/span><\/p>\n<p><span>O mais prov\u00e1vel \u00e9 que a China e outros credores potenciais s\u00f3 se disponham a oferecer empr\u00e9stimos novos a conta-gotas, testando a temperatura da \u00e1gua e pedindo contrapartidas. Isso continuaria a interessar ao Brasil, em princ\u00edpio, mas n\u00e3o traria talvez a reviravolta macroecon\u00f4mica que se poderia em tese contemplar. Mesmo assim, se os empr\u00e9stimos iniciais puderem ser apresentados como parte de um programa mais amplo de substitui\u00e7\u00e3o de d\u00edvida interna por externa, acordado com a China e outros pa\u00edses, haveria impacto imediato e provavelmente expressivo sobre as expectativas de mercado.<\/span><\/p>\n<p><em><span>Uma vers\u00e3o resumida deste artigo foi publicada na revista <\/span><span>Carta Capital<\/span><span>.\u00a0<\/span><\/em><\/p>\n<p><b><i>(*) Paulo Nogueira Batista Jr.<\/i><\/b><i><span> \u00e9 economista e escritor. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez pa\u00edses em Washington, de 2007 a 2015. Em 2024, publicou pela Editora Contracorrente o livro Estilha\u00e7os.<br \/>\n<\/span><\/i><span>E-mail: <\/span><span>paulonbjr@hotmail.com<br \/>\n<\/span><span>Canal YouTube: <a href=\"http:\/\/youtube.nogueirabatista.com.br\/\">youtube.nogueirabatista.com.br<\/a><br \/>\n<\/span><span>Portal: <\/span><a href=\"http:\/\/www.nogueirabatista.com.br\/\"><span>www.nogueirabatista.com.br<\/span><\/a><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/opiniao\/emprestimos-da-china-aliviariam-as-restricoes-fiscais-do-brasil\/\">Empr\u00e9stimos da China aliviariam as restri\u00e7\u00f5es fiscais do Brasil?<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/vacina-de-hpv-e-o-futuro-sem-cancer-de-colo-de-utero-prevencao-mitos-e-a-importancia-da-vacinacao-em-massa\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Vacina de HPV e o futuro sem c\u00e2ncer de colo de \u00fate...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/alessandro-vieira-critica-tentativa-de-retrocesso-na-lei-da-ficha-limpa\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Alessandro Vieira critica tentativa de retrocesso ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/luta-por-justica-social-deve-incluir-licenca-paternidade-maior\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Luta por justi\u00e7a social deve incluir licen\u00e7a-pater...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eles-querem-a-liberdade-para-continuar-atacando-as-instituicoes-afirma-lindbergh-sobre-o-pl-da-anistia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">\u201cEles querem a liberdade para continuar atacando a...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo brasileiro, ao final do seu segundo ano, experimentou forte instabilidade financeira e cambial, em grande parte por causa da sua depend\u00eancia de credores privados internos e externos, que oferecem cr\u00e9dito em condi\u00e7\u00f5es onerosas de juros e prazos. Esses fluxos financeiros privados exibem, al\u00e9m disso, forte volatilidade, confirmada mais uma vez em fins de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12723,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12722","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12722"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12722\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12723"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}