{"id":13077,"date":"2025-02-12T16:29:46","date_gmt":"2025-02-12T19:29:46","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/mercosul-o-papel-quase-ignorado-dos-sindicatos\/"},"modified":"2025-02-12T16:29:46","modified_gmt":"2025-02-12T19:29:46","slug":"mercosul-o-papel-quase-ignorado-dos-sindicatos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mercosul-o-papel-quase-ignorado-dos-sindicatos\/","title":{"rendered":"Mercosul: o papel quase ignorado dos sindicatos"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"580\" height=\"388\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/maquinaagrnciabrasil.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/maquinaagrnciabrasil.jpeg 580w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/maquinaagrnciabrasil-300x201.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/maquinaagrnciabrasil-272x182.jpeg 272w\" sizes=\"(max-width: 580px) 100vw, 580px\"><figcaption>Foto: Ag\u00eancia Brasil <\/figcaption><\/figure>\n<p>T\u00edtulo original: <strong>O papel dos sindicatos na constru\u00e7\u00e3o do Mercosul<\/strong><\/p>\n<p><em>Em mem\u00f3ria de <strong>Jose Domingos Cardoso (Ferreirinha)<\/strong> dirigente sindical metal\u00fargico<\/em><br \/><em>e<\/em><br \/><em><strong>Raimundo Teixeira Mendes<\/strong>, advogado trabalhista<\/em><br \/><em>ambos tiveram importante papel nas negocia\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica industrial e direitos trabalhistas do Mercosul.<\/em><\/p>\n<p>No meio acad\u00eamico e econ\u00f4mico muito foi escrito sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o do Mercosul e de sua import\u00e2ncia para o Brasil. Atualmente o bloco vive problemas s\u00e9rios e se tornou tema de segunda categoria. O que pouco se falou foi sobre o papel dos sindicatos dos quatro pa\u00edses fundadores nesse processo.<\/p>\n<p>Foi valorizada a ampla \u201cparticipa\u00e7\u00e3o social\u201d: movimentos populares e territoriais, meio ambiente, mulheres, direitos raciais, movimentos por moradia, agricultura familiar, mobilidade, a\u00e7\u00f5es de inclus\u00e3o, cidadania, etc. Movimentos que passaram a se manifestar atrav\u00e9s de grandes assembleias semestrais e gen\u00e9ricas, no per\u00edodo de 2005 a 2020.<\/p>\n<p>Essa \u201cparticipa\u00e7\u00e3o \u201c n\u00e3o surgiu do nada, apenas foi refor\u00e7ada pelos governos progressistas desse per\u00edodo. Foi continuidade da a\u00e7\u00e3o dos sindicatos na d\u00e9cada de 90, quando lograram incluir na agenda do Mercosul o tema do TRABALHO.<\/p>\n<p>O Mercosul \u00e9 um acordo comercial que incide no consumo, na produ\u00e7\u00e3o e no emprego \u2013 para mais ou para menos. O livre comercio se d\u00e1 entre Estados e principalmente entre empresas, que muitas vezes se inserem em cadeias produtivas globais que diretamente se beneficiam da livre circula\u00e7\u00e3o de bens, servi\u00e7os e m\u00e3o de obra (processo ainda n\u00e3o conclu\u00eddo). Desses tr\u00eas aspectos, o menos abordado foi o trabalho e o papel dos sindicatos, sua trajet\u00f3ria, acertos e erros. \u00c9 disso que se trata o artigo.<\/p>\n<h3><strong>A primeira etapa: descobrindo a import\u00e2ncia da integra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do Mercosul teve como antecedente o Acordo de Integra\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica Brasil e Argentina, assinado por Sarney e Alfonsin em 1985 e que sobreviveu at\u00e9 1988. Uma proposta pragm\u00e1tica e multisetorial que pretendia paulatinamente ir al\u00e9m do livre comercio. Inspirava-se no acordo europeu dos anos 60 e propunha um processo que envolvesse a integra\u00e7\u00e3o produtiva.<\/p>\n<p>Com a elei\u00e7\u00e3o de governos neoliberais, nas duas maiores economias (Collor e Menem), as negocia\u00e7\u00f5es setoriais do acordo Alfonsin\/Sarney foram atropeladas e, em 1991, foi assinado o Tratado de Assun\u00e7\u00e3o que estabeleceu um cronograma para a conforma\u00e7\u00e3o de um mercado comum num prazo de 4 anos.<\/p>\n<p>Obviamente isso n\u00e3o seria poss\u00edvel, mas o principal objetivo foi alcan\u00e7ado \u2013 avan\u00e7ar na abertura comercial.<\/p>\n<p>Argentina e Brasil viviam ent\u00e3o um forte processo de abertura comercial unilateral e de privatiza\u00e7\u00f5es de ativos econ\u00f4micos p\u00fablicos. A ruptura foi mais forte no Brasil, j\u00e1 que a ditadura militar argentina havia iniciado esse processo d\u00e9cadas antes.<\/p>\n<p>Tudo isso teve efeito sobre os segmentos industriais que n\u00e3o aceitavam liberalizar suas tarifas sem uma prote\u00e7\u00e3o, sem uma Tarifa Externa Comum. Ponto de converg\u00eancia com os sindicatos.<\/p>\n<p>O sindicalismo da regi\u00e3o havia crescido num modelo de economia mais fechada, protegida pela regula\u00e7\u00e3o comercial e pela exist\u00eancia de uma legisla\u00e7\u00e3o trabalhista e social que estabelecia normas b\u00e1sicas nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Em plena redemocratiza\u00e7\u00e3o do Cone Sul, o sindicalismo, que respirava pol\u00edtica, se deu conta que mesmo tendo profundas cr\u00edticas ao tom mercantilista do processo, este abria o caminho para uma importante integra\u00e7\u00e3o e aderiu, com a condi\u00e7\u00e3o de que o tema <strong>trabalho<\/strong> fosse inclu\u00eddo na agenda de negocia\u00e7\u00e3o. E assim o foi.<\/p>\n<p>Apesar da diversidade ideol\u00f3gica entre as centrais (e de poss\u00edveis disputas corporativas) a c\u00fapula sindical rapidamente colocou-se de acordo em torno de uma agenda bastante pragm\u00e1tica, centrada nos interesses sindicais.<\/p>\n<p>Em dezembro de 1991, pela primeira vez , as centrais sindicais do cone sul entregaram um documento aos Ministros do Trabalho reunidos em Foz de Igua\u00e7u, demandando a cria\u00e7\u00e3o do 11\u00ba Subgrupo de Trabalho, que deveria negociar regras de prote\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas no \u00e2mbito do Mercosul. O orador pelos sindicatos foi um jovem sindicalista paraguaio, mostrando o avan\u00e7o que se havia conseguido na articula\u00e7\u00e3o sindical.<\/p>\n<p>A Coordenadora de Centrais Sindicais do Cone Sul-CCSCS<sup><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/mercosul-o-papel-quase-ignorado-dos-sindicatos\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a><\/sup> participou ativamente na instala\u00e7\u00e3o desse SGT (que tinha seis comiss\u00f5es tem\u00e1ticas), sendo a principal a de elabora\u00e7\u00e3o uma Carta Social.<\/p>\n<h3><strong>A segunda etapa: a constru\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia sindical regional<\/strong><\/h3>\n<p>Assim, um acordo que deveria tratar apenas de temas comerciais incorporou tamb\u00e9m a agenda dos trabalhadores.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que a despropor\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e econ\u00f4mica, entre o Brasil e os outros tr\u00eas pa\u00edses, n\u00e3o impediu essa articula\u00e7\u00e3o. O sindicalismo brasileiro n\u00e3o assumiu uma postura defensiva pois n\u00e3o se sentia amea\u00e7ado e o sindicalismo argentino e uruguaio, viram-se obrigados a trilhar esse caminho para que pudesse garantir seus direitos (mais ou menos como havia sucedido com o Canad\u00e1 e o M\u00e9xico no Nafta).<\/p>\n<p>Em menos de quatro anos, a c\u00fapula sindical do Mercosul assumiu o debate com os governos e os empres\u00e1rios em temas de integra\u00e7\u00e3o produtiva e regras comerciais intra e extrarregionais. Em 1996 havia acompanhamento sindical em mais de seis subgrupos (trabalhista, ind\u00fastria, agricultura, transportes, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o sindical precisava ser horizontalizada e chegar aos diferentes setores produtivos, para poder incidir em um processo de integra\u00e7\u00e3o linear, baseado principalmente na liberaliza\u00e7\u00e3o comercial, que teria efeitos diferenciados sobre os principais segmentos comerciais.<\/p>\n<p>A vantagem comercial era brasileira, mas n\u00e3o estariam eliminadas as dificuldades na cadeia produtiva.<\/p>\n<p>As multinacionais atuavam nos quatro pa\u00edses e constru\u00edam suas rotas de comercio e produ\u00e7\u00e3o, o que significava que obrigatoriamente os sindicatos teriam que conversar e estabelecer agendas comuns. Essa estrat\u00e9gia permitiu atrair e articular os sindicatos por ramos profissionais, que por sua vez dariam sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 Coordenadora de Centrais Sindicais do Cone Sul.<\/p>\n<p>Ainda no contexto da democratiza\u00e7\u00e3o da estrutura de negocia\u00e7\u00e3o do Mercosul, foi fundamental a participa\u00e7\u00e3o sindical na cria\u00e7\u00e3o do Foro Consultivo Econ\u00f4mico Social do Mercosul \u2013 FCES (aprovado em Ouro Preto e instalado em 1995). Os segmentos empresariais viam o FCES como espa\u00e7o de lobby. N\u00e3o tinham interesse no mesmo, mas tiveram que aceder ao FCES quando os sindicatos tomaram \u00e0 frente do processo. Sua inten\u00e7\u00e3o era conter a a\u00e7\u00e3o sindical. Para o sindicalismo o FCES, al\u00e9m de ampliar a transpar\u00eancia das negocia\u00e7\u00f5es, poderia ser um espa\u00e7o de di\u00e1logo com o patronato quando houvesse interesses comuns. E sem d\u00favida seria mais um instrumento que contribuiria para a democratiza\u00e7\u00e3o do Mercosul<sup><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/mercosul-o-papel-quase-ignorado-dos-sindicatos\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a><\/sup>.<\/p>\n<p>Todo esse processo, rapidamente descrito, se deu no final dos anos 90, sob governos sociais-liberais de FHC e de Menem e de La R\u00faa. Conviveu com a nefasta pol\u00edtica de desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial que teve como pior consequ\u00eancia a desindustrializa\u00e7\u00e3o e o crescimento da mis\u00e9ria na regi\u00e3o. Pol\u00edticas que provocaram crise econ\u00f4mica e financeira no final dos anos 90, primeiro no Brasil e depois na Argentina e no Uruguai, quando foi realizada a desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo o sindicalismo tinha uma pauta de resist\u00eancia contra agenda neoliberal e ainda tinha for\u00e7a para conseguir alguns avan\u00e7os: a aprova\u00e7\u00e3o da Declara\u00e7\u00e3o Sociolaboral em 1998; a cria\u00e7\u00e3o do Observat\u00f3rio do Mercado de Trabalho em 1998; o acompanhamento das negocia\u00e7\u00f5es Mercosul e Uni\u00e3o Europeia, atrav\u00e9s do FCES e da CESE (Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica e Social Europeia).<\/p>\n<h3><strong>Terceira etapa: o trabalho se dilui no social<\/strong><\/h3>\n<p>No \u201cMercosul progressista\u201d (2003 a 2016) esperava-se que a participa\u00e7\u00e3o sindical crescesse e tivesse maior influ\u00eancia. Em 14 de dezembro de 2000, quando j\u00e1 se prenunciava a mudan\u00e7a pol\u00edtica na regi\u00e3o, a CCSCS, organizou a segunda C\u00fapula Sindical do Mercosul, em Florian\u00f3polis, que reuniu mais de 700 delegados e delegadas dos quatro pa\u00edses, que se deslocaram em avi\u00f5es e\/ou \u00f4nibus fretados e puderam debater, em primeira m\u00e3o, com a coordena\u00e7\u00e3o oficial brasileira, as decis\u00f5es que os presidentes tomariam no dia seguinte. Uma importante demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que consolidava o sindicalismo com um ator pol\u00edtico no processo.<\/p>\n<p>Mas o Mercosul tinha seu ritmo, determinado majoritariamente pelo papel e peso das empresas e segmentos produtivos que faziam crescer o comercio intrabloco. Com as pol\u00edticas dos novos governos, o desemprego caia nos 4 pa\u00edses e a competi\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses estava \u201ccontrolada\u201d pela preponder\u00e2ncia do com\u00e9rcio intra-empresas. A m\u00e9dia empresa via crescer o seu comercio, com uma clara preponder\u00e2ncia do Brasil e o agrobusiness brasileiro e argentino tinha seu lugar no comercio mundial.<\/p>\n<p>No plano sindical havia esperan\u00e7a que os organismos criados (o Observat\u00f3rio do Mercado de Trabalho, a Comiss\u00e3o Sociolaboral e outros) passariam a ter maior papel. Mas estes tornaram-se pe\u00e7as de ret\u00f3rica por duas raz\u00f5es: n\u00e3o contavam com recursos p\u00fablicos e n\u00e3o despertavam grande interesse no sindicalismo. Um exemplo foi a atua\u00e7\u00e3o na Comiss\u00e3o Sociolaboral\/CSL. At\u00e9 2004, havia sido feita uma \u00fanica den\u00fancia \u00e0 CSL, contra a Unilever do Brasil que estava assumindo uma pr\u00e1tica antissindical. O processo n\u00e3o foi conclu\u00eddo.<\/p>\n<p>Em 2004, os governos do Mercosul tomaram uma decis\u00e3o hist\u00f3rica, que vinha sendo reivindicada pelas economias menores: o reconhecimento das assimetrias entre os quatro s\u00f3cios. Isso influiria tanto nas negocia\u00e7\u00f5es comerciais, como nas decis\u00f5es sobre os mecanismos de promo\u00e7\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o produtiva, como o caso do Fundo para a Converg\u00eancia Estrutural do Mercosul (FOCEM) que deveria financiar projetos que contribu\u00edssem para a redu\u00e7\u00e3o das assimetrias e promovessem a converg\u00eancia estrutural e a coes\u00e3o social. As centrais sindicais acompanharam de perto o processo e tentaram intervir nas negocia\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o conseguiram ter protagonismo. Porque o FOCEM acabou se transformando num organismo de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, para promover alguma compensa\u00e7\u00e3o de perdas dos pa\u00edses menores. Nunca na verdade conseguiu atuar sobre os graves problemas fronteiri\u00e7os e nem na forma\u00e7\u00e3o de cadeias produtivas que envolvessem a pequena e microempresa.<\/p>\n<p>No processo de consolida\u00e7\u00e3o de uma Uni\u00e3o Aduaneira aberta, o papel do Estado passou a ser o de <strong>facilitador do livre comercio<\/strong>, eliminando as barreiras e travas, para que as empresas pudessem estabelecer suas rotas comerciais. E quem se beneficiava? As grandes empresas e multinacionais que n\u00e3o necessitavam do Estado para estabelecer seu interc\u00e2mbio comercial. Apenas precisavam se livrar dos empecilhos jur\u00eddicos. E nesse cen\u00e1rio os sindicatos podiam fazer pouco. Salvo se houvesse estabelecido uma estrat\u00e9gia de press\u00e3o sobre as empresas independentes. E isto n\u00e3o ocorreu, como tamb\u00e9m, praticamente, n\u00e3o houve press\u00e3o para que, pelos menos, a CSL e o Observat\u00f3rio do Mercado de Trabalho contassem com uma estrutura administrativa eficiente.<\/p>\n<p>A Coordenadora de Centrais Sindicais do Cone Sul vinha numa trajet\u00f3ria de v\u00e1rios atos unificados autossustentados como as Cumbres Sindicais, como j\u00e1 mencionamos anteriormente. Mas em 2004, aceitou incluir sua atividade na reta final da campanha vitoriosa da Frente Ampla do Uruguai. Pela primeira vez a Cumbre Sindical se diluiu e passou a ser a Cumbre Social, que acabou incorporando como tema central a campanha do <em>N\u00e3o \u00e0 Alca<\/em>, palavra de ordem que unificava as organiza\u00e7\u00f5es sindicais e sociais das Am\u00e9ricas. Obviamente a suspens\u00e3o das negocia\u00e7\u00f5es da Alca era fundamental para o avan\u00e7o da integra\u00e7\u00e3o regional, mas para que isso acontecesse, era imperioso avan\u00e7ar e consolidar o Mercosul.<\/p>\n<p>No Brasil o governo Lula iniciava seu segundo mandato e, na Argentina, Cristina Kirchner havia sido eleita em substitui\u00e7\u00e3o a Nestor Kirchner. Ambos os governos assumiram avan\u00e7os no processo de integra\u00e7\u00e3o, por exemplo a cria\u00e7\u00e3o da Unasul, da Celac. Ambos os governos \u201cinstitucionalizaram\u201d a participa\u00e7\u00e3o social no Mercosul. Os segmentos empresariais continuariam incidindo atrav\u00e9s do velho lobby e reuni\u00f5es a portas fechadas.<\/p>\n<p>Em 2014 foi criado o <strong>Conselho Brasileiro do Mercosul Social e Participativo<\/strong>, inst\u00e2ncia orientada a manter a interlocu\u00e7\u00e3o permanente com os movimentos sociais e as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil na constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. E, na Argentina, foi criado o <strong>Conselho Consultivo da Sociedade Civil<\/strong>. Esses organismos estavam vinculados \u00e0 instancias governamentais. Na Presid\u00eancia brasileira em 2015, foi criado o <strong>Conselho Participativo a n\u00edvel Mercosul<\/strong>, que funcionaria em Montevid\u00e9u e contaria principalmente com financiamento argentino.<\/p>\n<p>O <strong>Conselho Participativo<\/strong> deveria promover organiza\u00e7\u00e3o das Cumbres sociais com a presen\u00e7a de entidades variadas: centrais sindicais, redes e plataformas regionais de setores, a agricultura familiar, as pastorais sociais, as cooperativas, os pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios, a economia solid\u00e1ria, os direitos humanos, as mulheres, a juventude, o movimento negro, o meio ambiente, a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o e cultura, entre outros. E o fazia atrav\u00e9s de circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e, principalmente, atrav\u00e9s do financiamento de passagens e estadia das entidades com menos recursos. As Cumbres Sociais passaram a ocorrer semestralmente, na mesma data e local da reuni\u00e3o de Chefes de Estado do Mercosul, que na verdade apenas chancelavam o que havia sido acordado nas negocia\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas e setoriais, onde sentavam-se basicamente os funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Eram espa\u00e7os de protesto e de reivindica\u00e7\u00f5es varadas, mas fora das negocia\u00e7\u00f5es reais.<\/p>\n<p>Segundo os informes oficiais (2015), essa nova institucionalidade possibilitou o envolvimento da sociedade e dos setores afetados na implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de integra\u00e7\u00e3o social, em diferentes aspectos, tais como: a contagem do tempo de servi\u00e7o em qualquer um dos Estados Partes para efeito de aposentadoria (negocia\u00e7\u00e3o que havia come\u00e7ado cinco anos antes); a garantia de atendimento m\u00e9dico em cidades de fronteira; a harmoniza\u00e7\u00e3o de curr\u00edculos do ensino superior e a promo\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es conjuntas para o enfrentamento da viol\u00eancia contra a mulher.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m destacou a cria\u00e7\u00e3o de mecanismos de financiamento e cr\u00e9dito para as atividades de interesse social, como o Fundo Mercosul de Garantias para as Micro, Pequenas e M\u00e9dias Empresas e o Fundo de Agricultura Familiar do Mercosul. Foram aprovados tamb\u00e9m o Estatuto da Cidadania, a cria\u00e7\u00e3o de alguns Institutos como o de Direitos Humanos, etc.<\/p>\n<p>Os sindicatos e empres\u00e1rios seguiam participando na Comiss\u00e3o Sociolaboral e, em 2014, efetuaram a revis\u00e3o de seu texto, depois de uma longa negocia\u00e7\u00e3o. Participavam tamb\u00e9m do Observat\u00f3rio do Mercado de Trabalho para a defesa do emprego, que teve como principal produto uma p\u00e1gina web aos cuidados do Minist\u00e9rio do Trabalho da Argentina e reunia dados estat\u00edsticos e documentos.<\/p>\n<p>Havia v\u00e1rios instrumentos e muitas decis\u00f5es. Por\u00e9m a implementa\u00e7\u00e3o das mesmas dependia do financiamento dos Estados parte no Mercosul. Os organismos n\u00e3o contavam com estrutura pr\u00f3pria e no m\u00e1ximo dispunham de um ou dois funcion\u00e1rios em cada pa\u00eds. N\u00e3o havia or\u00e7amento e apoio t\u00e9cnico necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>E por que o movimento sindical n\u00e3o reclamou seu espa\u00e7o na arquitetura do Mercosul? Porque n\u00e3o pressionou pela implementa\u00e7\u00e3o das medidas?<\/p>\n<p>Com a vit\u00f3ria das for\u00e7as progressistas, o Mercosul, a Unasul, demais propostas de integra\u00e7\u00e3o e a derrota da ALCA, o sindicalismo dos quatro pa\u00edses transferiu a seus governos a responsabilidade de conduzir o processo. Foi deixando de participar de outras \u00e1reas tem\u00e1ticas do Mercosul, tais como energia, ind\u00fastria, agricultura. Passou a considerar desnecess\u00e1rio intervir no dia a dia do Mercosul.<\/p>\n<p>\u00c9 importante que se diga que esse desembarque foi antes do golpe no Brasil (em 2016) que \u201cparalisou\u201d as negocia\u00e7\u00f5es. Na verdade, resultou muito mais de um atrelamento da a\u00e7\u00e3o sindical aos governos devido sua identidade politica com os mesmos.<\/p>\n<h3><strong>E o presente?<\/strong><\/h3>\n<p>Com as mudan\u00e7as nos governos nacionais, o sindicalismo deixou de ser parte da oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e passou a atuar como ator coadjuvante, desconhecendo que a ger\u00eancia do Estado sempre obedece aos interesses da classe dominante e que, a \u00fanica forma de avan\u00e7ar \u00e9 mantendo sua autonomia e iniciativa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Cometeu um erro que hoje cobra suas consequ\u00eancias. Logrou contribuir para a democratiza\u00e7\u00e3o da arquitetura do Mercosul, mas ficou limitado \u00e0 agenda oficial e n\u00e3o construiu estrat\u00e9gias e mecanismos independentes de press\u00e3o. Conseguiu aprovar organismos e declara\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o pressionou para que esses fossem efetivados. Aceitou que a agenda do trabalho fosse dilu\u00edda na difusa participa\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Atualmente a a\u00e7\u00e3o sindical no \u00e2mbito do Mercosul reflete as fragilidades que o sindicalismo enfrenta em cada um dos pa\u00edses, seja pela crescente desregula\u00e7\u00e3o sindical e laboral, seja pelos choques que a democracia sofreu nos \u00faltimos nove anos. No Brasil o sindicalismo foi duramente atacado e enfraquecido nos governos Temer\/Bolsonaro e isso se repete agora na Argentina no governo Milei.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel seguir mas as dificuldades s\u00e3o maiores: o governo argentino atua contra o Mercosul; a forte aproxima\u00e7\u00e3o do governo paraguaio aos EUA tamb\u00e9m atua contra os projetos. Chile continua ausente da agenda da integra\u00e7\u00e3o. A elei\u00e7\u00e3o de Trump \u00e9 um enorme risco para os projetos de integra\u00e7\u00e3o. Seu principal objetivo \u00e9 tirar os espa\u00e7os da China na Am\u00e9rica Latina e quer impedir a expans\u00e3o dos Brics. O Brasil est\u00e1 cada vez mais cercado e conta s\u00f3 com o Uruguai.<\/p>\n<p>Por isso, a Coordenadora de Centrais Sindicais do Cone Sul, que vive um per\u00edodo de dificuldades, tem que retomar sua estrat\u00e9gia de conversa e atua\u00e7\u00e3o com as principais categorias profissionais, para aumentar e fortalecer sua representatividade.<\/p>\n<p>\u2013 Em primeiro lugar deve fazer um levantamento de que cadeias produtivas existem e, principalmente, as que podem vir a se criar \u2013 que papel t\u00eam as multinacionais nesse processo e como o FOCEM, o <br \/>Fundo para a Converg\u00eancia Estrutural do Mercosul, pode ajudar as pequenas e microempresas, assim como a economia solidaria.<\/p>\n<p>\u2013 Analisar as oportunidades que a tentativa de reindustrializa\u00e7\u00e3o do Brasil pode oferecer em diversas \u00e1reas (redefinir o papel do BNDES), incluindo nessa agenda a sa\u00fade e a ind\u00fastria farmac\u00eautica; a quest\u00e3o ambiental e as oportunidades para a integra\u00e7\u00e3o produtiva; o papel dos Brics e a rela\u00e7\u00e3o com a China e a suspens\u00e3o do acordo com a Uni\u00e3o Europeia nos termos atuais, que impede essa reindustrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas creio que a maior li\u00e7\u00e3o a tirar da hist\u00f3ria recente \u00e9 que faltou uma estrat\u00e9gia de m\u00e3o dupla: incidir no processo negocial sempre que poss\u00edvel, mas manter uma agenda independente e aut\u00f4noma.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/mercosul-o-papel-quase-ignorado-dos-sindicatos\/#sdfootnote1anc\">1<\/a> A Coordenadora de Centrais Sindicais do Cone Sul foi criada em 1988. No per\u00edodo da cria\u00e7\u00e3o do Mercosul participavam : a CUT -Brasil e o PIT-CNT \u2013 Uruguay, as duas centrais de esquerda lideravam o processo. Participava tamb\u00e9m a CGT do Brasil. Em 1991 se incorporaram duas novas centrais sindicais\u2013 a Central de Trabajadores de Argentina- CTA (dissid\u00eancia da CGT-RA) e a For\u00e7a Sindical. Do Paraguay participava o Movimento Intersindical de Trabajadores-MIT- que em 2005 fundaria a CUT PY. A CUT Chile e a COB Bol\u00edvia tamb\u00e9m faziam parte da CCSCS, mas tiveram papel pequeno no processo de constru\u00e7\u00e3o do Mercosul<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/mercosul-o-papel-quase-ignorado-dos-sindicatos\/#sdfootnote2anc\">2<\/a> Quando o Mercosul foi criado, a chancelaria dos 4 pa\u00edses elaborou um regimento que previa a participa\u00e7\u00e3o de representantes de entidades e organiza\u00e7\u00f5es que tivessem relacionadas com os temas, como \u201cobservadores\u201d . Na verdade, pensavam apenas nas associa\u00e7\u00f5es e sindicatos empresariais. As entidades sindicais teriam acesso somente ao SGT 11. Mas, estas recorreram ao referido regimento e come\u00e7aram a negociar sua assist\u00eancia a alguns subgrupos. Inclusive acompanharam reuni\u00f5es empresariais que deveriam acordar como se daria a desregula\u00e7\u00e3o das tarifes e o tema da tarifa externa comum. Esse acompanhamento e participa\u00e7\u00e3o como \u201cobservadores\u201d foi fundamental para os sindicatos e a CCSCS compreendessem os riscos que poderia haver na realiza\u00e7\u00e3o de acordos comerciais externos, como por exemplo a ALCA.<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/mercosul-o-papel-quase-ignorado-dos-sindicatos\/\">Mercosul: o papel quase ignorado dos sindicatos<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/super-resistente-a-glifosato-caruru-gigante-avanca-na-soja-e-desafia-controle-de-pragas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/caruru-gigante-mapa-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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