{"id":13079,"date":"2025-02-12T18:57:20","date_gmt":"2025-02-12T21:57:20","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/assim-surge-o-feudalismo-cientifico-digital\/"},"modified":"2025-02-12T18:57:20","modified_gmt":"2025-02-12T21:57:20","slug":"assim-surge-o-feudalismo-cientifico-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/assim-surge-o-feudalismo-cientifico-digital\/","title":{"rendered":"Assim surge o Feudalismo Cient\u00edfico-digital"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"804\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/GLyIWiBWQAAkXxp-804x1024-1.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/GLyIWiBWQAAkXxp-804x1024-1.jpeg 804w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/GLyIWiBWQAAkXxp-235x300.jpeg 235w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/GLyIWiBWQAAkXxp-768x979.jpeg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/GLyIWiBWQAAkXxp.jpeg 1086w\" sizes=\"(max-width: 804px) 100vw, 804px\"><figcaption>Arte: Chelsea Saunders\/Current Affairs<\/figcaption><\/figure>\n<p>T\u00edtulo original:<strong><br \/>Como a ci\u00eancia, em trabalho an\u00e1logo \u00e0 servid\u00e3o, serve \u00e0s Big Techs<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 na primeira semana de seu novo governo, Donald Trump tomou m\u00faltiplas medidas para assegurar um aumento da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza nas m\u00e3os de bilion\u00e1rios cibern\u00e9ticos. Isto incluiu a nomea\u00e7\u00e3o de magnatas do setor de intelig\u00eancia artificial (IA) para comandar v\u00e1rios setores do governo dos Estados Unidos, bem como para integrar o Conselho do Presidente para a Ci\u00eancia e Tecnologia (<em>President\u2019s Council of Advisors on Science and Technology<\/em>, PCAST)<sup><\/sup><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote1sym\"><sup>i<\/sup><\/a>. Muito se tem alertado sobre como as Big Techs manipulam a pol\u00edtica, os mercados e a sociedade, com consequ\u00eancias desastrosas para a manuten\u00e7\u00e3o da democracia. Isso \u00e9 evidentemente verdade, mas n\u00e3o \u00e9 o foco deste artigo.. O que n\u00e3o tem recebido a devida aten\u00e7\u00e3o \u00e9 como essa engrenagem se associa ao controle das Big Techs sobre os meios de produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de conte\u00fado intelectual gerado com recursos p\u00fablicos, pois conhecimentos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos formam a pr\u00f3pria base de dom\u00ednio generalizado da plutocracia do Vale do Sil\u00edcio, com graves consequ\u00eancias para a humanidade. Esse poderio cibern\u00e9tico assemelha-se ao exercido por senhores feudais na Idade m\u00e9dia, raz\u00e3o pela qual a vers\u00e3o atual da estrutura social de nossos dias tem sido chamada de neomedievalismo, neofeudalismo, refeudaliza\u00e7\u00e3o, ou mesmo feudalismo p\u00f3s-capitalista, moderno, corporativo, informacional, cognitivo, cibern\u00e9tico, de dados, algor\u00edtmico, de vigil\u00e2ncia e\/ou plataformizado.<\/p>\n<p>Com efeito, enquanto nos \u00faltimos anos mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o mundial ficou mais pobre, dobrou a fortuna das cinco pessoas mais ricas do planeta, quatro das quais s\u00e3o controladores de tecnologia digital<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote2sym\"><sup>ii<\/sup><\/a>. Embora a dist\u00e2ncia entre ricos e pobres na pir\u00e2mide da riqueza e renda atual n\u00e3o tenha precedentes na hist\u00f3ria, a imobilidade social observada hoje assemelha-se \u00e0 da era medieval<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote3sym\"><sup>iii<\/sup><\/a>. Tal como, outrora, os senhores feudais controlavam a pol\u00edtica, os valores e cren\u00e7as da sociedade por deterem terras e infraestrutura agr\u00edcola, por cujo uso cobravam tributos \u2013 assim tamb\u00e9m nossa sociedade \u00e9 dominada pela min\u00fascula elite que det\u00e9m a assim chamada \u201cnuvem\u201d, ou infraestrutura digital. Esta analogia tem, como todas, seus limites evidentes, mas n\u00e3o \u00e9 escopo deste texto analis\u00e1-los. O que se prop\u00f5e a fazer aqui \u00e9 discutir os paralelos entre o dom\u00ednio e apropria\u00e7\u00e3o do produto do trabalho e dos servi\u00e7os dos servos da gleba pelos senhores feudais e o que tem ocorrido na ci\u00eancia: a apropria\u00e7\u00e3o de conte\u00fado intelectual gerado na comunidade cient\u00edfica por empresas do ramo digital (um oligop\u00f3lio de empresas envolvidas na produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de conhecimentos cient\u00edficos e as Big Techs), bem como suas causas e consequ\u00eancias.<\/p>\n<h3><strong>O modelo esquem\u00e1tico do feudalismo medieval<\/strong><\/h3>\n<p>Para tra\u00e7ar um paralelo entre o feudalismo medieval e o cibern\u00e9tico aplicado \u00e0 ci\u00eancia e suas consequ\u00eancias, \u00e9 preciso recapitular, de forma muito esquem\u00e1tica, os mecanismos pelos quais o excedente produzido pelos camponeses era apropriado pelos senhores de terras na Idade M\u00e9dia. Obviamente, este paralelo tem apenas um car\u00e1ter did\u00e1tico e n\u00e3o pretende sequer tangenciar a complexidade imensa da diversidade hist\u00f3rico-geogr\u00e1fica e do debate historiogr\u00e1fico atual sobre o feudalismo<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote4sym\"><sup>iv<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Desde os anos 1970, historiadores como George Duby e Jacques Le Goff, entre muitos outros, aplicaram \u00e0 sociedade feudal europeia o esquema ideal e simb\u00f3lico proposto por Georges Dum\u00e9zil das tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es indo-europeias, que podem ser assumidas, sociologicamente, tamb\u00e9m por tr\u00eas estamentos ou grupos sociais fundamentais<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote5sym\"><sup>v<\/sup><\/a>. O primeiro assume o poder pol\u00edtico, o uso da for\u00e7a e da pot\u00eancia guerreira (o senhor feudal, no \u00e2mbito de um sistema nobili\u00e1rquico fortemente hierarquizado entre vassalos e suseranos). O segundo diz respeito ao dom\u00ednio do sagrado e do simb\u00f3lico (o poder eclesi\u00e1stico, secular e regular) e o terceiro refere-se ao corpo social majorit\u00e1rio situado na base dessa triangula\u00e7\u00e3o, que assume as fun\u00e7\u00f5es de fecundidade e de alimenta\u00e7\u00e3o (o campon\u00eas ou servo da gleba).<\/p>\n<p>Suseranos (imperadores e alta nobreza) detinham controle sobre terras, estradas e pontes, bem como sobre a infraestrutura agr\u00edcola (moinhos, arados) e podiam ceder a seus vassalos o direito de explorar esses bens. Suseranos e vassalos eram ligados por la\u00e7os e ritos de homenagem e fidelidade rec\u00edproca (econ\u00f4mica, pol\u00edtica, militar, pessoal e simb\u00f3lica). Este poder fundi\u00e1rio articulava-se ao poder eclesi\u00e1stico, que o legitimava e sacralizava. O poder eclesi\u00e1stico detinha controle sobre a esfera do simb\u00f3lico e do religioso, ou seja, sobre a transmiss\u00e3o do saber consignado nos textos, bem como sobre a ortodoxia religiosa, ritos lit\u00fargicos, o calend\u00e1rio de festas sacras, as cren\u00e7as, valores espirituais, costumes e normas que regiam a sociedade e lhe conferia um senso de identidade. Seu dirigente m\u00e1ximo, o Papa, tamb\u00e9m podia agir como suserano e alocar terras e bens da igreja a cardeais e a bispos vassalos, de origem igualmente nobili\u00e1rquica. Esses dois estamentos sociais, frequentemente oriundos das mesmas fam\u00edlias, exploravam em conjunto a base da sociedade feudal, respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o de riqueza agropecu\u00e1ria e artesanal, isto \u00e9, os servos da gleba, os quais, em contrapartida, recebiam moradia, seguran\u00e7a e acesso a pequenas por\u00e7\u00f5es de terras que podiam cultivar por conta pr\u00f3pria (mansos servis) para assegurar sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<h3><strong>Feudalismo nuvioso<\/strong><\/h3>\n<p>Hoje, as Big Techs agem como suseranos por deterem o equivalente a terras e infraestrutura nos tempos medievais, isto \u00e9, a \u201cnuvem\u201d, central a todas as atividades informacionais, pol\u00edtico-econ\u00f4micas e sociais da atualidade. As Big Techs s\u00e3o hoje principalmente sete companhias estadunidenses, chamadas as \u201cSete Magn\u00edficas\u201d (<em>Magnificent Seven<\/em>): Amazon,\u00a0Alphabet (propriet\u00e1ria do Google e do Youtube), Microsoft, Meta (propriet\u00e1ria do Facebook, Instagram e Whatsapp), Apple,\u00a0Nvidia\u00a0e\u00a0Tesla. Al\u00e9m delas, h\u00e1 quatro corpora\u00e7\u00f5es chinesas: Baidu, Alibaba, Tencent e a\u00a0Xiaomi\u00a0(BATX). Estas onze megacorpora\u00e7\u00f5es desfrutam do status de Tit\u00e3s do ramo da tecnologia da informa\u00e7\u00e3o por oferecerem quatro tipos de servi\u00e7os pelos quais cobram de diversas formas<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote6sym\"><sup>vi<\/sup><\/a>: (a) infraestrutura (para o processamento de dados\/informa\u00e7\u00f5es, como a Amazon Web Services, o Google Cloud Space e o Microsoft Azure), (b) software\/aplicativos, (c) dados (como de sa\u00fade, localiza\u00e7\u00e3o, hist\u00f3rico de buscas e compras etc.) e (d) plataformas de v\u00e1rios tipos: de busca de informa\u00e7\u00f5es (Google), reposit\u00f3rios (Youtube), comunica\u00e7\u00e3o (Whatsapp), socializa\u00e7\u00e3o online (Facebook), pagamentos (Paypal) e vendas (Amazon Marketplace). Estes servi\u00e7os s\u00e3o empregados por toda sorte de empresas que operam ou t\u00eam presen\u00e7a online. Por exemplo, somente tr\u00eas dessas empresas (Amazon, Google e Microsoft), concentram hoje 64% de todo o mercado de servi\u00e7os de infraestrutura na nuvem<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote7sym\"><sup>vii<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Ao usar esses servi\u00e7os, empresas e Estados que os alugam tornam-se \u201cparceiros\u201d das Big Techs. Trata-se, obviamente, de um eufemismo. Os contratos envolvidos t\u00eam cl\u00e1usulas leoninas<sup>6<\/sup> que determinam, por exemplo, quanto cada empresa pode cobrar por seus produtos ou servi\u00e7os. Al\u00e9m disso, esses contratos, via de regra, exigem o compartilhamento com as Big Techs dos dados que seus clientes coletam. Tais informa\u00e7\u00f5es, que incluem dados pessoais, prefer\u00eancias, valores e h\u00e1bitos dos usu\u00e1rios, s\u00e3o usadas por ferramentas de intelig\u00eancia artificial (algoritmos) de empresas que operam na nuvem para \u201caperfei\u00e7oar\u201d seus servi\u00e7os, outro eufemismo. Aperfei\u00e7oar significa, neste contexto, aumentar rendimentos dessas empresas apresentando a cada internauta (pessoa f\u00edsica ou jur\u00eddica) o que ele ou ela ter\u00e1 maior chance de consumir. Quanto mais dados s\u00e3o coletados, melhor s\u00e3o treinados tais algoritmos que, por sua vez, influenciam as escolhas subsequentes dos usu\u00e1rios de forma cada vez mais individualizada.<\/p>\n<p>Este mecanismo, portanto, viabiliza um tipo de dom\u00ednio social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico jamais experimentado pela humanidade que se d\u00e1 por meio de cobran\u00e7a por servi\u00e7os e produtos, cobran\u00e7as n\u00e3o monetizadas por meio de usurpa\u00e7\u00e3o de dados pessoais de internautas, bem como manipula\u00e7\u00e3o comportamental customizada. Tem-se usado o termo tecnofeudalismo para descrever este sistema em livros (ainda indispon\u00edveis em portugu\u00eas) como \u201cTecnofeudalismo: Cr\u00edtica de uma Economia Digital\u201d<sup> <\/sup><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote8sym\"><sup>viii<\/sup><\/a>, de C\u00e9dric Durand, da Universidade de Genebra e \u201cTecnofeudalismo: o que Matou o Capitalismo\u201d<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote9sym\"><sup>ix<\/sup><\/a>, do economista, pol\u00edtico e acad\u00eamico grego Yanis Varoufakis. N\u00e3o \u00e9 nosso ponto discutir se o capitalismo foi superado, como argumenta Varoufakis, ou se continuamos a viver sob um sistema capitalista, ideia defendida, entre outros, por Eleut\u00e9rio Prado, da Universidade de S\u00e3o Paulo<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote10sym\"><sup>x<\/sup><\/a>. Independentemente disso, a analogia entre o feudalismo medieval e o sistema atual de apropria\u00e7\u00e3o de conhecimentos cient\u00edficos \u00e9 not\u00e1vel e n\u00e3o costuma ser discutida, embora seja parte do motor desta nova ordem social. Como j\u00e1 bem o intu\u00eda o conhecido aforisma de Francis Bacon<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote11sym\"><sup>xi<\/sup><\/a>, o conhecimento \u00e9, ele pr\u00f3prio, poder<em> (ipsa scientia potestas est)<\/em>. Isso \u00e9 tanto mais verdadeiro em nossos dias, pois o fato de deter dados, conhecimento e tecnologia digital significa, mais do que nunca, ter poder.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m explicitar que a nuvem n\u00e3o se vale apenas de tecnologia imaterial (softwares, aplicativos e algoritmos), pois pressup\u00f5e a exist\u00eancia de hardware de natureza f\u00edsica e n\u00e3o et\u00e9rea: terminais empregados pelos usu\u00e1rios (telefones e rel\u00f3gios <em>smart<\/em>, computadores, laptops etc.), todos os cabos de internet, roteadores, antenas e afins, equipamentos necess\u00e1rios para a produ\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de energia el\u00e9trica (incluindo turbinas e\u00f3licas e parques fotovoltaicos para gera\u00e7\u00e3o de energia \u201crenov\u00e1vel\u201d) e os servidores que processam, armazenam e transmitem dados. Estima-se<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote12sym\"><sup>xii<\/sup><\/a> que a produ\u00e7\u00e3o e uso de tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es consomem entre 6% e 12% de toda a eletricidade gerada no planeta e s\u00e3o respons\u00e1veis por emiss\u00f5es globais de carbono que quase equivalem \u00e0 emitida por pa\u00edses como a R\u00fassia. Al\u00e9m disso, essa infraestrutura<sup>12<\/sup> n\u00e3o \u00e9 renov\u00e1vel, envolve queima de combust\u00edveis fosseis, minera\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de pl\u00e1sticos em alt\u00edssima escala e gera, consequentemente, vastas quantidades de res\u00edduos n\u00e3o recicl\u00e1veis e t\u00f3xicos, al\u00e9m de consumir \u00e1gua para a refrigera\u00e7\u00e3o dos servidores de modo absolutamente insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Todos estes graves danos ambientais, assim como a import\u00e2ncia da centraliza\u00e7\u00e3o de dados e conhecimentos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos acima mencionados, aplicam-se n\u00e3o somente aos servi\u00e7os informacionais ofertados pelas Big Techs; estendem-se tamb\u00e9m a outros produtos que comercializam, pois estas empresas t\u00eam participa\u00e7\u00e3o tentacular em muitos setores econ\u00f4micos<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote13sym\"><sup>xiii<\/sup><\/a>, como nas \u00e1reas de financeiriza\u00e7\u00e3o, medicina (notadamente no ramo farmac\u00eautico), engenharia e f\u00edsica (como a ind\u00fastria automobil\u00edstica e de sat\u00e9lites), para dar apenas alguns exemplos.<\/p>\n<h3><strong>Suseranos, vassalos e servos no cientofeudalismo<\/strong><\/h3>\n<p>O paralelo entre o sistema de fun\u00e7\u00f5es tripartites da sociedade feudal com a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no mundo contempor\u00e2neo salta aos olhos, de onde a possibilidade de design\u00e1-la como uma esp\u00e9cie de feudalismo cient\u00edfico-digital ou, para brevidade, um cientofeudalismo digital. As Big Techs operam como suseranos que t\u00eam como vassalos um grupo de empresas que controlam toda a cadeia de produ\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia de forma digital. Essas empresas formam um oligop\u00f3lio<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote14sym\"><sup>xiv<\/sup><\/a> que inclui, preponderantemente, a Elsevier, a Springer Nature, a John Wiley &amp; Sons, a Taylor &amp; Francis e a SAGE Publications. Estas companhias come\u00e7aram como editoras que detinham revistas\/peri\u00f3dicos onde artigos cient\u00edficos eram publicados. Por\u00e9m, desde o lan\u00e7amento da internet, elas passaram a integrar subsidi\u00e1rias e\/ou ofertar servi\u00e7os que n\u00e3o apenas permitem a publica\u00e7\u00e3o de artigos, mas tamb\u00e9m a coleta, an\u00e1lise e arquivamento de dados de pesquisa, a busca por artigos, a avalia\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito cient\u00edfico de suas pr\u00f3prias revistas e dos cientistas, entre outros. Isso foi poss\u00edvel gra\u00e7as a integra\u00e7\u00f5es horizontais (fus\u00f5es com e\/ou compra de editoras menores) e verticais (controle sobre todo os n\u00edveis do processo de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico)<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote15sym\"><sup>xv<\/sup><\/a>. A ci\u00eancia hoje \u00e9 toda plataformizada<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote16sym\"><sup>xvi<\/sup><\/a> e, em geral, envolve esse tipo de dom\u00ednio empresarial.<\/p>\n<p>Por sua vez, servem como servos da gleba a este oligop\u00f3lio e \u00e0s Big Techs os cientistas e os Estados que os financiam, diretamente por meio de sal\u00e1rios e infraestrutura f\u00edsica, e indiretamente atrav\u00e9s de ag\u00eancias de fomento \u00e0 pesquisa. Esse bloco de poder, ligado por uma rela\u00e7\u00e3o de suserania e vassalagem, det\u00e9m controle ciber-espacial sobre feudos digitais capazes de inviabilizar qualquer tentativa de fazer ci\u00eancia em formatos alternativos. Ele lucra cobrando pelo uso das ferramentas nuviosas que controla, usadas na produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de conhecimentos. N\u00e3o participa do processo de produ\u00e7\u00e3o deste conhecimento, tal como outrora os senhores feudais dominavam a riqueza produzida por servos da gleba. A servid\u00e3o dos cientistas neste cen\u00e1rio se d\u00e1 por meio de pagamentos de v\u00e1rios tipos de tributos cobrados por essas megaempresas, cujos paralelos no universo medieval ser\u00e3o exemplificados abaixo. Embora o mesmo se aplique a outros setores de produ\u00e7\u00e3o intelectual e art\u00edstica (jornalismo, literatura, m\u00fasica etc.), estes n\u00e3o ser\u00e3o aqui exploradas, pois t\u00eam diferentes consequ\u00eancias.<\/p>\n<h3><strong>Tributos cobrados da comunidade cient\u00edfica<\/strong><\/h3>\n<p>Revistas cient\u00edficas existem h\u00e1 mais de 350 anos e o processo de publica\u00e7\u00e3o de artigos nestes peri\u00f3dicos permanece essencialmente o mesmo desde ent\u00e3o, com algumas exce\u00e7\u00f5es<sup>13<\/sup>. Hoje, textos cient\u00edficos est\u00e3o dispon\u00edveis na nuvem (e n\u00e3o mais exclusivamente em papel) e incluem obras que ainda n\u00e3o foram chanceladas com um selo de qualidade cient\u00edfica (aprovadas pela revis\u00e3o por pares), como \u00e9 o caso de <em>preprints<\/em> (postagens online de textos antes de serem publicados como artigo) e artigos que aparecem em revistas que s\u00f3 visam lucros em publicar (revistas predat\u00f3rias). Estes tipos de textos cient\u00edficos n\u00e3o ser\u00e3o aqui tratados. Focaremos somente em artigos que atendem a padr\u00f5es de rigor de avalia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, atualmente dispon\u00edveis online em um de dois modelos alternativos de publica\u00e7\u00e3o<sup>13<\/sup>:<\/p>\n<p>(a) a forma tradicional, em que os cientistas n\u00e3o pagam para publicar, mas pagam para ler artigos cient\u00edficos, forma predominante at\u00e9 o final do s\u00e9culo XX;<\/p>\n<p>(b) uma forma emergente, particularmente na \u00faltima d\u00e9cada, em que os cientistas n\u00e3o pagam para ler artigos, mas pagam para publicar, isto \u00e9, para que suas obras sejam disponibilizadas de forma livre, gratuita (<em>open access<\/em>).<\/p>\n<p>Ambos os modelos, explicados em detalhe adiante, garantem \u00e0s empresas do oligop\u00f3lio editorial taxas de lucro que chegam a beirar 40%, como \u00e9 o caso da Elsevier<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote17sym\"><sup>xvii<\/sup><\/a>. Estamos falando de taxas de lucro maiores at\u00e9 mesmo do que as taxas auferidas por megaempresas digitais como o Google e a Apple. Essas taxas s\u00e3o obtidas gra\u00e7as ao controle desse setor editorial sobre o empreendimento cient\u00edfico, o que lhe permite cobrar cada vez mais caro para que se possa ler os artigos que publicam (em m\u00e9dia cerca de US$ 40 por artigo), bem como para public\u00e1-los (chegando a mais de US$ 12 mil por artigo), com consider\u00e1vel \u00f4nus para pa\u00edses do Sul Global<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote18sym\"><sup>xviii<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Examinemos, agora, as diversas formas de apropria\u00e7\u00e3o do trabalho cient\u00edfico de parte deste oligop\u00f3lio, abaixo consideradas em paralelo com o sistema feudal de apropria\u00e7\u00e3o do trabalho e dos frutos do trabalho dos servos da gleba. Em seguida, trataremos do papel das Big Techs nesta equa\u00e7\u00e3o. De tais compara\u00e7\u00f5es, desponta que o servilismo imposto a cientistas \u00e9, por vezes, at\u00e9 pior do que os tributos impostos aos servos da gleba.<\/p>\n<ol>\n<li><em>A Talha<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p>A talha era um tributo cobrado dos servos pelos senhores feudais que correspondia a uma porcentagem da colheita cultivada pelos pr\u00f3prios servos nas pequenas por\u00e7\u00f5es de terras (mansos) a eles concedidas por estes senhores. Diferentemente, a depender do modelo de publica\u00e7\u00e3o de artigos, a talha imposta por empresas digitais a pesquisadores equivale \u00e0 totalidade do que os cientistas produzem ou at\u00e9 mais, por mais irreal que isso possa parecer.<\/p>\n<p>Na forma tradicional de publica\u00e7\u00f5es, o conte\u00fado dos artigos \u00e9 acess\u00edvel ao cientista apenas sob pagamento \u00e0s editoras, que controlam o acesso online por meio de <em>paywall<\/em>. Embora, nesse modelo, essas editoras n\u00e3o cobrem os autores para publicar seus artigos, elas exigem que os pesquisadores transfiram-lhes os direitos autorais das obras, o que lhes permite auferir 100% dos rendimentos da venda do acesso a estes trabalhos, incluindo uso secund\u00e1rio deste conhecimento, como qualquer divulga\u00e7\u00e3o de gr\u00e1ficos ou ilustra\u00e7\u00f5es contidos nesses artigos. Esse oligop\u00f3lio se apropria da totalidade desses rendimentos por possuir as plataformas digitais em que s\u00e3o produzidos, submetidos, avaliados e depositados os artigos cient\u00edficos, embora n\u00e3o financiem as pesquisas e nem participem da produ\u00e7\u00e3o intelectual do que vendem.<\/p>\n<p>Aten\u00e7\u00e3o: disto decorre que os direitos autorais do conte\u00fado intelectual (cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico) de todos os artigos publicados sob este modelo pertence a companhias privadas. Isso inclui praticamente todos os artigos publicados at\u00e9 o fim do s\u00e9culo XX e boa parte dos publicados desde ent\u00e3o, embora tenham sido produzidos com recursos advindos de impostos.<\/p>\n<p>O papel das editoras cient\u00edficas \u00e9 meramente intermediar e reger a rela\u00e7\u00e3o entre autores que querem publicar e aqueles encarregados do \u00e1rduo trabalho de examinar a qualidade cient\u00edfica desses trabalhos, isto \u00e9, os editores cient\u00edficos (<em>editors<\/em>), que decidem o que ser\u00e1 publicado, e outros especialistas que fazem a revis\u00e3o de sua qualidade (revis\u00e3o por pares). Uma vez conclu\u00eddas todas as etapas desse longo processo, os custos dessas empresas s\u00e3o, portanto, baixos<sup>18<\/sup>: al\u00e9m dessa intermedia\u00e7\u00e3o, elas apenas diagramam os artigos e os postam em suas plataformas digitais.<\/p>\n<p><a><\/a><a><\/a> Em contraste, os gastos da produ\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia s\u00e3o altos e majoritariamente arcados pela receita fiscal dos Estados da maior parte das na\u00e7\u00f5es. Por exemplo, no caso do Brasil, segundo o relat\u00f3rio da Clarivate Analytics<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote19sym\"><sup>xix<\/sup><\/a>, 90% dos artigos cient\u00edficos publicados entre 2011 e 2016 s\u00e3o obras de cientistas que trabalham e\/ou estudam em 20 universidades p\u00fablicas. Isto significa que recursos p\u00fablicos s\u00e3o usados para pagar os sal\u00e1rios e bolsas dos pesquisadores e pessoal t\u00e9cnico envolvidos em pesquisa, assim como para manter as instala\u00e7\u00f5es e laborat\u00f3rios para este fim. Os parcos recursos para custear cada pesquisa adv\u00eam tamb\u00e9m de \u00f3rg\u00e3os ou funda\u00e7\u00f5es de fomento \u00e0 pesquisa governamentais, Federais e\/ou Estaduais, para o usufruto dos quais h\u00e1 crescente competi\u00e7\u00e3o na comunidade cient\u00edfica. Al\u00e9m destes gastos, para que os pesquisadores brasileiros possam ler estes artigos s\u00e3o investidos cerca de R$550 milh\u00f5es<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote20sym\"><sup>xx<\/sup><\/a> anuais de verbas p\u00fablicas para pagar assinaturas de revistas cient\u00edficas (juntamente com alguns outros servi\u00e7os), nas quais h\u00e1 muitos artigos que foram financiados por nosso pr\u00f3prio Estado.<\/p>\n<p>Examinemos agora o correspondente \u00e0 talha no caso de publica\u00e7\u00f5es que seguem o segundo modelo de publica\u00e7\u00e3o de artigos, no qual n\u00e3o se paga para ler, mas para publicar, uma forma de publica\u00e7\u00e3o que tem crescido substancialmente nos \u00faltimos anos<sup>18<\/sup>. Esse pagamento \u00e9 feito sob a rubrica taxas de processamento de artigos, ou <em>article processing charges<\/em> (APCs). H\u00e1 estimativas de que o Estado brasileiro esteja desembolsando para isso mais de US$$ 37 milh\u00f5es por ano<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote21sym\"><sup>xxi<\/sup><\/a>. Isto se justifica pelo fato de que acesso aberto e livre a conte\u00fado cient\u00edfico est\u00e1 de acordo com os preceitos do movimento de ci\u00eancia aberta<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote22sym\"><sup>xxii<\/sup><\/a>, que visa aumentar o impacto de produ\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, democratizar a ci\u00eancia, e permitir o cumprimento da Agenda 2030 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>A despeito disso, pagar APCs corresponde a uma talha maior do que doar a totalidade do conhecimento produzido, como ocorre no caso de publica\u00e7\u00f5es tradicionais, cujos direitos autorais pertencem \u00e0s revistas. Seria como fazer com que os servos da gleba tivessem que <em>pagar<\/em> para que os senhores feudais <em>doassem<\/em> toda a parte da colheita que pertence aos servos e foi gerada por seu pr\u00f3prio trabalho. Isto \u00e9 ainda mais grave se for considerado que o financiamento da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 assegurado por recursos p\u00fablicos, que cobrem tamb\u00e9m os custos de uso da infraestrutura digital plataformizada pertencente ao oligop\u00f3lio de publica\u00e7\u00f5es (ou a empresas parceiras) para produzir e armazenar conte\u00fado cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Mais ainda, embora nesse segundo modelo de publica\u00e7\u00e3o as editoras n\u00e3o recebam pagamentos pela leitura dos artigos que publicam, os autores destas obras e seus financiadores n\u00e3o recebem remunera\u00e7\u00e3o financeira pelo fruto de seu trabalho e pelos recursos estatais envolvidos. Isto acontece porque tais publica\u00e7\u00f5es s\u00e3o geralmente condicionadas a serem publicadas com licen\u00e7as de direitos autorais do tipo Creative Commons By (CC By). Neste modelo, os autores det\u00eam os direitos autorais, mas \u00e9 permitido que outras pessoas distribuam, remixem, adaptem e criem a partir do conte\u00fado licenciado, mesmo para fins comerciais, desde que o cr\u00e9dito da autoria seja reconhecido. Em outras palavras, qualquer um \u2013 inclusive as megaempresas que ofertam servi\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia e Big Techs, cujos servi\u00e7os s\u00e3o alugados por este oligop\u00f3lio \u2013 pode lucrar com produtos derivados destes trabalhos pelos quais as editoras j\u00e1 cobraram APCs.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><em>A corveia<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p>A corveia era um tributo feudal na forma de trabalho, sem vencimentos, a ser realizado pelos servos nas propriedades dos senhores (reserva senhorial), sendo que o resultado desse trabalho cabia exclusivamente aos controladores de terras. Algo parecido tamb\u00e9m ocorre na ci\u00eancia, j\u00e1 que o controle de qualidade de artigos publicados pelas editoras, e pelos quais elas lucram, \u00e9 realizado gratuitamente por outros cientistas. A revis\u00e3o por pares \u00e9 trabalho n\u00e3o pago e, se fosse, estima-se que custaria em torno de US$ 1,1-1,7 bilh\u00e3o por ano<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote23sym\"><sup>xxiii<\/sup><\/a>. Boa parte dos editores cient\u00edficos (<em>editors<\/em>)tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o pagos e os que s\u00e3o empregados por editoras recebem valores muito abaixo de sua qualifica\u00e7\u00e3o, pois ganham nos EUA em m\u00e9dia US$ 33\/hora, enquanto a remunera\u00e7\u00e3o de cientistas com titula\u00e7\u00e3o de doutor (PhD), requerida para ser um editor, \u00e9 de US$ 68\/hora<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote24sym\"><sup>xxiv<\/sup><\/a>. Cientistas tamb\u00e9m trabalham de gra\u00e7a fazendo propaganda, isto \u00e9, promovendo os produtos destas empresas quando citam trabalhos publicados por colegas.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><em>As banalidades e a m\u00e3o-morta<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p>As banalidades eram tributos pagos por servos a senhores feudais pela utiliza\u00e7\u00e3o de ferramentas e\/ou infraestrutura sob poder dos senhores, como moinho e arado, al\u00e9m de ped\u00e1gio pelo uso de estradas e pontes. No caso do empreendimento cient\u00edfico atual, os pesquisadores\/Estados tamb\u00e9m devem pagar assinaturas para poder usar uma grande variedade de servi\u00e7os digitais da ci\u00eancia, hoje plataformizada, j\u00e1 que ferramentas online s\u00e3o usadas para publicar e ler artigos, coletar, analisar e armazenar dados de pesquisa, buscar e redigir artigos, trocar informa\u00e7\u00f5es em redes sociais de cientistas etc.<\/p>\n<p>Grande parte de tais servi\u00e7os pertence \u00e0s mesmas empresas do setor de publica\u00e7\u00f5es, formando um intricado ecossistema de servi\u00e7os digitais acad\u00eamicos mapeado pelo projeto Inova\u00e7\u00f5es na Comunica\u00e7\u00e3o Acad\u00eamica (<em>Innovations in Scholarly\u00a0Communication<\/em>), da biblioteca da Universidade de Utrecht<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote25sym\"><sup>xxv<\/sup><\/a>. Por exemplo, s\u00e3o subsidi\u00e1rios da Elsevier (e\/ou de sua empresa m\u00e3e, a RELX): (a) o Scopus (base de dados de artigos que permite encontrar publica\u00e7\u00f5es), (b) o Mendeley (usado para escrever manuscritos), (c) centenas de peri\u00f3dicos (incluindo o reposit\u00f3rio Social Science Research Network,\u00a0SSRN, uma plataforma onde se pode postar e acessar <em>preprints <\/em>gratuitamente), (d) o CiteScore (que avalia o desempenho acad\u00eamico de cientistas, revistas, institui\u00e7\u00f5es e pa\u00edses) e (e) o Newsflo (que perscruta cita\u00e7\u00f5es na m\u00eddia).<\/p>\n<p>Al\u00e9m de pagar assinaturas para usar parte da infraestrutura digital para fazer ci\u00eancia (que correspondem \u00e0s banalidades pagas por servos), a comunidade cient\u00edfica tamb\u00e9m paga, de forma n\u00e3o monetizada, cedendo informa\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas e pessoais, sobre prefer\u00eancias e padr\u00f5es de uso, coletadas enquanto usam estes servi\u00e7os e que s\u00e3o empregadas para aperfei\u00e7o\u00e1-los (melhor dizendo, aumentar lucros) por meio de algoritmiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mesmo tipo de pagamento por cess\u00e3o de dados ocorre no que tange o correspondente cient\u00edfico do tributo medieval chamado m\u00e3o-morta. Quando um servo chefe de fam\u00edlia falecia, sua \u201cidentidade de servo\u201d n\u00e3o era herdada. Para que o descendente que assumia a fun\u00e7\u00e3o de seu pai pudesse adquirir este status, era necess\u00e1rio que pagasse a seu senhor feudal este tributo. Para evitar a publica\u00e7\u00e3o de trabalhos de pesquisadores fantasma, cientistas tamb\u00e9m s\u00e3o obrigados a obter uma \u201cidentidade de pesquisador\u201d, conferida por ferramentas digitais como o Open Researcher and Contributor ID (ORCID). \u00c9 fato que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio pagar o ORCID por isso, mas os dados pessoais e acad\u00eamicos fornecidos para tanto s\u00e3o informa\u00e7\u00f5es cedidas gratuitamente que podem ser empregadas para melhorar a algoritmiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 por parte desta empresa, mas tamb\u00e9m por suas parceiras (o oligop\u00f3lio do setor de publica\u00e7\u00f5es e as Big Techs, donas da infraestrutura digital usada por ele).<\/p>\n<p><em>4. O d\u00edzimo<\/em><\/p>\n<p>O d\u00edzimo era uma porcentagem da produ\u00e7\u00e3o pertencente aos pr\u00f3prios servos devida \u00e0 igreja. Representava um agradecimento ao divino pelo privil\u00e9gio da f\u00e9 e que marcava a edifica\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios morais e sociais vigentes. No sistema atual de produ\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia ocorre um paralelo, tamb\u00e9m de cunho imaterial e simb\u00f3lico: a comunidade acad\u00eamica paga caro pelo privil\u00e9gio de se deixar avaliar por empresas associadas ao ramo de publica\u00e7\u00f5es que exploram seu trabalho, o que toma forma de m\u00e9tricas indicadoras de prest\u00edgio e\/ou posi\u00e7\u00f5es em rankings (\u00edndices cientom\u00e9tricos).<\/p>\n<p>A natureza quase divina no meio acad\u00eamico dessas m\u00e9tricas se explica pelo fato que elas s\u00e3o empregadas para direcionar as limitadas verbas p\u00fablicas de pesquisa a cientistas (e\/ou institui\u00e7\u00f5es) com \u201cmaior m\u00e9rito\u201d, sem as quais n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a um pesquisador permanecer em sua carreira. Exemplos dessas medidas de status acad\u00eamico<sup>18 <\/sup>s\u00e3o o Scopus CiteScore (da Elsevier), o Journal Citation Report (JCR) e SCImago Journal Rank (SJR), ofertados por companhias parceiras ao oligop\u00f3lio, e o Altmetrics, que mede cita\u00e7\u00f5es na m\u00eddia (subsidi\u00e1ria de um dos dois acionistas principais do grupo Springer Nature, a Holtzbrinck Publishing Group); existem tamb\u00e9m rankings de prest\u00edgio cient\u00edfico, fornecidos pelas mesmas empresas, de produtividade de universidades, pa\u00edses e at\u00e9 do n\u00famero de vezes que cientistas fazem revis\u00e3o por pares (o que os incentiva a trabalhar de gra\u00e7a\u2026).<\/p>\n<p>As m\u00e9tricas principais usadas para avaliar a produtividade de pesquisadores e institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas s\u00e3o chamadas de \u00edndice ou fator de impacto de revistas cient\u00edficas. Elas medem, essencialmente, a <em>m\u00e9dia<\/em> de vezes que a totalidade dos artigos nelas publicados s\u00e3o citados em outras publica\u00e7\u00f5es em um dado per\u00edodo de tempo; ou seja, quanto os conhecimentos nelas contidas s\u00e3o valorizados pela comunidade acad\u00eamica. Por\u00e9m, a m\u00e9dia de cita\u00e7\u00f5es de artigos de uma revista (fator de impacto) n\u00e3o espelha as cita\u00e7\u00f5es recebidas por cada artigo, pois h\u00e1 uma baixa correla\u00e7\u00e3o entre essas medidas<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote26sym\"><sup>xxvi<\/sup><\/a>. Em outras palavras, o fator\/\u00edndice de impacto das revistas n\u00e3o reflete os m\u00e9ritos (qualidade, inova\u00e7\u00e3o etc.) de cada artigo individual nelas publicados e, portanto, tampouco os de seus autores. Assim sendo, n\u00e3o faz sentido que os pesquisadores sejam ranqueados segundo esse tipo de medida. Em contraste, h\u00e1 vantagens consider\u00e1veis para as editoras e suas parceiras de enaltecer estes indicadores simb\u00f3licos e fazer perdurar seu uso, pois quanto maior o fator de impacto de uma revista, maior \u00e9 a probabilidade que ela atraia autores com resultados de ponta interessados em nela publicar. Esses artigos mais inovadores t\u00eam maior probabilidade de serem citados, o que, por sua vez, aumenta o \u00edndice de prest\u00edgio da revista.<\/p>\n<p>Tal controle simb\u00f3lico das m\u00e9tricas de m\u00e9rito \u00e9 refor\u00e7ado com o uso de IA por parte das empresas digitais que operam neste setor, as quais continuamente coletam dados sobre cren\u00e7as, valores e comportamentos dos pesquisadores por meio de dados que eles, sem perceber, concedem a estas companhias ao usar a nuvem para trabalhar. Com este c\u00edrculo vicioso de autoaprendizado homem-m\u00e1quina, os preceitos do que \u00e9 considerado \u201cboa ci\u00eancia\u201d s\u00e3o fabricados e manipulados, lucros s\u00e3o maximizados e o monop\u00f3lio \u00e9 mantido.<\/p>\n<p>Quadro resumo dos paralelos entre o feudalismo medieval e o sistema feudalizado da ci\u00eancia atual.<\/p>\n<figure>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>Pr\u00eamio<\/strong><\/td>\n<td><\/td>\n<td>Moradia, prote\u00e7\u00e3o, acesso a terras para sustento pr\u00f3prio, manuten\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00e3o com o sistema de cren\u00e7as<\/td>\n<td>Obter prest\u00edgio acad\u00eamico (imaterial), necess\u00e1rio para assegurar verbas para fazer pesquisa e permanecer na carreira (publicar para n\u00e3o perecer)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/figure>\n<h3><strong>Servid\u00e3o volunt\u00e1ria?<\/strong><\/h3>\n<p>Ainda no s\u00e9culo XVI, em seu \u201cDiscurso Sobre Servid\u00e3o Volunt\u00e1ria\u201d<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote27sym\"><sup>xxvii<\/sup><\/a>, <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/%C3%89tienne_de_La_Bo%C3%A9tie\">\u00c9tienne de La Bo\u00e9tie<\/a> j\u00e1 apontava que tiranos permanecem no poder enquanto seus subalternos lhes <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Tyrant\">concede<\/a>m este direito, deslegitimando formas alternativas de controle pol\u00edtico. Tamb\u00e9m na Idade M\u00e9dia, as rela\u00e7\u00f5es sociais entre senhores feudais e servos da gleba eram asseguradas n\u00e3o apenas pelo uso da for\u00e7a, mas tamb\u00e9m e sobretudo pelo consentimento, refor\u00e7ado por valores religiosos e eclesi\u00e1sticos. Observa-se um tipo compar\u00e1vel de consentimento na subservi\u00eancia da comunidade acad\u00eamica atual, que aceita, acredita e n\u00e3o faz press\u00e3o suficiente para se opor ao valor simb\u00f3lico de prest\u00edgio acad\u00eamico, isto \u00e9, \u00edndices de impacto de revistas cient\u00edficas determinados por empresas a elas associadas. Hoje, essa passividade \u00e9 compreens\u00edvel, pois cientistas dependem de plataformas na nuvem destas companhias para trabalhar. Acontece que, mesmo antes da era digital, cientistas e Estados que financiavam a pesquisa j\u00e1 outorgavam a empresas privadas o direito de definir \u201cm\u00e9rito cient\u00edfico\u201d.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias potenciais disso s\u00e3o graves e n\u00e3o se limitam ao j\u00e1 mencionado controle dos direitos autorais de praticamente todo o conte\u00fado intelectual contido em todos os artigos publicados no modelo n\u00e3o aberto por empresas privadas. Tal <em>modus operandi<\/em> incentiva pesquisadores proeminentes, convidados a participar dos comit\u00eas de assessoramento respons\u00e1veis por alocar financiamentos de pesquisa a seus colegas, a perpetuar este sistema que os valoriza e empodera.<\/p>\n<p>A press\u00e3o para publicar em revistas prestigiosas resulta tamb\u00e9m no aumento da crise de credibilidade da ci\u00eancia. Apenas em 2023 foram retirados (<em>retracted<\/em>) mais de 10 mil artigos publicados, o que corresponde a 20% das 50 mil retrata\u00e7\u00f5es j\u00e1 registradas<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote28sym\"><sup>xxviii<\/sup><\/a>. Segundo especialistas<sup>28<\/sup>, isto representa \u201capenas a ponta do iceberg\u201d dos artigos fraudulentos e\/ou com graves limita\u00e7\u00f5es (por m\u00e1 f\u00e9 ou erros involunt\u00e1rios). Mais ainda, este mecanismo tamb\u00e9m exorta cientistas, institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e Estados a privilegiar os temas de pesquisa que essas empresas consideram mais interessantes (para elas). Faz, ademais, com que pesquisadores tendam a dar \u00eanfase demasiada \u00e0 relev\u00e2ncia de parte de seus achados para aumentar a probabilidade de que sejam publicados e mais citados, o que eleva o fator de impacto das revistas. Estimula tamb\u00e9m que pesquisadores evitem publicar artigos que tendam a ser menos citados. Isso inclui suprimir resultados que n\u00e3o se encaixam em teorias convencionais e\/ou desencorajar replica\u00e7\u00f5es de resultados de pesquisas anteriores, um processo inerente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de consenso na ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Estes vieses s\u00e3o potencialmente levados a extremos quando empresas que atuam por meio de e\/ou det\u00e9m controle da nuvem contratam pesquisadores que atuam em funda\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que fomentam pesquisa e\/ou quando financiam eventos e\/ou empreendimentos cient\u00edficos realizados pela academia. Estas s\u00e3o pr\u00e1ticas comuns que conferem a essas companhias o poder de exercer press\u00e3o para que o sistema seja mantido e para que sejam produzidos e publicados artigos com resultados favor\u00e1veis a elas<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote29sym\"><sup>xxix<\/sup><\/a>, al\u00e9m de fazer com que consigam manter para si patentes de inova\u00e7\u00f5es que surgem de coautorias com estas institui\u00e7\u00f5es<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<p>Movimentos acad\u00eamicos t\u00eam h\u00e1 muito ressaltado a necessidade de supera\u00e7\u00e3o destes falsos crit\u00e9rios de m\u00e9rito e da ado\u00e7\u00e3o de formas mais efetivas de avaliar o que \u00e9 ci\u00eancia de qualidade, tal como proposto em 2012 na Declara\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco sobre Avalia\u00e7\u00e3o de Pesquisa (<em>The Declaration on Research Assessment<\/em>, DORA)<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote30sym\"><sup>xxx<\/sup><\/a>. Todavia, na pr\u00e1tica, tais medidas n\u00e3o t\u00eam sido implementadas.<\/p>\n<h3><strong>Como as Big Techs se beneficiam<\/strong><\/h3>\n<p>At\u00e9 aqui, nossa an\u00e1lise procurou mostrar como o oligop\u00f3lio corporativo de empresas que plataformizam servi\u00e7os cient\u00edficos domina e explora a comunidade acad\u00eamica de diversos modos. Trata-se agora de enfatizar as diversas formas pelas quais as Big Techs asseguram seu poder, beneficiando-se desse sistema de produ\u00e7\u00e3o, dissemina\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o de artigos cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Eis a primeira delas. Todos os conte\u00fados intelectuais e dados pessoais e acad\u00eamicos que o oligop\u00f3lio do setor cient\u00edfico det\u00eam e obt\u00eam a partir do uso de seus servi\u00e7os s\u00e3o acess\u00edveis (na forma de parcerias) pelas Big Techs, que controlam a infraestrutura e a tecnologia alugadas por essas empresas para operar seus neg\u00f3cios. Por exemplo, a RELX\/Elsevier usa a infraestrutura da Amazon e da Microsoft<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote31sym\"><sup>xxxi<\/sup><\/a>, corpora\u00e7\u00f5es que, portanto, podem se apoderar dessas informa\u00e7\u00f5es e us\u00e1-las para assegurar seus pr\u00f3prios e m\u00faltiplos interesses comerciais.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, as Big Techs disponibilizam servi\u00e7os diretamente a institui\u00e7\u00f5es de pesquisa, sem empresas intermedi\u00e1rias. Por exemplo, a maioria das universidades p\u00fablicas brasileiras<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote32sym\"><sup>xxxii<\/sup><\/a>, e grande parte das internacionais tamb\u00e9m<sup>28<\/sup>, adotaram o Gmail e outros servi\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o terci\u00e1ria pertencentes ao Google (Google Cloud for Higher Education e Google Workspace). Embora seja necess\u00e1rio pagar assinatura para usar apenas alguns desses servi\u00e7os, h\u00e1 sempre pagamento n\u00e3o monet\u00e1rio: cess\u00e3o ao Google de todos os dados e conte\u00fados cient\u00edficos (j\u00e1 publicados ou n\u00e3o), trocas de mensagens e conversas online entre pessoas do universo acad\u00eamico, seu padr\u00e3o de prefer\u00eancia, leitura etc., sempre aproveitados para aumentar sua renda e poder.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, a press\u00e3o exercida sobre pesquisadores para publicar e ascender em rankings de prest\u00edgio acad\u00eamico tem progressivamente elevado seu uso de modelos de linguagem de grande escala baseados em IA<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote33sym\"><sup>xxxiii<\/sup><\/a>, pertencentes a Big Techs, como o ChatGPT, da OpenAI (cujos investidores incluem a Microsoft e Elon Musk). Tal uso envolve aux\u00edlio na elabora\u00e7\u00e3o de projetos para a obten\u00e7\u00e3o de verbas, reda\u00e7\u00e3o de artigos cient\u00edficos, revis\u00f5es da literatura e at\u00e9 an\u00e1lise de dados. Tais modelos seguem a l\u00f3gica estabelecida por empresas comerciais do que \u00e9 considerada \u201cboa\u201d pesquisa (a que aumenta seus lucros e poder) e, n\u00e3o raro, gera publica\u00e7\u00f5es fraudulentas e sem nenhum nexo, j\u00e1 que IA comumente \u201calucina\u201d<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote34sym\"><sup>xxxiv<\/sup><\/a>, o que explica em grande parte o aumento recente de artigos que precisam ser retirados da literatura<sup>27<\/sup>.<\/p>\n<p>Mais ainda, o aumento progressivo da depend\u00eancia de IA para produzir mais e mais r\u00e1pido tamb\u00e9m pode ter outro desdobramento desfavor\u00e1vel ao dificultar que a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de cientistas consiga gerar hip\u00f3teses pr\u00f3prias, expressar suas ideias e\/ou pensar criticamente sobre seus resultados, como bem fazem notar Thiago Fran\u00e7a e Jos\u00e9 Maria Monserrat em artigo a este respeito<sup>33<\/sup>. Sem considerar as consequ\u00eancias, cientistas t\u00eam tamb\u00e9m desenvolvido ferramentas de IA capazes de fazer revis\u00e3o por pares e o trabalho de editores<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote35sym\"><sup>xxxv<\/sup><\/a>, bem como criado novas medidas de m\u00e9rito cient\u00edfico (\u201cescores de \u201cnovidade\u201d, ou <em>novelty scores<\/em><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote36sym\"><sup>xxxvi<\/sup><\/a>). As empresas do setor agradecem. Em breve, poder\u00e3o prescindir da media\u00e7\u00e3o de especialistas, cortando custos e facilitando a identifica\u00e7\u00e3o de conhecimentos estrat\u00e9gicos, que elas poder\u00e3o rapidamente adquirir e usar em proveito pr\u00f3prio. Tal identifica\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m generalizada no caso de inova\u00e7\u00f5es desenvolvidas por <em>startups<\/em><sup><em>6<\/em><\/sup>.<\/p>\n<p>Em quarto lugar, as Big Techs inviabilizam a concretiza\u00e7\u00e3o dos objetivos e preceitos do movimento de ci\u00eancia aberta<sup>22<\/sup> para uma maior democratiza\u00e7\u00e3o de acesso a conhecimentos. Pode at\u00e9 parecer que elas est\u00e3o alinhadas a esses objetivos quando \u201cofertam\u201d mais e mais plataformas e softwares de livre uso. N\u00e3o est\u00e3o. Este estratagema<sup>6<\/sup> permite que se apoderem de conhecimento e da forma com que ele \u00e9 produzido sem terem que pagar por isso. Um caso emblem\u00e1tico \u00e9 o GitHub, pertencente \u00e0 Microsoft, uma plataforma digital que hospeda centenas de milh\u00f5es de softwares, grande parte dos quais \u00e9 de c\u00f3digo livre. T\u00e3o logo outros atores postam nessas plataformas softwares produzidos por eles pr\u00f3prios (protegidos ou n\u00e3o por direitos autorais) e\/ou produzem tecnologia aberta a partir destes produtos digitais de acesso gratuito, os Tit\u00e3s da tecnologia come\u00e7am a explor\u00e1-los comercialmente.<\/p>\n<p><a><\/a> Isto n\u00e3o quer dizer, absolutamente, que IA e ci\u00eancia aberta n\u00e3o tenham utilidade ou import\u00e2ncia. O acesso a e trocas livres de informa\u00e7\u00f5es \u00e9 crucial para o avan\u00e7o da ci\u00eancia e poss\u00edvel gra\u00e7as a artigos abertos disponibilizados, por exemplo, na plataforma brasileira Scientific Library Online (SciELO), para os quais n\u00e3o se paga para \u00e7er e publicar ou se paga baixas APCs. Existem tamb\u00e9m muitas ferramentas cient\u00edficas digitais abertas, listadas no Open Economics Guide<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote37sym\"><sup>xxxvii<\/sup><\/a>. Contudo, note o leitor que estes recursos n\u00e3o escapam de usar infraestrutura das Big Techs para funcionar. Ademais, n\u00e3o se pode deixar de notar que a combina\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia aberta e IA, <em>por raz\u00f5es diametralmente opostas<\/em>, pode fazer com que sociedade pague caro pela disponibiliza\u00e7\u00e3o livre de propriedade intelectual, tal como alerta Jonathan Barnett, em seu livro de 2024 <em>The Big Steal: Ideology, Interest, and the Undoing of Intellectual Property<\/em><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote38sym\"><sup>xxxviii<\/sup><\/a> (O Grande Roubo: Ideologia, Interesse e a Destrui\u00e7\u00e3o da Propriedade Intelectual). Barnett aponta que est\u00e1 em curso uma \u201calian\u00e7a acidental\u201d entre, de um lado, a academia, que visa de boa-f\u00e9 flexibilizar e\/ou abolir direitos sobre a propriedade intelectual para aumentar a democratiza\u00e7\u00e3o de conhecimentos, e, de outro, as gigantes tecnol\u00f3gicas e oligop\u00f3lios verticalmente integrados a elas, que se aproveitam deste discurso para fazer lobby para que APCs sejam aceit\u00e1veis, bem como para assegurar sua domin\u00e2ncia adquirindo, sem custos, conhecimentos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos em paralelo com a parasita\u00e7\u00e3o de dados pessoais de internautas e cientistas sem pagar por isso.<\/p>\n<p>O resultado desta jun\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios opostos pode acabar inviabilizando que a ci\u00eancia, financiada com recursos p\u00fablicos, busque solu\u00e7\u00f5es de problemas da humanidade cada vez mais prementes, como crescentes desigualdades sociais, piora da sa\u00fade e crises ambientais em escala planet\u00e1ria. De resto, esses problemas s\u00e3o causados em crescente medida pela pr\u00f3pria exist\u00eancia da infraestrutura f\u00edsica da nuvem<sup>2,3,6,12,13<\/sup>, que, como dito acima, agrava a emerg\u00eancia clim\u00e1tica e ambiental, al\u00e9m de contribuir para a redu\u00e7\u00e3o de empregos, manipula\u00e7\u00e3o de cora\u00e7\u00f5es e mentes e para o crescente negacionismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia.<\/p>\n<h3><strong>O futuro<\/strong><\/h3>\n<p>Mesmo s\u00f3 considerando o funcionamento da ci\u00eancia plataformizada, sem falar de todas as demais esferas do cotidiano influenciadas pelas Big Techs (poderio econ\u00f4mico, pol\u00edtico e de fabrica\u00e7\u00e3o de consensos escusos), parece ineg\u00e1vel que a sociedade atual \u00e9 comandada por senhores feudais digitais de forma semelhante (ou ainda pior) ao que se verificava na Idade M\u00e9dia. Tudo indica que isso vai piorar nos pr\u00f3ximos anos, j\u00e1 que Donald Trump, como j\u00e1 evocado, cercou-se de magnatas da IA e negacionistas para determinar o rumo da pol\u00edtica e da ci\u00eancia e tecnologia dos EUA. Preveem-se mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o estadunidense em favor das Big Techs (redu\u00e7\u00e3o de impostos e de direitos de privacidade), al\u00e9m das j\u00e1 tomadas contra a ci\u00eancia e a preserva\u00e7\u00e3o ambiental nos primeiros dias de seu governo<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote39sym\"><sup>xxxix<\/sup><\/a>. \u00c9 mais que prov\u00e1vel tamb\u00e9m que essas megacorpora\u00e7\u00f5es estar\u00e3o livres para se apropriarem mais ainda de conhecimentos gerados com recursos p\u00fablicos, tal como acima discutido, incluindo agora abiscoitar em seu favor uma maior parte dos US$200 bilh\u00f5es<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote40sym\"><sup>xl<\/sup><\/a> de investimento federal anual em ci\u00eancia e tecnologia dos EUA. Al\u00e9m disso, o investimento feito pelas Big Techs em pesquisas pr\u00f3prias, cujos direitos propriet\u00e1rios mant\u00eam para si, s\u00f3 \u00e9 superado, hoje, pelos valores dotados \u00e0 ci\u00eancia e tecnologia pelos EUA e pela China<sup>6<\/sup>. Desse modo, esses gigantes digitais acumulam e centralizam cada vez mais n\u00e3o s\u00f3 os conhecimentos gerados pela academia \u00e0s custas dos Estados de todas as na\u00e7\u00f5es da Terra, mas tamb\u00e9m por elas pr\u00f3prias, retroalimentando seu poder centralizador.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o basta mais que a comunidade cient\u00edfica reaja alterando a metodologia de avalia\u00e7\u00e3o da qualidade da ci\u00eancia, buscando produzir uma ci\u00eancia mais aberta, aprendendo a usar IA de forma construtiva e\/ou determinando novas formas de direcionar verbas a pesquisas necess\u00e1rias para resolver as crises sociais e ambientais de nossos dias. A acelerada evolu\u00e7\u00e3o da tecnologia da informa\u00e7\u00e3o imp\u00f5e novos desafios sombrios, pois todo o sistema de produ\u00e7\u00e3o, arquivamento e avalia\u00e7\u00e3o de conte\u00fado intelectual depende hoje intrinsecamente da nuvem, sobre a qual os Estados que financiam pesquisas e os cientistas que as realizam n\u00e3o t\u00eam nenhum controle.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote1anc\">i<\/a>Garisto, D., &amp; Tollefson, J. (2025). Trump\u2019s science advisers: how they could influence his second presidency.\u00a0<em>Nature<\/em>,\u00a0<em>637<\/em>(8048), 1029-1030. <em>doi: <\/em><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1038\/d41586-025-00132-0\"><em>https:\/\/doi.org\/10.1038\/d41586-025-00132-0<\/em><\/a><a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-025-00132-0\">https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-025-00132-0<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote2anc\">ii<\/a> Cf. Riddell, R. e cols. (2024). Inequality Inc. How corporate power divides our world and the need for a new era of public action. Oxfam International; <a href=\"http:\/\/doi.org\/10.21201\/2024.000007\">http:\/\/doi.org\/10.21201\/2024.000007<\/a>; e <a href=\"https:\/\/www.oxfam.org\/en\/press-releases\/richest-1-bag-nearly-twice-much-wealth-rest-world-put-together-over-past-two-years\">https:\/\/www.oxfam.org\/en\/press-releases\/richest-1-bag-nearly-twice-much-wealth-rest-world-put-together-over-past-two-years<\/a> (consultado em 30\/01\/2025).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote3anc\">iii<\/a> Cf. Sullivan, D., &amp; Hickel, J. (2023). Capitalism and extreme poverty: A global analysis of real wages, human height, and mortality since the long 16th century.\u00a0<em>World development<\/em>,\u00a0<em>161<\/em>, 106026. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.worlddev.2022.106026\">https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.worlddev.2022.106026<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote4anc\">iv<\/a> Cf. Franco Jr, H. (1993). Feudalismo, 4\u00aa. Edi\u00e7\u00e3o, Leituras Afins.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote5anc\">v<\/a> Cf. Georges Dum\u00e9zil, <em>L\u2019id\u00e9ologie tripartie des Indo-Europeens<\/em>, Bruxelas, 1958; Georges Duby, <em>Les trois ordres ou l\u2019imaginaires du f\u00e9odalisme<\/em>, Paris, 1978; Jacques Le Goff, \u201cLes trois fonctions indo-europ\u00e9ennes, l\u2019histoire et l\u2019Europe f\u00e9odales\u201d. <em>Annales<\/em>, 1979, 34-6, pp. 1187-1215.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote6anc\">vi<\/a> Cf. Rikap, C. (2024). Dynamics of corporate governance beyond ownership in AI.\u00a0<em>Common Wealth. https:\/\/www.common-wealth.org\/publications\/dynamics-of-corporate-governance-beyond-ownership-in-ai (<\/em>consultado em 30\/01\/2025).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote7anc\">vii<\/a> <a href=\"https:\/\/www.srgresearch.com\/articles\/cloud-market-growth-surge-continues-in-q3-growth-rate-increases-for-the-fourth-consecutive-quarter\">https:\/\/www.srgresearch.com\/articles\/cloud-market-growth-surge-continues-in-q3-growth-rate-increases-for-the-fourth-consecutive-quarter<\/a> (consultado em 30\/01\/2025).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote8anc\">viii<\/a> Cf. Durand, C. (2020) Technof\u00e9odalisme: Critique de l\u2019\u00e9conomie num\u00e9rique. La D\u00e9couverte. <a href=\"https:\/\/www.editionsladecouverte.fr\/technofeodalisme-9782355221156\">https:\/\/www.editionsladecouverte.fr\/technofeodalisme-9782355221156<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote9anc\">ix<\/a> Cf. Varoufakis, Y. (2024).\u00a0<em>Technofeudalism: What killed capitalism<\/em>. Melville House.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote10anc\">x<\/a> <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/a-hipotese-do-tecnofeudalismo\/\">https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/a-hipotese-do-tecnofeudalismo\/<\/a> (consultado em 30\/01\/2025)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote11anc\">xi<\/a> Bacon, F. (1597).\u00a0<em>Meditationes sacrae<\/em>\u00a0(p. 1597). Excusum impensis Humfredi Hooper. Publisher, Excusum impensis Humfredi Hooper.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote12anc\">xii<\/a> <a href=\"https:\/\/www.genevaenvironmentnetwork.org\/resources\/updates\/data-digital-technology-and-the-environment\/\">https:\/\/www.genevaenvironmentnetwork.org\/resources\/updates\/data-digital-technology-and-the-environment\/<\/a> (consultado em 30\/01\/2025)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote13anc\">xiii<\/a> Cf. Kordi, M. (2024). Surveillance Capitalism: The Transformation of Raw Online Data into Valuable Assets by High-Tech Companies\u2014Is AI Governance a Threat or a Solution to Our Privacy Concerns?. Em:\u00a0<em>The Palgrave Handbook of Sustainable Digitalization for Business, Industry, and Society<\/em>\u00a0(pp. 401-416). Cham: Springer International Publishing. https:\/\/doi.org\/10.1007\/978-3-031-58795-5_18<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote14anc\">xiv<\/a> Cf. Larivi\u00e8re, V. e cols. (2015). The oligopoly of academic publishers in the digital era.\u00a0<em>PloS one<\/em>,\u00a0<em>10<\/em>(6), e0127502. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0127502\">https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0127502<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote15anc\">xv<\/a> Cf. Chen, G. e cols. (2019). Vertical integration in academic publishing.\u00a0Em: <em>Connecting the knowledge commons\u2014From projects to sustainable infrastructure<\/em>, 15-40. https:\/\/books.openedition.org\/oep\/8999?lang=en<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote16anc\">xvi<\/a> Cf. da Silva Neto, V. J., &amp; Chiarini, T. (2023). The platformization of science: towards a scientific digital platform taxonomy.\u00a0<em>Minerva<\/em>,\u00a0<em>61<\/em>(1), 1-29. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1007\/s11024-022-09477-6\">https:\/\/doi.org\/10.1007\/s11024-022-09477-6<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote17anc\">xvii<\/a> Cf. Aspesi, C. &amp; SPARC (Scholarly Publishing and Academic Resources Coalition). (2019). Research Companies: Elsevier.\u00a0<em>Landscape analysis.<\/em> <a href=\"https:\/\/infrastructure.sparcopen.org\/landscape-analysis\/elsevier\">https:\/\/infrastructure.sparcopen.org\/landscape-analysis\/elsevier<\/a> (consultado em 30\/01\/2025).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote18anc\">xviii<\/a> <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/os-mercadores-globais-do-saber\/\">https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/os-mercadores-globais-do-saber\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote19anc\">xix<\/a> Cf. Analytics, C. (2018). Research in Brazil: A report for CAPES by Clarivate Analytics.\u00a0<em>Clarivate Analytics<\/em>. <a href=\"https:\/\/observatoriodoconhecimento.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/04-Research-in-Brazil.pdf\">https:\/\/observatoriodoconhecimento.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/04-Research-in-Brazil.pdf<\/a> (consultado em 30\/01\/2025)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote20anc\">xx<\/a> <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/capes\/pt-br\/assuntos\/noticias\/inclusao-e-investimentos-marcam-gestao-da-capes-em-2023\">https:\/\/www.gov.br\/capes\/pt-br\/assuntos\/noticias\/inclusao-e-investimentos-marcam-gestao-da-capes-em-2023<\/a> (consultado em 30\/01\/2025)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote21anc\">xxi<\/a> Cf. do Canto, F. L. e cols. (2024). Taxas de processamento em artigos brasileiros.\u00a0<em>Ci\u00eancia da Informa\u00e7\u00e3o<\/em>,\u00a0<em>53<\/em>(3). <a href=\"https:\/\/revista.ibict.br\/ciinf\/article\/view\/7212\/6925\">https:\/\/revista.ibict.br\/ciinf\/article\/view\/7212\/6925<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote22anc\">xxii<\/a> <a href=\"https:\/\/www.unesco.org\/pt\/fieldoffice\/brasilia\/expertise\/open-science-brazil\">https:\/\/www.unesco.org\/pt\/fieldoffice\/brasilia\/expertise\/open-science-brazil<\/a> (consultado em 30\/01\/2025)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote23anc\">xxiii<\/a> Cf. LeBlanc, A. G. e cols. (2023). Scientific sinkhole: estimating the cost of peer review based on survey data with snowball sampling.\u00a0<em>Research Integrity and Peer Review<\/em>,\u00a0<em>8<\/em>(1), 3. https:\/\/doi.org\/10.1186\/s41073-023-00128-2<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote24anc\">xxiv<\/a> <a href=\"https:\/\/www.ziprecruiter.com\/\">https:\/\/www.ziprecruiter.com\/<\/a> (consultado em 30\/01\/2025).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote25anc\">xxv<\/a> <a href=\"https:\/\/101innovations.wordpress.com\/outcomes\/\">https:\/\/101innovations.wordpress.com\/outcomes\/<\/a> (consultado em 30\/01\/2025).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote26anc\">xxvi<\/a> Cf. Abramo, G. e cols. (2023). Correlating article citedness and journal impact: an empirical investigation by field on a large-scale dataset.\u00a0<em>Scientometrics<\/em>,\u00a0<em>128<\/em>(3), 1877-1894. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1007\/s11192-022-04622-0\">https:\/\/doi.org\/10.1007\/s11192-022-04622-0<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote27anc\">xxvii<\/a> de la B\u00e9otie, \u00c9. (1922).\u00a0<em>Discours de la servitude volontaire<\/em>\u00a0(No. 30). Editora Bessard.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote28anc\">xxviii<\/a> Cf. Van Noorden, R. (2023). More than 10,000 research papers were retracted in 2023 \u2014 a new record. <em>Nature<\/em>, <em>624<\/em>(7992), 479-481. https:\/\/doi.org\/10.1038\/d41586-023-03974-8<em>.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote29anc\">xxix<\/a> Cf. Sarfi, M. e cols. (2021). Google\u2019s University? An exploration of academic influence on the tech giant\u2019s propaganda.\u00a0<em>Journal of Cyberspace Studies<\/em>,\u00a0<em>5<\/em>(2), 181-202 &lt;<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.22059\/jcss.2021.93901\">https:\/\/doi.org\/10.22059\/jcss.2021.93901<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote30anc\">xxx<\/a> <a href=\"https:\/\/sfdora.org\/read\/read-the-declaration-portugues-brasileiro\/\">https:\/\/sfdora.org\/read\/read-the-declaration-portugues-brasileiro\/<\/a> (consultado em 30\/01\/2025)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote31anc\">xxxi<\/a> <a href=\"https:\/\/finance.yahoo.com\/news\/relx-expands-globally-cloud-hosting-130600180.html?guccounter=1\">https:\/\/finance.yahoo.com\/news\/relx-expands-globally-cloud-hosting-130600180.html?guccounter=1<\/a> (consultado em 30\/01\/2025).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote32anc\">xxxii<\/a> Cf. Parra, H. e cols. (2018). Infraestruturas, economia e pol\u00edtica informacional: o caso do Google Suite for Education.\u00a0<em>Media\u00e7\u00f5es-Revista de Ci\u00eancias Sociais<\/em>, 63-99. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.5433\/2176-6665.2018v23n1p63\">https:\/\/doi.org\/10.5433\/2176-6665.2018v23n1p63<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote33anc\">xxxiii<\/a> Cf. Fran\u00e7a, T. F., &amp; Monserrat, J. M. (2024). The artificial intelligence revolution\u2026 in unethical publishing: Will AI worsen our dysfunctional publishing system?.\u00a0<em>Journal of General Physiology<\/em>,\u00a0<em>156<\/em>(11). <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1085\/jgp.202413654\">https:\/\/doi.org\/10.1085\/jgp.202413654<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote34anc\">xxxiv<\/a> Cf. Sun, Y. e cols (2024). AI hallucination: towards a comprehensive classification of distorted information in artificial intelligence-generated content.\u00a0<em>Humanities and Social Sciences Communications<\/em>,\u00a0<em>11<\/em>(1), 1-14. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1057\/s41599-024-03811-x\">https:\/\/doi.org\/10.1057\/s41599-024-03811-x<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote35anc\">xxxv<\/a> Cf. Bharti, P. K. e cols. (2024). PEERRec: An AI-based approach to automatically generate recommendations and predict decisions in peer review.\u00a0<em>International Journal on Digital Libraries<\/em>,\u00a0<em>25<\/em>(1), 55-72. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1007\/s00799-023-00375-0\">https:\/\/doi.org\/10.1007\/s00799-023-00375-0<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote36anc\">xxxvi<\/a> Cf. Wla, D. S. (2024) \u201cCan novelty scores on papers shift the power dynamics in scientific publishing?\u201d.\u00a0<em>Nature<\/em>. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1038\/d41586-024-04021-w\"><em>https:\/\/doi.org\/10.1038\/d41586-024-04021-w<\/em><\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote37anc\">xxxvii<\/a> <a href=\"https:\/\/openeconomics.zbw.eu\/en\/knowledgebase\/open-policy-finder\/\">https:\/\/openeconomics.zbw.eu\/en\/knowledgebase\/open-policy-finder\/<\/a> (consultado em 30\/01\/2025)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote38anc\">xxxviii<\/a> Cf. Barnett, J. M. (2024). The Big Steal: Ideology, Interest, and the Undoing of Intellectual Property. Oxford University Press.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote39anc\">xxxix<\/a> Kozlov, M. (2025) \u2018High anxiety moment\u2019: Biden\u2019s NIH chief talks Trump 2.0 and the future of US science.\u00a0<em>Nature<\/em>. <em>doi: <\/em><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1038\/d41586-025-00238-5\"><em>https:\/\/doi.org\/10.1038\/d41586-025-00238-5<\/em><\/a><a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-025-00238-5\">https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-025-00238-5<\/a>)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/#sdendnote40anc\">xl<\/a> Cf. Mervis, J. (2024). \u201cTrump names OSTP director as part of White House tech team\u201d. Science <a href=\"https:\/\/www.science.org\/content\/article\/trump-names-ostp-director-part-white-house-tech-team\">https:\/\/www.science.org\/content\/article\/trump-names-ostp-director-part-white-house-tech-team<\/a> (consultado em 30\/01\/2025).<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/assim-chegamos-ao-feudalismo-cientificodigital\/\">Assim surge o Feudalismo Cient\u00edfico-digital<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/bancada-do-pcdob-diz-a-paulinho-da-forca-que-e-contra-pl-da-dosimetria\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Lideres-sequestro-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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